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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


28
Ago15

Onde se "fall" in love?

por Fátima Pinheiro

 

 imagem tirada da net

 

"Cair" é algo inesperado. Assim se passa com o "fall in love". Caiem os dois, vertigem e abismo, conscientes ou não, naquele instante, naquela hora, naquele dia, daquele ano. Não é porém como cair num poço. É sim uma janela que se abre. O vendaval do tal poeta. Depois? É ir por ela e voar, nadar e assim por aí. Nunca por menos. Por isso S.Agostinho (cuja festa litúrgica se celebra hoje) reconhece com razões (é preciso ler os livros dele), que o amor é recíproco, um débito conjugal. Menos que isso é morrer antes de nascer. O crédito, esse, é ilimitado. Mesmo na condição de as prestações não serem pagas a tempo e horas. Eu calço um 36, e detesto os sapatos que me apertam e os que me estão largos. Sou livre - e este é o tema central da filosofia agostiniana - se o meu desejo se satisfaz. A liberdade está na experiência de ter o sapato certo com se andasse descalça. 

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27
Ago15

A minha filha é escritora!

por Fátima Pinheiro

 

 

 

Um texto belo que a minha filha me deu a ler. Eu disse: "Maravilhoso, literatura, até queria pôr no meu blog". Ela respondeu: "Então partilha". E eu: "Não te importas? Não estou a violar a tua privacidade?". Ela: "A escrita não deve ser privada." 

 

 

 

 A NOSSA E ÚNICA APRENDIZAGEM

 

                “Palavras não me faltam. É a frase que eu escolhi para começar este texto. Palavras não me faltam. Posso repetir duas, três, ou até mesmo quatro vezes. Sei que nunca gero o meu tempo e, por essa mesma razão, acabo sempre por desnutrir a minha cultura e derrubar a minha capacidade na literatura. Mas a verdade é que tenho uma forte paixão pela escrita e muitas vezes tiro proveito destes raros momentos, quando avisto uma caneta e um papel na bolsa da minha mãe.

                Que sensação alimentar o nosso pensamento e a nossa reflexão numa simples folha de papel! Então porque é que coloco isso no esquecimento? Na ignorância? Será que a culpa se encontra nas redes sociais? Na geração de hoje? Estas perguntas fazem com que o meu cérebro se exercite. Andamos tão ocupados com assuntos superficiais que acabamos de uma certa maneira por destruir o nosso conhecimento. ‘E conhecimento sobre quê?’, perguntam vocês. Conhecimento sobre nós mesmos. Nós conhecemo-nos ao viajar, ao concluir experiências inesquecíveis, ao conhecer outros indivíduos, com diferentes valores e inesperadas opiniões. Não passando o tempo nas redes e no universo virtual. E a isto eu chamo viver a vida e conhecermos o mundo que nos rodeia. Acho que só de estar aqui a explorar e a enriquecer o meu pensamento durante sete minutos, já me conheci mais um bocado. Porque a vida é uma aprendizagem. Tal como a minha mãe está a tirar um curso sobre a Fátima Pinheiro, eu estou a tirar um curso sobre mim mesma.

                E agora vou largar esta caneta porque já sinto uma ligeira dor no braço. Mas não me culpo. Estou de férias. Assim, volto para o mundo da ignorância, onde a aparência domina e monopoliza todo o tipo de assuntos.

                Mas, desta vez, tenho estas palavras escritas neste caderno. Sempre que estiver cheia de superficialidade e de ignorância a meu redor, tenho só de abrir esta caderneta e refugiar-me nas minhas próprias palavras. Descobrir mais de mim mesma e beneficiar da minha aprendizagem..."

 

Teresa Pinheiro

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26
Ago15

j´écris ton nom

por Fátima Pinheiro

fotografia de Henri Cartier-Bresson/imagem tirada da net

 

Como este há poucos. E as férias continuam, como a vida. Com tudo de pouco, e um nada de muito.


«Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom

Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom

Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom

Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom

Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom

Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.»

 

LIBERTÉ

Paul Eluard
in Oeuvres completes
Éditions Gallimard

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23
Ago15

A CARNE

por Fátima Pinheiro

 

 imagem tirada da net

 

A CARNE 

 

A poesia mudou-se

o tempo morreu

vivo agora

de instante

no corpo

que é teu.

 

Entregue

por nós

sem intermezzo

misteriosamente

encarnados gestos

eternamente.

 

Os intervalos?

São um vazio

caras implodentes

num sorriso sem prazo

dose cheia

da maneira.

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21
Ago15

Antónios: Costa enfia o Barreto?

por Fátima Pinheiro

António Barreto/ imagem tirada da net

LEMBRAM-SE?:  Em férias recorrerei muitas vezes ao bau. Tiro coisas que me ajudam a olhar o hoje ...

