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A minha tia costumava viver em Paris

Domingo, 26.02.17

 

I remember, she used to come home and tell us

Stories about being abroad and

I remember that she told us she jumped in the river once
Barefoot

She smiled
Leapt, without looking
And tumbled into the Seine
The water was freezing
She spent a month sneezing
But said she would do it again

Here's to the ones
Who dream
Foolish, as they may seem
Here's to the hearts
That ache
Here's to the mess
We make

She captured a feeling
Sky with no ceiling
Sunset inside a frame
She lived in her liquor
And died with a flicker
I'll always remember the flame

Here's to the ones
Who dream
Foolish, as they may seem
Here's to the hearts
That ache
Here's to the mess
We make

She told me
A bit of madness is key
To give us new colors to see
Who knows where it will lead us?

And that's why they need us
So bring on the rebels
The ripples from pebbles
The painters, and poets, and plays

And here's to the fools
Who dream
Crazy, as they may seem
Here's to the hearts that break
Here's to the mess we make

I trace it all back
To then
Her, and the snow, and the Seine
Smiling through it
She said
She'd do it, again"

 

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publicado por Fátima Pinheiro às 08:59

Um ateu credenciado

Domingo, 19.02.17

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imagem tirada da net

 

Eu não tenho fé que a minha camisa é branca, tenho a certeza, tenho a certeza que a minha camisa é branca,  afirmou Ricardo Araújo Pereira à Rádio Renascença., apontando para a camisa.

Esta entrevista foi seguida na mesma linha do seu discurso no evento FAITH'S NIGHT OUT, ontem,numa espécie de “Ted Talks” sobre a fé, que juntou cerca de 1470 pessoas no Centro de Congressos de Lisboa. TED? Agora é tudo em "estrangeiro"...
 
Somos muito mais parecidos do que parece", crentes e não-crentes, afirmou. Olhe que não, olhe que não! Estou ao nível do discurso filosófico. A fé é acreditar sem ver. Pode provar-me que há coisas que só por não se verem não existem? Há "ver" e "ver." Eu clarifico. Quando você olha nos olhos de alguém, vê o olhar, ou só os olhos? Não vou incomodá-lo mais. Tive mesmo para ficar calada. Mas a conversa é como as cerejas. Eu também estudo filosofia, faz mais comichão calar-me. 
 
Fez questão de dizer que era "um ateu especial", uma espécie de não-crente "credenciado" (esta palavra é minha), ou seja que teve uma educação sempre em escolas católicas, a culminar na Universidade Católica Portuguesa. Que é um um homem que tem altas expectativas, que precisa de consolo, neste mundo que por vezes é abismo. Neste aspecto sim, somos mesmos iguais. Que viu e vê muita gente, crentes, a darem a vida por ideais louváveis. Acontece que as religiões, se têm apenas a função de transmitirem e realizarem valores, não são são necessárias, contrariamente ao que disse, que a religião  tem essa função. Para isso temos a ONU, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 
 
Fez questão de dizer que ainda não viu o "Silêncio". E? Até parece que é um mandamento para crentes e não crentes.
 
“Não se esqueçam que são crentes” e “mantenham a vossa fé.”, disse o humorista. Era o que faltava! Só se o disse como humorista!  Basta-me muito bem o Papa. 
 
Quem é crente não se esquece do essencial da sua fé: Cristo. O cristianismo não é uma moral, é uma Pessoa. O Ricardo diz que ainda não viu o filme "Silêncio". E precisa? Mas quer um conselho? No dia em arrecadamos mais um Urso de Ouro, vá ver "Os olhos da Ásia", do realizador português João Mário Grilo, realizado há 20 anos, filme baseado no mesmo livro que inspirou Scorcese. Ou então o La La Land. que é um filme fabuloso.
 
No "ponha aqui o seu pezinho" - fumié, fossa e oceano a afogar lentamente - é que a  porca torce o rabo. Falo por mim. Foge! O que me salva é que a Igreja, com a plena consciência e sabedoria do seu CEO, é feita de pessoas como eu. E é através delas - e não apesar delas- que tem uma História da qual também se pode orgulhar. Ignoro o que terá sido o seu percurso educativo, mas não nasci hoje.
 
Como disse ontem no Púbilco Miguel Esteves Cardoso, agora aplicado a si: Ricardo, você é não crente, "que bom para ti" (good for you). Mas eu não sou inglesa, sou como a Cuca Roseta.

  

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publicado por Fátima Pinheiro às 11:05

Quem Escreve as suas Memórias ?

