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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


31
Dez14

"Mais ser quem vence do que ser quem perde" (último verso do Canto XV do 'Inferno', da Divina Comédia, de Dante, de uma versão da net - ver a minha nota final). Quem tem sido o foco das atenções nesta lusitana praia? Alguém detido em Évora e Romaria a ele, com media a cobrir os andores, os peregrinos a sair e a entrar e a baixar a cabeça, em silêncio. Calar é bom, já o Eça dizia: é simultaneamente sinal  de inteligência ou da ausência dela. Letras garrafais e espantadas para espantar: Costa a 20k de Évora, a passar o seu Natal, e não visita o ex-prime minister! Não vai na Romaria, não mostra seu olhar! Se calhar sabe rezar. Ou, a Sócrates, saíu-lhe à costa uma espécie de fava - doce ou amarga, já digo... - de um bolo rei anunciado. Ou então é mesmo a versão dantesca que prevaleceu. Certo é uma coisa: as badaladas soam hoje mais em Évora do que no Rato. É mais o que por lá "se passas"...

 

Mas que novidade !  Costa sabe muito bem por que caminhos anda e não vai em inversões de valores, não anda aqui para inglês ver. Sócrates está a sair caro ao PS, e ontem na televisão já uma poderosa vidente admitia que o PSD pode muito bem ganhar. Resvés, mas que sim. E outros videntes poderosos, também implicam que se contem as favas. Com esta socrática detenção, já nada era como dante(s). Até eu, que podia era estar a escrever sobre o filme de Abel Ferrara, que estreia amanhã, sobre o meu querido Pasolini (coisa que farei, se Deus quiser), sobre o desempenho fabuloso de Willem Dafoe e Maria de Medeiros (a ante-estreia nacional, foi no Lisbon & Estoril Film Festival, no Estoril, o mês passado), estou a escrever acerca deste novelo. Antes sobre a tia Filomena! Mas pronto. Era para dizer o que penso sobre esta agitação amorosa que me pretende invadir de todos os lados. E devo dizer que tenho uma atração fatal pelo engenheiro. Não me passa um gralha filosófica. Chego a ser chata, mas não me passa uma pretensão sem razoável fundamento. Digo isto também das minhas pretensões. Tenho muita facilidade em reconhecer os meus erros e mudar. Neste processo tenho tido ajuda. E em 2014 que nem gingas. Interessa-me ganhar, sim. Mas não aos outros. Interessa-me ganhar-me, ganhar-nos. E tenho verificado que nós, a raça humana, tem por vezes dificuldade no ouvir. Daí as asneiras e a desumanidade em que caímos. Mas onde deixamos António Costa?

 

«Areais por tufão atormentados. A mente aquele horror me perturbando/, Disse a Virgílio: —  'Ó Mestre, que ouço agora? 'Quem são esses, que a dor está prostrando?' 'Chora quem viveu sem jamais ter merecido  nem louvor, nem desprezo. Mas deles não falemos: olha e passa'. » (cfr. Divina Comédia, 'Inferno', Canto III  30 - 51). Não sei o futuro nem sou metro de ninguém. Costa passou ao lado, ficou a 20km: Sócrates não merece nem louvor nem desprezo. Ou então, em vez deste escape, andam mas é a falar por sype. Se no EP de Évora entra um bolo rei, neste cabe seguramente uma fava especial, um micro Magalhães. E sabe Deus o quê.

 

Nota: prometo que logo, ou amanhã de manhã, uso a tradução de Vasco Graça Moura (que este ano já o passa noutro lugar, e retiro esta tradução da net. Por uma questão de rigor.