Curioso como certas palavras ganharam outro sentido. Como se tivessem sido descascadas, e vissemos mais. A palavra tem vida própria, não precisa de muletas, voa e pode.

“José Sócrates deve ser severamente punido nas próximas eleições”

LUÍS CLARO 

Jornal I- on line – 7 .5.2011

«A serenidade com que fala contrasta com o que diz. “José Sócrates deve ser severamente punido por via eleitoral”, atira António Barreto, abrindo uma excepção num comentário sobre um líder partidário. De Passos Coelho não fala, mas afirma que é importante sair das próximas eleições uma maioria absoluta de um ou dois partidos.

À hora em que a troika anunciava as medidas de austeridade, António Barreto fez, nesta entrevista ao i, uma análise do país e deixou um sério alerta: “Esta democracia não está a ser assaltada. Está a implodir.”

Causa-lhe algum arrepio vir de fora o programa que vamos aplicar nos próximos anos?

Eu sou defensor de um programa de assistência externa há dois ou três anos. Devíamos ter feito isso na altura devida, com uma margem de manobra superior, tal como devíamos ter tido um governo de maioria parlamentar ou de coligação há ano e meio. Seria um desastre nacional não haver este acordo de assistência.

Mas não terá valido a pena adiar?

Num segundo plano de análise, é muito inquietante que o governo tenha conduzido o país em direcção ao abismo. Isso é arrepiante. Há muitos anos que se sabia os perigos que implicava o caminho que estávamos a percorrer. Muitas pessoas alertaram as autoridades, mas os responsáveis foram absolutamente cegos e surdos.

O presidente da República fez alguns alertas, mas não teve uma actuação demasiado discreta?

Não foi actuante, mas alertou. E também dentro da política houve alertas e estou a pensar na dr.a Manuela Ferreira Leite. E outras pessoas que já estiveram na política, como Silva Lopes ou Medina Carreira. Não foram só pessoas de fora da política. Foi muita gente que está e esteve na vida pública, mas o governo foi absolutamente cego, surdo e inconsciente. Evidentemente que é inquietante ver que vamos ter eleições e que a escolha está muito condicionada. Nós podemos escolher o partido que nos governa, mas o programa de assistência externa, as condicionantes financeiras internacionais externas, as directivas da União Europeia, do FMI e do Banco Central Europeu estabelecem limites muito apertados para essas escolhas. E portanto vamos para eleições um pouco reféns.

Encontra nestes protagonistas políticos, disponíveis para governar com o programa da troika (José Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas), capacidade para ultrapassar esta crise?

Não me quero referir muito explicitamente a todos esses políticos – um por um -, não acho que contribua para resolver os problemas, mas num só caso estou convencido que o primeiro-ministro, José Sócrates, não está à altura, não é capaz de contribuir para as soluções futuras.

O que o faz ter essa convicção?

A maneira como ele foi responsável pelo declínio do país e a maneira como se tem comportado perante o pedido de assistência. Quando anunciou os resultados das negociações fez uma coisa extraordinária que foi dizer o que não está no acordo e não anunciou o que estava. Parece mesmo que há sinais de que a opinião política europeia ficou muito desagradada. E a seguir vários políticos vieram dizer: o governo ganhou ou o governo perdeu. Numa altura em que se está a preparar um acordo tão sério, que nos vai criar tantas dificuldades, os partidos estão preocupados em saber quem é que ganhou? Foi um momento obsceno da vida política.

Isso revela alguma imaturidade das lideranças políticas?

É um comportamento tribal e autista de vários partidos.

Este clima de conflito permanente afasta as pessoas da política, é evidente. Os políticos não percebem isso?

Isso é um fenómeno recorrente na história e nos grupos políticos ou nas elites políticas que reagem como se fossem uma fortaleza e reagem em autodefesa. O parlamento tem vindo sempre em declínio. O debate é substituído pela política espectáculo e pelo quero, posso e mando do primeiro-ministro. E quando se diz que o parlamento está a perder qualidade eles reagem imediatamente e chamam-nos fascistas e antidemocratas. E se olharmos para trás encontramos nas crises da democracia – no período entre as duas guerras ou nalgumas crises políticas do final do século xix – um fenómeno de decadência. Há um certo tipo de elites que se fecham e se defendem. Defendem o seu papel, defendem a sua intransigência e o resultado é sempre muito negativo.

Foi um dos promotores do “compromisso nacional” em defesa de um consenso entre partidos. Acha que está a ter algum efeito esse apelo?

Não há uma medida objectiva, mas estou convencido que aquele grupo deu um contributo – sem resultados práticos imediatos – para a criação de um clima novo e diferente. O aparecimento de várias personalidades, que são reputadas naquilo que fazem, alertou a opinião pública. Foi quase um aviso: portem-se bem ou portem–se melhor, e creio que esse documento teve um bom resultado.

