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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


imagem do Ferrari 246 de Gurney e Phil Hill, tirada da net, Cristo Rei ao fundo

A Praça do Império é agora cavalo de batalha. Já apareceram as virgens ofendidas e os homens da tábua rasa. É um caso que mostra a ausência de Política Cultural neste país. Que não vem de hoje e que se prende a uma questão: O que fazer da memória de um Povo? Se calhar não há é Povo. E a ser verdade este vídeo (https://www.facebook.com/video.php?v=320537311453708&set=vb.100004923247384&type=2&theater) dá-me vontade de pedir a Joana Vasconcelos que faça uma chouriça às rodelas que agrade à alemã. Mas isto é sério. Quem se satisfaz com shots culturais avulsos e a prestações, ao gosto dos governos que se sucedem, como acontece em democracia? Há quem mande na democracia, há pois há.

As urgências são todas urgentes. As de Santa Maria ainda mais. Mas há uma urgência esquecida, a cultural. E será por isso, também, que chegamos a este ponto de deriva, como se diz agora. O mesmo é perguntar: o que fazer ao Henriques de Guimarães? Os russos e os iraquianos foram pragmáticos, e ao menos mostraram as razões porque deitaram abaixo o que deitaram. Precisamos nós de razões, também.

Trata-se de abrilhantar a zona "del rio"? Torná-la útil? Imagem? Turismo? Paixão e enamoramento? Pode ser tudo isso. Pode ser uma Rotunda – neste caso peripatética -, um CR7 de mão dada ou com o pé na bola, o Museu do Brinquedo (60.000 mil objectos que “encerram” hoje em Sintra por falta de verba na Horta; parece que a Câmara de Lisboa até já mostrou interesse…).
Fim dos brasões alusivos às ex-colónias está a alimentar uma grande polémica RUI GAUDÊNCIO

O que sugiro? Talvez um Túnel de Grande Metragem que nos leve à outra margem. O realizador de grandes metragens, tem a estreia de uma curta, “O Velho do Restelo”, em Veneza na próxima terça-feira. Quem sabe se não estará lá uma boa sugestão. Ele que diz que o Presente tem uma "fábrica" que é o Passado, tem na vida o olhar "todo" no que acontece. E em tudo o que acontece. Só me vem à cabeça o nome de alguém que não tem medo de mostrar o que é. Alguém que é experiente em túneis. E já agora, experiente em longas e curtas metragens. Esse mesmo.

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29
Ago14
fotografia da net

A Platão e Aristóteles regresso, para não ir mais longe e para partir do sistemático. Duas visões do que é o "político". Passo ainda por Camus, pelo seu fabuloso discurso de aceitação do Nobel da Literatura, no qual cada frase é uma bomba, uma mão cheia de humanidade. Plena de "essenciais". É bom ler, reler e "usar". Aqui: http://youtu.be/M5QD-32MCv4. Camus aqui, para uma boa politíca? Sim, porque como ele reconhece, o verdadeiro artista não se põe acima dos outros homens, mas, com a sua geração, luta por uma comunidade vivente onde viver e morrer sejam dignos. Reconciliando trabalho e cultura, a arte tem a dupla e nobre tarefa, um duplo compromisso difícil de manter: a recusa de mentir acerca daquilo que se sabe; e a resistência à opressão.Também a arte está ao seviço da verdade e da liberdade, e o artista é um justo e um apaixonado pela justiça.

A nossa geração, continua o nobel, recusa o niilismo reinante, mas não vai conseguir refazer o mundo. Tem contudo uma tarefa ainda maior. Herdeira de uma civilização morta, vivendo um instante mortal (aqui Camus refere a 1ª e a 2ªguerra mundiais; as revoluções impotentes, as técnicas tornadas loucas; os ideais mortos; as ideologias exaustas; os poderes mediocres que tudo podem destruir, mas já não sabem convencer; a inteligência que se reduz a servir a opressão...), a nossa geração tem a vocação, não de ser optimista, mas sim a vocação de impedir que o mundo se disfaça.

