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Religiões? Passo.

por Fátima Pinheiro, em 28.02.15

 Coimbra, ontem por volta das 14h/ TM do Rasante

 

As religiões têm pontos em comum e pontos em que se distinguem radicalmente. Em geral todas têm períodos de retiro, de paragem das rotinas. Tempo para tomar a vida nas mãos. Falo hoje da religião católica, e mesmo dentro desta há muitas formas de os “passar”. Há quem vá por moralismo, ou para fugir da vida, ou para ser “bonzinho”, sei lá, cada um terá uma razão para esse “passo”. Eu como faço?

 

Vou hoje a um retiro e sei que todas razões para o fazer – que acima referi - podem ser minhas também. E muitas vezes são. Mas sei que o que quero é dar este “passa tempo” para ser mais “eu”, mais livre; para que as rotinas sejam cada vez uma novidade, para me casar com a vida, para ser uma e una com cada respiro, meu e dos outros. Quero ir para ser cada vez menos “boazinha”: chamar cada coisa pelo seu nome, sorrindo ou não, mas a partir de dentro, e não com uma cara de plástico, descartável e fungível. Se isso não acontecer, paciência! Desisitir? Nem pensar.

 

Como diz a nossa Agustina: eu não me levo muito a sério, a vida acaba por vencer. Entenda-se bem: não se trata de uma falta de seriedade diante da vida, dos outros, de mim. É perceber e viver na certeza de que todos os nossos “cabelos estão contados”; e quanto a isso, cito a Bíblia e saio agora para o retiro. Não quero chegar atrasada. Para uma Quaresma em grande! Um “recuo” para um passo livre. Para um gosto de vida nova. Vou, por isso, descalça. Não sem antes beber a minha "italina" de eleição.

 

Lucas  

12, 6 -7

Não se costuma vender cinco pardais por duas pequenas moedas? Entretanto, nenhum deles deixa de receber o cuidado de Deus./ 7 Portanto, até os fios de cabelo da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Valeis muito mais do que milhares de pardais.

 

Mateus

6,26
Contemplai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não tendes vós muito mais valor do que as aves? 

Mateus
10, 30

E quanto aos muitos cabelos da vossa cabeça? Estão todos contados. 

Lucas
21,18

Contudo, não se perderá um único fio de cabelo da vossa cabeça. 

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Estás a gozar ou quê?

por Fátima Pinheiro, em 27.02.15

 

 

 imagem tirada da net

 

Preparo o meu livro de Poemas à Solta. Vou aqui postando um e outro. Espero que gostem.

 

TU

 

Já me procuravas

antes de eu ser!

antes que o sol brilhasse

para mim

já tu me sabias!

antes que a lua houvesse

um poema

já tu me dizias!

Antes que tivera

um olhar

já tu me lançavas!

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Maria Zamora: uma doação

por Fátima Pinheiro, em 25.02.15

 

 Joaquim Paulo Nogueira, Carlos Santos e Maria Zamora, a 12 de Setembro 2013 na ante-estreia da peça acolhida pela Companhia de Atores, em Algés /  fotografia de Inês Torres da Silva

Conheci-a a 12 de Setembro de 2003. Foi a São que me levou ao teatro. Não conhecia a Maria Zamora. Combinamos falar depois. Porque ela me acolheu com um sorriso de orelha a orelha, cheia de vida, curiosa em saber mais de Oliveira, e de cinema. E fiquei de lhe enviar umas coisas. Vai ficar para depois, porque ela curvou na marcha do tempo. E os nossos dias se descruzaram. Não me interessa o discurso que o mundo da cultura é assim ou assado. Nem a conversa de que ela fica no espírito de todos nós. Claro que sim, mas não basta. Uma ova. É ela que me interessa. O Destino dela. O espírito que nela estava sim, mas na carne. Uma unidade que não entendemos como caminha, da qual ignoramos todos os contornos.  Na altura escrevi sobre a peça - "Violência" - e sobre ela (transcrevo em baixo). E espero  conversas face a face, olhares novos.

