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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


29
Abr16

sofá.jpg

 os três

fotografia de Inês Torres da Silva

 
O sofá, a mamã e eu  é um espetáculo! Uma amiga convidou-me e fui. No fim, claro, fiz umas perguntinhas à Mamã, Valéria Carvalho. Mãe na vida real e no palco, escreveu com João Lima, o seu filho, um texto atrativo, pleno de ritmo e a prender-nos o tempo todo. Por isso voltei, e quero voltar como os meus filhos, e "comigo". É na Fundação Portuguesa das Comunicações, até 14 de Maio, às sextas e sábados. Mas espero que repitam, merece ser visto por muitos e muitos.
 
Leve e solto, o "show de bola" transporta-nos ao "eu", que eu sou, sem o qual nada de interessante acontece. O filho já não é só uma promessa e a mãe é uma atriz de mão cheia. Ambos com uma performance notável. Vitalidade, vitalidade, vitalidade. O monólogo lá mais para o fim revela uma mulher integral, e uma Rita Ferro no seu melhor (é ela que o escreve). O fim não conto, mas tem uma surpresa muito boa. Alegria e alegria. E conta-nos de príncipes e princesas encantados. Nessa noite eu fui uma delas. 
 
A publicidade resume assim: "peça que retrata o quotidiano familiar de uma mãe trabalhadora e consumista com o seu único filho a sair da adolescência para a idade adulta. Os dois vivem situações hilariantes, a par de alguns momentos de emoção, numa história pontuada pela ternura."
 
A nossa conversa segue em baixo. A seguir corri para Alfragide e "deslarguei-me".
 
Rasante (R): Vejo e revejo e não me canso. Cada vez gosto mais. Porque será?
Valéria Carvalho (VC): Alegra-me saber ! Talvez porque o texto mesmo sendo leve é profundo e subtil e aborda questões muito verdadeiras.
 
R. Ideia fabulosa: mãe e filho na arte e na vida real. Como surgiu a ideia?
VC: Desde sempre, eu e o João "brincamos" de teatro. Agora, como ele acabou de sair da EPTC Escola Profissional de Teatro de Cascais,  senti que ele estava preparado para este desafio, na vida tudo tem o seu tempo e eu senti que devia ser agora.
 
R. Diz-me Razões para ver a peça?
VC: É uma peça curiosa, divertida e profunda. Com encenação brilhante do italiano Lamberto Carrozzi  que conheci no Mindelact (Festival de Teatro do Mindelo). Música absolutamente fantástica de Marco Santos. Modéstia à parte, a nossa interpretação (minha e do meu filhote)... fomos muito bem dirigidos. A Fundação Portuguesa das Comunicações é um local muito agradável e de fácil acesso, aqui ao pé do Mercado da Ribeira. Mas sobretudo porque é uma peça contemporânea que agora temas atuais e dá alimento para a alma.
 
R. Quais têm sido as reações do Público?
VC: Reações muito verdadeiras, as pessoas riem bastante, mas também emocionam-se muito. É uma peça que faz refletir, sem dúvida. 
 
R.O que te surpreende na peça?
 VC: A reação do público! As pessoas acham graça onde nunca pensamos, é curioso. 
 
 R.Ser mãe. O que é?
VC: É  uma lição constante de humildade, de coragem, de evolução como ser humano
 
R.O "eu" que és, e que dizes tão bem no monólogo final, como o "defines"?
 VC: É um "eu" igual ao de toda gente... Um eu que precisa  aprender a amar a si próprio para poder amar e ser amado. É isto que viemos fazer aqui na Terra. 
 
R. O que é o "príncipe encantado" que referes no final?
VC: É aquele amor puro e verdadeiro, bonito e especial que acreditamos desde criança que vai aparecer  e fazer de nós uma princesa. Quando crescemos percebemos que é o contrário, é preciso se sentir princesa primeiro para o príncipe aparecer...
 
 R.Mas não será a felicidade uma utopia?
VC: É uma conquista diária, é a capacidade de reconhecer no dia a dia as coisas boas e agradecer para que elas se multipliquem.
 
 R. Adoro o vosso sofá (que não é do Ikea...) mas não sei dizer o nome. Como é?
 VC: Hahahahaha é um John Richard Ashton Classe A!!!!!
 
