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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


27
Mar16

O Nome de Deus é Francisco

por Fátima Pinheiro

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Leonardo di Caprio em "O Renascido", imagem tirada da net, a imagem final do filme

 

Cinema não é o tema deste artigo, embora esteja repleto de Revenant, Stalker e Spotlight. Escrevo sim sobre a Páscoa que é mais do que aquilo que mostra o filme “dos padres pedófilos”, como o chamam. Não gostei não, mas não é pelo que se pensa. É por razões apropriadas: a Porta que Bergman refere ao comentar a obra de Tarkovsky.

Spotlight (2015) mostra a investigação feita por uma equipa de jornalistas que usa todos os meios para trazer a verdade ao de cima. É mais um documentário do que um filme propriamente dito. 20 valores. Há contudo um aspeto crucial. Sendo a Igreja ator principal desta história, dela pouco se fica a conhecer no que respeita à sua natureza. Eu sei que o filme não pretende ser uma Suma Teológica, mas acaba por meter a colher em seara alheia. Ou melhor, não consegue meter.

O resultado do filme é a Igreja reduzida aos que praticaram atos monstruosos. O resultado pode ser: “afinal a Igreja é um bando de criminosos, pompas e circunstâncias.” Talvez o Papa Francisco seja outra loiça, etc. Erro gnoseológico: parte-se da premissa de que a Igreja é feita por homens perfeitos. Acontece que Jesus Cristo ao fundar a Sua Igreja sobre Pedro, que o tinha acabado de negar três vezes (e foi isto que os homens de Boston fizeram) sabia muito bem o que estava a fazer. Foi de propósito. A Igreja foi escolhida assim, como um barro que é o instrumento humano do divino. Logo, qualquer objeção à Igreja com base de que ela não tem a pinta do seu fundador, cai por terra. Spotlight mostra de mais e acaba por mostrar de menos. Viro-me então para os outros dois: um filme que não é de vingança, como se diz, filme de um mexicano que quer imitar o artista russo que realizou Stalker. Para chegar assim à Páscoa, à Porta.

Renascido (2015) é sim a história de um pai, de um filho e de uma grande companhia. De um amor que não desiste diante dos maiores obstáculos. O filme é a nossa vida. O grande e o pequeno, a natureza e a história, o dia e noite, o amor e o ódio, o sol e a chuva, a tempestade e a bonança, a mulher e o homem, a musica a dança e o silêncio. É um pedaço de vida que não se conta. Vê-se. Experimenta-se. Depois de meia dúzia de filmes de seguida com Scorcese, Leonardo Di Caprio dá-se na Câmara de Iñárritu. Um mexicano que me foi apresentado recentemente. 

Stalker (Tarkovski,1979): entra-se mudo e sai-se calado. É um murro no estômago. Sou eu, ali. Diante da Porta. Quero entrar? Não há chave, diz Bergman; mas mesmo se houvesse não abriria, continuou Tolentino Mendoça no Domingo ao apresentar este filme (o que escolheria, se tivesse que indicar um de Tarkovsky) no Espaço Nimas. Foi e é preciso a Páscoa. Não há pedofilia que se aguente. Entremos nas “entranhas da Misericórdia”, lembrou há pouco Francisco numa entrevista, um spotlight que é o nome de Deus em ação.

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25
Mar16

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 Monica Belluci, no filme "A Paixão de Cristo", uma imagem tirada da net

 

Vem a Páscoa, vem a Ressurreição. Revejo o filme. Recordo um artigo que li quando estreou o filme  a A Paixão de Cristo, de Gibson. O que o colunista esperava  e disse não encontrar, eu encontrei. Não se sai cheio [os itálicos referem-se a esse artigo], certo,  mas eu saí menos vazia. A minha crítica é ao texto. Falo do que vi. Não faço como li num artigo, cujo autor afirma que nem iria ver (e acabou por escrever um artigo sobre o filme!). A maldade humana ou o pormenor do sangue não são o essencial da paixão de Cristo. Pois não, essencial é Ele dar-Se; e de uma forma que não definimos. Surpreendente, mas pertencente ao domínio dos factos testemunhados. Eu também passo bem sem flagelação, espinhos, cuspos e crucifixão!

