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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


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 Dudamel no dia em que conversamos

 

O menino de ouro volta hoje a Lisboa para uns concertos que prometem. Conversamos de tudo. A presença que encarna é de uma simplicidade desarmante. Reponho aqui a conversa que tivemos numa das vezes que veio a Lisboa.

 

A arte é evasão da realidade ou experiência que muda a vida? Dudamel acabou por me dizer, que a música, com a sua magia, alimenta o que mais desejamos, numa correspondência de duas harmonias; é tão poderosa que acorda o nosso eu, tantas vezes encolhido. A música pode suscitar uma correspondência misteriosa; não por ser “secreta”, mas por iluminar. Por nos devolver a  nós mesmos, ao amor.

 

Sempre me atraiu o trabalho deste homem que transborda de alegria, rigor, vigor e beleza. As palavras que trocamos, depois do suor de Haydn e Strauss, disse-as como se tivesse acabado de tomar um copo de água. E a felicidade estampada no rosto, humano. O que aqui escrevo é um encontro, um encore, que toca em notas que podem ajudar à vida. Uma vida melhor. Dostoievski disse: a beleza salvará o mundo. Pedi-lhe que trocasse por miúdos; sendo artista, não teria que o fazer, mas que eu, como filósofa não me importaria de o ouvir: a beleza salva de quê? A resposta:”a música é uma arte mágica porque não podes vê-la, apenas senti-la. A intelectualidade da música está na sensação interna; tu podes ouvir um som, escutar algo, e isso pode inspirar e criar-te sensações…de alegria, de tristeza,…”. Ainda com a cara a espelhar a Odisseia no Espaço: “A música é muito poderosa! Pode conquistar uma coisa por dentro.” Deu exemplo: “Um menino pobre, sem possibilidades, num ambiente de caos, de angústia permanente; a orquestra entra, e dá-se um processo.” Explica: “É que a harmonia não é só musical, é também um aspeto da alma!” Mais: “E é aspeto do grupo como tal; entras na orquestra com a tua ideia, mas tens que te adaptar, escutar o outro, criar uma interpretação em conjunto.” O menino venezuelano mostra, em consequência, o andamento desta nossa sociedade: “o mundo em que vivemos está num processo de individualismo permanente. E o que faz a orquestra? Rompe com esse paradigma, e então acontece que o trabalho em grupo é precioso, para além do trabalho individual, claro”. E o mais importante: “criar essa harmonia, dá-la; porque há aqui outra coisa profunda, que é uma interação também com as pessoas que estão fora.” Como? : “em tudo, no aplauso…; a mim, pelo menos, a música muda-me permanentemente; é a minha fonte de vida; sem a fazer não me sinto, não me sinto bem.” Podes definir música?: “Defini-la?, pois ela é um alimento absoluto para a minha alma e para o meu espírito. A música é tão maravilhosa!”. Quis ainda abordar um aspeto que Gustavo repete nas suas entrevistas e que se prende a uma palavra que me interessa. Reconhece que é dramático interpretar, por ex., Romeu e Julieta, não sabendo se está a sentir o mesmo amor poderoso que Shakespeare e Tchaikovski sentiram. Mas que, ao mesmo tempo, é simples. Então o que é esse simples? A resposta sempre pronta, embriagada de entusiasmo: “ A simplicidade está em que a história chega facilmente; sempre disse que sentir um amor assim é realmente profundo; e eram adolescentes.” “É muito simples ver e sentir essa música. Evidentemente não para a sentir e pô-la diretamente em prática tu! Mas simplesmente, sentir a música. Ela é tão clara; e as frases, as melodias, a harmonia a interpretar.“ Identificou momentos: “o da varanda, o da luta, o da morte de Julieta, e uma espécie de esperança…”. Sim, porque eles acabam por morrer, parece uma utopia, sublinho! Então o dono da orquestra dá o acorde final: “Aqui está a coisa mais bela, eles viverão para sempre por causa do seu amor; acho que o amor tem muito de utopia, mas, ao mesmo tempo, tem muito de acontecimento.” Porquê? : “ Porque sim…, porque o amor existe.”

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