O artista dá-se sem medida, porque tem dentro de si uma vida que é grande demais para caber nas contas que fazemos cada dia. Maria, ao contrário do Principezinho, mostrou-me o essencial que, afinal, é visível aos olhos. E agora? Nada e tudo. Não olho para trás, mas vivo naquilo que Marcel apelidou de comunidade invísivel dos que vejo e não vejo. A morte é outra forma de violência doméstica. A morte começa no instante em que nascemos. O tempo clarifica se a liberdade que o torna "meu" o deixa à solta e reconhece que sem horizonte nada de verdadeiramente interessante nos acontece. Mal um filho nasce, já voou. E a "pessoa" é bela demais para acabar assim sem mais nem porquê. Quem disse que acaba aqui? Quem de nós se põe em bicos de pés em matéria tão séria? Falo do que experimento e da minha luta diária, pela procura das razões daquilo em que acredito.Sempre a falhar, mas sempre a ter quem me levante. E é tão bom andar! Tenho os joelhos cheios de pensos, o que é bom sinal. Não há vitórias sem lutas. Basta olhar para uma criança, e contemplar como ela passa do não andar ao andar. "Um ano andante, dois anos falante". A Maria não se calou. Isto não é para brincadeiras; está dentro do sorriso do Papa Francisco. Basta ver como ele reza, diante de uma Presença. E agora ainda mais.

 

Então escrevi: « "VIOLÊNCIA" estreia hoje no Teatro Municipal Amélia Rey Colaço.  Texto de Joaquim Paulo Nogueira, encenação de Carlos Santos  e interpretação de Carlos Santos e Maria Zamora. O tema não podia ser mais oportuno. A violência pode matar mas também pode levar a um abraço. Diz o release: "uma filha que viveu num ambiente de violência familiar regressa a casa para assistir ao funeral da mãe e encontra um pai aparentemente regenerado. Conseguirá ela superar as memórias do passado?" (...) Com Maria Zamora , conversamos. Lança perfume. A arte é para ela "o veículo mais completo da comunicação; estar vivo, sentir, respirar, criar, ser, ser compassivo, ser agente interventivo na realidade que nos assola." E a violência, pergunto? "Tem demasiadas faces e manifesta-se de múltiplas formas, como sabe, e nenhuma delas gera a magnificência."

E esta peça porquê? "Respondo-lhe com várias perguntas: Conhece os números de mulheres mortas vítimas de violência doméstica? Conhece a realidade das nossas escolas? Será que o cidadão atento tem consciência que pode ser um agente de mudança desta realidade? O porquê? Nós não temos respostas, cada indivíduo é convidado à reflexão sobre o assunto e agir em conformidade com os seus ideais. Levantamos questões sobre o ódio, a capacidade de perdoar em suma as repercussões emocionais, psicológicas que um ambiente familiar hostil pode trazer para o ser humano, para a nossa vida em sociedade...a solução está na ação e não na omissão."

Este papel viveu-o  "inicialmente com bastantes resistências, não foi nada fácil entendê-la e senti-la. Ao longo da construção do texto com o Joaquim Paulo Nogueira e o mestre Carlos Santos fomos re-descobrindo, a posterior análise dramatúrgica, dos longos meses de trabalho de mesa, de pesquisa no campo, visionamento de vídeos, leituras, dos ensaios e do processo criativo da personagem "Alice" foi ganhando vida, comecei por respeitar o seu estado, o seu lugar e com as orientações do encenador Carlos Santos e contracena, fui percebendo a essência do desequilíbrio desta mulher emancipada que aprendeu a viver com este ódio de estimação, com este sentimento de traição em relação à confiança depositada num pai que a mimava muito quando era criança, é uma mulher que consegue apesar de tudo construir uma vida de amor, emancipou-se desse ódio mas que com muito pesar não o consegue perdoar... pelo menos nessa fase da vida em que se encontra, depois de enterrar a mãe, mãe que deixou a sua sorte nas mãos de um homem violento e que nada fez para o impedir..." »

Pois eu vou regressar a esta Violência.  Gosto da Beleza dos objectos e barulhos do Teatro. E sobretudo do corpo a corpo. Do ao vivo. É uma doação.

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 imagens tiradas da net

 

Um bom actor tem a genialidade de "fazer" qualquer papel. Moore já a conhecia de outros filmes. Nesta interpretação ela faz mesmo uma coisa diferente, um filme diferente daqueles a que nos tem habituado.  O novo filme  tem o seu peso e medida. É Alice... Julianne quê? É caso para perguntar.