Sim, não é Steiner - por muito que diga verdades - que, homologando Adorno, me vem decretar que a arte virou tetraplégica. Nem é a urgência que pode fazer da política um affair de Mercearia. Artistas e políticos são homens iguais aos outros. Neste ponto Camus, mais uma vez, não cessa de reconhecer os seus e os meus limites. Mas a vocação é a palavra chave. Caimos? Levantamo-nos.

A modernidade no seu Lado B possibilitou um solipsismo que insiste em impedir o Lado A da Política. Que nos dias de hoje - e salvo raras excepções - a Política seja o que se experimenta ("estão mexendo no meu bolso") não é de hoje. Mais do mesmo. Mas como me disse um sábio amigo no dia 23 de Abril do anos passado; "é preciso acreditar". Foi na Foz, e nunca mais me esqueci.

Com efeito como se pode trabalhar para o "bem comum", se por "bem" se entende já não nada em que se "acorde"? Somos tantos, e cada um com a sua postura! Conquista revolucionária que bem caro temos vindo a pagar. O relativismo - todas as concepções têm igual valor - tem vindo a ganhar terreno. Tudo se afirma pela diferença, tudo tem igual "valor". Longe os tempos dos valores universais que apenas cabem no paradigma actual em que vivemos como cabides sem vestuário. Ou ossos sem carne. Todos defendem igualdade, liberdade, fraternidade, amor, justiça, paz, beleza, justiça, e a dignidade da pessoa humana. E o que se entende por tudo isto? As coisas mais diversas. Uma taça, mas uma taça vazia. É o bem comum que acabamos por ir tendo. Um desejo vazio, uma intenção de construção, uma saudade de ideais. Não há "comum" para além deste. Se houvesse como tudo seria diferente! Restam-nos os bolsos onde pomos o que queremos ou podemos. O que fazer?

Falta Filosofia. Falta uma reflexão que vá ao mundo inteligível da "República", ou às primeiras causas e princípios da Metafísica do Estagirita. Platão e Aristóteles. Mais os incontornáveis da Filosofia Política. Porquê? Porque sem reflexão não há acção digna do homem. Já nos esquecemos que o homem é um animal político? E que o homem só é humano se o "seu" animal não for um "lobo", mas antes um "convivente" fraterno e solidário. Mas as urgências costumam abafar ócios. Ficamos apenas com uma sociedade ou mundo de negócios, capazes das maiores monstruosidades. Assim não vamos longe.

O risco que se corre é o de vivermos em brandos lumes e fogueiras arbitrárias e indiferentes. Sem alma. Apenas de corpos que se agitam sem se saberem mover. Confunde-se vida e vivacidade. "Ganha" o que fala melhor, ou o que tem melhor imagem, mais dinheiro. Não interessa tanto o que se vende mas o "como" se vende.

Interessa sobretudo uma algibeira bem provida. Para me guardar, proteger e iluminar. Já não interesa ser virtuoso. Quase ninguém quer ser virtuoso. "Nem morto!", costuma dizer-se. Sobretudo aqueles para quem os limites são um obstáculo e não uma oportunidade.

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28
Ago14

10 Best of do meu Homem a dias

por Fátima Pinheiro
Camané, fotografia tirada da net

Hoje é dia de Santo Agostinho. Em Junho passado juntei um grupo de amigos para partilhar com eles as minhas leituras das suas “Confissões”, um dos meus livros preferidos. Há mil formas de o “fazer”. Segui a edição crítica, ICM, Lisboa, 2000. Quem quiser pode também ler comigo, aqui. E é dia de Camané. Santo Agostinho escreveu um tratado sobre a Música, e ele, também, "canta de qualquer maneira, e acaba com um sentido!" (Fernando Pessoa/ música de Mário Pacheco/Mariza e Camané http://www.youtube.com/watch?v=9RvTuyhdOsg&feature=share&list=RD9RvTuyhdOsg)


A famosa expressão com que inicia o Livro 1 dos 13 que integram o livro de Agostinho – "tu nos fizeste para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti" – é o horizonte sempre presente ao discurso, sendo, nessa medida, estruturante lógica e ontologicamente. As confissões das "Confissões" são possíveis no reconhecimento de uma medida que excede o homem.
Não obstante esse elemento iluminante, isto é, Deus encontrado na plenitude da sua inteligibilidade e finalidade, é possível reconhecer nas "Confissões" o ponto em que Santo Agostinho encontra eco no perguntar que desconhece ainda a resposta. No espírito de Blondel, também ele procura razões objectivas: um cristianismo que valesse só para mim não é suficientemente atractivo, correspondente, verdadeiro.