Sábado, 18.02.17

 

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imagem tirada da net

Não estou a pensar agora em mim. Falo sim em Memórias para a História com letra Grande. Eu sei que cada dia tem o seu afã, e que "não deixes para amanhã o que podes fazer hoje". Mas a verdade é que também não confundo agitação com movimento. Anda por aí muita barata tonta. Para ser clara: a Madre Teresa de Calcutá, por exemplo, cortava em frente, não escreveu as suas Memórias. 

Interessa sim construir a História. Escrever? A ela, a Irmã dos mais pobres dos pobres, que os acolhia em Sua casa, sobrou-lhe contudo tempo para escrever, preto no branco, o que pensava da política, dos homens, enfim, da vida. Ou seja, escreveu mesmo, sim, as suas Memórias. Mas em vários livros. Uns mais místicos, outros sobre as suas obras. Uma panóplia maravilhosa a explorar. Mas escreveu-as não por serem as memórias dela, mas as Nossas. Escreveu para nos lembrar do essencial. Obrigada e obrigada a quem escreve para me lembrar do essencial. E por certo, o essencial não se chama agitação, nem fogo de artefácios. Tem um nome, simples, mas marcante. Sabem qual é, não sabem?

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publicado por Fátima Pinheiro às 10:43

Centeno e Centino

Quinta-feira, 16.02.17

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imagem tirada da net

 

Estes dias têm sido atribulados. Muitas coisas a rebentar pelas costuras. Muitos valores e seu contrário. Um certo sem tino. Lembrei-me do Pino e Lino e do Lino e Pino.

Hoje é mesmo só para uns desabafos. Hoje é quinta-feira e outro dia. E já li o que diz a Lusa. Gosto dos nomes das coisas, que eles têm significado, dignidade. Rasantes. Conselheiros de Estado, Presidentes da República, Cavaco, Marcelo. Comissões Parlamentares. Centeno.

Cavaco esteve muito tempo calado e hoje - tenho ouvido desde ontem linhas do livro que é hoje lançado no CCB,"Quinta-feira e outros dias" - falou. E vai ficar.

Há horas para tudo. Como diz um dos livros da Bíblia de que gosto mais, o Eclesiastes 3 (1-9): 

"1 Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

2 Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

3 Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

4 Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

5 Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;

6 Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;

7 Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

8 Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

9 Que proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha?"

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publicado por Fátima Pinheiro às 12:59

Um filme para quem tem coração

Sexta-feira, 10.02.17

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 imagem tirada da net

 

Pensei que "La La Land" seria mais uma hollywoodice cara, e que seria um musical. Mas não. É um filme fabuloso (não quer isto dizer que os musicais não são filmes). É um filme "para quem tem coração", canta "Emma Stone" numa cena do filme, repetindo, e repetindo. E claro que vê-lo é "ver" filmes obrigatórios como refere a  Magazine.HD. É também obrigatório no sentido em que, refere a mesma revista, ao ver La La Land se podem rever esses mesmos musicais. A revista remete mesmo para um video comparativo dos musicais que inspiraram o filme de que falamos.

O filme não é um musical porque, sobretudo na segunda parte, que dá mais "cor", densidade, à primeira, e, tal como o jazz, inclui os movimentos da primeira, e agora mais interiores, escondidos, fracturados. É da vida que se trata. São "falas". Sem pautas. Momento a momento, ao improviso da liberdade "treinada" a ser isso mesmo, treinada. Treinada na virtude de saber responder às investidas do que acontece.  O filme é muito mais que um musical porque se recria, citando-se, passado, presente e futuro, sem qualquer tipo de evasão.  As cenas das danças por entre as estrelas, são sim um mergulho num universo onde, por ser universo, nada falta. Nem o sonho, assim batizado de sonho real, humano. Daí o interesse que tem provocado o filme: quem, no fundo, não quer ser amado (city of starts, just what everybody wants)? Leia-se/oiça-se cada palavrinha da bela e original banda sonora do filme. Nada por acaso e esta um must.

O filme aposta na natureza humana, que grita por beleza, sonha, e não ignora, antes pelo contrário, mostra a dramaticidade da vida. E mostra a sua, por vezes, muitas vezes, crueza, injustiça. A ideia-chave que o filme mostra: o amor é possível e impossível. Quem pode negar que o amor aconteceu entre aqueles dois? É verdade, não é só sonho. Mesmo quando tudo parece acabar entre os dois.

