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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


30
Jan17

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imagem tirada da net

 

Sempre que se fala de um "pobre de espírito" há uma grande confusão. Tanto é "pobre de espírito" o maluquinho da aldeia como a Madre Teresa de Calcutá. Em que ficamos? E vem isto a propósito de quê? Porque ontem em todas as missas do mundo se ouviu o Evangelho das Bem-Aventuranças. E porque o novo inquilino da Casa Branca, como diz um vizinho meu, "é tudo gente doida".

Por formação profissional, a filosofia, interesso-me por fazer as distinções essenciais (no entendimento de Aristóteles e Sokolovski, entre outros). Não me venham falar de "pobre de espírito" se não se sabe o que afinal isso significa.

A "pobre de espiríto" associa-se alguém que não tem os pés assentes na terra, um coitado, fraco, resssentido (no sentido nietzscheano), doido, panhonhas, um marginalizado, vá lá. Li ontem uma notícia sobre Trump, de um médico que, violando o sigilo profissional, o dá como doente, salvo erro, com um narcisismo maligno e abunda no tema para dizer que é mesmo uma doença que o incapacita de exercer um cargo político.

Por outro lado, o termo pertence ao cristianismo. “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” ( Mateus 5:3). "Pobre de espírito" é a pessoa que sabe o que vale; que sabe o que são os valores. Ou seja, é a pessoa que sabe que vale, quais os seus limites, e que por isso necessita de ir constantemente à fonte deles, Deus. Como quem bebe o que mata a sede. "Pobre de espírito" é aquele que, no pouco ou no muito que tem, sabe que "Só Deus sacia". (São Tomás de Aquino, In Symbolum Apostolarum scilicet «Credo in Deum», expositio, c.15: Opera omnia, v. 27).

Ainda há quem diga que Trump tem alguns valores. Não vejo quais. O único valor para ele ele é ele. O que vendo a fundo, está bem. Deus entrega-se por cada um de nós. Por mim, por Trump, por cada um de nós. Cada um de nós foi criado à Sua imagem e semelhança. Só que nalguns de nós a imagem está como que enterrada (as razões disso são para outro post).

Mais uma vez Chesterton tem razão: "o erro é uma verdade enlouquecida". E sei que se Trump, se lê-se isto diria: "é uma pobre de espírito".

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26
Jan17

O índio e o cowboy

por Fátima Pinheiro

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uns anos mais tarde 

 

O Presidente do México, ouvi agora na rádio,  não acredita em muros. Eu também não, os muros vêem-se bem, não precisamos de acreditar neles. Mas não era isso que que ele queria dizer. O que ele queria dizer é que os muros matam. Ainda a ouvir a rádio, alguém dizia que o muro é "desumano e ridículo". Não quero simplificar o tema, e dizer "mas o muro começa dentro de cada um". Mas é que é verdade! Só que há um problema:  quem é que começa a partir o muro? Lembro-me das minhas primeiras guerras...

Eram de dois tipos. As guerras com o meu  irmão, mais velho que eu quatro anos. Ele é que decidia. Era sempre o cowboy. E eu caia sempre, com ele a correr atrás de mim. Ele é que era! Nove anos mais tarde acabei por fazer o mesmo com a minha irmã, só que agora era eu a ganhar. Hoje sabe Deus quem de nós os três é o quê. Tenho uma ideia...

As outras guerras eram de mim comigo. Lembro- me como se fosse hoje. Começava a chorar por qualquer razão que agora não me lembro e não conseguia calar-me. Então dizia (lembro-me como se fosse há minutos, da casa, da minha mãe, do quarto...) : "eu quero calar-me e não posso, eu quero calar-me e não posso...". Repetia esta frase, vezes sem fim. Chorava no meio, até que acabava por me silenciar, contrariada, aos soluços, cada vez mais espaçados. 