Tendo em conta as críticas que tem feito a José Sócrates, vê alguma possibilidade de vir a existir uma coligação que inclua o PS?

Não quero fazer prognósticos, mas sei que os socialistas são indispensáveis para uma solução. Não é necessariamente a formação de um governo. Pode ser a associação ao governo, um acordo de incidência parlamentar, há várias maneiras, e nesse sentido estou convencido que os socialistas são necessários. Também estou convencido que o primeiro-ministro, José Sócrates, precisa de ser muito, muito severamente castigado e a melhor maneira de o castigar é através da via eleitoral. Ele necessita de ser muito severamente castigado porque ele é pessoalmente responsável pelo mau estado a que Portugal chegou, as finanças públicas e o Estado.

Pessoalmente?

Sim, é pessoalmente responsável pelo mau estado a que chegou o próprio Partido Socialista. Comparado com o que era o PS há dez ou 15 anos, não é o mesmo partido, com capacidade de diálogo e com tranquilidade doutrinária. Este PS já não é isso. O engenheiro Sócrates é o responsável por este caminho e deve ser severamente castigado. Creio que ele não ajudará, nem fora, nem dentro, a nenhuma solução das soluções necessárias e importantes para o país.

Mas as sondagens apontam para uma aproximação entre o PS e o PSD.

O que lhe estou a dar é a minha opinião. É possível que um partido que desempenhou funções de governo durante tantos anos – apesar dos disparates, da demagogia e dos erros – tenha uma parte da população que lhe seja afecta, porque são os seus empregos, são os seus interesses, são as suas colocações…

Põe essa hipótese, de o eleitorado voltar a dar uma vitória ao PS?

Nem ponho nem deixo de pôr. O que sei é que é útil que seja castigado eleitoralmente.

É essencial uma coligação se nenhum partido conseguir a maioria absoluta?

Penso que sim, depois de o povo falar, seria indispensável que um partido tivesse a maioria absoluta ou dois partidos conseguissem essa maioria ou, se for necessário, que três partidos fizessem essa maioria. Qualquer que seja a solução, é indispensável haver capacidade de convergência e de diálogo entre os três partidos, porque caso contrário põe–se o país a ferro e fogo.

Até hoje nenhuma coligação cumpriu um mandato até ao fim.

Essas coisas nunca são lei. Dizia-se que um governo maioritário não vingaria e já aconteceu. Tudo o que se dizia que não era possível acabou por se fazer. Não temos a história à nossa frente, temos um mês para encontrar uma solução. E passa por um governo de maioria parlamentar – de um, dois ou três partidos. De qualquer maneira, defendo um acordo de convergência que se pode traduzir no programa de governo, que se pode traduzir no Orçamento do Estado ou num novo programa de acção, para além do FMI, da União Europeia e do Banco Central Europeu.

Seja como for, parece existir sempre uma grande dificuldade em Portugal em fazer esses acordos, ao contrário do que acontece noutros países.

Portugal vive muito mal com os esforços de convergência. Dizem: eu odeio o Bloco Central ou dizem isso é a União Nacional. Em todo o mundo ocidental, quando é necessário encontrar acordos civilizados encontram-se. Há muitos argumentos para pensar que Portugal é o mais disparatado, o mais incompetente deles todos, mas não quero acreditar que continuemos, a seguir às eleições, pelo caminho da irresponsabilidade.

A que se deve essa dificuldade de atingir compromissos?

Há razões complexas. Uma delas é o facto de em Portugal haver poucas oportunidades do ponto de vista económico e social. Não há um mundo empresarial rico, forte e dinâmico. E as pessoas pensam sempre que só têm oportunidades como artistas, como técnicos ou como empresários à sombra do Estado…

O que não é totalmente mentira.

Não, não é mentira, porque a riqueza é pouca e o Estado é muito grande. É um Estado fraco, mas muito pesado. Digo fraco, porque fica facilmente refém dos interesses das corporações e uma grande parte do país parece organizada para sacar o Estado, para proceder ao saque das autorizações, das adjudicações, dos empregos, dos concursos. Como os saqueadores são muito mais do que há para saquear, obviamente que há um grau de conflitualidade muito forte.

Os portugueses vivem bem com esse Estado pesado ou sentem que o Estado acaba por lhes retirar a liberdade que tanto reclamaram no anterior regime através desse jogo de dependências?

Não vivem bem com isto. Adaptam-se, resignam-se, mas oiço todos os dias dizer: “Eles são todos iguais, para eles há tudo e para nós não há nada.” Pessoas de direita e de esquerda têm a mesma lengalenga e isto é porque a política está sem responsabilidade, está desumanizada e afastada da população e está afastada até dos sentimentos da população. As pessoas não têm só razão, tem sentimentos. Um sentimento de insegurança. A democracia portuguesa está a corroer-se a si própria e não é por causa dos inimigos da liberdade, é por causa dos próprios democratas que construíram este Estado fraquíssimo. É fraco do ponto de vista moral e é fraco do ponto de vista da competência técnica, fraco do ponto de vista da autoridade democrática, e é por isso que esta democracia não está a ser assaltada, a democracia está a implodir.