 

Quanto a Eddie, é uma vergonha, mas não o conhecia (ups!). Sei que, com este filme, fiquei na "mesma", com a grande diferença de ter ficado dentro do universo que é a pessoa de Stephan Hawking. Espetacular. Qual ser jovem! Giro! Ou Keaton isto e aquilo! Ou a Academia gostar de papéis que implicam  difícil desempenho físico. O que está aqui em causa é que duvido que o físico - o cientista inglês, hoje com 72 anos - pudesse ter sido dado tão exemplarmente com outro Melhor Actor.

 

Já agora, outras (pre) visões deste Rasante:

 

http://rasante.blogs.sapo.pt/a-minha-teoria-de-tudo-68247

 

http://rasante.blogs.sapo.pt/selma-um-caso-de-gestao-razoavel-68699

 

http://rasante.blogs.sapo.pt/clint-eastwood-o-sniper-americano-65556

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 A Beleza de D. Giussani/ imagem tirada da net

 

O CL é um Movimento da Igreja Católica. Ontem, o “novo” Cardeal D.Manuel Clemente, celebrou Missa pelo 10º aniversário da morte de D. Luigi Giussani, seu fundador, e pelo 33º aniversário do reconhecimento pontifício do CL. Pouco conhecido entre nós, o “movimento” começou nos anos 50 (cfr. http://por.clonline.org/). O Papa Francisco vai encontrar-se no próximo dia 7 de Março, em Roma, com este “rosto" de Igreja, como tem feito com outros "rostos" que são a Igreja, uma vida.

Este post destaca porém uma outra “ignorância”. Para tal refiro um jornalista italiano, que contou em livro a vida de Giussani. Usarei em tradução livre a edição italiana - Alberto SAVORANA, Vita di don Giussani,  Rizzoli – Milano, 2013 - em breve em português. Tudo isto para quê? Simples. Um dia, o já padre Giussani  ia no comboio. Ouviu uma conversa entre teenagers sobre Religião e Igreja. Constatou algo muito significativo: as posições que cada um defendia eram baseadas em ignorância, e desenvolvidas a partir de falsos preconceitos. Pensou (digo por minhas palavras): é preciso dar a conhecer, falar verdade, a ignorância é pior que o piolho. Para que a vida seja boa, mas já, e não para depois. Cristo prometeu que quem O seguisse teria a vida eterna e o cêntuplo JÁ.  E o que os miúdos dizem interessa-me. Quero ir para o meio deles. E veio também para o meio de mim, Graças a Deus, já há mais de 20 anos...

A questão decisiva  para Giussani, à qual dedicou toda a sua acção educativa, a sua vida, é então esta: Cristo: sim ou não? Hoje continua verdade. Quem sabe mesmo o que é o cristianismo? A educação é a rocha de sociedade, das pessoas. A minha pedra angular. Sem ela não vamos muito longe.

Hoje mesmo, D. Manuel Clemente, profere, no Mosteiro dos Jerónimos, a primeira catequese da Quaresma, este ano subordinada ao tema "A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira". Mas isto é tarefa de cada um. Já foi tempo em que a Igreja era uma “coisa” de alguns. Cristo é para mim “sim” ou “não”? Para responder é necessário saber de quem estamos a falar.

Destaco então o capítulo 19 do livro que referi. A mim esclareceu-me, e vejo-me num caminho em que a companhia deste movimento me alegra e me dá um gosto de vida nova. Como deu a S.Paulo, a Santa Teresinha do Menino Jesus e a tantos. Porquê? Porque a resposta à pergunta é a razoabilidade que enche e transborda do nosso ”coração”, das exigências e evidências que correm e fazem correr a natureza humana. Quem não tem sede de verdade, justiça, bem e beleza?

