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O Fado não existe (audio)

por Fátima Pinheiro, em 31.07.15

 

 Ana Roque/TM Rasante

 

Ontem fiz-me ao fado. De facto, e apesar de ele ter nascido um dia, quando o vento mal bulia, o fado não existe. Adeus tristeza, cantou-me a Ana Roque no fim da conversa que tivemos no final do seu espetáculo. Não existe?!

É como disse um dia Manoel de Oliveira: o cinema não existe, existem sim as cadeiras. Oiçam o que registei. E no fim marquem como "não ouvido". Apesar de não existir, ele nasce cada dia, neste veleiro, na boca de um marinheiro. Beija o ar, mais nada, e tudo é teu.

 

 

 

 

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O resto é conversa

por Fátima Pinheiro, em 30.07.15

A pergunta a fazer. O resto é conversa.

 

 imagem tirada da net

 

 notturno…. (Biblioteca Nazionale di Napoli)

Giacomo Leopardi

Link: Os textos da Obra Completa, com comentários. 5 estrelas!

http://www.classicitaliani.it/index120.htm

 

 

«Che fai tu, luna, in ciel? dimmi, che fai,
silenziosa luna?
Sorgi la sera, e vai,
contemplando i deserti; indi ti posi.
Ancor non sei tu paga
di riandare i sempiterni calli?
Ancor non prendi a schivo, ancor sei vaga
di mirar queste valli?
Somiglia alla tua vita
la vita del pastore.
Sorge in sul primo albore
move la greggia oltre pel campo, e vede
greggi, fontane ed erbe;
poi stanco si riposa in su la sera:
altro mai non ispera.
Dimmi, o luna: a che vale
al pastor la sua vita,
la vostra vita a voi? dimmi: ove tende
questo vagar mio breve,
il tuo corso immortale?
Vecchierel bianco, infermo,
mezzo vestito e scalzo,
con gravissimo fascio in su le spalle,
per montagna e per valle,
per sassi acuti, ed alta rena, e fratte,
al vento, alla tempesta, e quando avvampa
l’ora, e quando poi gela,
corre via, corre, anela,
varca torrenti e stagni,
cade, risorge, e piú e piú s’affretta,
senza posa o ristoro,
lacero, sanguinoso; infin ch’arriva
colà dove la via
e dove il tanto affaticar fu vòlto:
abisso orrido, immenso,
ov’ei precipitando, il tutto obblia.
Vergine luna, tale
è la vita mortale.
Nasce l’uomo a fatica,
ed è rischio di morte il nascimento.
Prova pena e tormento
per prima cosa; e in sul principio stesso
la madre e il genitore
il prende a consolar dell’esser nato.
Poi che crescendo viene,
l’uno e l’altro il sostiene, e via pur sempre
con atti e con parole
studiasi fargli core,
e consolarlo dell’umano stato:
altro ufficio piú grato
non si fa da parenti alla lor prole.
Ma perché dare al sole,
perché reggere in vita
chi poi di quella consolar convenga?
Se la vita è sventura,
perché da noi si dura?
Intatta luna, tale
è lo stato mortale.
Ma tu mortal non sei,
e forse del mio dir poco ti cale.
Pur tu, solinga, eterna peregrina,
che sí pensosa sei, tu forse intendi,
questo viver terreno,
il patir nostro, il sospirar, che sia;
che sia questo morir, questo supremo
scolorar del sembiante,
e perir dalla terra, e venir meno
ad ogni usata, amante compagnia.
E tu certo comprendi
il perché delle cose, e vedi il frutto
del mattin, della sera,
del tacito, infinito andar del tempo.
Tu sai, tu certo, a qual suo dolce amore
rida la primavera,
a chi giovi l’ardore, e che procacci
il verno co’ suoi ghiacci.
Mille cose sai tu, mille discopri,
che son celate al semplice pastore.
spesso quand’io ti miro
star cosí muta in sul deserto piano,
che, in suo giro lontano, al ciel confina;
ovver con la mia greggia
seguirmi viaggiando a mano a mano;
e quando miro in cielo arder le stelle;
dico fra me pensando:
a che tante facelle?
che fa l’aria infinita, e quel profondo
infinito seren? che vuol dir questa
solitudine immensa? ed io che sono?
Cosí meco ragiono: e della stanza
smisurata e superba,
e dell’innumerabile famiglia;
poi di tanto adoprar, di tanti moti
d’ogni celeste, ogni terrena cosa,
girando senza posa,
per tornar sempre là donde son mosse;
uso alcuno, alcun frutto
indovinar non so. Ma tu per certo,
giovinetta immortal, conosci il tutto.
Questo io conosco e sento,
che degli eterni giri,
che dell’esser mio frale,
qualche bene o contento
avrà fors’altri; a me la vita è male.
O greggia mia che posi, oh te beata,
che la miseria tua, credo, non sai!
Quanta invidia ti porto!
Non sol perché d’affanno
quasi libera vai;
ch’ogni stento, ogni danno,
ogni estremo timor subito scordi;
ma piú perché giammai tedio non provi.
Quando tu siedi all’ombra, sovra l’erbe,
tu se’ queta e contenta;
e gran parte dell’anno
senza noia consumi in quello stato.
Ed io pur seggo sovra l’erbe, all’ombra,
e un fastidio m’ingombra
la mente, ed uno spron quasi mi punge
sí che, sedendo, piú che mai son lunge
da trovar pace o loco.
E pur nulla non bramo,
e non ho fino a qui cagion di pianto.
Quel che tu goda o quanto,
non so già dir; ma fortunata sei.
Ed io godo ancor poco,
o greggia mia, né di ciò sol mi lagno.
se tu parlar sapessi, io chiederei:
– Dimmi: perché giacendo
a bell’agio, ozioso,
s’appaga ogni animale;
me, s’io giaccio in riposo, il tedio assale? –
Forse s’avess’io l’ale
da volar su le nubi,
e noverar le stelle ad una ad una,
o come il tuono errar di giogo in giogo,
piú felice sarei, dolce mia greggia,
piú felice sarei, candida luna.
O forse erra dal vero,
mirando all’altrui sorte, il mio pensiero:
forse in qual forma, in quale
stato che sia, dentro covile o cuna,
è funesto a chi nasce il dí natale