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30
Dez14

Passas ou não Passas?

por Fátima Pinheiro

Passas ou não passas?/imagem da net

 

Ano novo, vida nova? Sambando 2014, "o que será, que será?" Repetir-se-á amanhã, mais uma vez, a "passagem de ano", que em tempos idos - lembrou Mircea Eliade - era sacralizada em rituais que eram como que o emergir do cosmos. Em celebrações tão agitadas quanto o caos era caos, para que assim se pudesse participar na ordem configurada pelos deuses, em desenvolvimento sustentado de eterno retorno. A mim também me convidaram para festas. Por outro lado, também oiço: "Prefiro a passagem de ano ao Natal"; "detesto a passagem de ano"; "eu fico em casa"; "ai, eu vou mas é divertir-me"; "passo a dormir", etc. Apesar de passar de ano todos os dias, pergunto-me nesta época de forma especial: "Passo ou não passo?". Ou, o que é o mesmo, foi mais o ano que passou por mim, ou quero mesmo passar para o "novo", que também virá no ano que "vem"? Ou não?

 

É o tempo e o seu significado que aqui estão implicados. Festas à parte, este tempo serve, como todos os minutos, para alguma coisa? Saramago, pouco antes de morrer: "Pilar, encontramo-nos noutro lugar!". Pregados nas cruzes, Cristo ao bom ladrão: "Estarás hoje comigo no Paraíso!" Pascal: os dias são para se encontrar no comboio que é a vida, o que falta no bilhete perdido, a sua origem e o seu destino. Platão, dos escravos agrilhoados na Caverna: cada um terá que virar a cabeça "por si próprio" e sair para fora. Krishnamurti: quero viver uma vida em segunda mão, como quem olha para uma montra? Ou em dizeres nossos: levas a vida a ver passar navios; passará, passará, mas algum deixará? Maria "vais com as outras"?

 

Maria Ulrich lembrava às suas alunas - futuras educadoras de infância - que a liberdade é um bem tão precioso que nem Deus se atreve a tocar nela. Encontro-me na vida sem nada ter feito para isso, mas posso fazer dela, nas circunstâncias que me são dadas viver, o que a minha força, a minha inteligência e o meu coração, "se puserem a jeito". Como aqueles dois homens que trabalhavam no tempo do gótico e do romano, responderam a quem lhes perguntou o que faziam. Um disse: "Acarto pedras". O outro: "Construo uma catedral".

 

Passas ou não passas? Eu vou comer 12 às 12, faço uma festa, convido os amigos e vou decidir "existir". Ou protagonistas ou nada. É a escolha entre agitação e movimento. Se não for a mãe da frente, é o filho lá de trás.

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29
Dez14

 

Sócrates: no pensar está o ganho/imagem da net

 

Não largo o osso. Temos pena. Mas há limites. Em 2015 vou largar. Ano Novo, Vida Nova. A não ser que Jesus Cristo desça à terra. Mas Ele está sempre a descer à terra em cada Natal. Em cada dia. É o ponto fuga. Mas mantenho o propósito, não falo mais do engenheiro que nos deixou des-penados. É só hoje. Este é um blogue filosófico, não é? Então só umas perguntinhas. 

 

Há detidos de primeira e detidos de periferia? Há necessidade de expôr assim o contraste entre aquilo que uns comem e outros não? Viram as recentes fotografias da APAR sobre o que por lá se come (aos presos mesmo)? Ao ser noticiada pelos nossos wonderfull media a Consoada-2014 do meu ex-prime minister, é como se dissessem : vêem como ele se vai refastelar com as iguarias maravilhosas desta época? Ou, detiveram-no mas ele vai comer do bom e do melhor? Não têm mais nadinda para contar, sei lá, como vai ser a sua passagem de ano? Precisam de encher primeiras páginas, é? Eu arranjo uma boa dúzias delas, querem? Daquelas que merecem mesmo honras de capa? Só mais um bocadinho....

 

Os detidos podem ler?  Se sim, porque andam a devassar a Biblioteca do homem. O saber não ocupa lugar. Ou será isto uma versão literária tipo Os Irmãos Karamas ON ? Isto chateia. Larguem o osso também. Nao andem a engonhar. A justiça quando quer é célere. Querem animar a campanha eleitoral? Ou é para certas coisas ficarem para segundo plano? Ou será para promover a escrita epistolar? Ou querem elevá-lo aos Altares: até passou as Festas na Prisão. Coitadinho. É por isto que a nossa justiça almeja? Portugal merece? Mereço isto? E o dinheiro flui...E quem paga? E quem não teve a tal consoada? Ou uma consoada, em versão basic, pelo menos. Gozem com certos  Bolos  Rei, gozem...