  • O que é a religiosidade? «A essência da razão». E qual é a pergunta que se faz mais vezes? «Faço-me tantas». Pode citar uma, pelo menos? «Se Deus deu aos católicos a inteligência, é para a usarem ou fazerem um holocausto dela?»
  • Quando “os tempos são maus”…quer dizer que veio o momento da conversão do coração e da maturidade na fé. [...] A vida vale a pena ser vivida para edificar a glória de Deus, isto é, para construir a humanidade nova na Igreja. Pois bem, em toda a história do cristianismo a condição para construir é o sacrifício, isto é, a cruz …A maturidade da nossa fé - eis a ressurreição.
  • Introdução à realidade, é o que é a educação. A palavra “realidade” está para a palavra “educação” tal como a meta está para um caminho. A meta é todo o significado do andar humano: esta não está presente unicamente no momento em que a empresa se realiza e termina, mas também em cada passo da estrada. Assim é a realidade, que determina integralmente o movimento educativo, passo a passo, e é a sua realização.
  • Infelizmente, a mentalidade laica – Giussani nota que isto é evidente na escola – «não está interessada em dar um contributo para a tomada de consciência efectiva de uma hipótese que explique as coisas unitariamente. O analismo que predomina nos programas abandona o aluno frente a uma heterogeneidade de coisas e a uma série de soluções contrárias entre si que o deixam, consoante a sua sensibilidade, desconcertado e desalentado no meio da incerteza». Em consequência, o jovem «sente, normalmente, a falta de alguém que o guie e que o ajude a descobrir aquele sentido de unidade das coisas, sem o qual ele vive uma dissociação»
  • É precisamente esta constatação que leva Giussani a aprofundar o conceito de autoridade: «A experiência da autoridade surge em nós como um encontro com uma pessoa rica na consciência da realidade; de modo que esta se nos imponha com a revelação e nos traga novidade, espanto e respeito. Da sua parte há uma atracção inevitável, da nossa parte uma inevitável dependência, sujeição». Para Giussani, a autoridade, de uma certa maneira, é o meu “eu” mais verdadeiro. Mas muitas vezes, hoje a autoridade propõe-se e é vista como algo que nos é estranho, que “se acrescenta” ao indivíduo. A autoridade permanece fora da consciência, ainda que talvez seja um limite devotamente aceite»
  • Dentro do percurso educativo, a figura da autoridade é central até accionar a verificação da proposta vinda da tradição «e isto só pode ser feito por iniciativa do jovem e por mais ninguém.

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Grécia: a new kid in town

por Fátima Pinheiro, em 21.02.15

 imagem tirada da net/ podiam ser os Eagles, mas não

 

Mudam-se os “termos” e algumas vontades. Varoufakis é a “novidade” in town, nas reuniões destas últimas semanas. Ao regressar a Atenas será também a new kid in town. Novo na cosmética, porque de facto leva na bagagem apenas mais 4 meses de empréstimo, TPC para apresentar 2ªfeira e o reconhecimento de que afinal somos todos bons rapazes, e de que mais vale acompanhado do que uma solidão teimosa em não reconhecer que a EU faz a força. A zona euro não derivou, e não houve regra que se alterasse. Houve mudanças acidentais mas a substância mantem-se (cfr.http://www.consilium.europa.eu/en/press/press-releases/2015/02/150220-eurogroup-statement-greece/). 

Palavras suas, ontem: “Hoje foi um momento decisivo, porque a Grécia tem-se sentido muito só, isolada, nas reuniões do Eurogrupo. Hoje quebrámos esse isolamento”. “Quebrámos”? Quem quebrou? Quem o “acolheu”. Uma espécie de regresso do filho pródigo. Mas percebo as especulações em torno do que parece ser uma lança na Europa. Percebo que gostemos do ”agora é que é”, “este sim”. Percebo que se prefiram “salvadores” bem parecidos e de boa retórica, ou, se quisermos, uma ideologia “atractiva” de promessas, a um discurso de cortes e austeridade. As utopias sempre pareceram o discurso mais razoável.

“Troika” tem agora o nome “instituições internacionais”,“parceiros”, cooperação”. Mas no passa nada: tudo fica como o Eurogrupo tem definido. Mantém-se o programa de resgate com a sua lógica e mantém-se a troika a negociar e garantir o seu cumprimento. Mantêm-se em vigor as medidas tomadas ao abrigo dos acordos com a troika, comprometendo-se Atenas a não avançar com medidas de forma unilateral. Tudo ao contrário do que pedia o novo governo grego. Os eleitores perceberão que se trata de uma extensão do programa de ajustamento (expressão de Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, que não esteve com meias tintas), que tem subjacente o célebre Memorando de que tanto falamos. Remember the promise you made...

A Grécia tem, sem dúvida, liberdade para propor um conjunto de medidas orçamentais novas, mas serão as entidades FMI, BCE e Comissão Europeia  - "externos", "não gregos" - que irão avaliar se são ou não suficientes e informar o Eurogrupo dessa avaliação. Mas se os gregos fizerem mal o TPC a apresentar na 2ªf no Eurogrupo, o acordo atingido ontem é zero. Jeroen Dijsselbloem lembrou que as políticas “não devem colocar em risco a recuperação económica”, e que se irá usar a “flexibilidade existente no programa”. O que não significa que haverá um novo programa, mas que importa sempre discuti-lo. Naquele espírito dos fundadores da EU, que sempre a viram como uma vida e não como um esquema inflexível.