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O meu corpo é muito bom!

por Fátima Pinheiro, em 29.07.15

 Pier Paolo Pasolini/imagem tirada da net

 

Dêem-me perguntas. Adoro. Deus e o diabo vão aturar-me sempre. Escolhi estudar Filosofia por "desporto". É mesmo o trabalho que gosto. E "felizes" os que trabalham naquilo que gostam, porque aumentam ao gostar natural o das horas de trabalho - dimensão enorme da existência, não só por nos ocupar longas horas, mas porque é através dele que temos a oportunidade de realizar, descobrir e construir. Tudo. O desemprego pode aumentar. Mas trabalho há sempre. O dinheiro é uma grande chatice, e quero também escrever sobre isso. Mas hoje escrevo sobre homens e mulheres. Normalmente acordo cheia de coisas na cabeça, e só descanso quando as passo ao papel. Hoje acordei a pensar neles.

O assunto interessa-me há muito. Nas discussões de adolescência, quando se falava das diferenças entre homens e mulheres, amuava e não discutia. Dizia apenas que o que interessava era a pessoa. Estava completamente out. Eles estavam certos. No fundo fui sempre um bocadinho tótó; um dia, na 3ª classe, perguntei à D. Júlia por que é que na pré-história só se falava do "homem", se "não havia então mulheres?"...; não que fosse completamente estúpida, um dia até mordi a Cristina, e levei reguadas. Mas era assim. E quando, já no liceu, as 7 mais belas raparigas se juntaram para serem as 7 mosqueteiras, as 7 magnífícas, ou os 7 anões, aceitei - e ainda hoje gosto de ser - o nome "Dunga". O que ainda nos divertimos.

Agora? Não falo de cor. Não há muitos anos, por razões de trabalho recebi uma pessoa que tinha nascido homem (devia ter sido cá uma brasa! alto, olhos lindos, verdes, etc; fui tentando adivinhar ao longo da conversa como seira "ela" antes, mas não me podia distrair porque o tema era sério) e que tinha feito uma operação de restituição sexual e agora é mulher. Passamos umas boas, boas, horas, a "tratar" do problema que a levava ali.