 
 

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27
Abr16

 Francisco.jpg

O Papa a um metro do meu amigo  Fechi (também Francisco) e de mim,  na Audiência  com o Movimento Comunhão e Libertação, na Praça de São Pedro, no dia 7/03/2015 

 

 

Nem de propósito.  Hoje passam dois anos do dia em que João Paulo II passou a "santo". O papa Francisco virá a Portugal no centenário das Aparições (1917- 2017). Mas de Papas percebe a vaticanista e jornalista da Rádio Renascença Aura Miguel. Aqui a deixo.

Aura é mesmo Rasante. Um dia confessou que preferia a adrelanina da rádio, à da de outro tipo de media. Se continuar neste registo audio, vai ficar a saber o jornalismo que é feito, e como ela entende que ele deve ser. Discernir sempre, sem defesas, sem rede, contando o que "vê", arriscando....

Mais, a jornalista "define" em três palavras os três papas que tem seguido. Uma espécie de três retratos. Abre-nos o que pensa da visita de Francisco a Fátima, do valor das aparições na História da Igreja, e mais.O quê? Quer ouvir?

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26
Abr16

Soares e Almodovar

por Fátima Pinheiro

Os-Amantes-Passageiros-Destaque1.png

 imagem tirada da net

 

Apeada do avião de Almodóvar, onde ontem à noite embarquei (vi o filme outra vez), ainda estou de horas  bem trocadas. "Amantes passageiros" revela uma nova faceta do realizador de la buena mancha, e a ele, aqui, seguramente voltarei. É que ainda estou aterrada no 25 de Abril e quero deixar claro como acho mau, muito mau, fingir os "festejos". Se é para celebrar gosto de o fazer com todos e festejar o que nos une, e no Parlamento, como reafirmou Soares, no ano passado. Não aprecio amores "passageiros". Sou daquelas que prefere um amor que tudo abarca, tudo suporta. Que acontece sempre.

Não está tudo bem, eu sei. Mas sem nos "encontrarmos" no mesmo "lugar", aquilo que celebramos corre o risco de enfraquecer. Por muito que custe é preciso saber estar "presente", não para a fotografia, não para alemão ver, mas para nos avivar a memória. Olharmo-nos cara a cara, "sentarmos junto", é pertencer a uma "coisa" maior. A presença presente grita mais alto. Porquê? Porque somos feitos de carne e de osso. Portugal é que interessa.

O filme de Almodóvar mostra a liberdade como poucos. E desta vez num tom que nunca, mas nunca, larga o humor. É talvez o mais "leve" e o "mais sério" dois em um deste espanhol, que é um dos meus "bilhetes" preferidos para os meus voos na Companhia da sétima arte. A banda sonora, The Pointer Sisters - I'm So Excited, na história de uma tripulação de maricóns ou queers diz tudo. Era o que, para além das cançãos do querido Zeca queria cantar a Soares: we're gonna make it happen,/ we'll put all other things aside/ if we're still playing around boy that's just fine.

Afinal que fraternidade é esta? Como a de sisters que apontam para o mesmo, ou a de jogos de poder passageiro, ou de amores que ignoram que a espuma do dia está prenha de uma fábrica de futuro: o passado? Só assim faz sentido a exigência de um novo 25, um maior "golpe de asa". Portugal? Portugal, não se limita a ser uma soma de portugueses. Nem sei bem o que é, mas é "algo" de que me orgulho de ser e merecer

I'm so excited, cantam os encantadores e geniais maricóns de Almodóvar. Pois eu também. E junto a minha à sua voz. O "Papel principal" é de todos nós: pointed barões. Portugal é uma escada sem corrimão: "Quem tem medo não a sobe/Quem tem sonhos também não./Há quem chege a deitar fora/ o lastro do coração" - canta o David de AmáliaÉ tempo de perder o avião. Somos livres de voar.

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25
Abr16

Otelo e Caetano 40 anos depois ...

por Fátima Pinheiro

 

mw-860.jpg

 