Em suma: a montanha terá parido um rato, um recuo gradual do governo grego face às promessas eleitorais e dos primeiros dias de governo. Wolfgang Schäuble, o ministro alemão, reconheceu que o novo ministro das finanças da Grécia terá “alguma dificuldade em explicar aos seus eleitores” o acordo atingido no Eurogrupo de 20 de fevereiro de 2015. Que se lembre, digo eu, que o povo nem sempre bem ordena. E que a democracia é, através de todas estas contradanças, o melhor kid in town.

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Manoel de Oliveira é o realizador deste blogue

por Fátima Pinheiro, em 20.02.15

 

 fotografia de JM

 

Há poucos anos um amigo meu - que sabe que sou comunicativa por natureza - falou-me na possibilidade de criar um blogue. Comecei por achar que era uma tarefa impossível, até porque não sou muito dada a tecnologias e não sabia como começar tal “coisa”; mas a certa altura resolvi arriscar, e “atirei-me” a essa aventura. Na altura vivia uma circunstância pessoal difícil, e vi este desafio como uma oportunidade de me abrir à vida e aos outros, em vez de me fechar na minha própria dificuldade. 

 

Tomei como fonte de inspiração uma grande figura da nossa cultura, de quem gosto e que admiro muito, o cineasta Manoel de Oliveira. Alguns dos seus filmes foram marcantes na minha vida, e por isso decidi dedicar-lhe a minha entrada na blogosfera. Daí ter escolhido como primeira imagem do meu blogue a estátua de Joana d’Arc que se pode encontrar em Paris e que surge precisamente no filme de Oliveira “Belle Toujours”.

 

Como se costuma dizer, na vida “não há coincidências”, e a verdade é que o livro "Rasante" (Chiado editora, 2014), foi lançado no dia de aniversário de Manoel de Oliveira. De certo modo posso dizer que tudo o que escrevo tem no olhar o modo como Oliveira olha para a vida, portanto nesse sentido o conjunto de crónicas reunidas no livro é um pouco “o filme da minha vida”.

 

Tal como dizia Camus, quem escreve deseja ser lido, não há escrita exclusivamente para si próprio, e portanto estes meus textos são também isso: reflectem a necessidade e o gosto de chegar aos outros, de comunicar, de dar um pouco de mim, das minhas alegrias e das minhas tristezas, da minha forma de pensar e de sentir a vida – e, claro, de receber em troca o feedback de quem me lê.

 

O ritmo de escrita de um blogue como este é o ritmo quotidiano, por isso estes textos estão marcados pelos acontecimentos diários do nosso país, do mundo, e pelo modo como eles atravessaram a minha vida.

 

Há poucos anos publiquei um livro a quatro mãos, com uma amiga minha, a Maria do Rosário Lupi Bello, sobre uma outra grande figura da nossa cultura, a pedagoga Maria Ulrich, de quem aprendi que na vida tudo interessa, não há nada desprezível, que não mereça o nosso olhar e o nosso juízo. Também este aspecto me norteou sempre na construção dos meus textos: o desejo de olhar tudo o que acontece com curiosidade e vontade de compreender. Vontade de dizer sim. Oliveira no CCB disse na presença de Bento XVI, falando em nome do mundo da Cultura: “os seres humanos caminham na esperança, apesar de todos os negativismos. Como diz o padre António Vieira: ‘terrível palavra é o Non, por qualquer lado que o tomeis é sempre Non...’,  terminando por lembrar que o Non tira a Esperança que é a última coisa que a natureza deixou ao homem.”

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antes de entrar no quartinho de brincar/imagem tirada da net 

 

O sucesso do filme de Grey deve-se ao facto de sermos feitos para o mistério. Só que nos oferece um mistério raquítico, e não aquele que não cabe no desejo que habita em mim, em cada ritmo meu. Desejo que me acompanha desde que sou lançada ao mundo e berro e nesse momento todos se comovem, até ao respiro que nos leva “desta para melhor”. Porque será que gosto de coisas misteriosas? Assim como brincar às escondidas? O que acabo de ver em estreia, e que pretende ser arraso e liberdade,  é mais uma burricada, e a malta engole. 