O filme mostra, em grandes planos (Caravaggio plus técnicas atuais),esguichos de sangue, brutalidade humana, e mais, como lado de um outro lado. Uma unidade, que me permitiu o inesperado. Fui porque me disseram que era bom. A frase inicial: pelas Suas chagas fomos curados(Isaías, 700 ac) é chave. Quem não precisa de cura, ou quem afirma que não há cura, nisto parece não caber.

Um outro crítico escreveu, que, mais forte que o sangue, era o olhar de Cristo, sempre . Animou-me a vencer a fragilidade: se não conseguisse olhar (e.g. a flagelação em tempo real), olhava para o olhar. Aconteceu foi que o sangue e o olhar está tudo junto. Fiquei pregada à tela. As imagens estão trespassadas dum olhar terno e poderoso. Chagas, carrascos, escarros, chicotadas, chagas, traições, o diabo, sempre. Mas o olhar apaixonado por todos, destaca-se! Dentro e fora do filme. Assim o cireneu orienta-se; Judas cai em si; o bom ladrão tem a certeza que é salvo; Pilatos jamais é o mesmo. Cristo vira-se para o ladrão que está atento às Suas orações ao Pai e, descaradamente afirma: hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso. Quem diria!

O horizonte cristão é a eternidade, é o amor. Pois é, mas isso acontece de cruz, de sofrimento, de pecado. Todos iluminados. Podia ter acontecido de outra forma?! Mas é assim. A aflição do cireneu vale mais que todos os esguichos de sangue que salpicam o ecrã. Pois é, mas não se inventam cireneus. Importa o olhar que cruzam, a cumplicidade, e a promessa de salvação. Só o olhar intensíssimo de Maria e a bondade perplexa de João marcam o filme com amor. Pois é. É diante deles que Pedro ajoelha depois da negação. Mas quem marca o olhar de Maria e de João senão o de Cristo? A imagem de Jesus a cair, criança, e o gesto dela a largar a lida para O ir consolar. É o que a leva a correr para O consolar, no caminho da cruz, quando cai, esmagado de dor, e a leva a dizer: Estou aqui! Não só um olhar, mas toda ela no chão, sem qualquer espécie de consolo a não ser o de consolar. E é restituído ao lugar.

As primeiras cenas, nas Oliveiras, dão-nos Cristo pleno do drama que é a liberdade. Será, como diz o artigo, o filme limitado por tratar só desta parte da história? Mas quem é que limita os argumentos dos filmes? Não serão belas estas 12 horas de Gibson, em que a reta final é mostrada sem véus? Ou preferirmos um Senhor dos nossos passos, colorido dum humanismo que se esbate numa vaga ideológica mensagem de amor? Queiramos ou não, os Passos do Senhor são aqueles, e este filme faz-me vislumbrar como terá sido. É só um filme, vale o que vale. Mas o cinema, como tudo na vida, se bem que nem sempre à altura do que é, pode mais do que muitas outras coisas.

E a morte não é a última palavra. Maria e João, obedientes sempre, diante d’ Ele recebem o mandato de permanecerem juntos. As suas caras são expectantes. O negro da hora não consegue calar a certeza que isto não pode ficar assim. Esta imagem é tão evidente, que não pega esta afirmação: “sem [a ressurreição e a esperança na eternidade] a paixão de Cristo perde sentido. Não conseguindo isto, o filme de Gibson perde sentido também.”

Impressiona a forma como Pilatos (retratado neste filme como nunca, e com quem também me identifico) é apresentado. O grande plano mostra a humanidade de quem, primeiro hesitando, mas já depois sabendo que tem diante de si a Verdade, decide entregar a outros o Seu destino. Em vez da atração do abraço, cede à  ambiguidade, uma insatisfação e tristeza angustiantes. Não se pode, sem mais, fugir ao olhar daquele Homem. É Ele a personagem central do apaixonado Exercício da Esperança, renovando tudo.

