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Rasante

Rasante

Moscovo, 20 Abril de 1999

estes são italianos/ imagem da net

 

« Moscovo, 20 Abril de 1999* Ontem fomos ver Romeu e Julieta. Mais uma vez lá fomos ao Palácio de Congressos do Kremlin. Mais uma vez tive a oportunidade de me aperceber de várias coisas. Estavam milhares de pessoas. Quando chegamos às portas das muralhas, estranhamos desde logo a multidão. Nem nos passou pela cabeça que toda aquela gente se deslocara ali para ir ver o nosso (afinal o deles...) Prokoviev. Foi o André que nos esclareceu acerca do destino de tal mar. Lá entramos bem devagar, uns atrás dos outros, muitos que éramos. Todos tão diferentes…Já não falo nas cores, ou nas nacionalidades. Refiro-me também à idade, à maneira de vestir. Nunca vi tais discrepâncias de estilo! Anos 30, anos 60, anos 70, anos 90, ou anos nenhuns. Como que uma intemporalidade dos espaços do vestir. Uns feíssimos, outros belíssimos. Lembrei-me da resposta de um professor de História da Moda, quando lhe perguntei o que era a moda: “a moda é aquilo que passa de moda.”

 

Mas, no caso, estava-se para além da moda. Uns pobres, outros quase miseráveis, outros, em menor número, a ostentar riqueza, alguns gosto, alguns o último grito da moda (o último, mesmo).  Mas é de notar que em geral, e esta é uma característica das mulheres russas (das Natashas, Ludmilas, Irinas, Lenas, Olgas e Tânias), há um esmerado cuidado no arranjarem-se. Elas distinguem perfeitamente as ocasiões. Se de festa, se de trabalho, radicalizando por vezes despropositadamente, mas apesar de tudo muito naturalmente, a maneira de se apresentarem.

 

A nossa Natasha, baby-sitter e amiga, para ilustrar o que digo, tem todo um ritual de se arranjar de manhã, antes de sair para a universidade, impressionante. Às vezes excessivamente apinocada para a circunstância, mas nunca sem um toque de cuidado que lhe ressalta, sem dúvida, as suas notas naturais de beleza; tem uns olhos azuis lindíssimos.

 

Dá a ideia que se preparam para o dia como se fosse a sua oportunidade única para brilhar, o que denota um gosto pelo momento presente, um viver a vida de uma forma intensa (isto faz parte da alma russa...).

 

O mesmo se diga das roupas: têm pouco mas o que têm é bom. Não precisam de quarenta camiseiros nas gavetas mas sim de dois, ou apenas um, de boa qualidade. Por isso se apresentam cuidadas, às vezes estilosas. E até czarinas.

 

Voltando ao Kremlin, lá dentro, as cores vermelhas da sala gigantesca aliadas ao escuro da cor do espetáculo tornavam todos e cada um num pequeno pormenor dum quadro único (sensação semelhante à que tive na sala de espetáculos do Kennedy Center: a mesma imponência, o mesmo vermelho). Muito esbatidos ofereciam-nos a vida e o sentido do horizonte que se respirava na animação do palco. Fiquei a perceber o valor do totalitarismo. Percebi também que para a sociedade russa a cultura faz parte da vida. Isto é, as pessoas não vão ver um espetáculo apenas para se divertirem, mas sobretudo porque precisam dele para viver. A arte é ar que se respira. Percebi como nunca que os russos são, essencialmente, um povo de artistas.

 

As velhinhas estão na primeira fila, fazendo tricot, e olham para o espetáculo como se olham as telenovelas.»

 

*excerto do meu Diário da Rússia (onde vivi quatro anos), a publicar em breve 

O português anda na baila: chamem-lhe um figo!