Normalmente quando falo com alguém olho muito para a pessoa. Foi o que aconteceu. Ela olhava-me intensamente. A certa altura disse-me que se sentia tão bem a falar comigo que nem tinha vontade de fumar. E cheirava-se que fumava muito. E que era feliz com o namorado. Pois ainda bem. Mas o que eu via não coincidia. Ela dizia uma coisa e eu via outra.

Não me venham com a conversa do "respeito". O que é que isso acrescenta aos factos? É como a palavra "assumir"? Mas assumir o quê. A pessoa é, ou não é. Ama ou não ama. Eu sei lá se sou se sou mais doente do que aquela rapariga? E que há muitas doenças que escangalham a pessoa há. Respeitar, assumir, estão a mais. Se não é doença, melhor.

As diferenças entre homem e mulher qualquer criança sabe. É como quando pergunto aos amigos dos meus filhos quando vêm pela primeira vez lá a casa: quantos dedos do pé tenho, e eles dizem logo "5". "Como é que sabes? Não estás a ver!" Podia escrever um livro com as respostas. Mas têm a certeza que é "5". Não precisam de ver. Por acaso num deles só tenho quatro, fui operada...

É uma questão de sexualidade. O que é sexualidade? Não estou a devolver a batata quente. É a pergunta que fiz e à qual venho obtendo resposta. Já sabia mas faltava mais. E continuo a aprender. E aprender implica descobrir os elos, as razões, e de como o sentimento a ela (à razão) está colado (Kant neste ponto não teve pontaria, porque eu não sou, nem quero ser, anjo). E nada se percebe se não se passa pela homossexualidade; e aqui há a masculina e a feminina, que distam uma da outra como o céu da terra. "Perdi" muito tempo a ver as pessoas. Fiquei a conhecer-me melhor e aos outros. E isto não acaba...

Andamos muito tempo no tabu do corpo. Foi a religião católica, dizem. Há uma parte de razão, nos factos. Mas não esquecer as religiões e as morais antigas, e as de hoje, que pensam que ao inundarem-nos de incensos, óleos e mirras (olhem as lojas dos milhares de centros comercias, ou bestiais...) nos querem elevar acima do sofrimento, que vem do corpo e sofrimentos adjacentes. Nunca gostei de anestesias, prefiro chorar. Mas, claro, gosto mais de abraços. Todos. O corpo é muito bom!

Ó Richard, meu oficial e cavalheiro, que pena! E eu que gosto tanto do Lama, de facto. Mas foi um papa polaco, filósofo, que agarrou em Husserl e voltou a olhar para o corpo e a discorrer (não fosse ele um atleta). Estava demasiado perto da Rússia para não se ter deixado espantar pela beleza dos corpos de um homem e de uma mulher. Foi nele que bebi, aprendo, e vou vivendo as "palavras" magníficas. Experimento e verifico quem sou e o que é ser mulher. Experimento e verifico o que é ser homem. Sei o que se ganha e o que se perde. Não respeito, nem assumo. Limito-me a ser mulher. Mas sei porque não gosto do "mesmo do mesmo". Não sou bruxa, sou apenas humana, converso, dou atenção (tento) e por isso sei os factos e as razões - porque conheci e conheço pessoas assim - que levaram (e levam; e aqui mea culpa...) a procurar o mesmo do mesmo.

A mim o diferente abre-me ao mistério, dá-me vertigens. Voo e vejo mais longe - saio da gaiola - e não me limito às promessas de um conforto que insiste em invadir-me como se fosse uma ditadura a dizer "da igual, se te gusta"! Isto já vai longo. Há pano para mangas. Para as por e tirar. A sexualidade reside na bela diferença.

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"Bora" apoiar estudantes Sírios?

por Fátima Pinheiro, em 28.07.15

imagem retirada do site da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

 
 
Pedro Santana Lopes, Provedor da  Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e Jorge Sampaio, presidente da Global Plataform for Syrian Students, assinam, esta terça-feira, 28 de julho, um Memorando de Entendimento entre as duas instituições, no Convento São Pedro de Alcântara. 
 
Lê-se no site da SCML:
 
«Memorando apoia estudantes sírios
 
A assinatura de um memorando de entendimento entre as duas instituições vai possibilitar que estudantes sírios prossigam os seus estudos, apesar da guerra.
 