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24
Mar16

O Pão que Oliveira realizou

por Fátima Pinheiro

 

Excerto de o "O Pão", de Manoel de Oliveira, tirado da net

 

"O Pão" é um documentário de Manoel de Oliveira, uma encomenda da Federação Nacional das Indústrias de Moagem. Mas Oliveira, como sempre, alargou. O pão é visto no contexto global do sentido da vida. O artista  dá-nos dois Sacramentos: o Matrimónio da Rosa Maria e do José Joaquim; e uma Eucaristia, numa pintura, e em off "Tomai e comei, isto é o meu corpo." Misturar intencionalmente catolicismo e indústria, é inesperado. Tal como viria a acontecer - com outro tema - no filme "Benilde ou Virgem mãe", estreado em pleno 25 de Abril. Alheia às "modas", é a intransigência de Oliveira.

As imagens  que vi são deslumbrantes, feitas de traços de tudo, do arado à boca. A luta entre o arado e a terra é um Van Gogh em movimento. Ou um Jean-François Millet: mais suave, menos fragmentado, numa ordem que salta aos olhos. Uma obra de arte que não se deixa encaixar numa categoria de trabalho instrumental, ao serviço de qualquer estatística.

A alternância de imagens da terra e dos braçais homens, do suor e da foice, com as do campo e as do campo religioso, em planos grandes a mostrar os pormenores, têm a faina do fluvial Manoel. Como as imagens da mistura de homem e espiga, pés descalços, cansados, e de duas mãos que ao pronunciarem "quero",trocam as alianças. Alternância também das funções dos vários homens que correspondem aos vários níveis pelos quais o pão chega a pão. Tudo numa hierarquia que parece falar mais alto do que a unidade do processo, que é guiado na unidade do resultado final. Uma imagem marcante: a de um homem mergulhado na seara dominada, mas que tudo domina, porque dela depende a fatia que o trabalho de cada elo humano representa.

A terra é-nos dada como um Altar. Como a senhora que sabe agradecer o deixar-se ser abraçada por mãos que sabem o sentido.

É um pormenorizado trabalho de montagem a partir de milhares de metros de película, conseguindo “dar alma às imagens, emprestar um sentido e um significado a cada sequência, investigar sobre a linguagem estética, para que a obra forme um todo significante, se erga e se equilibre” (Alves Costa, Breve História do Cinema Português ,1896-1962, Biblioteca Breve, Instituto de Cultura Portuguesa, p. 108).

Para terminar, cito o realizador: "Realizei duas versões deste filme. Do ponto de vista artístico, prefiro a versão curta. Servi-me do pão para enfrentar muitos aspectos da realidade portuguesa... Procurei sobretudo mostrar o papel do homem em cada etapa do fabrico do pão, da sementeira até à distribuição, e a comunicação que se instaura assim entre homens muito distantes no seu espaço através de um único elemento: um grão de trigo. (...) Na versão longa, acho que exagerei demais, prejudicando a ideia central do filme. Porque a ideia do filme é a ideia de que o pão é como uma corrente de um rio que passa por vários lugares, passa por diferentes mãos, por diferentes hábitos ou fardas (é melhor chamar-lhes fardas para facilitar). Interessou-me muito dar essas diferenças, que na versão curta são mais evidentes.” (Manoel de Oliveira, numa entrevista a João Bénard da Costa, 1989).

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22
Mar16

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 imagem retirada da net

 

O título vem em letras garrafais na 1ª página do Correio da Manhã de hoje: "MORTO DOIS DIAS EM CASA DE MINISTRO." As declarações são do meu Ministro da Cultura, que por isso mesmo  tem todo o  meu respeito e em sequência  escrevo hoje o que escrevo. São retiradas do seu facebook, público, há quatro horas. Diz o ministro: "Não assino o CM online. Espero, portanto, a versão em papel para saber se me acusam de assassinato. O titulo online já é uma delicia.". Tudo isto é triste, tudo isto existe, mas nem tudo é fado.