 

 chamem-lhe um figo/imagem tirada da net

 

Não preciso de ir muito longe para saber o que é um português. Cá e lá fora. E há sempre um português à mão de semear. Fui ao bau, e a reler um texto onde me revejo, partilho-o hoje. Trata-se de uma conferência que o etnólogo Jorge Dias fez em 1950: “Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa.” * Muito sugestivas são as linhas que deixo, sem qualquer pretensão que não seja a de ser mais um passo para melhor viver; o que é “tarefa de toda a vida” (p. 4). Sim, porque ser português, não é assim “definido” por dá cá aquela palha. Eu sou portuguesa, tenho a certeza e basta.


“A cultura portuguesa tem carácter essencialmente expansivo, determinado em parte por uma situação geográfica que lhe conferiu a missão de estreitar os laços entre os continentes e os homens.” (p.15).


“O Português é um misto de sonhador e de homem de acção, ou, melhor, é um sonhador activo, a que não falta certo fundo prático e realista. A actividade portuguesa não tem raízes na vontade fria, mas alimenta-se da imaginação, do sonho, porque o Português é mais idealista, emotivo e imaginativo do que homem de reflexão. Compartilha com o Espanhol o desprezo fidalgo pelo interesse mesquinho, pelo utilitarismo puro e pelo conforto, assim como o gosto paradoxal pela ostentação de riqueza e pelo luxo. Mas não tem, como aquele, um forte ideal abstracto, nem acentuada tendência mística. O Português é, sobretudo, profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco. Não gosta de fazer sofrer e evita conflitos, mas, ferido no seu orgulho, pode ser violento e cruel. A religiosidade apresenta o mesmo fundo humano peculiar ao Português. Não tem o carácter abstracto, místico ou trágico próprio da espanhola, mas possui uma forte crença no milagre e nas soluções milagrosas.

 

Há no Português uma enorme capacidade de adaptação a todas as coisas, ideias e seres, sem que isso implique perda de carácter. Foi esta faceta que lhe permitiu manter sempre a atitude de tolerância e que imprimiu à colonização portuguesa um carácter especial inconfundível: assimilação por adaptação. O Português tem vivo sentimento da natureza e um fundo poético e contemplativo estático diferente do dos outros povos latinos. Falta-lhe também a exuberância e a alegria espontânea e ruidosa dos povos mediterrâneos. É mais inibido que os outros meridionais pelo grande sentimento do ridículo e medo da opinião alheia. É, como os Espanhóis, fortemente individualista, mas possui grande fundo de solidariedade humana. O Português não tem muito humor, mas um forte espírito crítico e trocista e uma ironia pungente.” (pp.25-26)

“Outra constante da cultura portuguesa é o profundo sentimento humano, que assenta no temperamento afectivo, amoroso e bondoso. Para o Português o coração é a medida de todas as coisas.” (p. 34)

“Contudo o Português não é fraco nem cobarde. Detesta as soluções trágicas e não é vingativo, mas o seu temperamento brioso leva-o com excessiva frequência a terríveis lutas sangrentas. Quando o ferem na sua sensibilidade e se sente ultrajado, ou perante um ponto de honra, é capaz de reacções de extraordinária violência. São testemunho disso os jornais diários, que relatam rixas tremendas entre amigos e vizinhos.” (p.37)

 

“A própria religião tem o mesmo cunho humano, acolhedor e tranquilo. Não se erguem nas aldeias portuguesas essas igrejas enormes e solenes, tão características da paisagem espanhola, que na sua imponência apagam a nota humana. A igreja portuguesa, ora caiada e sorridente entre ramadas, ora singela e sóbria na pureza do granito, é simplesmente a casa do Senhor.” (p. 38)

 

“O Português gosta de fazer projectos vagos, castelos no ar que não pensa realizar. Mas no seu intimo alberga uma certa esperança de que as coisas aconteçam milagrosamente. Esta forte crença no milagre, cujo aspecto mais grosseiro é a enorme popularidade do jogo da lotaria, chega a tomar aspectos curiosos, dos quais sobressai o sebastianismo.” (p.51)

 

“É ainda essa enorme capacidade de adaptação uma das constantes da alma portuguesa. O Português adapta-se a climas, a profissões, a culturas, a idiomas e a gentes de maneira verdadeiramente excepcional.” (p. 52)

 

“É um povo paradoxal e difícil de governar. Os seus defeitos podem ser as suas virtudes e as suas virtudes os seus defeitos, conforme a égide do momento.” (p.56)

 

*Uso a edição da INCM de 1986

Quaresma

 

Papa Francisco/imagem da net 

 

A MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2015- assinada a 4 de Outubro de 2014, no Vaticano, na Festa de São Francisco de Assis - é esta: Fortalecei os vossos corações (Tg 5, 8).