Eduardo Lourenço foi convidado a participar no painel final da conferência sobre a ditadura, que há dois anos teve lugar na Gulbenkian. Cabia-lhe apresentar os ex-presidentes Jorge Sampaio, Ramalho Eanes e Mário Soares. "Eles não precisam de apresentação. Eu é que precisava que me apresentassem....a mim mesmo." Por isso reconheceu uma quase desnecessidade a sua presença ali. Mas discursou como ninguém, porque "nada se faz sem paixão" (palavras de Hegel citadas por ele na sua intervenção) e dessa poucos têm. Pelo que disse, situou-se no registo do "quis saber quem sou, o que faço aqui", mola de arranque daquela madrugada de há 42 anos. Ou no de Luis Miguel Cintra, na estreia da sua peça Íon ao pôr em Hermes (mensageiro dos deuses) a pergunta aos homens, em particular aos que exercem o poder, no caso o jovem Íon: "Nunca te interrogaste qual é a tua origem?". É a pergunta que subjaz a qualquer fazer, a qualquer comemoração. Impossível responder? Ainda no Íon alguém diz que "nada há de humano que seja desprovido de esperança" (seguiu-se como música de fundo uma Avé Maria, de Schubert). E Mandela disse-o também nestas palavras: "Tudo é considerado impossível até acontecer". Verdade ou mentira?

Ana Maria Caetano e Otelo na mesma mesa? "Mas isso... não é possível." Mas foi. Na mesa que antecedeu a final, deram o seu testemunho acerca da ditadura, e no final, cumprimentaram-se sem formalismo. Referindo-se ao acontecimento disse Lourenço: "Foi um momento sublime de recordação". Do 25 de Abril? Sim. 25 de Abril que considerou como "uma divina surpresa". E, já mais para o fim da sua intervenção, fez votos para que saibamos estar à altura dos tempos. Para sermos "Memoráveis"- utilizou aqui intencionalmente o título do então recente livro da sua estimada Lídia Jorge.

Daqui a poucas horas virão os discursos das Comemorações. Eu? Deixo as palavras à Beleza que, como um dia disse Dostoievski, haveria de salvar o mundo. Do texto de Luis Miguel Cintra, de apresentação da peça que deve ser vista no S.Luis:

"Foi em Pasolini, nas suas cartas a Gennariello, que fui encontrar os enxertos dramatúrgicos que fizemos ao Ion de Eurípides. Quase como se ele dissesse o que eu sentiria se fosse mais valente. Era também a esse nível que eu gostaria que andasse o pensamento dos que agora fazem política partidária.A política sem filosofia? Que contra-senso! Já no Génesis se diz que a árvore da serpente no Paraíso era a do conhecimento, a da sabedoria (...) Que nunca o computador e a internet nos limite a vida a um ecrã! Que nunca o pensamento se torne abstracto, que nunca a síntese nasça por falta de dinheiro para mais que o essencial ou para o pormenor! Mas corremos agora no teatro todos esse risco. Tudo conceptual, que é mais barato. E lá se vai o conceito para deixar em seu lugar o que dá jeito: nada, rotunda preta e nenhuma decoração, nem sequer uma cadeira. E cada vez mais igual a si próprio e cada vez mais uma solução para um problema de produção, e cada vez menos obra de criação, uma invenção. Todos teremos pelo menos de sentir na pele o problema. E é verdade que a pobreza aguça o engenho. Aguça mais o de quem tem mais para aguçar, claro, e aí vamos nós em mais uma competição: quem melhor se sai das condições difíceis de produção, e aí temos tudo a trabalhar para a eficácia em vez de coisa generosa por excelência, descoberta e aprendizagem do prazer. Mas de uma virtude tento não fugir: a lealdade para com o espectador, nosso igual e também nosso irmão, mais apanhado ainda que nós nesta aberração. E que diferença vai de igual a irmão, de uma palavra à outra? O afeto, o coração. Fraternidade sim, que de Igualdade estamos pelos cabelos porque é mentira e alibi, e quanto à Liberdade estamos falados. E esta era uma palavra de ordem de uma revolução de há 300 anos! Bem digo eu que é melhor desordem que formular palavras para uma ordem que tão facilmente degenera em absurda burocracia. Primeiro que tudo: perder o medo, expor-se. Aceitar riscos. Não são palavras de ordem. São desejos que aconteça. Viver a custo perdido. (...). Gosto cada vez mais que se ponham as cartas na mesa e que cada vez menos o teatro seja uma prestação de provas a um juiz. Que seja o que é: uma forma superior de estarmos com os outros. Tenho escolhido para esse encontro muitas vezes textos clássicos. Não há perigo assim de tomarmos gato por lebre e de, como às vezes acontece, pensarmos que, com qualquer guião de televisão se faz filosofia (...) É a memória do 25 de Abril que nos ajuda a entender Eurípides. E a arte daqueles que já são passado para uns mas aos mais velhos ainda nos parecem presente (a arte faz coisas destas): são a poesia de Sophia, as duas canções do Zeca, a melancolia do violoncelo de Casals, a citação do Evangelho de Pasolini com o mesmo 'Sometimes i feel like a motherless Child', a sua lucidez revolucionária, quem dão forma à nossa tentativa de conhecer uma deceção antiga e de a tornarmos comparável com um novo presente: a da necessidade da mentira nos cargos de poder."