 

Um dia destes ainda vou a Évora, levo pano para um Sudário, e encomendo-me a Diana.

 

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28
Dez14

E o elefante, nada?

por Fátima Pinheiro

 imagem da net

 

Sigo a tradição se ela me corresponde, se me torna tudo mais claro, a fazer sentido. Incluo ditados, provérbios e assim. Vem este post porque conversa puxa conversa. Melhor, porque blogue puxa blogue. Embora o tema deste post não seja de hermenêutica; é sim, também, para umas boas festas. Perguntava o autor do outro blogue: quem anda a estorvar quem? Isto a propósito da sua interpretação de um capítulo do livro, considerado por insuspeitos e homens de gosto, o melhor livro de sempre. Para mim é um livro sem adjectivos. Aquilo é que é um livro. Até o meu Oliveira o usa à exaustão num dos seus filmes. Já digo qual é. Se digo agora depois ninguém me atura até ao fim. Mas o livro sim: Os irmãos Karamazov. Quem sabe ler, se não não leu este, anda a leste. 

O que estorva? Para já "estorvar" é uma palavra maravilhosa. Entra a wikipedia: fazer estorvoimportunar, incomodar; embaraçar;  tolherdificultar; impedir.  Palavra maravilhosa porque é leve para o que significa. Não é por acaso que na brincadeira se diz que a palavra russa para "sogra" é "sóstrova". Avante.

By other side, "se um elefante incomoda muita muita gente, dois incomodam muito mais."  Neste caso não acho a tradição muito rigorosa. Não que seja especialista em elefantes.Conheço apenas os cinzentos, o cor de rosa e o invisível (o que toca, ou tocava, o sino no Jardim Zoológico não conta, era mais macaco). Então?

É que tudo depende do que é incomodar? Pois é. Aqui não preciso de ir ao dicionário. O filme não lembro agora do nome. E vou tentar hoje, mais uma vez, não in-comodar ninguém. A não ser tremelgamente. Ossos do ofício.A filosofia é a única "profissão" que mesmo a brincar está em serviço. Uma chata, é que é. Mudem  de elefante. Pronto eu digo: o filme é A Divina Comédia (Manoel de Oliveira, 1991).

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A arrumar o lixo, encontro uma coisa que escrevi acerca do Pémio Pessoa 2014: Henrique Leitão. Escrevia então a 1 de Março de 2013, no meu blogue 100mim: "Gulbenkian expõe a partir de amanhã um “5 estrelas”: o Henrique Leitão da 360º! Sabem porque é que se fala pouco dele?" E depois apenas três linhas, porque, como hoje, estava preguiçosa. E hoje tenho a agravante de ainda estrar a digerir sonhos e rabanadas. Deixo aqui, outra vez, o que então disse. E muito feliz. Henrique Leitão acaba de ver o seu trabalho reconhecido publicamente.

 

«Henrique Leitão dispensa apresentações no meio de quem conhece o que são os cientistas e a ciência. Os prémios ou reconhecimentos podem nada querer dizer. Não é o caso. Fixem este nome. A História da Ciência cresce cada dia com o trabalho dele. Brilhante e incansável. Sei de conhecimento directo.»

 

E a Razão e a Fé estão de parabéns!  "A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3, 2)." Cfr. http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_15101998_fides-et-ratio_po.html

 

 

 

 

 

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26
Dez14

Albania1

O Papa Francisco /imagem da net 

 

Como na música que gosto na versão de Peter Cincotti (http://youtu.be/lnFUtMZ8eZg) o discurso do Papa à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2014 é uma novidade.  Não por dizer coisas que não sabíamos. É sim novidade porque vem Dele.

"Only you have that magic technique/When we sway I go weak". Abana-me, move-me, alegra-me. Eu que Cúria também me chamo. Elementar, meu caro. Mais. Sou também banal. Como banais são as palavras que Francisco proferiu. Têm a magia da simplicidade do Natal. Disse-as como se estivesse a beber um copo de água. A matar a sede. Num à vontade que faz desta pertença à Igreja uma coisa familiar. De irmão para irmão. Sentados à mesa, num clima à vontade, mas muito a sério. Para uma amizade maior. O Espírito Santo – que por Ele fala e anima – fala simples, directo, e a chamar as coisas pelos nomes. Francisco, um homem do tango, dança bem. Atrai "assim". E resulta. 