Los Angeles e Paris, como nunca ninguém mostrou. Numa montagem que está nos antípodas de surrealismo, e também da magia de Godard, apegado a outra câmara e outros interesses e mestre na(s) história(s) do cinema. Refiro-me à originalidade da sequência do "teria sido" se tivesse sido diferente aquele encontão inicial em que se cruzam. Aqui o "master" em musicais explica muito.

Los Angeles é a cidade onde "Ryan Gosling", um genial mas incógnito pianista de jazz, e "Emma Stone", uma aspirante a atriz, se cruzam e entre eles acontece algo maior que eles, entre os dois. Cada um encoraja o outro no seu sonho, a seguir com o seu coração aquilo que o pode encher. Ambos o realizam, em Paris. Mesmo que pareça o contrário, ela está agora casada com outro e já com um filho. Também não sabemos onde é que Gosling "mora"...

Contudo a cena final fala por si (é preciso vê-la com os próprios olhos). Sem uma palavra. Como? Está na cara. E sempre me disseram que quando o final de um filme não é feliz, é porque ainda não é o final do filme. Está agora tudo nas minhas mãos. É um filme para quem tem coração, isto é para quem decide, vive em tensão e abraça a vida, sem condições. Tudo isto numa plástica fílmica original, inebriante, que surpreende, arrebata, e confima que o cinema é mesmo uma arte para hoje, para quem tem coração. Talvez ela não tenha sabido esperar por ele. O amor, impossível, só é possível nesta abertura ao transcendente, de esperar no que não está, no acreditar no que não se vê, na alegria de um amor que mais dá do que recebe. Sem estas três, não há asas de jeito para voar na city of stars.

 

 

 

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publicado por Fátima Pinheiro às 11:07

Uma Palavra que me sabe dizer.

Quinta-feira, 09.02.17

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 fotografia Rasante

 

Santiago levava-me muitas vezes à praia. É uma criança muito curiosa. Quer resposta a tudo. E quando digo alguma palavra que ele não percebe, pergunta sempre: "O que é que isso significa?" Não é ficção o que digo. Ambos existimos mesmo, como se vê numa das fotografias que dele guardo, e que pus em cima. Pois este furacão clarifica-me na pergunta: "mas a vida tem lei?" Puro e duro. "Tem sim." "Já te digo". "Qual é?", insiste a beleza inquieta de dois olhos que fixam o movimento das águas. Vamos a isso. Uma espécie de amar e mar. Um Django libertado à minha maneira.

As palavras, os termos, os conceitos são apenas sons articulados, vazios, se os forjamos e utilizamos sem nos apercebermos que cada um tem dentro de si como que uma seta que aponta, mais ou menos vagamente, para um sentido. O que digo percebe-se melhor em frente ao mar, ao fogo, ou no alto de uma montanha. Mas nem sempre assim elas, as palavras, são entendidas. Há quem as mate antes de nós as ressuscitarmos com o nosso dizer; há quem lhes encolha o sentido; há quem que lhes corte a raíz antes de nascerem. Enfim, há de tudo. E há Austin, que no seu "How do to things with words?", nos cava a reflexão, o que nos levaria a um post sobre "actos ilocucionários". Mas o tempo não chega para tudo, e isso dar-me-ia muito trabalho.  Deixo apenas uma nota sobre como compreendo a vida. Sem grandes filosofias. Coisinha pouca...

As palavras podem dizer tudo, ou nada. Quem as leva a sério empenha-se em abri-las como se fossem um presente. Contudo, nem sempre assim é. E muitas vezes apenas porque não quero ou não sei desembrulhar. O trabalho do pensamento sobre si mesmo exige tempo e disposição...

E as respostas que o Santigo quer estão, de certo modo, nele. Só que ele ainda não sabe. Ele sabe, sim, se o que lhe respondo lhe chega; se lhe enche as medidas. Um dia de verão ele olhou demoradamente o mar, como se quisesse galgá-lo para além da linha do horizonte. Lembrou-me aquele célebre menino que um dia resolveu encher o seu balde com ele. Não conseguia, claro. Pazadas e pazadas, e não conseguia.

A lei da vida? Nascemos, estamos aqui. Um dia morremos, não sabemos nem quando, nem onde. Há os que neste intermezzo resolvem sair "antes", cortando o que não aguentam. Somos aquele "nível" da natureza que tem consciência disto tudo, e da própria natureza claro. Observamos (às vezes não...), perguntamos, desistimos ou continuamos. E agora o ponto: tudo flui com as suas regularidades. "Os rios correm para o mar"; nunca ouvi um rio dizer, "hoje não". Ou uma árvore: "hoje não dou sombra". É a lei da natureza. Eu sim posso mudar o curso do rio, ou cortar a árvore. E eu? Como encaro o meu "correr"? Como me entendo com o sol e a sombra?