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imagem tirada da net

 

Dia do Livro, ontem. No rescaldo, hoje ponho António Lobo Antunes. Conheci-o numa conferência. Até então sabia: de dois livros; passagens de outros; muitas crónicas; de familiares; de prémios (mas nisto estou, em parte, com ele, o mais importante no prémio é o dinheiro); que se acha que devia ser Nobel. Convidaram-me para ir ouvi-lo. Uma surpresa e um desafio, uma lide e um milagre. Entre os dois, e não foi de cernelha.

A curiosidade era grande e, se posso e vejo razões, tiro chinelos e corro: muitas vezes descalça. Tinha dele uma escrita "grande", ciclónica, novelo que não se desenrola nunca, repetitiva, embriagante, fatigante.  E uma atração por "uma coisa" maior que o livro, que nas entrelinhas está lá. Contudo, um escrever muito a empatar ou a adiar qualquer coisa.  É escritor? Não é escritor? Não se pode desligar a obra do seu autor, da carne e do osso. Ver os olhos, o olhar. Tocar se puder. Para mim é natural. Conclusão: conheci um escritor e desde esse dia "deu-me a mão". Porquê? Respondo com as minhas palavras, repetindo as dele, grande entertainer e de humor inconfundível - às vezes cru, mas certeiro, a desmontar as máscaras, todas mesmo; não há cinismo que lhe escape; o dele, se é que o tem, é-lhe íntimo, não o conheço assim tão bem...

Disse que escrever é dar um passo mais longe, e a certeza de que se é escritor é experimentar que não se pode viver sem escrever. Que a escrita são as perguntas milenares e a "última" pergunta tem diante de si um abismo. Bem lhe perguntamos, no final, se continuar a escrever é pressupor que há resposta, ao que ele deixou um composto e desenvolvido "não sei porque escrevo", "não lhe sei responder"... Determinante para ele, reconheceu, foi a mão que segurou a sua mão, antes da operação que fez quando lhe diagnosticaram um cancro. A mão que agarrou a sua, até à anestesia. Nunca mais se vai esquecer, repetiu. E que continua a escrever para viver e a viver para escrever. "O segredo para ser escritor?", perguntaram-lhe. Embora tenha citado muitos autores e contado histórias hilariantes sobre o tema, a prova está em que vida e escrita se confundem e que não há fórmulas: o eu diante do touro está sozinho, frisou, silenciando os risos que nunca faltaram, ritmados, a quem o ouviu naquela sala. E que ninguém desce de uma cruz vivo. E que o escritor sofre mais que os outros homens, e que sofrer é horrível.

Chegou a altura dos olhos, do olhar e do tocar. Foi no jardim. Tive então a  certeza de estar diante de um homem que sabe até onde quer ir. Sabe pôr e tirar a "máscara" muito bem, quando lhe apetece e quando quer. Dotado de uma inteligência fabulosa sabe mais do que diz, e sabe que sabe que não diz tudo o que sabe. E isto, diante da angustiante e famosa folha branca, às vezes não tão branca como a pintam.

O abismo de que falou na conferência: "é preciso saltar?", pergunto e respondo. Ele responde em silêncio com os olhos fixos em mim, e em quem me acompanhava, "mas quem são vocês?!" É que nós não lhe pedimos o autógrafo, ficamos para o fim, tão só para estar com ele. Só se pode saltar, disse eu, na certeza de que  uma mão  que nos vai agarrar. Tal como no Hospital. O eu e o touro não estão totalmente sozinhos...

A vida, volto às suas palavras,  não tem sentido sem escrever, e apesar de já estar tudo escrito, o homem tem tendência para se esquecer. Por isso, António continua a escrever"A melhor maneira de dizer as coisas é única boa." Os grandes livros são um milagre, acrescentou. A certa altura, dos lindos olhos que tem, saiu um olhar sem qualquer máscara e eu tive o privilégio de ver um homem (acho que ele se "descaiu"...). Um "eu" como o meu, que anda neste lide, às vezes distraído, mas que vê a vida consolada quando alguém lhe pega a mão, ou se "pegam" as mãos. Não precisamos de estar (quem sabe quando?) à beira da faca ou da morte. E do que sei do meu toureio a pé ou das "pegas" de todos os dias, experimento - e nisso a natureza não falha- que o material tem sempre razão: se há razões para investir (o mesmo é: saltar o abismo), é avançar. Só assim o  sofrimento se torna humano e a escrita uma beleza. 