 

Quando era pequenina adorava o oculto. E agora também. Céus escuros, céus estrelados, quartos ou sótãos proibidos atraem-me. Em pequenina às vezes “entrava” neles, e às vezes tinha medo e precisava da mão de alguém mais crescido (podia ser o irmão mais velho, um ano de diferença chega); outras só mesmo pela mão da mãe ou do pai. E considero que o mesmo se passa com as pessoas em geral. O sucesso do filme «As Cinquenta Sombras de Grey» - adaptação cinematográfica do livro best-seller – tem seguramente parte da sua explicação neste gosto. Desde o seu lançamento, a trilogia «Cinquenta Sombras» foi traduzida em 51 idiomas em todo o mundo e vendeu milhões. Todos! É o hit, fenómeno do qual todos falam, um pouco à maneira do que aconteceu com o livro “O Código da Vinci.” Só que no caso de Grey o cinzento mancha o vermelho fresquinho do amor. Faz mal.

 

O amor do irresistível homem poderoso em tudo, mata. A confiante jornalista é um caso de “o amor é cego”. Quando ele lhe pega na mão para a levar à câmara do brincar dele, ela, de olhos cerrados por ele, ainda lhe pergunta se é o quarto dos jogos de computador ou assim (para jornalista sabe pouquinho; deve ser estagiária; eu com a idade dela já sabia mais qualquer coisita…). Dir-lhe-ia: Não entres tão depressa nesse quarto claríssimo! Ou cantava-lhe com a Dora: “não sejas mau para mim”http://youtu.be/rSFxafh6QJ4

 

Mas não. Nada há que eu não controle, diz convicto o educado Sr.Grey. O querer dela também. E uma rapariga fica a pensar que dar-se é dar-se “assim”. “O meu Ernesto ama-me mesmo”, diz uma. A outra: “Nem penses, o meu Artur tem umas algemas novas que nem imaginas”, replica a outra. “E o chicote!” É o amor. E isto vai-se entranhando e chega-se a pensar que é assim. E o amor fica reduzido ao receber dum domínio que nos faz pensar que somos as únicas a ter tais “delicadezas”. E de sexo, venham-me depois falar de pedofilia ou de padres que fazem isto ou aquilo. Ou pisem-me nos transportes públicos: aí protesto. Mas com os Greys, fiche!

 

O amor é cego. Neste caso é mesmo ceguinho: sombras que não deixam ver porque nada escondem. Câmaras claras que só sabem descarregar o mesmo do mesmo. Não dão o novo amanhecer. O "nosso" (?) mundo está contaminado de Anastasia(s), estudantes de literatura, ou outra coisa,  a chocarem com Christian (s) Grey. Numa ilusão real de um amor etéreo. Numa carne mentirosa porque desenhada a régua e esquadro, carne talhada à medida de um plano. Tudo o contrário da carne viva de um gosto de vida nova, de um prazer que nasce sempre novo, que penetra  os olhos do outro, deixando sempre o fundo dum lago que não tem fundo. Olhos que são janelas do infinito. Olhos de corpos singulares. Pessoais. Já o livro nada nos dava disto. O mesmo do filme. Vá lá. Não são vampiros. Mas é muito pobrezinho. Mesmo desumano. Mesmo destrutivo. E é isto que vende; o que também não é novidade. É a globalização da indiferença, disse hoje o Papa Francisco, nesta quarta-feira de cinzas.

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imagem tirada da net 

 

SE calhar já foi, e eu acordei tarde e não sei.  Diziam as "notícias" : "O dia 11 de fevereiro pode ficar marcado pela morte de Bobbi Kristina. É essa a vontade da família, que está a preparar-se para que a morte da jovem seja declarada no mesmo dia que a da mãe", Whitney Houston, "como forma de unir mãe e filha para a eternidade, ainda que simbolicamente." Voltamos à mitologia? Eu sei, a Grécia é o que está a dar!

 

Whitney Houston faleceu a 11 de fevereiro de 2012, aos 48 anos. A filha foi encontrada morta num quarto de hotel, em Beverly Hills. Bobbi Kristina está em coma induzido desde 31 de janeiro, data em que foi encontrada inconsciente. Mas que pressa. Vão ver o filme "A teoria tudo", porque se vê bem e depressa que muita coisa muda. Quando menos se espera. Mas vivemos mergulhados nesta "cultura" do descartável...