Trump tem sido alvo dos noticiários. E até parece que é em júbilo que verificam o estrito e rigoroso cumprimento das promessas eleitoriais da parte do novo dono da Casa Branca,  e dono, pensa ele, de mais, muito mais. Não diz ele que acima de tudo os EUA? Sempre ouvi dizer que o feitiço se vira contra o feiticeiro. 

 

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Hoje é avulso e para para partir a louça. As pessoas (expediente para dizer "ninguém") andam sempre muito ocupadas. Quanto mais não seja em nada fazer, a vida é mesmo, muitas vezes, insuportável. Já para não falar de quem morre de fome, frio, solidão, falta de dinheiro, doença, tortura, perseguição, eu sei lá. Por outro lado, a parte "ativa", pensante, ou política, é outra loiça. 

A rádio é uma coisa boa. Digam-me então por que é que tenho que levar logo pela manhã, e logo nas notícias de abertura, que o meu primeiro ministro tweetou, a dar os parabéns ao presidente da minha república por hoje fazer um ano de ter sido eleito? tweetou? Então e os abraços de cavalheiros? Se calhar já não há cavalheiros. Ou eu sou muito atrasada mental. Na política, e no mais, meio mundo anda a enganar meio mundo. Para quê? Abraços nos sem abrigo, a TV e as redes sociais vêem , e? Gosto bem do meu presidente, mas e agora? Não te peço que vás todas as noites abraçar aquelas pessoas sem abrigo! Assim não resulta.

Ontem estive a jantar na minha casa com uma amiga minha que enviuvou recentemente. Como me disse uma pessoa muito especial, esse sim um inteletual - por ter os pés bem assentes na terra - : "vamos uns atrás dos outros." Tanta canseira. E a vida podia ser tão justa e divertida...

Depois um novo presidente americano que pensa que nos "põe de cuecas" à frente dos russos. E estou cheia de medo do que nos possa acontecer. Graças a Deus que é relativo, este medo. É um descaradão que escorraça emigrantes e é casado com uma; que asssina contra o aborto e sabe Deus. Não que eu seja a favor desse crime (sim, crime, tenho amigos que por uma inversão de marcha percorreram aqueles 9 meses). E diz que a America está primeiro! Isso nem dos meus filhos posso dizer. Claro que digo que os meus filhos e o pai deles são a base da família. Mas todos somos pessoas no seu lugar. Não quero vou pisar nenhuma pessoa. Nem prejudicar os outros às custas da minha beautiful family.

Os intelectuais andam preocupados com o "Silêncio" de Deus. Até que Scorcese tem pinta e é boa bandeira. Neste caso também um "taxi driver", para levar Alexandra Solnado para o Japão. Não, não vou dizer "nada tenho contra a senhora". Acontece que as pessoas (ninguém) andam sem  companhia, sem "guidance" , como diz uma amiga minha que faz anos hoje. Ainda precisamos de mais sinais?

Vale tudo! O mesmo é dizer que nada vale...

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23
Jan17

O "Silêncio" é mentira.

por Fátima Pinheiro

O "Silêncio" é mentira, Deus não pára de falar, do princípio ao fim. Refiro-me também ao filme de Scorcese. Como poderia ser de outro modo se o Seu nome é "Palavra"! Mas como também se chama "Amor", temos um discernimento ainda maior no nosso horizonte. A palavra final do filme não deixa dúvidas. Aquela mulher soube amá-Lo.

 

O "ponha aqui o seu pezinho" no fumie não é formalismo. A diferença é evidente: quem não pisa, é martirizado. E quem se presta a este amor de dar a vida, a não ser por uma fé que anima e vence a fraqueza? É Deus a falar. E a piedade a vencer. Se Ele quisesse começava à paulada aos japoneses, e a quem mais fosse. Mas Deus ama cada um de nós. A História, a minha liberdade, não é brincadeira, é o carrefour dos amores. Deus fala de muitas formas. Ainda ontem a Sua Igreja celebrou o mártir S. Vicente.