Das 15 doenças que me descreve, a doença da excessiva operosidade conheço-a bem: ou seja, sou daqueles que mergulham no trabalho, descuidando, inevitavelmente, “a melhor parte”: sentar-se aos pés de Jesus (cf. Lc 10,38-42). Por isto Jesus chamou os seus discípulos a “descansar um pouco’” (cf. Mc 6,31) porque descuidar do descanso necessário leva ao estresse e à agitação. O tempo do descanso, para quem levou a termo a sua missão, è necessário, obrigatório e deve ser lavado a sério: no passar um pouco de tempo com os familiares e no respeitar as férias como momentos de recarga espiritual e física; é necessário aprender o que ensina o Coélet que «para tudo há um tempo» (3,1-15).

Há também a doença do “alzheimer espiritual”: ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, da história pessoal com o Senhor, do «primeiro amor» (Ap 2,4). Trata-se de uma perda progressiva das faculdades espirituais que num intervalo mais ou menos longo de tempo causa graves deficiências à pessoa, tornando-a incapaz de exercer algumas atividades autónomas, vivendo num estado de absoluta dependência das suas visões, tantas vezes imaginárias. É o que vemos naqueles que perderam a memória do seu encontro com o Senhor; naqueles que não têm o sentido deuteronómico da vida; naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões, caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si barreiras e hábitos, tornando-se, sempre mais escravos dos ídolos que esculpiram com suas próprias mãos."

CONFERE!, digo eu. "Sway me more."

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25
Dez14

 

 imagem retirada do site do SNPC

 

Porque é que não largamos o Natal? Não acredito que seja só pelos magníficos doces. E aquelas músicas maravilhosas, quer as nossas tradicionais, quer as dos White Christmas todos. Nem por causa do Rudolfo nariz vermelho. Nem por causa da família. O Natal tem uma magia única, quente. Tão quente que por esta altura muitos gelos se derretem, quase sem fazermos nada por isso. Uma rabanada pode fazer a diferença! Melhor será perguntar porque é que o Natal não me larga. Ele é bom. E se arde, é porque cura...

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24
Dez14

A alegria do Natal: tanto me faz!

por Fátima Pinheiro

 

Maria no filme de Pasolini "O Evangelho segundo Mateus"  (1964) / imagem da net

 

Apareci tida e achada.  E não dei por nada. De um seio que então soube e sabe mais do que eu, que eu de mim própria. Eu vou sabendo sim, aos poucos, aos tropeções, às apalpadelas, aos abraços, aos sonhos, aos nós, seus atares e desamores, no tempo. Às vezes mesmo sem ele. Pressas e devagares, urgências e prioridades. Essenciais e acessórios. Hoje, no dia em que o tempo foi rachado de eternidade, na noite em que na hospedaria passou a haver lugar para a transcendência de todas as transcendências, em que os estábulos se tornaram todos Carne da mesma Carne, "o céu o mar prolongou". E a filosofia, após breve mas rigoroso descanso, ganhou alento para uma vida nova. Do tamanho de um bébé. Com ou sem caracóis, uma alegria de palha a sorrir duns olhos tantos. Dum tamanho que tanto me faz! 

 

Leibniz, Kierkegaard e Nietzsche cabem neste presépio (três porque os magos eram três, mas há outros, para outros posts). Como tudo cabe. Mais os livros - os bons e outros - que enchem prateleiras e fazem parte dos bolo rei e rainha, oferecidos nesta quadra. São pungir de muitos lábios que desejam, como o fado nasceram um dia, na amurada de um veleiro, o vento mal bulia. Do peito e dos muros e bordos das nossas janelas. No silêncio do saber perguntar. Ou pedir. O Deus que descrevem não é o do "tanto" me faz, embora o intencionar seja outra história. Sei eu lá o seu intencionar! Limito-me aos escritos. Então? 