O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Pedro Santana Lopes e o presidente da Global Plataform for Syrian Students, Jorge Sampaio, assinam, esta terça-feira, 28 de julho, um Memorando de Entendimento entre as duas instituições, no Convento São Pedro de Alcântara. 
 
A assinatura deste memorando permite a atribuição de dez bolsas de estudo, no valor de cerca de 50 mil euros por ano, a jovens estudantes sírios, inscrições nas universidades para licenciaturas e mestrados/doutoramentos, bem como a atribuição de residências.
 
A "Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios", é uma iniciativa que visa angariar subsídios de emergência para que estudantes sírios possam continuar os seus estudos, apesar da guerra no seu país. Após conversações entre Jorge Sampaio e o Provedor, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa passa a ser uma das entidades a integrar esta plataforma internacional.
 
27 de julho de 2015  »

 

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Guadalupe de Carvalho/fotografia de J. Marques

 

 

“Spectre”, é o nome do novo filme do 007.  Sempre gostei do agente ao serviço de Sua Majestade até ao momento em que me aparece este louro, mãos mesmo luvas brancas. Sempre o achei como que saido da lexívia. Bem, ele há para todos os gostos. Percebo porque foi este o eleito; mas acho mesmo que é um espectro do que já foi o Bond à séria...Estou a ficar velha? Estamos todos. 

 

 

 Porque agrada a todos os gostos. A Raquel Welch a emergir das águas com aquele biquini cor de laranja é apenas coisa estética. A ver de longe. Nem percebo porque foram agora buscar uns bocadinhos da bela Monica Bellucci. Se calhar vem precisamente nesta mesma lógica de agradar a todos. Mas claro que não vou perder. Aliás, não perdi o último, que fui ver com a minha amiga Guadalupe de Carvalho, conhecida em todo o Portugal e ilhas. Ela, tal como eu, saimos desconsoladas q. b. "Faltam aquelas cenas...tá a ver?". "É só pancadaria". "Aqueles beijos....". Como eu a entendo. Mas em Novembro (?) lá marcaremos presença. Olhem na fotografia acima. Não é linda de morrer? Ela sim, uma bond girl de verdade.

 

 

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Manzoni: afinal havia outro....

por Fátima Pinheiro, em 23.07.15

 uns noivos/imagem tirada da net

 

 

A Fundação Maria Ulrich abriu as portas a uma conferência do Pe Paolo, da Paróquia de Alverca, um italiano que conhece a fundo a literatura italiana. O tema era, desta vez, o livro "Os noivos", duma coleção coordenada por outro padre bem conhecido entre nós, José Tolentino Mendonça. Falamos um bocadinho; eu vou ler o livro nas férias e precisava de o ouvir olhos nos olhos. Na sua apresentação compara o autor a um outro grande da literatura, Leopardi, este sim, eu já conheco dos seus fabulosos poemas. Acutilante a sua forma de os distinguir: Leopardi "pergunta", Manzoni dá "respostas".  Longe não vai,quem não sabe distinguir. Gostei da tertúlia, à boa maneira de Maria Ulrich. Caso para dizer que até as paredes também falaram....

 

 

 

 

 

 

 

 

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 imagem tirada da net

 

 

Poucos dias depois da morte de Oilveira, uma conversa com Eduardo Lourenço,  onde ele nos diz, afinal, o que entende por cinema. O que entende sobre a vida.

 

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Tolentino Mendonça apresenta Bergman

por Fátima Pinheiro, em 21.07.15
 

  Ingmar Bergman/fotografia tirada da net

 

Hoje fia fino. No Nimas às 21h 30, um filme fabuloso, um Bergman fabuloso, apresentados por um homem fabuloso, José Tolentino Mendonça. Vi o filme há pouco, "A luz de inverno". Vou re-petir tudo, e o que escrevi então aqui. Um de mil pontos de partida. Para mim,claro.

 

Rezava (ou rasava) assim:

 

«Os filmes são para ver "em grande". Ainda estão a tempo de ir ao Nimas ver o filme, do qual puz a imagem acima. Tenho pedido ao pai natal que me dê uns matraquilhos e uma sala de cinema para por na minha casa, mas até agora nada. Agora a sério. As versões restauradas melhoram, como é o caso desta obra de Bergman, de 1963, uma das três do seu ciclo "o silêncio de Deus". E o filme? E Bergman? E Oliveira? E o Pedro e Paulo, do título? Simples. Eu explico.