Isso traduz-se, por exemplo, nos grandes cortes que estão há vários anos a afectar as famílias sem vermos o mesmo esforço na máquina do Estado?

É uma investigação que devia ser feita. Por exemplo, há várias empresas públicas que, nos últimos seis meses, compraram autênticas frotas de centenas de carros de luxo. Sei de várias empresas que o fizeram. É inadmissível.

Já me disse que a ajuda externa é bem- -vinda, mas o que acha, em concreto, das reformas e das medidas que estão previstas no programa da troika?

Só os génios ou os atrevidos é que têm, ao fim de 12 horas, uma opinião sobre este acordo, que é muito complexo. Eu dou as boas-vindas ao acordo de assistência externa. Não fiquem dúvidas sobre isto. A minha opinião, a nível muito geral, é que o acordo é bom e obriga a fazer muitas coisas que nós já sabíamos que tínhamos de fazer. É um acordo que, ao contrário da tradição dos acordos com o FMI, está muito mais atento às questões sociais e à possibilidade de crescimento económico.

Não seria possível aplicar estas medidas sem a pressão de instituições exteriores ao país?

Isso parece uma fatalidade. As coisas que deveríamos fazer, em geral, esperamos que outros as façam. Isso é recorrente. Só duas ou três pessoas nestes 30 ou 40 anos, em dois ou três momentos, é que disseram: eu tenho de fazer isto e vou fazer. E são pessoas que se elevaram a um nível superior do comportamento político.

Não encontra essa dimensão nas actuais lideranças políticas?

Hoje em dia não. Eu sei o que fez mover Mário Soares no seu tempo. Eu sei o que queria fazer Sá Carneiro e o que queria fazer, nos primeiros mandatos, o professor Cavaco Silva, mas há poucos momentos políticos assim. O resto é pessoal político menor, que espera que outros façam o que nós devíamos fazer.

José Sócrates pertence ao segundo grupo?

Estou plenamente convencido de que o primeiro-ministro há muito tempo que decidiu que tinha de aceitar a ajuda externa, mas queria fazer tudo o que era preciso para poder responsabilizar o exterior por toda a sua actuação. O engenheiro Sócrates sabia perfeitamente, há muito tempo, que queria fazer eleições e que queria culpar a direita e os especuladores por todos os males e por todos os seus erros.

Está a dizer que o primeiro-ministro quase levou o país à bancarrota para defender interesses pessoais?

Para defender interesses pessoais e partidários.

Já disse que, se retirarmos os tribunais plenários e a censura, a justiça funciona pior que no tempo de Salazar. É um dos piores problemas do país?

Se retirarmos o sufoco financeiro em que vivemos e se olharmos para o conjunto do país, o que parece mais grave e mais sério e mais difícil de resolver é a justiça. A justiça tem uma relação com tudo o resto e está presente em tudo. Na vida familiar, ordena e regula todas as nossas actividades, mas é a que está mais fechada e mais refém dos grupos organizados. Os políticos, que não têm receio de legislar ou de apresentar programas para a saúde ou a Segurança Social, têm medo de mexer com a justiça.

Porquê?

Os grupos da justiça, advogados, juízes, magistrados e procuradores, são muito poderosos e muitos deles são da própria política. Os dois grandes sindicatos de juízes e procuradores são poderosíssimos.

O que é que faz os políticos terem medo de mexer na justiça?

Têm medo de confrontar interesses. A justiça sabe segredos de muita gente. Sabe segredos da vida pessoal, da vida económica, da vida empresarial e da vida política e partidária. Quando formos capazes de analisar e investigar seriamente o que se passou em vários processos, ao longo dos últimos dez ou 20 anos, há processos que são incompreensíveis. Da Casa Pia ao Freeport, à Face Oculta e ao Apito Dourado. Há muitos fenómenos incompreensíveis nestes processos.

Incompreensíveis a que nível?

Muitos deles envolveram personalidades políticas, personalidades dos partidos, dinheiros, autorizações, adjudicações, concursos ou escutas telefónicas, e vemos que em todos estes casos houve fugas de informação, houve quebra do segredo de justiça. Houve informação dada deliberadamente por operadores de justiça e eu estou convencido que os responsáveis são obviamente os procuradores e os juízes. Mas é muito curioso que todos estes episódios lamentáveis, obscenos, tenham sempre envolvido políticos ou ex-políticos, ou empresas que financiam os partidos ou estão a eles ligadas ou a empresas ou instituições que estão interessadas em adjudicações e concursos. Há um universo que era necessário investigar em conjunto. Pegar em dez ou 15 destes processos e ver como a justiça capturou a política. A capacidade de lóbi, de chantagem ou de ameaça que alguns corpos ligados à justiça têm de exercer sobre o governo é enorme.