 

Leibniz? O melhor dos mundos possíveis é encolhido no peito do marinheiro. A quadra não tem esquadro que valha. O racionalismo calça um número abaixo do nosso. É o racionalismo. Presente sem Rei. Mas a mostrar que isto não é para fezadas, nem brincadeiras.

 

Kierkegaard? Bem que cantou e saltou. Mas a fé saltou descalça. A razão é o pé que faltou. Outro presente desadequado. É o fideísmo, embora no seu melhor. Grande pai dos existencialistas.

 

E o meu ceguinho de choro? Louco,  Nietzsche? E que importa ? Foi a montante das morais que descreveu! Interessou-lhe, sim, a vida no seu esplendor. Não a encontrou nas prácticas de uma Europa toda de carneirada, nem nas de um cristianismo de seiva de túmulos caiados de branco e de cadáveres adiados. Vomitou mediocridades, e, pela negativa arejou os cinzentos da lufada de uma transcendência sem lugar nas nossas vidas. É esse Natal que peço, mais uma vez. Um que caiba no meu sapatinho. Porque acredito e porque já se cumpre numa alegria que me espanta, na alegria do paradoxo do  que me vai acontecendo, e que tanto me "faz".

 

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23
Dez14

Maçonaria: um estábulo tramado.

por Fátima Pinheiro

Jesus Cristo/imagem da Net

 

Muito simples a resposta à pergunta: catolicismo e maçonaria são compatíveis? A resposta está no meu novo livro, o Rasante (Chiado editora, 2014), lançado há umas semanas por uma pessoa de quem gosto muito e que pertence à Maçonaria – já o disse ele em público várias vezes; não revelo segredos. Segredo é segredo. O meu livro nada faz ou diz de especial. Diz o que já foi dito e redito. O tema veio-me há dois dias à cabeça. Assim escrevo as minhas crónicas: escrevo sobre o que me acontece. Estamos no Natal e talvez tenha sido por isso que me veio à memória. E talvez também porque há muita confusão, ou pouco rigor, ao falar de Natal e de Maçonaria. Uma coisa é certa: isto não é um j’accuse ou um je sais, je sais, je sais. Nem falo de pessoas, apenas de filosofia.

Maçonaria? Sei pouco do assunto mas interesso-me e sei q.b. E sei o que as pessoas de conhecimento médio sabem: que é bom pertencer à Maçonaria porque se arranjam muitos contactos que facilitam a vida, o arranjar trabalho e coisas do género. E sei também que as bases filosóficas da Maçonaria não suscitam o interesse que mereceriam. Há uns tempos li um livro – que esgotou num ápice – intitulado A Trama Maçónica, de Manuel Guerra. Fiquei esclarecida, mas não é deste livro que falo hoje.

É costume comparar-se o pertencer à Maçonaria como pertencer à Opus Dei, sem saber sequer o que é uma Prelatura Pessoal. Mal comparado, as pessoas (categoria em que me encontro, a de ser pessoa) pensam que é assim uma coisa de Rotários. As pessoas gostam de amigos, de estar protegidas, tecerem relações que as ajudam nas suas vidas. As pessoas têm pouco tempo para estudar.

Hoje falo sim do que já sabia de básico e é nesse ponto que fico: para a Maçonaria – e há várias, eu sei – Cristo não é verdadeiro Deus, mas sim verdadeiramente homem. Para o Catolicismo Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiramente homem. Para a Maçonaria Deus é um Arquitecto, que a razão humana entende, no juntar dos traços do mesmo esquadro. Para o Catolicismo Deus é a verificação da hipótese que Platão põe no Fédon.

Como não sei dizer melhor e tenho que fazer as rabanadas, transcrevo o que um dia escrevi no jornal Público “A hipótese de Platão verificou-se em Nazaré?”