Não é preciso enrolar tanto. Como ele disse a certa altura, precisamos de ser "mais" crianças. Da sua simplicidade. Rápida. Inteligente. De olhos impressionados - uma expressão da qual ele fez, aliás, um pequeno e certeiro exercício fenomenológico. O que mostra que o tempo pode ser um instante. Como cada cigarro que fumava enquanto falava, enquanto mostrava e escondia o olhar. É um touro de raça. Como um bom livro. A literatura é afinal uma bela tourada.

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18
Abr16

luis.png

imagem tirada da net

 

"É quando envelhecemos que nos devemos dar aos outros. Porque quando os anos passam em nós somos mais uma história do que uma pessoa, mais um livro do que um corpo. Convém que nos saibamos oferecer ao mundo para que o mundo nos possa ler e aprender com o que observámos, sentimos, sofremos. Envelhecer só é triste se nos escondermos numa prateleira com medo de ser vistos, aí seremos apenas um livro empoeirado que a ninguém interessará ler." - lê-se na página de FB de Luís Osório, pública, como ele também (para pormenores vão ao google, está lá tudo). Não podia discordar mais do que aqui está escrito, mas provoca. Outro dia, com tempo, explico. Mas continuo a ler e subscrevo o que disse quando foi lançado o seu livro "Só entre nós", fruto também da sua gigantesca actividade nas redes sociais. Está para breve um outro livro. Em suma, estimo  a sua escrita.

 

"Lisboa foi ontem lugar de um debate acerca do recente livro do jornalista Luis Osório, "Só entre nós", e contou com a leitura e os desafios da escritora Alice Vieira. Pelo-me por um bom debate. Já tinha lido o livro, gostei e fui. E foi muito bom. Adriano Moreira, que escreve o prefácio da 2ªedição, acentua o carácter do espírito do tempo que sopra nesta escrita. Sábado à tarde, tempo a puxar para a praia e outros passeios. O que faz com que uma livraria de Campo de Ourique fique durante cerca de duas horas inundada de perguntas, vindas de pessoas tão diferentes, com distintas posturas e opiniões? Acho que sei.

Eu sou uma daqueles pessoas interesseiras que foi para o FB para publicitar o meu outro Blogue (isto fica aqui entre nós). Acontece que desde então percebi que é um mundo cheio de potencialidades, e tenho alargado horizontes. Like! Foi lá que comecei a ler o autor do livro, e do meu "metro" (de metro e meio e pouco mais) reconheço que ele descreve como poucos o que é o "humano". Tem Psicologia e Filosofia, e mais, até pela forma poética da sua escrita, a que já nos "habituou" nas suas crónicas no Jornal "Sol". 

É uma original e sui generis "mistura" de Pascal e S. Agostinho, até mesmo na forma, porque o livro reúne pensamentos confessados e confissões pensadas. Sem o pudor que muitas vezes nos tolhe a voz, e nos faz pecar por omissão. E sem nunca violar o que de mais sagrado trazemos connosco: a nossa intimidade e a nossa liberdade. É por isso que o que escreve me ilumina. Não pelas respostas mas pelas perguntas. E eu que vivo de uma Resposta,  de uma Encarnação de há mais de 2000 anos, ao lê-lo aviva-se a complexidade de que sou tecida. Tudo se torna mais simples e razoável porque é absurdo viver de uma resposta a perguntas que nunca foram feitas. Este livro é assim o traço de um caminho que não é diretamente iluminado por essa "minha" resposta, mas não deixa por isso de preciosamente enriquecer o meu perguntar.

"Só entre nós" porque são "muitos" os que o lêem - no FB e mais ainda agora com o livro. "Só entre nós" porque nunca belisca a intimidade que "só" a cada um pertence "pertencer", e que não se confunde com "solidão".