 

Em hora e meia, o que parece de uma aspreza e carregado de um tédio insuportável, pior ainda que um preto e branco que nos rouba o colorido da vida, é antes um presente que Bergman nos oferece. A Luz de Inverno é umempowerment, numa gestão que toca no mais fundo de nós e evidencia o que está em causa na vida. É uma comunhão. É uma libertação. E Oliveira? É chamado aqui porque é sobre ele que mais tenho escrito. Mas mais, eles dão-nos o mesmo, só que de formas diferentes. Acabo de os casar.

 

De Oliveira tenho dito e redito que tem uma forma fenomenológica de realizar. Bergman não prima nisso. Ainda não encontrei  o filosofar de Bergman. Só sei que vai "directo ao assunto", e que faz doer mais. Oliveira, sendo a autencidade em pessoa e nos filmes, é no entanto mais suave. Isto durante o filme. No depois, é Oliveira que dói mais, porque, continuando o filme presente, é um desafio constante à liberdade. Este filme de Bergman tem um fim que nunca poderia ser o de Oliveira. Bergman é um shot. Oliveira, uma agulha a ver se é apanhada pela veia. Um embucha,o outro estica. Mas se tivesse que dar um filósofo a Bergman - como a Oliveira dou Husserl - ia logo para S.Tomás. Ou Wittgenstein, para dar um do mesmo século. Mas que trabalho isto me vai dar! Fico-me hoje por estas notas rasantes. Digo ainda que ambos  mostram conteudos de fé e argumentos da razão. Parece-me que Bergman toca mais na fé, Oliveira na razão. Bergman é brutal no visionamento do filme: cada imagem tem um poder que ainda não encontrei noutros realizadores. Oliveira é uma música de fundo que se confunde com o nosso respirar.

 

Quem "aguentar" ver o filme até ao fim, ganha uma vida. Ontem privei com este perito em fazer com que os sentimentos saiam do ecrã, e se tornem tangíveis. São os meus sentimentos. Vivo-me por dentro. Sinto.

 

Diz Bénard da Costa (vem no folheto do Nimas) :"é o filme de Bergman em que o seu reinado é mais absoluto". Nudez absoluta.  E talvez o melhor comentário sobre Bergman (ainda estou) no folheto, seja este: "O cinema não é um ofício. É uma arte. O cinema não é um trabalho de equipa. O director está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico". (Jean-Luc Godard, "Bergmanorama", Cahiers du cinéma, Julho – 1958).  Pois é, Oliveira não dá - no decorrer do filme - as respostas.  E já que e Igreja celebra hoje dois homens espectaculares, digo  de Bergman e Oliveira, que um é Pedro, e o outro é Paulo.»

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Zambujo e a Pica da Lousã! ?

por Fátima Pinheiro, em 20.07.15

 

Oiça-se, ao minuto e cinco do video acima, o refrão da Canção da Lousã. Quero só afirmar que é muito feio insinuar. Agora, que existe esta canção da Lousã existe. Escrevo isto porque anda no youtube um video que sugere que Zambujo copiou a música da Canção da Lousã, que eu desconhecia até ao momento.

 

Devo dizer que gosto muito do youtube. Mas quando é uma brincadeira é melhor esclarecer. Eu que até sou brincalhona, não gosto de brincadeiras. Estamos a falar de uma canção que recebeu um Globo de Ouro entregue no Coliseu e que merece estas palavras de Zambujo:  «“Muito obrigado a todos. Quero agradecer à SIC e à CARAS e gostava também de sugerir que este prémio fosse entregue ao autor da música, por isso vou entregá-lo ao meu melhor amigo, o Miguel Araújo, que é um músico fabuloso”, afirmou o artista, chamando ao palco o colega. Os dois acabaram por protagonizar um dos momentos mais divertidos da noite, quando Miguel Araújo referiu que quando escreveu o tema precisou de alguém com “uma voz fininha para o cantar”, pois a sua “era demasiado máscula”. O prémio foi entregue por Rita Ferro Rodrigues e João Baião. O tema Pica do 7, escrito por Miguel Araújo, faz parte do último álbum de António Zambujo, Rua da Emenda.» (Revista Caras, 25 de Maio de 2015)

 

E em baixo, pode ver-se o video que anda a circular. Se calhar Miguel Araújo é o autor da Canção da música da Lousã e eu, como dormi mal, ouvi mal. Mas é que tenho uma aversão à injustiça que me salta logo. Daí o título deste blogue.