Se quero mesmo saber, e não apenas ser um diletante, tenho que me observar em ação. Páro então. O que vejo no filme da minha vida? Muitas vezes sou apenas o resultado do que me determina, do que vem de trás, e "faço" mecanicamente a um ritmo para o qual não fui tida nem achada; outras "faço" as coisas tendo presente a big picture. É então (como já aqui disse a propósio de T. S. Eliot) que o tempo - este momento - se racha e experimento a "dependência" de um X que eu não sei, não cabe no balde, mas sem o qual, o tempo seria uma voraz onda de morte; um entretem de nadas para o nada. Experimento então que o todo é expressão de uma Palavra diferente de todas as outras.

Nada disto digo ao Santiago. A ele respondo à pergunta que já lá está longe em cima: "É Deus". "Quem é?"; uf, não para. Eu: "Deus é quem estás a fazer o mar." Ponho-me ao nível dele, de cócoras, ignoro a sinalização que se encontra à sua direita, e esforço-me para que ele me oiça. Esforço-me sim; porque não lhe interessa muito o que digo, mas sim o que ele vê diante de si. E está certo, sou só amiga dele, mas impotente - como qualquer um de nós - para responder a tão grande pergunta. A resposta. "Olha bem Santigo, tás a ver as ondas...", ele já não me está a ouvir. E começa a correr... Que bom!. A resposta vejo-a agora eu, no silêncio e espanto dos olhos dele. A lei da vida tem para mim desde então mais um nome: Santiago. Uma Palavra que me sabe dizer. Todinha. Sem tirar nem por.

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publicado por Fátima Pinheiro às 11:54

Os olhos da ásia

Quarta-feira, 08.02.17

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imagem tirada da net

 

O filme de João Mário Grilo, "Os olhos da Ásia", também baseado no livro de Shusaku Endo que inspirou Scorcese, "Silêncio", foi feito há 20 anos. Só o vi há dias (o Nimas está sempre de parabéns; e com o filme trouxe - para uma conversa no fim do visionamento - o próprio realizador e o Pe Tolentino Mendonça).

O que silenciou João Mário Grilo? O filme por ele realizado, já o referi,  tem 20 anos. Claro que já era conhecido pelos entendidos . Mas o comum dos mortais, moi-même,  ficaria na ignorância, não fosse o Cinema Nimas tê-lo  passado ontem à noite a propósito do "silêncio" de Scorcese. Thanks Martin.

O que silenciou João Mário Grilo? Nada. Mostra tudo. Vinte anos não é nada. Sem ser "trop clair", mostra, como nada mostram as mensagens que Scorcese quer passar. Detrás de um trabalho há sempre uma motivação (conheço as dos dois: ir ao youtube; e ter ido ao Nimas; quer dizer ouvi-as no que eles disseram). Mas o resultado é exterior. Tenho à volta de metro e meio e mesmo assim digo que o "filme" de Scorcesse é ideológico, político, numa palavra, gosto sim do "Táxi Driver". E no "Silêncio" esmera na fotografia, na qual é genial.

O "filme" é ideológico porque numa  auto-provocação à sua medida, e à medida do autor do livro, falam a voz de Deus ao dizer "Pisa-Me". Deus é transcendente ( palavra de que João Mário Grilo não se esqueçeu ao referir a cena do baptismo, nos "Olhos da Ásia", na conversa no Nimas; palavra que ainda não tinha ouvido em todo este correr de linha em torno do filme de Scorcese, todo ele muito a escorregar para uma linha protestante, intimista, imanentista). Só Deus pode dizer essas palavras (e  todo o filme parte deste não-pressuposto). Não me venham dizer que isto é fição; há fições e interpretações que são um abuso de direito. Sobretudo em filmes, ou livros,  onde a realidade "real" pode ser deturpada (não me obriguem a falar outra vez de José Rodrigues dos Santos, o que aqui fiz muitas vezes; e diga-se que nem comparo Santos a Scorcese, é só por causas das vendas milionárias de ambos). 

O "filme" é político porque todo o mundo o interpreta, o usa, e mais não sei o quê. A seu favor terá a "sorte" de não ter sido o filme do ano. Hollywood decide. O que faz o dinheiro, também sei.