 

O Cristianismo não é uma estratégia. Ao ver o Pe. Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) a falar com o protagonista, o Pe. Sebasião Rodrigues (Adam Garfield) a contar-lhe a sua vida depois da sua apostasia, o seu adaptar-se aos costumes locais, deu-me a ideia que ele tentava mostar a Sebastião um olhar do género "vê se percebes fiquei cá para garantir uma presença, mas continuo a missionar, nem que seja por estar aqui...", embora o discurso fosse outro, tinham companhia... E não sei como foi o resto da sua vida; há literatura - não sei se ao nível da especulação -  sobre o tema). Que tinha um ar de vencido, lá disso não duvido. Como o tinha o protagonista, Sebastião Rodrigues, ao pisar o fumie. Tal como Ferreira, acabou por viver o resto da sua vida no Japão.

 

O que conta aqui não é a conduta moral, a sã teologia, ou frases do género "Deus é que sabe!". Conta sim que Deus falou sem cessar. Manifestou-se. Deu-Se a conhecer de forma dramática, mas ninguém pode calar O que viu. Não foi para isso que Ferreira saiu de Torres Vedras?  Não foi para ir comer sushi! Queremos mais palavras dos que as daqueles três que foram martirizados no oceano?

 

Então e os "maus" da fita? Ok, eu sei que o Japão não era uma democracia, e a liberdade de expressão não era uma bandeira. Mas como diz o protagonista, uma coisa é preta, branca, cinzenta, amarela, etc. (não conta o argumento estúpido que invoca o daltonismo). As coisas tem o seu nome. Ai se me pisam os calos no autocarro!

 

A cena final é a a prova das provas que Deus não se calou, nem se cala nunca. A identidade do Pe. Sebastião, paradoxalmente, fala tão forte que qualquer martírio. A mulher japonesa que lhe deram para viver com ele até ao fim dos dias, quando ele morre esconde-lhe entre as mãos o belo crucifixo que andava sempre com ele, e pelos vistos, até ao fim. Era uma cruz pequenina, com um Cristo muito bem feito, realista, e não estilizado. Com um rosto como o daqueles que não pisaram nenhum fumie, e se deram, no meia de fossas e ondas. Morreu em boa Companhia...

 

E nós todos sabemos que se Deus quisesesse poupava todos os mártires. Não é Ele Deus?  Mas por razões que em última análise não abarcamos, assim não foi. E não tenho nada que escrever sobre Scorcese. Não o conheço, mas até gostava de falar com ele. Do filme falo à vontade. Gosto muito. O que digo é que não me queiram convencer que o martírio é uma "coisa" desnecessária. A História da Igreja está aí, mostrando ser um organismo vivo, que tem crescido com muito sangue, e, também, com muito erro. E isso sabia-o e sabe-o, o seu fundador, que começou logo por escolher para primeiro Papa um homem que o negou publicamente, Pedro. Isso sabio-o, Ele também, porque a Sua Cruz era para todos. Disse-o: se Me perseguiram a mim, o mesmo vos farão.  Isso sabia-o Pedro: foi crucificado, e de cabeça para baixo (não quis ter honra de ser crucificado como o Mestre).

 

A Igreja é um Mistério. Não à maneira de Hitchcock, mas como uma coisa que surpreende há dois mil anos com "cenas" destas. Cristianismo sem Cristo? Não obrigada. S.Paulo também sabia que "já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim". Mas nada de confusões, eu sou tanto mais eu quanto mais me distingo. Porquê? Porque sou liberdade. 