Os próprios ministros são frágeis perante esse lóbi?

Alguns aparecem nos primeiros dias como agentes da grande reforma e da grande transformação, mas em poucos meses ficam enrodilhados e rapidamente tudo aquilo se dissolve em nada. O progresso da justiça nos últimos 20 anos foi reduzidíssimo e o retrocesso foi ainda maior que o progresso. Estamos hoje pior do que há 20 anos.

Continua a pensar que é preciso pôr fim aos sindicatos na área da justiça?

A Constituição deveria proibir a organização de sindicatos ou associações sindicais dos órgãos de soberania. Ou então permitiria a todos. Um sindicato de ministros, um sindicato de secretários de Estado, um sindicato de generais, sindicatos de tudo. Os juízes, eles próprios, se puseram na posição de funcionários públicos ao criar sindicatos. Têm exigências e ameaças de greve como se fossem funcionários públicos, mas depois dizem nós não somos funcionários públicos, nós somos órgãos de soberania. Querem o melhor de dois mundos e é o grupo profissional que em Portugal melhor conseguiu isso e é por isso que a justiça está refém destes aparelhos da justiça.»

 

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DB 2.jpg

 Durão Barroso/imagem tirada da net

 

O Conhaque-Philo ao vivo começa só  a 4 de Novembro. Mas como a vida são dois dias, e muitas agendas estarão neste momento já bem recheadas, então façam favor de anotar o que aqui deixo.  Em 2014 o Conhaque-Philo encerrou juntando à mesa  o selecionador nacional, Fernando Santos, e o cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, assim: http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2014-12-17-Fernando-Santos-e-D.-Manuel-Clemente-juntos.  A Casa-Museu Medeiros e Almeida acolheu a iniciativa da bloguista Fátima Pinheiro: Durante 7 sessões semanais, à 3º feira, FALEMOS dos OUTROS, foi uma conversa, com tema pré definido, mas informal, provocadora e desafiante entre quem desafiou  e todos os que quiseram assistir e serem desafiados.Foi todas as 3ªs à noite entre 4 de Novembro e 16 de Dezembro, com os temas que abaixo se indicam. A moderação foi feita pela bloguista.

4 Nov – FALEMOS dos OUTROS - Eduardo Lourenço e Sofia Areal

11 Nov – A gestão do amor - António Pinto Leite e Albano Homem de Melo

18 Nov – O que pode a literatura - Maria do Rosário Lupi Bello e Paula Mendes Coelho

25 Nov – As curvas do mundo - Francisco Seixas da Costa e Jaime Nogueira Pinto

2 Dez – E a leste? - José Milhazes e Henrique Monteiro

9 Dez – O que “faz” a beleza – José Mouga e Luísa Pinto Leite

16 Dez – O que é “selecionar”- Fernando Santos e D.Manuel Clemente.

 

A Sala do Lago da Casa-Museu transformou-se num espaço descontraído, onde cada um pode acompanhar e participar nesta iniciativa sentado a uma mesa enquanto bebia um café, um vinho... e conhaque, claro.

 

Este ano, também com ENTRADA LIVRE, todas as 2ªas feiras , a começar a 4 de Novembro e a terminar a 14 de Dezembro,  das 21h e 30m às 23h, a bela Sala do Lago da CASA-MUSEU MEDEIROS E ALMEIDA  promete ainda mais. O tema?  "A Europa em Nós". Durão Barroso encerra, e com ele estará também um special one. E os outros convidados, sempre dois a dois, são de se lhes tirar o chapéu...

 

 

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19
Ago15

Serei um bidé intelectual?

por Fátima Pinheiro

Encontrei isto na net. Não deixa de ter a sua graça.

Ligação directa ao “blogue”, ou melhor, ao coiso pessoal da Pinheiro: “100mim”, um cancioneiro indis’pensável “100ela”!

mr-2e77“100mim” é o blogue pessoal da Fátima Pinheiro, o local de partida antes de chegar ao blogue do Expresso. O espaço é de tal maneira espectacular que será alvo de vários destaques nos próximos tempos. Para abrir esta nova rubrica no L’Obéissance Est Morte, escolhi um que revela o fôlego pedagógico da senhora professora, e a sua capacidade de explicar a beleza da morte às pobres almas que a têm como mestre. Para ler e reler. Para aprender que quando as coisas são más elas podem sempre ser piores.  Eis, para vosso deleite, algumas passagens de E a seguir ao Mês do Desassossego? Ai Saramago, Saramago del rio!