 

Vamos a isso? 

 

Deixo apenas um excerto: "Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um «tempo favorável» de graça (cf. 2 Cor 6, 2). Deus nada nos pede, que antes não no-lo tenha dado: «Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece. Coisa diversa se passa connosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar."

 

 

Leia aqui na íntegra http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/lent/documents/papa-francesco_20141004_messaggio-quaresima2015.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Clint Eastwood: «o sniper» americano

os dois snipers/imagem tirada da net

 

Gosto de americanadas. Mas gosto sobretudo de cinema. Fui ver o "Sniper Americano", ao acaso. Nas coisas dos filmes em geral não leio nada antes de ver. Há casos excepcionais. Neste caso fui só mesmo para relaxar, nem sequer sabia o nome do realizador. Estava muito cansada e até pensei que poderia dormir um bocadinho. Vi que estava nomeado para muitos óscares, mas isso para mim é relativo. Surpresa das surpresas: sem querer voltei então ao local do crime.

 

Afinal era Clint Eastwood, um dos grandes da 7ªarte. Distraida como sou só o soube no dia a seguir. Apercebi-me então da razão do que vira no dia antes, que a palavra "sniper" se aplica a ele, ao realizador, como a poucos. E que me pôs de forma única as guerras todas na mão. Exigiu-me um olhar certeiro para o planos rasos ao écrã, sem deixar de ter a "big picture" sempre presente. Não é um filme de guerra. É sim uma "americanada", mas num sentido novo. Eu explico.

 

Os americanos são gente, e são americanos. E são o que são. Porque lhes hei-de exigir que deixem de ser assim? Eu gosto daquele patriotismo, do "Beautiful America", da lágrima no olho e mão no peito naquelas cerimónias (vivi lá cinco anos, o que explica muita coisa: para conhecer é preciso conviver), dos pequenos almoços às cinco da manhã, dos jantares às 18h, daquele brio de acharem que são os melhores, do facto de confundirem Portugal com a Espanha, do "how are you today". E nada disto encontro em Eastwood. Como o paradoxo me fala verdade!

 

No escurinho do cinema a guerra entrou-me pelos poros de forma bela. Eu era o "sniper" e estive sempre na sua pele. A ter que decidir. Decidir se carregar ou não no gatilho em cada cena; decidir a que "atirar" na minha vida. Experimentar quem me acerta em cheio. É um filme sobre a humanidade. Sobre mim. Tem-se a percepção que é um lugar em que Caim e Abel encarnam de forma evidente. Quem acertou primeiro? Quem acerta? O filme leva-me então ao "ser ou não ser", ao "acertar ou não acetar": onde, para quê e porquê???

 

E não se pense que não há nesta obra ausência de uma técnica fabulosa. Nos seus últimos filmes Eastwood tem mostrado que é exímio no detalhe e no alcançe. No caso, para dar um exemplo, os olhos do actor - escolhido a dedo - são dados pela "pistola" do realizador com um verde de uma total transparência que deixam ver o mistério do "olhar". Quem sabe filmar assim? Clint foca a esquadro e régua, mas de tal forma amaciadora, que o real ganha a sua objectividade. Nada de "mariquices"!