« 'Natal é quando um homem quiser', é frase repetida todo o ano. Até é verdadeira, mas num sentido muito singular. Isto é, nem sempre assim é. Se dissermos antes: 'Natal foi quando uma mulher quis', já a história é outra. Platão intuiu o que aqui é implicado, mas não com todos os contornos. Foi preciso, uns séculos mais tarde, uma virgem de 15 anos (números redondos) para que a passagem do Fédon ganhasse sentido, e para que hoje o que se vive em torno do Natal se possa animar de uma esperança que torne "carne" os mais profundos desejos, pedidos, evidências e exigências do coração de cada pessoa.

Pode dizer-se que um triângulo equilátero é uma figura geométrica de 30 lados desiguais. Mas não do ponto de vista da ciência que o estuda enquanto tal. Neste caso é uma afirmação falsa. Já no que diz respeito ao sentido último da existência - se Deus existe, e se sim "quantos" são, e qual a natureza, ou, o que dá no mesmo, "quem sou, de onde venho e para onde vou?" -, celebra-se na filosofia contemporânea um relativismo, outrora visto como impotência da razão. Daí que as palavras de Platão acertem em cheio: nestas questões "últimas" - parafraseio o diálogo há pouco referido -, o homem vive como que num oceano de vagas difíceis, tempestuoso, a naufragar na ausência de resposta cabal. A não ser que o próprio Deus venha "cá" esclarecer-nos.

A posição dos sofistas - que Platão critica de forma rigorosa em terreno filosófico com a sua Teoria das Ideias, que são mais reais do que a aparente realidade que se pensa que nos sustenta - é, embora noutras modalidades, defendida hoje: a dificuldade das questões e a brevidade da vida humana alegadamente justificam que cada um seja a medida do real.

O sentido religioso, isto é, aquilo que no homem o impele a uma religação com o elo perdido, é construído por cada um, com as forças de cada um. Por um lado, uma solidão dolorosa, ou cruz sem ressurreição. Por outro, pode defender-se, como fez o então Presidente Clinton, "a América é o país mais religioso do mundo" porque nele há mais religiões.

A hipótese que Platão pôs verificou-se em Nazaré? That"s the Question. Todas as religiões são um esforço mais ou menos individual, mais ou menos estruturado ou ritualizado, para "sim-tonizar" o homem com o Infinito. Apenas uma delas - o que levou Julien Ries a afirmar então que, em sentido estrito, o Cristianismo se trata da única religião que não é religião - escandalosamente, para muitos, se apresenta ao mundo com a pretensão de que "contém" e "fornece" o Infinito.

Num momento do tempo - como bem notou T. S. Elliot - no que acontece no diálogo de todos conhecido, entre o anjo Gabriel e a rapariga escolhida por Deus, "marca-se" o tempo. E aqui lembro Paolo Pasolini, no filme Evangelho segundo Mateus (1964), na cara que mostra Maria serena mas preocupada com José, que só mais tarde vem a perceber. Quando isso acontece, ela espera por ele, já com as mãos na barriga, e o seu sorriso só se abre ao abrir do sorriso do noivo.

O que tem ela no seu seio? O Infinito? Esta é a pretensão que faz da Igreja o que Ela é. É a pergunta à qual cada um terá que responder, ou simplesmente ignorar, ou tornear, por dificuldade ou por "não ter tempo". Seja como for, e olhando o Natal como se apresenta vivido hoje, ele é o que um homem "quer". O Natal "é" anjos, ovelhinhas, estrelas e bolas coloridas, da almofada ao postal? O Natal é a festa das famílias? O Natal é o Verbo que se fez carne naquele seio? É tudo isto?

O que nos enche mais a razão, isto é, os nossos mais profundos desejos, pedidos, evidências e exigências? Quero religar-me a esse "X" que, por ser do "tamanho" que é - Infinito e bebé "em palhinhas estendido" -, é capaz de encher o vazio que só cínica e hipocritamente - isto é, de forma irrazoável - posso dizer que ignoro? Ou fico-me sustentado pelas luzes? Lindas, sem dúvida, e a fazer parte, com o bacalhau e os sonhos. Mas sombras de sombras da Luz que Platão sabia e 'conheceu' .»