“Julho foi dedicado à Educação. Em Agosto foram as Bombásticas na praia, na sua 2ªedição. Outubro foi o mês dos roubos no FB que gosto. O mês de Novembro, que hoje termina,foi sobre o DESASSOSSEGO. Começou num voo de moscardo, dentro de mim.”

“Uma altura dei aulas numa escola profissional pela qual nutro um enorme respeito, porque a pessoa é tida como um todo, e assisti a muitos milagres. Uma turma foi muito especial. Só quase de raparigas. Aliás como quase todas. Todas teens, com piercings, as barriguinhas, e outros pormenores, bem em destaque. Nos intervalos agarradas umas às outras. Às vezes também na aula.”

“E eu que julgo que uma aula tem professor e alunos, que autoridade é sinal de beleza, que uma turma não é igual a outra – e cada uma delas muito menos – procurei educá-las. Que é a para isso que serve a escola, certo? E como um todo. Ensinava-lhes filosofia. Por isso a muitas mandei fazer dieta, não espremer as borbulhas. Algumas deixaram de fumar e mais sei lá o quê. Muitas ficaram mais bonitas e mais mulheres (incluida aqui também eu).

“Era uma sexta feira, entra as quatro e as cinco. No dia seguinte, a primeira página do Correio da Manhã trazia o brutal acidente no qual a Ana foi. Não há palavras que descrevam a aula de 2ªfeira. Foi a “melhor” aula. Fui esmagada por abraços e choro, choro, coro. O “pior” foi os pais daquela filha única, linda de morrer ( os rapazes estiveram uns tempos em crise; se tivesse morrido uma assim mais feiosa, seria mais compreensível…). Apetece-me agora dizer uma asneira. Mas não digo. Há o outro lado.”

FP1

Um autêntico bidé intelectual que devia ser proibido de se aproximar a menos de “100metros” de uma sala de aula. Será que sou só eu a ler nestas linhas material suficiente para acusar esta senhora de um crime público qualquer?

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17
Ago15

Quem me dera um Físico assim!

por Fátima Pinheiro

 

vamos a isto/ imagem tirada da net

 

Hoje acordei de um regresso ao passado. Sonhei com um Físico que estava sentado na primeira fila a ouvir-me a discursar assim:

« A Física é um esforço intelectual ímpar em que toda a humanidade se tem envolvido há séculos.

Na verdade, pode mesmo dizer-se que é um esforço intelectual milenar pois desde a remota Antiguidade até aos nossos dias os homens têm tentado incessantemente compreender os mistérios mais profundos da realidade que os rodeia.

A Física é, sem dúvida, um dos maiores empreendimentos intelectuais na história da humanidade.

Em certo sentido a Física ocupa um lugar único entre todas as ciências. Nenhuma outra ciência conseguiu combinar até hoje, de forma tão profunda e tão frutuosa, a relação entre observação da natureza e aplicação de técnicas matemáticas.

Nenhuma outra ciência conseguiu tantos sucessos, tantas respostas para as perguntas com que se debatia.

É, pois, compreensível que a Física se tenha tornado num modelo que muitas outras disciplinas científicas têm pretendido imitar e, ao mesmo tempo, que a própria designação “Física” se tenha tornado sinónimo de um conhecimento certo, seguro e rigorosamente fundamentado e testado.

Isto não significa que a história da Física tenha sido uma serena história de acumulação de saber. Pelo contrário. Foi sempre uma história pautada por debates e polémicas, foi sempre uma história humana, com toda a paixão da alma humana.

Na verdade, como todos sabemos, alguns dos mais profundos e vivos debates intelectuais que afectaram a história da humanidade, nasceram de polémicas em torno de assuntos de Física e o facto de esses debates terem influenciado outros âmbitos culturais, artísticos, filosóficos e religiosos, é uma confirmação da excepcional importância da Física (...)

Conjunto de princípios básicos que unem todos os físicos e que constituem como que os fundamentos epistemológicos desta ciência:

  • que a razão humana é capaz de superar mesmo as interrogações mais perturbadoras;
  • que a natureza é compreensível;
  • que a matemática é fonte de saber seguro sobre o mundo natural;
  • que a observação, a experiência é, como diziam os navegadores portugueses do passado, “ a mãe do conhecimento”.

 O extraordinário sucesso da Física não é apenas uma fonte de regozijo que vem do passado; é uma fonte de esperança para o futuro.

Mas todos os empreendimentos humanos têm um lado mais obscuro. Precisamente no século XX, quando os progressos e conquistas da Física atingiam um desenvolvimento nunca igualado, os físicos viram-se a braços com graves dilemas éticos.

Saber é verdadeiramente uma forma de poder e muitos físicos sucumbiram, e sucumbem ainda hoje, a usar o seu saber ao serviço de poderes muitas vezes totalitários.