10 Best of (só para hoje; cada item dá para livros e livros):

1. “A quem conto tudo isto? Não é a ti, meu Deus, mas é na tua presença que eu conto isto aos da minha espécie, por mais pequena que seja a parte dele que possa deparar com estas minhas letras. E isso para quê? Para que eu, e todo aquele que isto ler, pensemos de quão profundo é preciso clamar a ti.” ("Confissões", p.61);
2. O que se pretende é então explicitar “não quem fui, mas quem já sou e quem ainda sou.” (p.445);
3. “Confessarei, pois, o que sei de mim; confessarei também o que de mim ignoro, porque o que sei de mim sei-o porque tu me iluminaste, e o que de mim ignoro não o sei, enquanto as minhas trevas se não tornarem como o meio-dia na tua presença.” (p.447);
4. “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! E eis que estavas dentro de mim e eu fora, e aí te procurava, e eu, sem beleza, precipitava-me nessas coisas belas que tu fizeste. Tu estavas comigo e eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti aquelas coisas que não seriam, se em ti não fossem. Chamaste, e clamaste, e rompeste a minha surdez; brilhaste, cintilaste, e afastaste a minha cegueira; exalaste o teu perfume, e eu aspirei e suspiro por ti; saboreei-te, e tenho fome e sede; tocaste-me, e abrasei-me no desejo da tua paz.” (pp.491-493);
5. Referindo-se ao passo de liberdade que quer dar reconhece-se como "questão magna” (p.133); e vai adiando, dizendo “vou já” (p.341), num "atraso" que o leva à pergunta: “Porque não já?” (p.367-369);
6. “Tu eras mais interior do que o íntimo de mim mesmo e mais sublime do que o mais sublime de mim mesmo.” (p.101);
7. “Grande é essa força da memória…” (p.457-459);
8. Conhecer não é então outra coisa senão “recolher, pensando, aquilo que a memória, indistinta e desordenadamente, continha, e fazer com que, reparando nelas, as coisas, que estão como que colocadas à disposição na própria memória, onde antes, dispersas e esquecidas, estavam ocultas, ocorram facilmente à atenção já familiar.” (X, p.463);
9. O ponto de chegada da filosofia é então o de mostrar a necessidade do reconhecimento de uma fonte sobrenatural para o conhecimento integral da realidade. A decisão da razão essa já não compete à filosofia mas à liberdade pessoal diante de uma proposta que se vê como necessária: “Toma, lê; toma, lê (…) revesti-vos do Senhor Jesus Cristo [Romanos, XIII, 13]…” (VIII, p.369);
10. “O nosso Deus fez todas as coisas muito boas.” (p.299).

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27
Ago14
Manoel de Oliveira, fotografia da net

Fora eu mosca e escreveria outra coisa. Assim sendo, vou a Veneza em pensamento, recordando o que "vi" no Centro Cultural de Belém em 12.5.2010. O novo filme de Oliveira, "O velho do restelo", tem estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza, que hoje começa. O filme está seguramente implicado nestas palavras. Mas ficamos à espera como referi aqui http://rasante.blogs.sapo.pt/oliveira-em-veneza-estreia-e-segue-22532 . Manoel de Oliveira é cultura portuguesa, é universalidade. Ele não é “apenas” um homem que tem hoje 105 anos, até porque, como ele diz, o que conta não é a duração mas o argumento.