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20
Dez14

 

Fernando Santos e D. Manuel Clemente, "o que é selecionar?" (11 dezembro 2014,  no Conhaque-Philo)

 

Este blogue “Rasante” tem andado mais sossegadinho porque andei nos trabalhos do lançamento do livro do mesmo nome. Foi a 11 de Dezembo passado,  e contou com as palavras de Henrique Monteiro e do Professor Eduardo Lourenço: Rasante – Crónicas diárias no Expresso online 2013-2014 (Chiado Editora, 2014). Aproveito para passar a publicidade e dizer que estarei hoje na Bertrand das Amoreiras a dar autógrafos, a partir das 16h. O sossego do “Rasante” deve-se também aos trabalhos da iniciativa “Conhaque-Philo”, que teve a sua última sessão na terça-feira passada, numa conversa onde juntei Fernando Santos e D. Manuel Clemente, para conversar sobre o que é selecionar.

http://vmais.rr.sapo.pt/default.aspx?fil=832107  e  http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2014-12-17-Fernando-Santos-e-D.-Manuel-Clemente-juntos

Estamos de volta para escrever. Nada como uma boa prisão preventiva, para aparecer de cara lavada e grávida do melhor dos mundos. Tudo começou sem eu saber. Se quiserem saber leiam.

Há poucos anos um amigo meu, que acaba de ser nomeado Prémio Pessoa 2014 - que sabe que sou comunicativa por natureza -, falou-me na possibilidade de criar um blogue. Comecei por achar que era uma tarefa impossível, até porque não sou muito dada a tecnologias e não sabia como começar tal “coisa”; mas a certa altura resolvi arriscar, e “atirei-me” a essa aventura. Na altura vivia uma circunstância pessoal difícil, e vi este desafio como uma oportunidade de me abrir à vida e aos outros, em vez de me fechar na minha própria dificuldade.

Tomei como fonte de inspiração uma grande figura da nossa cultura, de quem gosto e que admiro muito, o cineasta Manoel de Oliveira. Alguns dos seus filmes foram marcantes na minha vida, e por isso decidi dedicar-lhe a minha entrada na blogosfera. Daí ter escolhido como primeira imagem do meu blogue a estátua de Joana d’Arc que se pode encontrar em Paris e que surge precisamente no filme de Oliveira “Belle Toujours”.

Como se costuma dizer, na vida “não há coincidências”, e a verdade é que o livro que referi, foi lançado no dia de aniversário de Manoel de Oliveira.  De certo modo posso dizer que tudo o que escrevo tem no olhar o modo como Oliveira olha para a vida, portanto nesse sentido o conjunto de crónicas que reuni no livro é um pouco “o filme da minha vida”.

Tal como dizia Camus, quem escreve deseja ser lido, não há escrita exclusivamente para si próprio, e portanto estes meus textos são também isso: reflectem a necessidade e o gosto de chegar aos outros, de comunicar, de dar um pouco de mim, das minhas alegrias e das minhas tristezas, da minha forma de pensar e de sentir a vida – e, claro, de receber em troca o feedback de quem me lê.

O ritmo de escrita de um blogue como este é o ritmo quotidiano, por isso estes textos estão marcados pelos acontecimentos diários do nosso país, do mundo, e pelo modo como eles atravessaram a minha vida. Há poucos anos publiquei um livro a quatro mãos, com uma amiga minha, a Maria do Rosário Lupi Bello, sobre uma outra grande figura da nossa cultura, a pedagoga Maria Ulrich, de quem aprendi que na vida tudo interessa, não há nada desprezível, que não mereça o nosso olhar e o nosso juízo. Também este aspecto me norteou sempre na construção dos meus textos: o desejo de olhar tudo o que acontece com curiosidade e vontade de compreender

Regresso, sim. Estas palavras de Oliveira, proferidas no CCB na presença de Bento XVI, falando em nome do mundo da Cultura, são mais fortes do que qualquer prisão, seja ela preventiva ou outra coisa qualquer: “os seres humanos caminham na esperança, apesar de todos os negativismos. Como diz o padre António Vieira: ‘terrível palavra é o Non, por qualquer lado que o tomeis é sempre Non...’,  terminando por lembrar que o Non tira a Esperança que é a última coisa que a natureza deixou ao homem.”

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