Um filme com mensagens não é um filme. Um filme "limita-se" a mostrar. A "ser" vida. Estou farta de consciências tranquilas, a começar pela minha. Mais vale dizer: Senhor Scorcese, ponha aqui o seu pezinho (no fumié); o senhor estava interessado em fazer um filme sobre o martírio, e vai complicar com apostasias ! Não haveria um caminho melhor? Veja as regras do método cartesiano. O senhor que conhece bem o jesuitismo sabe do que falo. Vá do mais simples para o mais complexo; e aí sim, a apostasia. E não sabia quem era Pedro!?? E que ele é a rocha? Sabe que é muito mais fácil olhar e decidir por aquilo que é mesmo maior que nós. Ao lado do Amor que Deus nos tem, e que tudo abraça sem ver limites culturais, o que é o meu tremer? Voltar à Casa do Pai,  onde há muitas moradas. Ao lado do Amor que Deus, que abraça qualquer um, europeu, asiático, africano, o que é o meu tremer? Ou ando a brincar?

"Os olhos da Ásia" mostram. Deixam-me de batata quente - fumié - na mão. Nem João Mário Grilo tem a noção completa do que fez. Sim, porque o filme agora é também da liberdade de quem o vê, com outros olhos, esses sim, de Deus, que é "mesmo" transcendente.

 

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publicado por Fátima Pinheiro às 11:11

Eutanásia: desejada ou desejante?

Quarta-feira, 01.02.17

 

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Hoje analisa-se no Parlamento a Petição a favor da Eutanásia. O deputado do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, abriu anteontem o Programa prós e contras, precisamente sobre a Eutanásia. É o autor dessa petição, como o nome mais light de "Despenalização da morte medicamente assistida". Desta vez foi muito claro quem é pró e quem é contra (parabéns Fátima Campos Ferreira). A questão, apesar de muito complexa, é simples, como se pode verificar logo nessa intervenção inicial. Tudo o que a seguir se disse seria até escusado. Não querendo brincar com uma coisa muito séria, até parece que há uma espécie de alzeihmer filosófico.

Sabemos que é fácil navegar na maionese holandesa, e nos chamados direitos já aquiridos, e sabemos também que Kant é o guru de muitos; os gurus têm crescido como cogumelos, e tal como eles, é preciso ter cuidado, não vão ser eles venenosos. Os números postos na mesa ontem divergiam. Mas o que escrevo vem antes, ou melhor, está noutro patamar.

Com uma calma que lhe vem de defender o que acha ser óbvio o deputado começa a desenrolar o seu discurso. Muito simples: lembra que cada um dos presentes - a Fátima Campos Ferreira, por exemplo, é que decide o que faz. Não sei dizer à letra, mas era uma coisa do género: sou eu que decido com quem quero casar, sou eu que decido de que música gosto, sou eu que decido o que visto, sou eu que decido que filme vou ver,...lá,lá,lá,....sou eu que decido que vou morrer. Sou eu que decido tudo. Mesmo que se seja entregar nas mas mãos do médico a encomenda, sou eu que decido. Claro como a água, eu sou uma terra de decisões. Falta perguntar-lhe: senhor deputado, terá sido também o senhor que decidiu vir à vida?

Pode parecer simplista, mas passar por cima deste "pequeno" pormenor, que é "ao dar por mim já cá estou", é desonesto inteletualmente. Ninguém está aqui para ser do contra, para ser contra a pessoa, para prolongar sofrimentos que parecem monstruosos. Trata-se de realismo. Nenhum de nós tens as chaves da vida, a morte é sempre assistida, e medicamente assistida, e não tem dignidade. A vida sim, é digna, por isso tem mais razão quem quer "proporcionar" vida, mais e melhor se possível. Quem propociona os paliativos adequados (aqui bastaria menos estádios de futebol e mais cuidados de uma humana assistência médica; e eu que sou uma benfiquista ferranha, mas sei que a vida vale mais que o futebol - até parece ridículo ter que dizer isto; mas o futebol é só um exemplo...). Tem mais razão quem tem para oferecer ao outro mais do que abrir-lhe uma porta antes de tempo.

Há muitas janelas que se podem abrir para que o outro não se sinta um peso. É muito fácil sentir-se pesado, saber que dá trabalho, e dá. E se nós quisermos ter trabalho? Quem me impede de amar o outro custe o que custar? Falinhas mansas, não obrigada. 

Mais de 14 mil pessoas assinaram no entanto outra  petição , intitulada "Toda a vida tem dignidade", contra a eutanásia, que foi entregue a passada quarta-feira no Parlamento. 