O meu De Oiro Faina Fluvial, num dos seus filmes sobre a História de Portugal afirma, com toda a certeza, pela boca de Luis Miguel Cintra : ”só se conquista o que se dá”.Portanto nada de “regressos”, ao passado, ao futuro, nada de imperialismos, ou “familiares”. O que conta é a Presença. Embora, como o cineasta tenha afirmado em Serralves na estreia do filme “Os Painéis de S.Vicente”, o Presente tenha uma “fábrica”: o Passado. Quem foi ontem à Cinemateca - os encartados - diz que a curta-metragem de 20 minutos abre com as ondas do mar, e que delas emergem momentos de filmes anteriores como «Non, a Vã Glória de Mandar» e o « O Quinto Império". A identidade portuguesa mais uma vez a dar o mote à lucidez que nos invade de um olhar enamorado.

Religião e arte: Palavra de Manoel de Oliveira no encontro de Bento XVI com o mundo da cultura
CCB 12 de Maio 2010

«Antes de mais quero agradecer este muito honroso convite para pronunciar, neste encontro, umas simples e breves palavras. Principiarei por dizer-vos ter pensado que as éticas, se não também mesmo as artes, seriam derivadas das religiões que procuram dar uma explicação da existência do ser humano face à sua inserção concreta no cosmos. Universo e homem, criações dum ser transcendente, colocam-nos problemas inquietantes para cuja solução “o Verbo, que se fez carne” em Cristo, nos trouxe insuperáveis graças divinas.

As Artes desde os primórdios sempre estiveram estreitamente ligadas às religiões e o cristianismo foi pródigo em expressões artísticas depois da passagem de Cristo pela terra e até aos dias de hoje.

Sou um homem do cinema, do cinema que é a sétima das artes, logo a mais recente de todas as expressões artísticas, pois não tem mais que um século, enquanto outras terão milénios. Em dois dos meus filmes, figurava um Anjo. No “Acto da Primavera”, baseado em um auto popular, da família dos chamados Mistérios ainda no século XVI. Este figurava a Paixão de Cristo, projecto que realizei em 1962, e onde a figura de um Anjo fazia parte do próprio contexto religioso desse Auto. No outro filme, “Cristóvão Colombo – O Enigma, realizado já em 2007, o Anjo não constava do contexto da história do livro em que me baseei. No entanto, pareceu-me bem introduzir o Anjo da Guarda, aqui o da nação portuguesa, como prévia configuração do Destino, tantas vezes adverso e tantas outras favorável às acções humanas, como aconteceu nessa feliz viagem do navegador que, pela primeira vez, encontrou as ilhas americanas de Antilhas. Isto levou-me a repensar as figuras dos Anjos fora e dentro das Igrejas, parecendo-me conotadas com prefigurações dos espíritos. Ora se os espíritos são um só, então temos nele a natureza de Deus.

Considerando, porém, a religião e a arte, ambas se me afiguram, ainda que de um modo distinto é certo, intimamente voltadas para o homem e o universo, para a condição humana e a natureza Divina. E nisto não residirá a memória e a saudade do Paraíso perdido, de que nos fala a Bíblia, tesouro inesgotável da nossa cultura europeia? Acossados pelas especulações da razão, sempre se levantam terríveis dúvidas e descrenças, a que se procura opor a fé do Evangelho que remove montanhas. E os seres humanos caminham na esperança, apesar de todos os negativismos. Como diz o padre António Vieira: «Terrível palavra é o “Non”, por qualquer lado que o tomeis é sempre Non…», terminando por lembrar que o “Non” tira a Esperança que é a última coisa que a natureza deixou ao homem.

Se as artes nada mais aspiram a ser que um reflexo das coisas e acções vivas dos procedimentos e sentimentos humanos do universo real ou em fantasias imaginadas, pode aceitar-se o que um realizador mexicano, Artur Ripstein, classificou dum modo magnífico e surpreendente o cinema como sendo o espelho da vida. E é-o de facto.

Não querendo alongar-me mais, aproveito a circunstância para, como pertencente à família cristã, de cujos valores comungo, e que são as raízes da nação portuguesa e a de toda a Europa, quer queiramos ou não, saudar com profunda veneração sua Santidade, o Papa Bento XVI em visita ao nosso País e rogar filialmente que nos deixe a Sua bênção.»