 

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MANDELAS HÁ POUCOS

por Fátima Pinheiro, em 18.07.15

 

   "a melhor parte"/ imagem tirada da net

 

Dia Nelson Mandela, 18 de Julho,  hoje. Associo a sua figura ao par  "Marta e Maria" (Lucas, 10,38-42): "ação" e "contemplação" são globais, transversais, transcendentais e sustentáveis. 

 

"Marta, Marta! Tu preocupas-te e andas agitada por muitas coisas.  Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada". O tema do "único necessário" faz parte da cultura ocidental, mas, dito e vivido de outra forma, é o pão nosso de cada dia da forma de pensar e agir orientais, e dos outros. Sim, porque o mundo não se divide em dois. Olha-se para Mandela e vejo a ação e contemplação em carne e osso. Não que eu quisesse ir 27 anos para a cadeia, mas quero ter a fibra dele, que escolheu e escolhe, seguramente, a melhor parte. Qual é para mim a melhor parte? Digo já.

 

Jesus não disse que o que importava era ser Maria e não ser Marta. Até porque a Tua Mãe, também de nome Maria, passava a vida a correr: a fugir para o Egipto, mal tinhas nascido; a correr de imediato para visitar a sua prima Isabel quando engravidou do teu primo João; atrás de ti, quando subias mais a Cruz; a pegar-te de novo ao colo, depois do horror, e a pôr-te num lugar mais decente; e depois a correr para o túmulo ao pressentir que tudo recomeçava de forma inimaginável. Um acontecimento ímpar, mesmo.

 

O que importa é escolher a "melhor parte". Quem não o quer? O problema é que muitas vezes é complexo escolher assim. E deixamos que escolham por nós. "Tudo bem", se for isso o que era afinal o melhor para mim e para os meus; "tudo mal", se assim sou enganada. Parar é morrer e não há tempo para contemplações. Mãos à obra. É simples. É ter o coração nas mãos, o que quer dizer respirar sempre do casamento entre o orar e o laborar. Sem cessar. Porque sem respirar, morre-se. Não dizia eu há pouco que "ação" e "contemplação" são globais, transversais, transcendentais e sustentáveis?

 

Globais porque não há ponta de humano onde não se encontrem. E das formas mais inimagináveis. Transversais porque são uma espécie de tatuagem em cada gesto meu e teu, faça eu o que fizer, mesmo a dormir. Transcendentais porque acompanham o "ser". Sustentáveis porque têm uma razão para suceder. Para nos obter sucesso na vida. Como? Cabeça quente e fria - ao mesmo tempo -, a mão no arado e semear o bom vento numa terra bem tratada. O bom sítio para esta agricultura é a minha liberdade. As sementes? As que encontro no meu coração, que são aquelas que encontro quando "caio" em mim. Dá trabalho, dá. Mas é simples, à mão: basta querer "cair", em mim e por mim. Por isso é que sem esta "queda", sem este "buraco"(um beijinho daqui para ti, querido Sartre) vertiginoso, sem contemplação,  nada feito. Sem contemplação não há perspetiva: a vidinha vai sendo vivida, arrastada. Quero?

 

A melhor parte é "aquilo" que me corresponde. E saber isso, ninguém o faz por mim:  não há regra que não passe pela minha liberdade. Quero ser assim: pequena mas grande. A melhor parte. Não me venham com outras histórias. Esta não me será tirada: prometeram-me. E a ti, Mandela. Se assim não fosse, como terias passado aquele tempo todo num quadradinho daquele tamanho? Explicou-me anteontem uma amiga, que se tu abrisses os braços em forma de cruz, embatias com as duas "paredes" e que nem isso, portanto, podias fazer. Fizeste contudo, apesar de tudo e através de tudo, a melhor parte. Ninguém pode olhar para ti nos olhos e dizer que és uma farsa ou um esquema. És Marta, Maria, a outra Maria e o seu Filho.

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