 

Desde a semana passada passei a "sniper", e por ser como sou -  a cair e a levantar-me cada dia -, cresci em beleza e em graça, o que só faz alegria porque o terrreno à minha volta anda mais pacificado. A vida será sempre uma luta. Mas se assim não fosse qual seria o interesse? Eu gosto de cavar a terra e comer do suor do meu trabalho. E poupar o suar dos outros sabe-me cada vez melhor. O que me fizeram os planos da guerra do filme! Em cada cena o realizador mete lá tudo. Do estendal com roupas lavadinhas a tingirem-se de preto, de vidas e pessoas a cruzarem-se, de mercados de quem começa a trabalhar cedo. Na cena final de guerra as cores são de Rembrandt. E a sustentar há uma Penélope que longe está bem perto e faz e desfaz, com o marido e os filhos, a teia de uma ambição desmedida de poder.

Você é um Barco Abandonado?

 

 

"Eu sou o barco abandonado. 'Abandonado' quer dizer a extrema, a extrema última companhia. Não é a falta da companhia; não é uma ... não é a falta de uma companhia. É a companhia extrema. Não há uma companhia mais bela que a do abandono."  (Bill Congdon)

A imagem é de uma obra de Bill Congdon / tirada da net . Vejam na net as suas obras, que vale mesmo a pena :)

Fazer jornais é como fazer coelhos?


 

Alessandra Negrini em "2 Coelhos",  de Afonso Poyart/ imagem tirada da net

 

Tenho muito apreço pelos media. São uma "beleza", um meio excepcional de se fazer uma humanidade melhor. As primeiras páginas nem me incomodam. Podem até por o Cristiano Ronaldo nu a bater umas bolas. Ou a Alessandra Negrini. Eu, que sou católica, sempre vi no corpo, uma das coisas mais belas que Deus criou. Aliás, contrariamente a muitas outras religiões, o corpo é tão importante que é até no Antigo Testamento que aparece a palavra "sax", que quer dizer "carne", e é uma autêntica revolução na Antropologia Filosófica. Tenho é horror à mediocridade da falta de informação. Digo o mesmo em relação à desinformação e à manipulação. Isto é muito complexo: os jornais não vendem, todos sabemos que é caro, todos sabemos quem os paga. Agora, fazer um jornal não pode ser fazer coelhos! Abortem. Eu explico.

 

Não sou uma santinha, antes pelo contrário, caio milhares de vezes ao dia. Por isso é que peço, todos os dias a quem me fez - e faz - me ajude a ser "bela". Chama-se a isto liberdade, oração. Já fiz muitos "coelhos" porque sim. Agora, por entre coisas boas, os media oferecerem-nos sempre e sempre do mesmo (excuso de dizer, ou digo? ), é demais. É fazer coelhos. Merecemos mais. Eu mereço mais. E, à minha escala, esforço-me por dar o meu melhor. Salgado, Salgado Salgado? Bárbara, Barbára, Bárbara? Francisco, Francisco, Francisco? (agora parece que vem aí um novo assunto :o sexo ecológico - ou será antes "ocológico"? aviso já que não devem entrar na minha cama, era o que faltava!; a não ser que me apeteça). Casa, descasa, engana, engana, acerta, descasa, casa outra vez. Pedro e Paulo, Paulo e Pedro.

 

Falo em particular deste último, Francisco, porque estou dentro do assunto, dada a minha formação e experiência filosófica e teológica ("que gaja mais convencida!", pode ser, não me importo). E porque sei o que é ser mulher de um marido e por ser mãe de três filhos. E, não menos importante: conheco casais que não podem ter filhos. E porque a sexualidade é um dos campos que mais me interessam. Jornais? Devoro tudo. Ontem, a propósito dos católicos, coelhos, e do que disse o Papa, a confusão que por lá andou. Para dar um exemplo - senão parece que falo do nada - li que a célebre e citada passagem bíblica do crescei e multiplicai-vos é um mandamento de Cristo, do Novo Testamento. Isto é caso para grande penalidade. Outro caso: nunca li nada de fundo sobre a Teologia do Corpo iniciada por João Paulo II. Outra penalidade. Mas não falo mais em penalidades. Senão teria que ir para as crueldades que se fazem a inocentes - dentro e fora da Igreja - e deixa pessoas escangalhadas para a vida inteira. Mas como fui treinada a reter o "bom" (isto vem no Novo Testamento, para abolir o olho por olho do Antigo Testamento),  ainda acredito que isto vá melhorando. Um dia de cada vez, a começar por mim. A ter presente que há mais coisas no céu e na terra do que Guimarães, Salgados e Carrilhos. E que escrever sobre o joelho - eu sei que um ritmo frenético e exigente diário é extenuante e leva a deslizes não intencionais - não dá bom resultado. Pode até ser grave se os assuntos são da beleza e da gravidade da vida. Enganem-se - abortem -  sem querer num assunto menos determinante -  embora, paradoxalmente, todos o sejam. 