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19
Jan17

«Tudo bem?»

por Fátima Pinheiro

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 a fazer bolachinhas

 

É a pergunta que diz tudo e diz nada. Cruzamo-nos e ... lá vem a pergunta: "tudo bem?". Não digo que seja uma coisa falsa. Mas, e falo por mim (sempre), o que pergunto ao perguntar "tudo bem?". Bem sei que nos agitamos de um lado para o outro. O tempo para responder à pergunta não chega para a pergunta, etc. Outras vezes não quero saber se está tudo bem. Claro que desejo e quero que tudo esteja bem. Não, não é isso; é que faço a pergunta tipo no automático, género das formigas que se cruzam (penso eu; na volta elas, as formigas, dizem umas às outras: "amo-te"...) e nem sequer penso na sua grandeza. Que raio|! A gente vale mais, muito mais. Já me maravilhei hoje com alguém, com o dom da existência?

 

Andando eu agora em menos agitações (no final de contas, não mandamos nos minutos, os nossos minutos estão contados), penso nas pessoas que conheço. Penso nas superficialidades dos momentos sérios e nas dos momentos de brincadeira. Nas minhas superficialidades e nas dos outros. Mas não me ralo em contar. Essas contabilidades fazem perder o bom bom da vida. Estou a dizer que ando a aproveitar o que as circunstâncias me dão, e a fazer delas o que elas são na realidade.

 

O importante nisto tudo é que vivo cada vez mais, experimento, a diferença entre um sorriso que só tem capa, e um sorriso que molha de alegria. O meu e o dos outros. Sei o que é um sorriso salvo. Uma pessoa salva. Já me tinham dito que só a partir dos 50 é que podemos começar a perceber, a viver a vida...

 

O momento em que percebo isso com uma clareza incontornável, corro apressada a desfazer-me das estupidezes. Quero que tudo esteja bem. Aos poucos (ainda há muita porcaria) penso e faço o que me parece bem. Fiz uma lista das coisas a re-parar. Finalmente entendi o que quer dizer "não deixes para amanhã aquilo que podes fazer hoje." O que posso faço hoje. Há coisas que não consigo fazer hoje. Mas sei que se continuar a desejar muito, mesmo o que me parece impossível, tudo virá a seu tempo.

 

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18
Jan17

Haverá vida inteligente na terra?

por Fátima Pinheiro

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imagem tirada da net

 

 “Aquilo que eu queria ser e não tenho coragem de ser, encontro nas suites de Bach”; "certamente se um dia voltar para Deus, a nenhuma outra coisa o deverei senão a estas estradas de uma melancolia lancinante que, desde o canto gregoriano até Messiaen, devoram em mim o sentimento da realidade do mundo visível".” (Eduardo Lourenço, “Tempo da música. Música do tempo", Gradiva, 2012). Um milagre. Qual? Leiam, se quiserem.

Reconhece o pântano em que estamos mergulhados, o Apocalipse que se vive, e faz numa a  pergunta e a resposta: estaremos no Mesmo Barco? É normal que as pessoas não estejam no mesmo barco...

Afinal Eduardo tem muito de Jack. Estamos "On the Road", mas qual!?? "On the road" (1957), provoca também uma consciência crítica: em vez de viver por procuração, há sinais de um despertar "Na Estrada". Muitos não sabem para onde ir mas tentam inventar um outro futuro. Olhando o que não é. E não há.

O melhor de tudo é a simplicidade desarmante. A que olha na carne, nos olhos que olham sempre de frente num rir que se mistura com as expressões que lhe espelham a alma. Lourenço dá-nos silêncios que aquela cara diz tudo. E um espantar-se permanentemente. Quando ele diz publicamente que vai a todas, é com esse mood que o faz. Bem sei que não diz tudo, tudo, o que vai nele. Mas penso que, entre as razões que ele terá, é por entender que a estrada ainda está no começo. Quando a Gulbenkian lançou o 1º volume das suas Obras Completas, com graça disse que parecia que agora estava “paralisado”. Por isso o título que escolheu para o Discurso de aceitação do Prémio Pessoa 2011 foi: "Pessoa ou a porta aberta".