Não se resume, mas talvez possa dizer que estes inputs de Luís Osório são os insights de uma descida ao "inferno" que insiste em querer habitar-nos, paredes meias com janelas que deixam espaço para que o "céu" aconteça sem máscaras e agora. Um labirinto dionisíaco onde parece muitas vezes que nos perdemos, mas que é percurso que traz à tona a verdade do que somos, enchendo a dramaticidade da existência humana com uma positividade terna e apaixonada. Como no "Gebo e a Sombra" de Brandão e Oliveira: mais vale morrer do que viver sepultado.

A páginas tantas lê-se: "A rotina é um dos nossos paradoxos. Queremos a ela sobreviver por sabermos que se não o fizermos estamos condenados à solidão de nós próprios. E queremos ferozmente mantê-la porque só em nós sentimos conforto. Em cada momento, desejamos uma coisa e a outra. Destruir o sofá e sentarmo-nos nele. A rotina protege-nos. E mata-nos." É ou não é? Por isso é que a livraria encheu. Como reconheceu Alice Vieira, Luis diz coisas que poderíamos ser nós a dizer. "É mesmo isto!". Como se nos lesse por dentro, "só entre nós". É o carácter do espírito do tempo que soprou ontem, numa sala inundada de sedes. De desejo. De sentido para as nossas existências."

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17
Abr16

fraldario-no-banheiro-masculino-sim-54-388.jpg

imagem tirada da net 

 

Nunca tinha pensado se as casas de banho para homens teriam fraldários, até ontem quando ouvi uma voz de homem, estava eu na casa de banho pública (para senhoras, eu) do restaurante onde almocei. Pensei: ando mesmo cansada! Enganei-me na casa de banho. Não que me seja difícil desembaraçar-me, mas é chato. Abro a porta e disse logo “devo estar na casa de banho errada…”. Coitado, antes que eu pedisse desculpa ele, todo corado, de bebé ao colo, carrinho estacionado, e fralda pendurada diz: “Não, não, é sempre assim, eu é que estou aqui, não há no meu lado…”. Porque será?

 

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15
Abr16

Cortar relações

por Fátima Pinheiro

 

jw relações.JPG

JW

maurigrafias.blogspot

 

Tema sempre atual. Atar, reatar. Estar numa relação. Cortar relações. No facebook chama-se "bloquear". Mas as palavras não são tudo, não esgotam a realidade. Será razoável cortar relações? Podemos realmente fazê-lo?

 

Óbvio que não conhecemos tudo de uma vez e que a verdade não é "absoluta". Como "luz" (Aletheia=verdade) não é absoluta. Tudo depende de que lado o cubo me é dado, ou me aparece (fenómeno = aparecer-me). Verdade não significa que haja apenas uma face de um cubo que não existe. Pendurada, ou assim. Por isso, amigos, quanto mais subjectivo eu for (quanto mais me deixar invadir por este lado do cubo) mais objectivo sou. Não posso é ficar parado numa face do cubo: é preciso virá-lo, revirá-lo, mexê-lo, remexê-lo. Perspectivá-lo. Vê-lo noutros espaços, noutros tempos. Bebê-lo mediante os olhos de outros. Uma aventura que se dá num horizonte que não é a soma das partes, mas excede, em cada passo, em cada respirar, em cada, abraço, em cada olhar, em cada beijo. Cada dia. Como? Muito simples. E a realidade, o que há (o que sei e o que não sei que há e como é), vai sendo descoberto precisamente como relação, da qual não dominamos os contornos e potencialidades. Desde a Trindade, que é relação, ao que se passa comigo, eu comigo somos três.

 

O material tem sempre razão. As relações de sangue não se podem cortar. As outras que eu digo que corto não dependem de palavras mentirosas. Só se pode cortar aquilo que nunca esteve cosido. Viver é então manter, alimentar, tratar do "cosido". É conhecer, amar os laços. Não adianta pintar a manta. "Conhece-te a ti mesmo", "O homem é um ser social", "Eu sou eu e a minha circunstância", tudo bem. Não alinho é com Kant, que nas suas  gordas críticas da razão, nega que a realidade se possa conhecer. Ao distinguir entre "fenómeno" e "coisa em si", isto é, ao distinguir entre o que me aparece, no espaço e no tempo, e a coisa tal como ela é em si, se está a por num patamar que não sei de que espaço e de que tempo... Ou melhor, sei muito bem. Aqui ao leme sou mais do que eu, meu querido Pessoa.