Um país, uma civilização, uma cultura, não são para isto. Um jornal deve ser um jornal, um ministro deve ser um ministro. E eu? Como dizem alguns colegas meus: "vou fumar um cigarro, venho já". Pois eu vim alinhavar aqui uma linhas no meu blogue, que não é por acaso chamado "Rasante". Gosto desta desta modalidade de escrita, com três letrinha apenas. Acabou cigarro. Uma delícia. Para não se perder tempo em porcarias. 

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19
Mar16

Tenho 6 pais, todos homens.

por Fátima Pinheiro

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Vamos celebrar o pai

 

 

"O homem é dado em natureza para ser conquistado em liberdade", ensinou-me um dos meus pais, o de filosofia, de quem quase tudo aprendi. Já morreu. Fui eu que o escolhi porque reconheci nele uma generosidade e uma atenção que só se encontra em quem sabe. A maioria dos "filósofos"  é meio mundo a querer enganar outro meio. Não nasci ontem.

Deus é o meu pai de "ser e existir". Sim o coração tem razões que a razão desconhece. Mas note-se: é a razão que faz a distinção. Do nada nada sai. Quem faz o "nada" que sou? Um Deus ex-machina ou uma energia sustentável, em cada segundo? E se não compreendo, tanto melhor: Deus é o oceano que o menino à beira mar tenta, com a sua bela pá, verter para o balde. O mal existe? Existe sim e eu contribuo. Mas coisas belas e boas também existem. É este Pai que escolhi em liberdade e razão, quem conhece cada pedaço meu, me sabe de cor, cada traço do meu rosto, do meu  olhar, cada sombra da minha voz, cada silêncio, cada gesto que eu faça,cada capricho meu,  o que não digo ou prefiro calar. Sendo uma Pessoa divina, é verdadeiramente homem. Também morreu, mas ressuscitou ao terceiro dia, como fazemos memória por estes dias. É dele que vem o pai Pedro, agora chamado Papa Francisco. 

Tenho um pai que morreu nesta semana que passou. Há também o pai dos meus filhos e, finalmente, tenho o meu pai, que morreu a seguir à minha mãe, e de quem aqui já escrevi. O da semana passada ensinou-me a importância de me dar ao mundo e a cor de cada janela. O dos meus filhos foi a chance de três maravilhosas criaturas. E o meu pai que recordo hoje em especial amou a minha mãe como ninguém e a mim deu-se todo. Todo. Mesmo. E escolhidos, os três, a dedo. Mesmo este pai que amou a minha mãe foi escolhido, isto é, amei-o até ao fim. Vim morrer com ele. E hoje ele não está apenas na minha memória não - Platão percebia pouco desta parte da vida -, mas não me apetece hoje dizer onde é que ele está. 

 

 

 

 

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Lula da Silva vai ser ministro. Eu sei que Roma e Pavia não se fazem num dia e que há notícias mais interessantes, como por exemplo, o que vai acontecer em Roma no dia 4 de Setembro. Mas Lula é ponta de iceberg. Nós calamos. Como diria o querido Abrunhosa no seu "Momento": um beijo pode não chegar. Então vamos todos à fava?

Não consigo não estimar cada pessoa. É mais forte que eu. Somos uns impotentes no Amor. Ele acontece, e nós topamos, ou não. Tenho mais que provas da sua existência. O que se vê na fotografia, é tão verdade como o é hoje. E ainda gosto mais dele. Agora aquele senhor não tem o dever de ser ministro. Sim, a política é dever nobre. Se Lula é ministro é descrédito da política, uma miséria moral, suicídio, uma cobardia para nós que, não indo à horta, ficamos à porta. À porta.

Sim, eu não sei o que é um cancro, não sei o que é fome. Não sou a rainha do sofrimento. Tenho até sido uma privilegiada. Uma abafada pela sorte. E perante esta notícia não digo "por amor de Deus", antes pergunto "por amor dos homens": a comunidade nacional e a internacional é tótó? Os afectos não chegam. É preciso dizer e fazer tudo. Amália, que amamos, confessou: até que a voz doa! Não contem comigo para nada.