 

 

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publicado por Fátima Pinheiro às 11:23

Donald Trump é um "pobre de espírito"?

Segunda-feira, 30.01.17

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imagem tirada da net

 

Sempre que se fala de um "pobre de espírito" há uma grande confusão. Tanto é "pobre de espírito" o maluquinho da aldeia como a Madre Teresa de Calcutá. Em que ficamos? E vem isto a propósito de quê? Porque ontem em todas as missas do mundo se ouviu o Evangelho das Bem-Aventuranças. E porque o novo inquilino da Casa Branca, como diz um vizinho meu, "é tudo gente doida".

Por formação profissional, a filosofia, interesso-me por fazer as distinções essenciais (no entendimento de Aristóteles e Sokolovski, entre outros). Não me venham falar de "pobre de espírito" se não se sabe o que afinal isso significa.

A "pobre de espiríto" associa-se alguém que não tem os pés assentes na terra, um coitado, fraco, resssentido (no sentido nietzscheano), doido, panhonhas, um marginalizado, vá lá. Li ontem uma notícia sobre Trump, de um médico que, violando o sigilo profissional, o dá como doente, salvo erro, com um narcisismo maligno e abunda no tema para dizer que é mesmo uma doença que o incapacita de exercer um cargo político.

Por outro lado, o termo pertence ao cristianismo. “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” ( Mateus 5:3). "Pobre de espírito" é a pessoa que sabe o que vale; que sabe o que são os valores. Ou seja, é a pessoa que sabe que vale, quais os seus limites, e que por isso necessita de ir constantemente à fonte deles, Deus. Como quem bebe o que mata a sede. "Pobre de espírito" é aquele que, no pouco ou no muito que tem, sabe que "Só Deus sacia". (São Tomás de Aquino, In Symbolum Apostolarum scilicet «Credo in Deum», expositio, c.15: Opera omnia, v. 27).

Ainda há quem diga que Trump tem alguns valores. Não vejo quais. O único valor para ele ele é ele. O que vendo a fundo, está bem. Deus entrega-se por cada um de nós. Por mim, por Trump, por cada um de nós. Cada um de nós foi criado à Sua imagem e semelhança. Só que nalguns de nós a imagem está como que enterrada (as razões disso são para outro post).

Mais uma vez Chesterton tem razão: "o erro é uma verdade enlouquecida". E sei que se Trump, se lê-se isto diria: "é uma pobre de espírito".

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publicado por Fátima Pinheiro às 17:26

O índio e o cowboy

Quinta-feira, 26.01.17

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uns anos mais tarde 

 

O Presidente do México, ouvi agora na rádio,  não acredita em muros. Eu também não, os muros vêem-se bem, não precisamos de acreditar neles. Mas não era isso que que ele queria dizer. O que ele queria dizer é que os muros matam. Ainda a ouvir a rádio, alguém dizia que o muro é "desumano e ridículo". Não quero simplificar o tema, e dizer "mas o muro começa dentro de cada um". Mas é que é verdade! Só que há um problema:  quem é que começa a partir o muro? Lembro-me das minhas primeiras guerras...

Eram de dois tipos. As guerras com o meu  irmão, mais velho que eu quatro anos. Ele é que decidia. Era sempre o cowboy. E eu caia sempre, com ele a correr atrás de mim. Ele é que era! Nove anos mais tarde acabei por fazer o mesmo com a minha irmã, só que agora era eu a ganhar. Hoje sabe Deus quem de nós os três é o quê. Tenho uma ideia...

As outras guerras eram de mim comigo. Lembro- me como se fosse hoje. Começava a chorar por qualquer razão que agora não me lembro e não conseguia calar-me. Então dizia (lembro-me como se fosse há minutos, da casa, da minha mãe, do quarto...) : "eu quero calar-me e não posso, eu quero calar-me e não posso...". Repetia esta frase, vezes sem fim. Chorava no meio, até que acabava por me silenciar, contrariada, aos soluços, cada vez mais espaçados. 

Trump tem sido alvo dos noticiários. E até parece que é em júbilo que verificam o estrito e rigoroso cumprimento das promessas eleitoriais da parte do novo dono da Casa Branca,  e dono, pensa ele, de mais, muito mais. Não diz ele que acima de tudo os EUA? Sempre ouvi dizer que o feitiço se vira contra o feiticeiro. 

 

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publicado por Fátima Pinheiro às 13:29






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