Tenho vindo a perceber que os seus textos nem sempre é preto no branco como se quer, porque a sua forma de escrever é essencialmente poética. E a poesia tem razões que os outros discursos desconhecem. Mas tenho também verificado uma convergência discursiva espantosa e ainda muito por desbravar. Não há ideia que resuma Lourenço, mas ele, ao referir frequentemente a inquietude que S. Agostinho invoca, e o absoluto desassossego que nos faz avançar, percebemos que é, citando Pessoa, "tudo de todas as maneiras". "Sorri minha alma, será dia".  Quando? Hoje. E acabando de ler as suas "Crónicas quase marcianas", é caso para perguntar: será que  já nâo há vida inteligente na terra?

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13
Jan17

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Martin Scorsese, imagem tirada da net

 

O Filme "Silêncio" de Martim Scorcese, estreia para a semana. Tem suscitado grandes e diferentes expectativas, vindas de sensibilidades, perspectivas e credos. Não só o filme mas também o próprio Scorcese se têm dado a conhecer num assunto que, por muito que digam o contrário, não é do foro privado. A eterna discussão acerca do que é público tem sido uma faca de dois gumes. Factos são factos. Falam por si sem "dentros" nem "foras"; não se sujeitam a interpretações baratas, nem às que "dão de barato". É preciso tempo para conhecer e discernir.

Japão, século XVII, misionários católicos "convidados" a abjurar. Pisar o fumié (peça fininha, tipo tapete com a imagem de Cristo), e as torturas vão sendo mais subtis: a da fossa (cabeça para baixo, cortes atrás das orelhas, que é para não morrer logo, e uma fossa bem pertinho do nariz), a da água a subir, que é para se ir  morrendo afogado, e páro. Há quem nem vá ver o fime por isto. É preciso apanhar o peixe gordo. Cristovão Ferreira, um jesuíta nascido em Torres Vedras, é um desses. Os pequeninos imitam os grandes. Mas Deus é que sabe!

Volto aqui depois de ver o filme. Mas um filme não tem "mensagens". Desconfio!

As obras de arte não transmitem mensagens, honram-nos com a sua presença; são. Por isso digo já o que penso acerca do que por aí corre, nas narrativas. 

Não me queiram convencer que o martírio é uma "coisa" desnecessária. A História da Igreja está aí, mostrando ser um organismo vivo, que tem crescido com muito sangue, e, também, com muito erro. E isso sabia-o e sabe-o, o seu fundador, que começou logo por escolher para primeiro Papa um homem que o negou publicamente, Pedro. Isso sabio-o, Ele  também, porque a Sua Cruz era para todos. Disse-o: se Me perseguiram a mim, o mesmo vos farão.  Isso sabia-o Pedro: foi crucificado, e de cabeça para baixo (não quis ter honra de ser crucificado como o Mestre).

A Igreja é um Mistério. Não à maneira de Hitchcock, mas como uma coisa que surpreende há dois mil anos com "cenas" destas. Cristianismo sem Cristo? Não obrigada. S.Paulo também sabia que "já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim". Mas nada de confusões, eu sou tanto mais eu quanto mais me distingo. Porquê? Porque sou liberdade. 

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08
Jan17

imagems.jpg

 imagem tirada da net

 

Porque morreste escrevo-te uma carta. Preferia ter falado contigo. Fica para depois. Mesmo. Eu, que até nem te tenho entre os meus preferidos, queria estar agora ao teu colo. Estranho não é? Mas a morte rega-me de uma espécie de à vontade ontológico, nesta ditadura que a vida parece ser. O que quero dizer? Tanta coisa. A morte obriga a por o preto no branco. Óbvio que não terminaste. Nem sequer te podes limitar a viver nas memórias, essas também morrem. As rosas é que não. Podes ser cremado, mas isso não é determinante.