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05
Mar16

Sou um Espetáculo! Eu e o SOKOLOV

por Fátima Pinheiro

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Não porque a arte seja para mim uma segunda pele;  não porque hoje não me responsabilizo pelo que vai acontecer no planeta amanhã, durante e depois de beber todas as notas de Schuman e Chopin saídas da genialidade de Grigory Sokolov, quando eu, no final, cair nas mãos dele. Não porque nesta louca beleza de semana eu tenha feito mil coisas, sem me dividir e estar sempre toda em tudo. Sou um espetáculo porque sou um espanto. Em primeiro lugar, sou-o para mim mesma.

Às vezes perguntam-me: "como é que consegues fazer tanta coisa?". Ser eu, ser mulher, ser mãe, ser amiga, ser inimiga, fazer quase tudo em casa (ok, tenho uma bimbi), ter um trabalho "normal" e mais, isto é, escrever nos meus dois blogues, e escrever coisas por aí. Adorar ir às lojas. Cuscar com os amigos. Ajudar na Mercearia Criativa da minha irmã. Isto não acaba: sobra-me tempo para ajudar quem precisa (eu incluída), para fazer "contas", para dançar, para ver muita coisa linda - refiro-me às artes, todas, gosto de todas; "vejo" quer dizer também oiço, cheiro, mexo, saboreio. E outras coisas lindas. Todas. E adoro produtos e tocar. Sou mazinha. Também estou e muito bem nos milagres do facebook. Vou à missa todos os dias, como os padres e o novo Papa Francisco. E à Catequese. E ao Domingo é mais comprido. Farto-me de fazer coisas cá em casa, desde a festa do Carnaval, aos jantares dos benfeitores da condução (no qual juntei as três pessoas que me ajudaram a conduzir depois de ter estado anos sem o fazer, apesar de ter a carta). E ando sempre a inventar: vou fazer uma festa de Primavera, adoro servir, acolher mais uma conferência do José Milhazes sobre o ícone de Kazan. No meio da fazedura do jantar, diz-me um: "podes ajudar-me nos Lusíadas AGORA, tenho teste amanhã?", e quase ao mesmo tempo "o que é o jantar hoje?." Ainda me sobram horas para ter mau feitio, para as coisas me saírem torto. Mas também para rir, chorar, provocar. E mais diria: adoro chegar a casa mais cedo e fazer lanches parecidos com os que a minha avó materna fazia; tempo também de não fazer outras coisas que devia; e coisas que não devia fazer;  tempo de fazer o que não gosto. E para amostra chega.

"Como é que consegues fazer tanta coisa?". A verdade é que não consigo. É muito simples: É que eu estou sempre a "fazer" o mesmo. E não tenho nada a "defender". É só ser "eu". "Então mas não é porque consegues equilibrar tudo?" Eu? Equilibrar? Nem pensar! Isso seria matar o artista. Porquê? Eu explico. Uma amiga disse-me um dia que na vida não se trata de fazer equilíbrios e contou-me o que uma vez ouvira dizer a uma rapariga, numa conferência sobre felicidade e vida contemporânea (o título é horrível, eu também não gosto). À noite, quando o dia acabou, estás sozinha no teu quarto, e se acontece que choras, quem chora? É a executiva, a mãe, a mulher, quem chora? Quem chora és TU. Todinha e tudinho, se fores simples, como as crianças.

Equilibrar é possível, mas é uma alienação, tem cara triste quem assim tenta sobreviver. Viver é sim por toda a minha liberdade e empenho em deixar que "o que acontece" me aconteça mesmo (não me sentar na cadeira ao lado, fingir que não é comigo, e ficar a "ver passar"). A minha verdade está em espelhar tudo isso. Em ser um espetáculo. Em não fazer nada, a não ser "tender" na atenção do simples esforço de "querer" ser mesmo "eu". Não sou nada de especial, porque como eu não há igual. Sou mesmo ordinária. Hoje. Claro que penso em amanhã e no homem que me co-move como poucos aqui,  e amanhã às 19h Gulbenkian.