 

 

O Papa Francisco, o diabo e os coelhos: upa, upa!

 Papa foi à Tailândia dar colo a estas pessoas/ imagem da net

 

Uma amiga, com muitos filhos, disse-me um dia: às vezes não tenho colo para todos, e eles precisam. Como eu percebo esta conversa do Papa Francisco sobre coelhos, na sua recente visita pastoral ao Sri Lanka e Filipinas. E a conversa sobre o diabo, que já estava fora de moda! Foi na homilia da Missa no Rizal Park em Manila, no Domingo passado. Chama-se a isto chamar as coisas pelo nome, não andar com rodeios: "Às vezes, vendo os problemas, as dificuldades e as injustiças, somos tentados a desistir. Quase parece que as promessas do Evangelho não são realizáveis, são irreais. Mas a Bíblia diz-nos que a grande ameaça ao plano de Deus a nosso respeito é, e sempre foi, a mentira. O diabo é o pai da mentira. Muitas vezes, ele esconde as suas insídias por detrás da aparência da sofisticação, do fascínio de ser «moderno», de ser «como todos os outros». Distrai-nos com a miragem de prazeres efémeros e passatempos superficiais. Desta forma, desperdiçamos os dons recebidos de Deus, entretendo-nos com apetrechos fúteis; gastamos o nosso dinheiro em jogos de azar e na bebida; fechamo-nos em nós mesmos. Esquecemos de nos centrar nas coisas que realmente contam. Esquecemo-nos de permanecer interiormente como crianças."

 

Este homem toca nas feridas sem magoar; amacia as durezas, sem as iludir; interrompe uma viagem apostólica para pegar ao colo quem dele precisa naquele momento (não adia...); tem mostrado a sã teologia que faz e faz fazer; é, como Santo António, um intectual que agrada aos pobres (S. Francisco de Assis, teria sido um pobre que agrada aos intelectuais, como alguém disse um dia). E é curioso como agrada a alguns intelectuais...

 

Tem dado de beber daquela água que vai matando a sede (não é para se beber tudo de uma vez! cada dia nos mata hoje...). É um jesuíta de comer e chorar por mais. Crocante e doce, ao pedir que rezemos por ele. Conte comigo Sua Santidade.

 

 

 

 

 

Charlie hebdo já em filme: "Os Lápis de França" (2015)

 

 Jon Stewart (Credit: Comedy Central)

 

Hoje é copy paste. Este video é genial. Ele tem um talento invulgar: inteligência,humor, pinta. Começa no segundo 32 do link abaixo:

 

 http://www.salon.com/2015/01/13/jon_stewart_mocks_countries_who_jail_journalists_while_claiming_je_suis_charlie/?utm_source=facebook&utm_medium=socialflow

 

Jon Stewart mocks “Je Suis Charlie” hypocrisy: Countries claiming solidarity — even as they jail journalists.

The segment's light and mocking tone ends with a serious statement on freedom of the press VIDEO
SARAH GRAY

Jon Stewart began Monday night’s show by discussing the Paris solidarity rally, which took place over the weekend, in response to the horrific attacks that shook the city. And the comedian didn’t hold back.

 

His mockery extended to all parties: the French (with “tired stereotypes”), himself (about “Rosewater”), the Obama administration (for not attending the march) and most intensely countries that did attend the rally and also censor their own press (Egypt, Turkey, Israel, Saudi Arabia and more).

Brahms: o algodão não engana...