Tudo isto exige dos físicos uma elevada responsabilidade moral, e todos esperamos que o Ano Internacional da Física sirva para sensibilizar, sobretudo os mais jovens, para a responsabilidade que vem com o conhecimento.

Mas aqui temos bons motivos para celebrar com alegria: a história da Física é muito mais a história do conhecimento que foi posto a bom uso, do que o contrário.

Toda a investigação nasce sobretudo do desejo de satisfazer a curiosidade, mas é natural que depois os resultados dessa investigação sirvam para resolver problemas, por vezes problemas prementes, aumentando a duração da vida humana.

O progresso material que a Física gerou é de uma tal dimensão que é impossível de contabilizar. Temos razões fundadas para acreditar que o progresso da Física ajudará a resolver muitos problemas que hoje afligem os povos e as sociedades do nosso tempo.

Como conclusão, partilho a convicção de que a Física proporciona uma base significativa para a compreensão da natureza, proporciona aos homens e mulheres os instrumentos para construir as infra-estruturas científicas essenciais ao desenvolvimento; e a convicção de que a investigação na Física e as suas aplicações foram e continuam a ser uma importante força motriz dinamizadora de desenvolvimento científico e tecnológico.

A Física é um pilar fundamental da cultura contemporânea, que não pode ser substituído nem removido. Promove, pois, o bem-estar de toda a humanidade.

Depositamos a nossa esperança na Física e na Ciência no sentido de poder encontrar as soluções para os muitos problemas que afectam as sociedades modernas.

Portanto, estamos profundamente preocupados com a auto-exclusão dos jovens em relação à Física, não só porque os físicos desempenham um papel insubstituível nas sociedades baseadas no conhecimento, mas também porque o fenómeno da auto-exclusão se está a alastrar para as áreas afins da Ciência e Tecnologia(...).

Possa Einstein trazer o entusiasmo pela Física ao público em geral e inspirar uma nova geração de cientistas e engenheiros.

Muito obrigada.» [Pedro Sampaio Nunes, Discurso Inaugural do Ano Internacional da Física, 2005]

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16
Ago15

1 Dogma, 2 Dogmas, 3 Dogmas...

por Fátima Pinheiro

 

Maria consola Jesus, depois de uma queda (em A paixão de Cristo, Mel Gibson)/imagem tirada da net

 

A palavra "Dogma" significa "verdade", "máxima" e não é só usada na Igreja. A novidade do cristianismo está noutra coisa: a louca pretensão de "continuar" a presença de Jesus nestes nossos dias. O que passa a ser de cada um, na verificação dessa pretensão. Ele foi o único homem que afirmou ser Deus ( e não apenas enviado, profeta, etc.)

Que é a verdade? Questão antiga e nova, impede diálogo, se não é bem entendida. Verdade? Não serão, antes, verdades? A minha, a tua … Ou não fará sentido falar de verdade, incluídas as que acabei por não poder deixar de implicar, ou subentender? Nem preciso de ir a Pilatos, nem à aletheia grega (des-velamento, luz, verdade), da qual Heidegger usou e abusou. Não! Está tudo muito, muito mais à mão.

Os ingleses, por exemplo, Conseguem ter, ao mesmo tempo, finura e geometria! Façanha ou destino que Descartes, nem aos calcanhares. Bem quis. E nós ainda dele, tendencialmente, filhos somos. Assim é a rapariga de nazaré, porta do céu! Deus abriu-a no dia em que um anjo a desafiou a dizer sim. "Posso entrar em ti"? Nesse dia a liberdade encarnou. É simples: nascemos e crescemos, mas vamos deixando de re-parar nos desafios. We take tem for granted. A Igreja é mesmo pretensiosa: é assim, ou não? Precisamos de uma boa filosofia a viver da luz que faz perguntar. O sol, para Platão, é a verdade que confere também às imagens projetadas na caverna o estatuto de possuírem essa verdade que lhes pertence.

Voltando à banalidade da verdade. O chá das 5 é tão bom, que é semelhante à etimologia da palavra "tree", que é a mesma da de "truth": algo em que se embate, ou algo que se topa. Difícil de ignorar. Como uma árvore, ou uma pedra, no nosso caminho, e em que tropeço. É algo de tão absoluto, quanto o eu estar aqui e agora a escrever estas linhas. Qualquer extra-terrestre, qualquer um, esteja onde estiver, pode, ou não, topar-me neste preciso instante, do dia 16 de Agosto de 2015, em Portugal continental. Aqui e agora. E no futuro poderemos referir-nos a esse dado como sendo verdadeiro. Isto é incontornável. Eu não estou em Veneza (em sonhos posso estar). É tão verdade quanto eu não saber se amanhã vai chover, ou onde estarei daqui a umas horas.