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01
Mar16

Quero um Di Caprio só para mim!

por Fátima Pinheiro

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imagem tirada da net

 

Andei longe dos óscares de 2016. Mas como adoro cinema e escrever sobre, reciclo aqui uma coisa que escrevi sobre o Leonardo. Doutro filme. Mas neste ele está todo lavadinho. E vou ver o tão aclamado Renascido. E muito provavelmente vou escrever sobre ele.

 

http://expresso.sapo.pt/blogues/Blogue:Luzelata/quero-um-scorsese-so-para-mim=f851685

 

Scorcese faz a "pergunta" dentro de um vulcão. O seu recente filme faz ou mostra a pergunta que interessa. "Casados" há cinco TAKES, Scorsese e DiCaprio não usam o Ketchup de Tarantino mas desaguam no mesmo "bombástico" que estilhaça a vida. Que vida? Aquela que costumamos esquecer. A de cada um. Foi assim que eu vi. Afinal que ações quero vender? Ou dito de outra maneira: o que quero comprar?

"O Lobo de Wall Street" não se veste de uma linguagem que me seja familiar. Prefiro outros "filmares". Comparando ao exagero: o ruído ensurdecedor do "lobo" contrasta abissalmente com o silêncio de palavras que estimo - mais do que em todos - em Manoel de Oliveira e seus mestres. Sem a beleza estética - quase teatral - do meu 105 Douro Fluvial, as imagens descoloridas deste nomeado para 9 óscares, procuram também a humanidade do humano.

Contudo o ruído é tanto, que parece que nada fica. Mas fica. Não só porque DiCaprio, no seu melhor, é a inquietação agitada "em pessoa", mas porque Scorsese marca-nos pontos, com uma câmara sem a qual aquela performance não seria arrancada ao ator de forma tão depurada. Sinal de um filme "filme" é o não acartar mensagens. Os bons filmes não se "encomendam", antes Acontecem. Não querem moralizar, antes Mostram.

Como se dentro de um vendaval, ou de um vulcão, eu estivesse - sem tempo ou possibilidade sequer para respirar - as três horas do "escurinho" rodam os ventos ou o magma que em nós existe e, ao atordoamento, deixam-nos sem pé, e sem ele ficamos. O que fica é, sim, um silêncio a desejar saber o que é que afinal  me interessa existencialmente.

As cenas desabridas, cobertas de uma rede de aparente superficialidade, neutralizam-se de tanto chocaram umas nas outras. São necessárias para "frangir" a loucura das vidas, despenteando, agitando e varrendo todas as formas que o poder assume e que Scorsese mostra em shots de marginalidade. Esta é, aliás, uma das meninas da sua Câmara. Leonardo é um De Niro "novo": possesso de glória. Não "pára" nunca, driver de um táxi alimentado por outras energias; excetuando a cena em que se senta, encharcado e embrulhado num cobertor, depois de ter sido salvo do naufrágio do iate da sua loura parceira. É o único momento em que o seu olhar feroz se "acordeira" e nos apercebemos que somos também "assim".

Jordan Belfort traçou um objetivo na vida. E consegue alcançá-lo porque sabe como vender uma caneta. A pergunta do filme -sabes vender a caneta? - é-me entregue: sou eu a decidir. Que caneta tenho? Quero mesmo vendê-la?

O filme é "um segundo", uma vertigem, uma explosão de "momentos" de pessoas, que empurra a minha vida. Que empurra a "minha" loucura a querer saber-se . Sai-se "tonto", de pés no ar. Parecido com a nossa correria de cada dia. Vivemos assim, mas a pedir sentido; mesmo que de forma inconsciente, ou intermitente. O filme corresponde-me então porque tem a grandeza de por o vulcão em atividade. De acender o rastilho. De enfrentar vagas e outras correntes.

A natureza é também animada pela força de nos fazer calar, de nos abrir os olhos e de nos mostrar o que é que "assim" não pode ser; ou o que "assim" não me corresponde. Leva-nos a decidir o que queremos fazer do frenesim e da agitação que em nós acordam "antes de nós", cada manhã. A genialidade de DiCaprio - que já tem o globo de ouro em casa - é puxada por Scorsese. Também quero!

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