Elisabeth Leonskaja/imagem tirada da net

 

"A Leonskaja é o Sokolov, mas em humano", disse-me no fim do concerto a Teresa. Saltou-se-me a tampa (porque para mim ele é dos melhores), mas percebi o que ela quis dizer. Há uns tempinhos que não ia a um bom concerto. Ontem fui ouvir Brahms no Grande Auditório da Gulbenkian. E a Teresa acrescentou: "vê lá se o Sokolov toca em companhia? Só toca sozinho." Fiquei a pensar no assunto...

 

A pianista russa em anterior temporada interpretou todas as Sonatas para Piano de Franz Schubert em seis recitais. Nessa altura, durante algum tempo livre que teve em Lisboa, ouviu a Orquestra Gulbenkian a ensaiar o Concerto para Piano nº 1 de Brahms. Entusiástica acerca da maneira como o jovem maestro letão Ainars Rubikis interpretou a obra, Leonskaja confessou que gostaria de tocar Brahms com ele. Quando lhe foi perguntado qual dos dois concertos preferiria, ela disse, com os olhos brilhantes: «O meu sonho é o de tocar os dois no mesmo concerto!» Um sonho tornado realidade. (do site da FCG).

 

Falo de música, mesmo. Cheirou-me a Rússia e atirei-me a Brahms, que é da família. Foi cá uma inundação de vida. Uma imponência amaciadora. O transcendente a acontecer-me em todas as minhas margens e lugares. Eu? De menos, a rebentar de dentro numa circunferência porosa. Não há mãos nem instrumentos que dêem conta de tanto. É numa humanidade suada assim, respirada a tento e amorosamente gritante, que o X da existência encarna. Ai de mim se faço contas! Estrago o corte e a costura. Certo que nada acontece sem esta ociosidade livre de relógios e preconceitos assassinos; mas também é verdade que  sem o trabalho de horas sobre horas a teclar à risca o rigor da pauta, nada estaria a postos para que nesse nada coubesse o tudo, o impossível.

 

Sem sabermos como, a beleza, a harmonia, a correspondência entre o fora e o dentro, acontece. Mais uma vez fui apanhada e confirmada na vida que me foi dada, e da qual gosto tanto. E nenhuma graça teria se não fosse uma companhia, e se nessa companhia não fosse feita. A imponência de Brahms devolveu-me, mais uma vez, ao lugar de excelência. É de joelhos que se pedem os encores. Chama-se a isto: contemplar. Contemplar é ver o fundo das coisas. Isso é o céu. A luz. A verdade (aletheia).

 

Por isso é que as utopias são todas umas mentirosas! A felicidade é já uma possibilidade, e uma realidade, para quem a deseja; não é adiada ao serviço de projectos de poder. Não me venham com a conversa do dinheiro. Quanto vale uma nota de Brahms? Se a sociedade não se entende, isso nada tem a ver com Deus. Tem  sim a ver com a minha liberdade. 

 

Quem quer ser milionário?

 

imagem do filme "Quem quer ser milionário" (2009)/tirada da net
 
O Patriarca de Lisboa partilhou, nos ENCONTROS DE SANTA ISABEL, no passado dia 12 de janeiro a sua reflexão sobre o Congresso Internacional sobre a Pastoral das Grandes Cidades, onde participou, em Barcelona e em Roma, em novembro passado.
 

«Partilho convosco os pontos mais relevantes do Congresso Internacional sobre a Pastoral das Grandes Cidades, em cuja segunda fase tive oportunidade de participar (Barcelona – Roma, 24 – 27 de novembro de 2014). 

Organizado pelo Cardeal Martínez Sistach, Arcebispo de Barcelona, e concluído pelo Papa Francisco, reuniu uma vintena de Bispos de vários continentes, com o apoio de reputados sociólogos e pastoralistas, tendo estes participado numa primeira fase, de estudo e preparação. O conjunto das reflexões será certamente publicado em breve e constituirá uma base sólida para o que adiante se fizer em termos de pastoral decididamente urbana e no atual contexto local e mundial: desde 2007, a maioria da população do globo vive em cidades, que irão crescer cada vez mais, com toda a novidade sociológica, cultural e religiosa que tal implicará. Aliás, perspetiva-se uma Fundação de Pastoral das Grandes Cidades que prosseguirá os trabalhos do Congresso.
 