E um «encore», este em Cannes: http://youtu.be/Ayd9r7-1nHE

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"A Biografia do Silêncio", de Pablo d' Ors, é um livro que faz paz parte de uma colecção coordenada pelo Pe José Tolentino Mendonça, intitulada "Poéticas do viver crente", da editora Paulinas. Veio comigo para as férias (o livro...). Que seria bom para mim, que sou invasiva, não deixo os outros falarem, sou intolerante, não paro, confundo vida com vivacidade, faço muito barulho, etc. Depois de ler devo dizer que é mesmo verdade (eu já "suspeitava"...) isso que dizem. E apesar deste livro - agora de cabeceira - me ter vindo a mudar, continuo a ser tudo aquilo que era. Só que agora sei, quer dizer experimento que é assim. Faz toda a diferença.

Chama-se a isto "consciência" que, ao contrário do que por aí dizem as filosofias, é o que de mais concreto há: observação, colagem à realidade. E vejo que é muito bom. Nas suas breves 150 páginas, o livro é tão rico que trata de tudo. E de nada, diria o autor. Conta-nos de nós, de mim, e curiosamente do Ocidente, onde habita ainda um poderoso e fecundo mito. Que ricas férias! Afinal pensar é viver, tudo o mais é conversa e não serve para nada. Como dizia Simone Weil, lembra o espanhol, a atenção é a arma mais poderosa.

Então e o tal mito? Leiam as páginas 46 e 47. Eu tenho a segunda edição. de Fevereiro de 2014. Obrigada Margarida por me teres mostrado o livro. Vejo agora melhor, porque experimento o que percepciono, debaixo do meu nariz. Está tudo à mão. O tempo faz. E neste caso a sinalética diz "mexa".

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fotografia da net

Estes últimos tempos têm sido pródigos em "casos" de justiça que nos preocupam. Nalguns casos têm implicado muito sofrimento. Como sou fã de Ricardo Araújo Pereira, e acho mesmo que é dos melhores jornalistas que temos em Portugal - óbvio, um jornalismo pouco fedorento e perspicaz até dizer "chega" -, andava ontem a rir-me "com ele", quando me deparo com esta pergunta que ele fez num programa de televisão, ao então Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto. O Programa era: "Gato Fedorento - Marinho Pinto Esmiúça os Sufrágios". O que fui encontrar!

A terminar, e no fim de uma conversa que merece ser "vista", lá vem a resposta à pergunta em epígrafe, igualmente cheia de sentido de humor. Vem aqui: http://youtu.be/Ia1vdEknONM

E se Ricardo Araújo Pereira é jornalista, Marinho Pinto pode ser outras coisas, também. Como vem num livro que ando a ler (que frase foleira) eu sou antes de mais "eu". E não isto ou aquilo. Ou do clube A ou do Clube B. É bom "entrar" na "rentrée" com isto bem claro. Se cheguei tarde? Mais vale tarde do que nunca. E ser feliz.

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24
Ago14
Imagem de uma cena de "O Velho do Restelo", de Manoel de Oliveira ( da esquerda para a direita: Camões, Teixeira de Pascoaes, Camilo e D.Quixote) / Jornal Público (Abril 2014)

"O velho do Restelo", o mais recente filme de Oliveira, estreia no Festival de Veneza, que tem início na próxima 4ªfeira. Não se brinca em serviço. A curta metragem foi rodada em cinco dias, em Abril passado (como aqui referi: http://expresso.sapo.pt/fui-as-filmagens-de-oliveira-vim-alfa-pendular=f865451), no jardim mesmo atrás da sua casa, na Foz. Pouca saúde, pouco dinheiro, mas arte. Muita arte! "Não há dinheiro para filmar o comboio? Filma-se a roda", diz. A "beleza" é inestimável, e não vê obstáculos.