Sempre te definiste como português, laico e republicano. Eu também sou portuguesa, e sou católicia, e boa rapariga. Na outra parte do Céu, que é aquela onde estarás agora  - não acredito que não queiras falar com Ele -, espero vir a falar contigo. Acredito que o Céu seja o face-a-face, o eterno diálogo, abraço que não termina. No céu os abraços não terminam. E como o Céu é a verdade das coisas, eu já começei a abraçar há algum tempo. Com intermitências, claro. Santo não é o que nunca cai, mas sim aquele que se levanta sempre, porque há uma mão que o convida e agarra. Desde pequena que tenho os joelhos cheios de betadine.  A minha Religião chama cada pessoa à santidade. E não é por acaso que me ensina que cada um de nós é  à "imagem e semelhança de Deus". Estas duas palavras, imagem e semelhança, não estão aqui por acaso. Nem todo o que diz que é católico, o é. Como também não é correcto dizer que se é católico não praticante. Seria como dizer "sou um nudista não praticante". Ou dizer que um esquimó é um frustado porque não o pode praticar (ao nudismo ).

Eu, que nem gostei muito de ti, agora, paradoxalmente, tenho o coração amolecido. Ia agora a dizer-te "é-te indiferente", mas isso seria mentira. Corre-nos nas veias o sangue dos nosso avós. E sabes que mais? Não te quero reduzido a três dias de luto nacional, nem ao homem que vai ficar na História pela sua luta pela liberdade, pelo papel fundamental na adesão à União Europeia. E muito menos pelos erros que todos nós cometemos. Bandeiras pisadas, içadas, e quejandos. Interessa -me o teu destino. Fomos feitos para viver sempre. Vá lá!

Por outras palavras, todos os homens são iguais e todos são diferentes. Iguais como pessoas. Diferentes como as pessoas  que fazem, e fazem diferente. Agora uma distinção fundamental: há homens com pinta e homens sem pinta. Tu tens pinta. O importante é a rosa, o importante é que Ele gosta de ti.

 

 

 

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  imagem tirada da net

 

http://rasante.blogs.sapo.pt/miguel-araujo-adoro-151013

 https://soundcloud.com/fatima-pinheiro-4/miguel-araujowma

 

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02
Jan17

2017: Sei o que não quero

por Fátima Pinheiro

 

ra.jpg

imagem tirada da net

 

A passagem de ano " imita" o emergir da ordem a partir do caos. Planos para o ano novo, inversões de valores e perspectivas, análises e respectivas sínteses, dietas e ginástiscas, revolucões, anarquias, carpe diem(s) e depressões. E reinterpretações. Muitas. O que é o mesmo que dizer, fazer uma leitura nova do que se passou, quer a um nível pessoal, quer aos outros níveis: político e assim. Muitos: "agora é que é"; "não vale a pena" isto e aquilo; etc.

 

Eu decidi prender-me ao que me interessa. Sempre em casa, mudar de casa; não iludo aquela inquietude e perplexidade diante do mistério. Quero viver! E FINALMENTE resolvi - e estou a conseguir - não querer arrumá-la de uma vez. As arrumações do pensamento impedem que a vida se saboreie nas ondas em que vem. Deixamos de mandar em nós, de sermos donos dos nossos actos; deixo de ser livre. Digo e repito: quem sabe o minuto seguinte? O que ainda não chegou, mas já se foi. E mesmo o escrever, sabe Deus. O escrever só é escrever se não for uma alienação; se não for uma dentada na vida, de nada vale. As palavras do escrever são "logos" ( o Logos fez-se carne e habita entre nós), carnudas.

 

Dentada, atrás de dentada. Às vezes não sei o que quero. Mas RESOLVI deixar-me de compassos e esperas inúteis e vomitar o que não quero. É muito bom. E simples: basta, correndo ou voando, con-seguir. Verifico então que o que quero aparece a contra-luz. Emerge do que não presta, ou não me interessa. E o ano vai ficando novo!

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