Resumo em algumas alíneas as reflexões do Congresso:


a) Requer-se um “olhar contemplativo” sobre o mundo urbano, com dupla incidência: duma parte, ter o mesmo olhar de Jesus sobre a cidade; doutra, ver o próprio Jesus nos outros, em cada um dos habitantes da cidade.
b) Seguindo o modelo missionário de Jesus, o modelo da Igreja deve ser o da “saída”, não se limitando a manter o que já existe, mas comunicando o Evangelho da misericórdia nas periferias existenciais da cidade.
c) Tal “saída” há de realizar-se pelo contacto pessoal, a capilaridade e o testemunho. Trata-se de pastoral realmente personalizada, o contacto pessoa a pessoa, a conversa e a pregação informal. 
d) As grandes cidades tanto requerem “igrejas domésticas”, nas famílias cristãs, como paróquias que sejam “comunidades de comunidades” e centros de atenção pastoral permanente e criativa.
e) A Igreja na cidade proporá uma cultura cristãmente inspirada, que dialogue com as outras culturas existentes; não como multiculturalidade sobreposta, mas interculturalidade de aproximação e partilha, também nas redes de comunicação social.
f) Não se trata de ser apenas Igreja “na” cidade, mas Igreja “da” cidade, compreendendo e assumindo a unidade urbana, conjugando todas as particularidades de lugares, centrais ou periféricos.
g) A formação e responsabilização do laicado, pessoal ou associado e presente nos vários setores da vida da cidade, é uma exigência básica da pastoral urbana, que não avançará doutro modo.
h) A memória pastoral da cidade, a experiência acumulada do presbitério, a exigência de ser pobre e humilde, o sonho missionário que empolga – tudo isto se requer aos pastores da cidade atual.
i)A liturgia e a comunhão prática dos crentes oferecerão à cidade a previsão atual da Jerusalém celeste, em que ela se transfigurará. É este o modelo a exercitar e a oferecer, para uma “cidade” sem excluídos sociais ou espirituais.
j) A pastoral urbana tanto requer a proximidade episcopal junto dos sacerdotes e fiéis, como a proximidade e disponibilidade das comunidades, de portas abertas a quem passa e procura.   

Na audiência conclusiva, o Papa Francisco acentuou especialmente os seguintes pontos: 

 

1) Urge mudar a nossa mentalidade pastoral, pois já não somos os únicos que produzimos cultura na cidade, nem os primeiros, nem os mais escutados. Façamos uma pastoral audaz, porque os habitantes da cidade esperam de nós a Boa Notícia de Jesus e do seu Evangelho. 

2) Mantenhamos uma atitude contemplativa, que, com todas as contribuições para conhecer o fenómeno urbano, melhor descubra o fundamento das culturas, que no seu núcleo mais profundo se mantêm abertas e sedentas de Deus.

3) Descubramos na religiosidade do povo e dos pobres o seu fundo cristão e católico, enorme potencial para a evangelização das áreas urbanas.

4) Atendamos ao clamor dos pobres, dos excluídos e “descartados”, sem fazer o jogo de quem os quer fazer “invisíveis”. 

5) Pensemos tudo em chave de missão, saindo ao encontro de Deus na cidade e nos pobres, e facilitando o encontro de todos com o Senhor, com igrejas abertas, atendimentos acessíveis para quem trabalha, catequeses e horários adaptados à cidade. 

6) Finalmente, ligando testemunho e cultura urbana: «O testemunho concreto da misericórdia e a ternura que se faz presente nas periferias existenciais e pobres, atua diretamente sobre os imaginários sociais, criando orientações e sentido para a vida da cidade».  

Estou certo que estas reflexões nos ajudarão criativamente no caminho que agora prosseguimos, rumo ao sínodo diocesano de 2016. »

+ Manuel Clemente

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