A presença de Oliveira naquele dia era como sempre imponente, ou seja, discreta, terna e firme. Simples. Um dia igual aos outros, a viver de uma Presença que os seus olhos contemplam. É ela que os filmes mostram.Tratando-se de "qualquer coisa" que o transcende, ele só tem que querer olhar e partilha o que roda. Estava pouca gente. Eu cai lá como sempre porque desejo muito. E ele deixou-me entrar. Acabei por trocar umas palavras com os actores. Aprendi que nem sei o que diga. Luis Miguel Cintra, Diogo Dória, Ricardo Trepa e Mário Barroso; ou se quiserem, Camões, Teixeira de Pascoais, D.Quixote e Camilo.

Ainda não vi o filme mas vi então o penúltimo dia da rodagem. Foi "um momento no tempo fora do tempo". Digo isto porque quando vi as primeiras fotografias de um comum verde banco de jardim - onde aqueles ilustres argumentam os tempos de outrora e os de hoje - achei que não tinham sido tiradas naquele jardim. Imagino as horas que Oliveira passou naquele jardim a escolher espantado o lugar das cenas...Só assim se explica que um vulgar jardim, sem nenhum atractivo especial, apareca na tela como um Paraíso. Luis Miguel Cintra disse-me o que sentiu ao chegar ao jardim: : "Será isto a eternidade?"

Voltarei aqui depois de ver o filme. Hoje queria principalmente realçar mais esta vitória de Oliveira. Que é vitória de vida, de beleza e mistério. Há tantos caminhos quantas as pessoas. Percebo por isso muito bem quem não goste de cinema, e quem não goste de Oliveira. Agora o meu caminho passa por aqui, e agradeço a quem mo mostrou. E mostra.

O filme fecha (ou abre) com estas palavras de Camões: "a que novos desastres determinas de levar estes reinos e esta gente?". E que não se pense que Oliveira se fica por uma visão negativa da realidade. É antes esmagador no humor, na elegância, na positividade. Faz simples, porque basta "querer" ver. E ele vê. O que faz contudo não é substituir-se ao outro - a mim - mas "albarda-me" de liberdade. Potencia o meu querer ser livre. A minha realização. Como se me perguntasse, em cada imagem que deixa ver: "o que queres?" "O que quero?". E sorri. Sorriu-me.

O filme mostra mais uma vez mais o gosto do realizador pelo artifício. LMC disse-me que Oliveira lhe perguntou: "Queres vir de LMC ou de Camões?". Cintra achou que não lhe parecia necessário vir vestido de Camões, uma vez que iria apenas contextualizar a cena e ler as estrofes dos "Lusíadas", no episódio do velho do restelo. Uns dias mais tarde diz-lhe: "Estive a pensar melhor, vens de Camões."

Concluo com duas notas das conversas que tive nessa tarde. Uma: o filme revela, mais uma vez, uma posição contraditória em Oliveira: "um amor à vida e a consciência de que a vida é o mais efémero possível", sintetizou LMC. A outra é que Camilo - e seus amores frustrados - é tema central na obra de Manoel de Oliveira, todos o quiseram sublinhar. Sobretudo MB, não fosse esta a terceira vez que o ator interpreta a pessoa do autor de "O amor de perdição". "Alguma novidade neste seu Camilo?", pergunto. "Oliveira tem o mesmo olhar, a mesma simpatia, a mesma ternura em relação a Camilo. O resto não sei. Ele é que sabe como vai usar tudo isto, todos os fragmentos aqui recolhidos." Mas, lembrou, "há um texto que fala do mundo, da vida, do amor, da morte..." ; "é uma reflexão sobre a nossa sociedade."

Não estou em Veneza. Espero então. Numa esperança que tenho recebido de forma especial nos filmes deste homem para quem não existe o cinema, mas sim as cadeiras.

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Ontem comprei o "Sol". Coisa rara em mim. Guterres vende. E vende cá e lá. Aquelas garrafais são irresisitíveis. E um jornal de papel terá sempre lugar garantido. Aposto que a tiragem ontem aumentou. Depois de ler o artigo e os restantes, até que fiquei um bocado desiludida. Quanto a jornais de papel mantenho-me fiel à Actual e à Revista do Jornal de Ricardo (irmão do outro Costa, que gosta do António do "Sol"; isto até dava uma novela género "Poder e sedução", mas hoje não). Mas não me arrependo de o ter comprado. E se para a semana puserem a Angelina Jolie na capa, eu compro outra vez. E a tiragem sobe. E quando ela vier cá a Portugal em plena campanha? Upa, upa.