Assunção? Subida ao céu? Ela sempre foi. Aos 15 anos um anjo entrou-lhe em casa e fez-lhe um convite impossível: "Queres ser a mãe de Deus?". Nove meses depois, o recém-nascido é adorado por três cientistas e por um rebanho de pastores que por perto pernoitava. A música ambiente é cantada por anjos, cheios de pica. Meses depois, ela e o marido fogem para o Egipto porque houve um rei que teve medo que o puto lhe fizesse sombra.  Era o filho um teenager, quando Ela o perde, porque nesse dia numa feira, Ele parou na Sinagoga para ensinar os doutores. 33 anos mais tarde, num casamento a que foi com a família, a subida foi no vinho: a segunda rodada, melhor que a primeira. Por essa altura já o filho teria escolhido a dedo a equipa dos 12 que o iriam seguir.

A subida que foi aquele calvário, pressentiu-a mas subiu as expectativas: encontrou forças para ser Ela a guiá-la (neste ponto Gibson e Maria Morgenstern são , e serão, imbatíveis). Nas quedas do filho - que a cruz pesava, a coroa era espinhosa, e as chicotadas como se sabe -, Ela disse-lhe sempre: "Estou aqui". Como nas quedas que dava em pequenino, ainda antes de lhe por o Betadine. 

Numa época em que corpo ou é idolatrado (corpos Danone, etc.; como se fossemos só casca) ou ignorado e para esquecer (filosofias que afirmam a pés juntos que a dor pode ser sublimada; como se alguma vez a dor fosse uma ilusão), faz falta esta bússola do dia 15 de Agosto. Estrela a guiar. É um Dogma inventado pelo Vaticano? Não. E Dogma quer "apenas" dizer "é assim", e é proclamado ex-catedra porque a força de uma experiência milenar, tra-diz-se cada dia falando mais alto que todas as mentiras juntas.

Subido Ele já no madeiro, sobe Ela também aos pregos nos pés e aí fica até "aquilo" acabar, apoiada em João, o amigo preferido do filho. Descido já sem vida e irreconhecível, é Ela que sobe a lavá-Lo e a levá-Lo ao virgem sepulcro. Sobe Ela ainda mais alto, e sobem as mulheres de todos os tempos. O resto é conversa miudinha, de quem não ainda entendeu que a força da História fala mais alto que o barulho. Paroles, Paroles, Paroles.

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15
Ago15

 

 imagem tirada da net

 

Mais que batidas as teclas: "por detrás de um grande homem, está sempre uma grande mulher." E é das tais que nunca serão deixadas de se ouvir. Curioso que nunca se ouviram estas: "por detrás de um grande homem, está sempre uma grande homem"; ou estas "por detrás de um grande mulher, está sempre uma grande mulher." As palavras que usamos têm razões. Por vezes saem de uso porque as razões deixaram de o ser. Neste caso, em que ficamos?

A filosofia é feita de razões. Nesse sentido é verdade afirmar que todas as filosofias têm razão. Todo o alinhavado de palavras que saia deste cabide é tudo menos razoável. Devo esclarecer - para não ser mal interpretada - que a poesia, e as outras artes, contem filosofia, só que são expressões diferentes. Cada uma tem a sua modalidade de dizer razões. À filosofia cabe o papel de articulá-las de forma lógica, demonstrativa e intuitiva. No caso, mulher e homem, grandes, onde, são tantas as perguntas! Complementaridade entre eles? O que é ser "grande"? E o "onde", que aqui não é usado para designar o local, mas outro lugar, aponta para quê?

Acordei com isto na cabeça. Por isso é que "rasante" é o nome deste blog. O meu trabalho é filosofar e muitas outras coisas. Poesia muita, também. E nem sempre me sai bem. Por isso é que se pode dizer que todas as filosofias têm razão, mas há umas que têm mais razões que outras. E para escolher um dos bons, um poema de Mário de Sá Carneiro, que me tem nestes dias levado ao colo. Diz o que é ser grande, homem, mulher e o lugar. 

Último Soneto: « Que rosas fugitivas foste ali:/ Requeriam-te os tapetes – e vieste.../– Se me dói hoje o bem que me fizeste,/É justo, porque muito te devi./Em que seda de afagos me envolvi/Quando entraste, nas tardes que apareceste –/Como fui de percal quando me deste/Tua boca a beijar, que remordi...//Pensei que fosse o meu o teu cansaço –/Que seria entre nós um longo abraço/O tédio que, tão esbelta, te curvava...//E fugiste... Que importa? Se deixaste/A lembrança violeta que animaste/Onde a minha saudade a Cor se trava?...» Mário de Sá-Carneiro, Indícios de Oiro, Paris, Dezembro 1915 in Verso e Prosa, Assírio e Alvim, Lisboa, p 114.» 

 

Hoje não quero filosofar.

 

 

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