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13
Abr16

Canalhas há muitos, seu palerma!

por Fátima Pinheiro

 

canalha.jpg

(fotografia da net, e a despropósito; foi de uma coisa que eu vi em tempos e lembrei-me, por causa do tema "Da canalhice em geral, e de José Sócrates em particular")

 

O tema "Da  canalhice em geral, e de José Sócrates em particular"  é de uma atualidade que lhe vem dos primórdios da História. Canalhice? Comportamento característico de canalha; canalhada; que não tem caráter; dito ou ação de quem é canalha. E não podia estar mais implicado na Justiça com A. Isto para eventualmente concluir que a canalhice parece avançar, ao passo que o ter carácter é um fait divers, longe do tromp d'oeil que ilude e vai marcando pontos. Uma espécie de negação do sábio provérbio "os atos ficam com quem os pratica". Que mãos farão a justiça?

 

Foi com José Sócrates que aprendi a palavra "canalhice", a propósito de um caso em que ele estaria envolvido, facto que negou, que não conhecia a empresa que fazia "tais movimentos": E disse: “Isso é uma campanha de canalhice…eu não conheço ninguém…”; "querem agora arranjar um socialista qualquer...". Fiquei então a saber que Sócrates é "um socialista qualquer". Nunca é tarde! É a banalidade; já me estava a esquecer da sua paixão pela colega Arendt (que não é de filosofia, mas de filosofia política; ai estas "rendas" filosóficas de quem se esquece que tudo está interligado! ou do Maritain que distingue sim, mas para unir).

“Canalhice”? Não conhecia o termo. Canalha sim, conheço. Pensei: deve ser uma adaptação do francês, "nuances" que lhe ficaram da Sorbonne.
Mas a palavra existe, pronto. Os canalhas também. Nisto, nada como uns aninhos em Paris para aprofundar regras de método, de Descartes, por exemplo; sobretudo a de evitar juízos precipitados. São eles que muitas vezes levam ao erro. E caminhar no sentido da clareza e da evidência, as quais são adquiridas em intuições e deduções, os principais atos do espírito.

Canalhice? Campanha dela contra quem já foi considerado entre nós (ou seria isto para Manuel Maria Carrilho? Preciso mais café) o “Armani da Covilhã”? “Mais non, quel dommage”! Eu prefiro chamar mesmo canalha a quem o é. Será isto campanha – caseira, a minha – de canalhice? Que seja. O bom senso está bem distribuído, com ou sem o homem de um "Discurso do Método."

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11
Abr16

florbela_espanca_04.png

Florbela Espanca, imagem tirada da net

 

A cultura esteve na baila, na semana que passou. Mas cá para mim está sempre. E cada dia é um princípio, gordo de passado e grávido de futuro. Pois vamos a isto. Florbela Espanca, num dos seus poemas que os Trovante tornaram bem conhecido, reconhece que "ser poeta é ser mais alto". Hoje aposto em ser mais "alto", ter de mil desejos o esplendor, ter cá dentro um astro que flameja, ter garras e asas de condor! ter fome, ter sede de Infinito, condensar o mundo num só grito!

Ok, não é alheio a este post o fato de o novo ministro da cultura ser, entre outras "coisas", poeta. Nem o espancar vem ao acaso. Quero apenas aproveitar estas circunstâncias para desabafar; para fortalecer a ideia de que a cultura não pode ser o parente pobre de um povo (sei que as barrigas não podem estar vazias, mas sei também que a cultura mata fomes podendo assim minorizar outras fomes). Antes pelo contrário, a cultura é o que nos involve e impregna ao tutano, mesmo sem o sabermos ou disso termos consciência.  Não falo da cultura de rotina, do pica o ponto dos concertos, sejam eles na Gulbenkian ou na Casa da Música. Falo de cultura mesmo. Vamos "espancar" a pseudo cultura, esventrar máscaras, e parir os belos? Ou não?

A pancadaria cultural não precisa de recuar a Caim e Abel.O ollho por olho, dente por dente, é ainda tão vivo - e agora banal - que já nem damos por isso. A cultura, no sentido de humanidade, é pisada, adulterada, comercializada, e outras coisas em "ada", desde o momento em que pomos os pés fora da cama. Em ver de acordar somos acordados, passamos o dia sem VER. Passamos o dia a catalogar e a sermos catalogados. "A minha vida fartou-se", diz o poeta. Como te entendo a ti que de carneiro só tinhas o nome...

Então grito. Alto. "A toda a gente". Começo com as mãos sujas e com elas vou contar.

 

 

 

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  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D


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