Não conheço Guterres. Mas o que sei é que andou a fazer o bem. O bem da ONU (ontem até li, coisa rara em mim, o artigo do Vicente Jorge Silva). E como cada um de nós precisa cada vez mais de refúgio e justiça, nem mais. A cadeira será dele. Por acaso tinha visto ontem uma notícia sobre os assessores de Cavaco em que se criticava o facto de ele ter aquele rol de assessores e uma que estava de belas pernocas ao leu, mesmo sentadinha ao lado desse meu Presidente, a receberem já não sei quem.

Em 2005 e 2006 vai ser a dança das cadeiras, e vira o disco e vai tocar o mesmo. Deus queira que me engane. Basta ter dedo e meio de testa, que é o meu caso, para imaginar o que vai acontecer. Mas como a imaginação é "a louca da casa", nunca se sabe. Sei é que não é preciso muito esforço e que a dança é tipo "Vira", dança tradicional portuguesa, que nos está no sangue. Mas também se assemellha ao "passo doble", também quase nossa tradição, pelo que de nós compra o nosso vizinho. E que este passo tem sido o que PS e PSD têm praticado. Não é o Júlio Iglesias que canta "às vezes tu, às vezes eu"? Ou o Marco Paulo: "eu tenho dois amores"?

Nem sei porque é que puseram o Lello a criticar tanto o Marinho Pinto - e continuo no "Sol" de ontem. "Trauliteiro", diz Lello que é o que Marinho é. E quem fala assim de outra pessoa, o que é? E depois com direito a entrevista e tudo (o Lello). Eu sei, eu sei, até ao lavar dos cestos é vindima; ou que "mais vale prevenir que remediar". Que bem metido que foi este manifesto desejo de se candidatar. Isto é que é política. Foi mesminho depois dos "escândalos" (ups, engasguei-me) de Barroso. Mas não vou falar hoje deste rico e transversal tema: os escândalos. Ah, já agora quando quiserem dizer mal de Barroso, queridos jornalistas, ponham a fotografia do filho "certo". Eu sei que eles são parecidos, mas andam a pôr a fotografia do do meio, e não é esse que trabalha no Banco de Portugal, é sim o mais velho.

E já que falo de jornalismo, parabéns ao "Observador": jornalistas (mesmo) como José Milhazes não há muitos. E já vi pelo menos dois excelentes artigos dele lá. Assim sim. Não é o dinheiro e o poder que fazem um jornalista. Aliás, dinheiro e poder podem estar ao serviço de tudo e são coisas boas, como em tudo nesta vida. Depende sim de quem os tem. E já não tenho tempo para falar de cultura, que era o que eu queria. Só isto: não gosto de uma espanhola "à frente" da Casa dos Bicos. Saramago é bom e é português. E o "caso" Saramago é claro como água, para quem sabe o que é literatura, e para quem efetivamente leu Saramago...

E ainda gostei muito menos daquela fotografia que passou em tudo o que é "media", dela, "a presidenta" Pilar, agarrada a António Costa, mesmo em frente a esse monumento num dia em que ele lhe dava as chaves, ou coisa assim. Prefiro Guterres a posar com Angelina em frente a Belém, ou, quiça, a comer um pastel de nata (bolo rei "jamais"). Ela é gira, ele também, e eu sou muito generosa e pelo-me por uma boa emulação. Escândalos, Saramago e Jornalismo, ficam para a próxima, que alguém chama por mim. Não tenho a certeza, mas só uma pessoa poderá derrotar Guterres. Voltarei a isto.