 

Hoje é dia mundial do doente. Vale a pena ler a mensagem do Papa Francisco para este dia e a entrevista do Terça à Noite, ontem a Pedro Nunes, ex-bastonário da ordem dos médicos.

 

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Os santos são elásticos?

por Fátima Pinheiro, em 10.02.15

 imagem tirada da net

 

São sim. Pelas razões aqui referidas acerca do Amor como critério de gestão. Contudo hoje escrevo acerca de uma mulher que se destacou na História: Santa Escolástica. Hoje, passado um ano da morte do Luís, grande amigo e “pequeno” em idade, a Igreja celebra o seu dia. Quem conhecia o Luís sabe que ele era feito do elástico da melhor qualidade. E como ainda ando em obras - mais um mês, e já começo a escrever como deve ser – fui ao portal das Paulinas, que tem muito a dizer, e escuso de andar a inventar. Até amanhã, vou trabalhar para as obras. E lembro-me do que diz um tio do Luís: não peças ajuda a pessoas que têm muito tempo, pede às que estão ocupadas. Elásticas, topam?

 

«O nome de Santa Escolástica, irmã de São Bento, leva-nos para o século V, para o primeiro mosteiro feminino ocidental, fundamentado na vida em comum, conceito introduzido na vida dos monges. São Bento foi o primeiro a orientar para servir a Deus não "fugindo do mundo" através da solidão ou da penitência itinerante, como os monges orientais, mas vivendo em comunidade duradoura e organizada, e dividindo rigorosamente o próprio tempo entre a oração, trabalho ou estudo e repouso.

Escolástica e Bento, irmãos gêmeos, nasceram em Nórcia, região central da Itália, em 480. Eram filhos de nobres, o pai Eupróprio ficou viúvo quando eles nasceram, pois a esposa morreu durante o parto. Ainda jovem Escolástica se consagrou a Deus com o voto de castidade, antes mesmo do irmão, que estudava retórica em Roma. Mais tarde, Bento fundou o mosteiro de Monte Cassino criando a Ordem dos monges beneditinos. Escolástica, inspirada por ele, fundou um mosteiro, de irmãs, com um pequeno grupo de jovens consagradas. Estava criada a Ordem das beneditinas, que recebeu este nome em homenagem ao irmão, seu grande incentivador e que elaborou as Regras da comunidade. 

São muito poucos os dados da vida de Escolástica, e foram escritos quarenta anos depois de sua morte, pelo santo papa Gregório Magno, que era um beneditino. Ele recolheu alguns depoimentos de testemunhas vivas para o seu livro "Diálogos" e escreveu sobre ela apenas como uma referência na vida de Bento, pai dos monges ocidentais. 

Nesta página expressiva contou que, mesmo vivendo em mosteiros próximos, os dois irmãos só se encontravam uma vez por ano, para manterem o espírito de mortificação e elevação da experiência espiritual. Isto ocorria na Páscoa e numa propriedade do mosteiro do irmão. Certa vez, Escolástica foi ao seu encontro acompanhada por um pequeno grupo de irmãs, quando Bento chegou também acompanhado por alguns discípulos. Passaram todo o dia conversando sobre assuntos espirituais e sobre as atividades da Igreja. 

Quando anoiteceu, Bento, muito rigoroso às Regras disse à irmã que era hora de se despedirem. Mas Escolástica pediu que ficasse para passarem a noite, todos juntos, conversando e rezando. Bento se manteve intransigente dizendo que deveria ir para suas obrigações. Neste momento ela se pôs a rezar com tal fervor que uma grande tempestade se formou com raios e uma chuva forte caiu a noite toda, e ele teve de ficar. Os dois irmãos puderam conversar a noite inteira. No dia seguinte o sol apareceu, eles se despediram e cada grupo voltou para o seu mosteiro. Essa seria a última vez que os dois se veriam.

Três dias depois, em seu mosteiro Bento recebeu a notícia da morte de Escolástica, enquanto rezava olhando para o céu, viu a alma de sua irmã, penetrar no paraíso em forma de pomba. Bento mandou buscar o seu corpo e o colocou na sepultura que havia preparado para si. Ela morreu em 10 de fevereiro de 547, quarenta dias antes que seu venerado irmão Bento. Escolástica foi considerada a primeira monja beneditina e Santa.»

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