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22
Ago14

Gosto de observar as ressacas

por Fátima Pinheiro

imagem tirada da net

"Tudo o que parece é." Ensinaram-me que era ao contrário: "nem tudo o que parece é." Na escola ensinaram-me uma "Alegoria da Caverna" que não tem nada a ver com o que Platão quis dizer. A herança cultural que me cabe, e que espreita em cada esquina das minhas "cenas" quotidianas, invade-me mais platónica que aristotélica. Na Universidade ensinaram-me que Santo Agostinho é platónico e que S.Tomás é aristotélico. Depois foi preciso von Balthazar ser citado para ouvir dizer que a verdade é sinfónica, quanto já se sabia. Um cristianismo dualista? Não há. Se há quem pense que sim, que o cristianismo é "esquartejante", ou não sabe o que é o cristianismo ou não sabe o que é o dualismo. Observar, observar e observar, é preciso. Ninguém é feliz de beber de um ideal. Feliz é aquele que "bebe" de pessoas. Se a água for podre melhor morrer de sede do que de uma ideia que, por definição, não "sabe" acontecer. Chama-se a isto "cair na real".

Mas como estas ideias falsas foram passando, e muitas delas por práticas e prédicas a condizer, o ditado tem vingado e vive-se em dualismos constantes. Dizem os místicos de todos quadrantes que é preciso deixar assentar o lodo para começar a ver. E que ver não é difícil, que o difícil é querer ver. Simone Weil bem frisou que a mãe das virtudes é a atenção; e que é esse desejar a luz que produz luz. Platão nunca disse que as sombras projectadas no fundo da caverna eram aparências. E que no "mundo lá fora" é que era. O que ele disse foi que as sombras tinham a realidade de serem aparências. Eram aliás tão reais que foram elas a suscitar o interesse de um dos escravos a querer ir mais longe. Tudo interligado, portanto.

Por tudo isto, do que gosto é de observar. Não que seja isto um estar de "fora". Antes pelo contrário, observar é beber. Mas há "beberes e beberes". A selectividade aprende-se no tipo de ressaca que se tem. Depois é escolher.

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21
Ago14

o "meu" Celestino num memorável 10 de Junho (fotografia da net)

Leio sempre revistas estrangeiras tipo "Vogue". Na praia adoro paginar pelo menos uma, para ver onde andam as modas, para ver os bonecos, para no friozinho do mar sentir as camisas de gola alta quentinhas que guardo para o Natal, e por todas as razões. Ontem escolhi uma de que gosto muito e que tinha um artigo cujo título era a minha cara: "15 coisas que uma mulher deve ter...". O autor era um homem giro, entre os 30 e os 54.... Cheio de estilo. O George Steiner ficou no saco o dia todo, com o Ramin Jahanbegloo. E os livros estragam-se na praia, coitadinhos.

O que é que eu devo ter? O que é que eu devo ter? Depoir de ler pensei que o jornalista era afinal fracote. E era uma magazine, estrangeira e tudo. Então? É que eu tenho afinal tudo o que ele diz. Não pode estar completo. Eu acho que preciso de ter mais qualquer coisita. Hoje - porque ontem já era tarde - vou ter com o Comendador Celestino, que cuida muito bem da praia, e vou perguntar-lhe pelas 15 coisas que devo ter. A ver se me safo melhor.

Então que 15 coisas são essas? Puxa, são 7h e 45. Tenho que ir, senão perco o bom da manhã. Logo, se não vier tarde do T Club deixo aqui as preciosas informações do Celestino e do francesinho, e depois durmo até querer. Agora até estou a parecer o Luís Filipe Menezes que no seu facebook se deu ao trabalho de nos contar os momentos das suas férias. A lembrar que o político é humano, diverte-se, enfim, que trabalho é trabalho, e que conhaque é conhaque.

O Steiner tem mesmo razão ao dizer que a nossa época é genial. Mas apenas num ponto. Não é difícil identicá-lo. Hoje, as 4 entrevistas que deu em Cambridge vão andar pela praia Maria Luísa. Se calhar deixo o Celestino descansado na azáfama que leva a sério e cheio de gosto. Observar como ele trabalha, a transbordar de «Glamour», é seguramente uma coisa que devo "ter". E livros estragados, já agora.

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