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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


29
Abr17

"The woman who was Chesterton"

por Fátima Pinheiro

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Frances Blogg é “The woman who was Chesterton”.  Obrigada  Sofia pela tertúlia onde nos disseste  que Chesterton nos surpreende com a sua visão do problema do feminismo e do papel das mulheres no mundo. Se os adjectivos são claramente insuficientes para podermos descrever G.K. Chesterton, um génio a caminho de ser santo, escritor multifacetado, que nos abre os olhos para o mundo fazendo de nós, com a sua hábil e única forma de usar as palavras, verdadeiros “atletas do olhar” que, assim, descobrem o mundo, abrindo-se à aventura e à alegria no quotidiano, a vida da sua mulher tem permanecido um mistério. A primeira biografia publicada de Frances Blogg é uma história. Como diz Dale Alhquist na introdução: “This is a love story. But it is also a detective story. And best of all, it is a true story, told here for the the first time."

"Gilbert Keith Chesterton was a romantic, a writer of detective tales, and a teller of the truth. His own story and the stories he told are becoming better and better known. But what has remained unknown is the story of the most important person in his life: his wife Frances. Nancy Carpentier Brown has done incredible detective work to uncover the mystery of Frances, tracking a figure who managed to leave very few traces of herself. It is quite likely that as more is discovered about Frances, more biographies will be written of her, and they will be even more complete. But they will all come back to this one."

A visão de Chesterton sobre a “Woman question” não é exactamente aquilo de que estamos à espera. A luta pela igualdade das mulheres parece conter algo de nobre. Parece ser um grito de justiça. Mas procurar igualdade com os homens, para G.K. Chesterton é um “step down for women”. Certamente um tema para debate…

 

Textos de Chesterton sobre a “Woman question”

·         “The prudery of the Feminists”, Fancies Versus Fads

·         “Feminism or the Mistake about Woman”, What’s Wrong with the World

·         “Emancipation of domesticity”, What’s Wrong with the World

·         “Folly and Female Education”, What’s Wrong with the World

·          “Woman”, All Things Considered

·         “On Women who Vote”, Avowals and Denials

·          “The Independence of Women” (1923)

·         “The Drift from Domesticity”, The Thing

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A propósito da entrevista que deu, o Bispo Azevedo*, um dos dirigentes do departamento/repartição cultural do Estado do Vaticano, tem toda a razão, Nossa Senhora não precisou de aprender português para falar com a Lúcia.


O que Vossa Excelência Reverendíssima ainda desconhece com certeza é que aquando das Cortes de 1646 onde D. João IV assumiu coroar a imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, como rainha de Portugal, Ela ficou de tal maneira comovida que resolveu pedir (aliás como sempre o fez em Fátima...pedir) a alguns doutos portugueses que com Ela partilhavam o Reino Celeste, para lhe ensinarem o português. Entre eles se encontravam Santo António, que seria Doutor da Igreja em 1946, mas na altura já um belíssimo orador, Frei Bartolomeu dos Mártires a que se juntou uns anitos mais tarde o Padre António Vieira, especialista em figuras de estilo. Aprendeu num ápice ou não tivesse já Nossa Senhora a fantástica experiência do Pentecostes.

Numerosos anjos se lhe juntaram, tendo sido os mais assíduos, o Anjo da Paz e o Anjo de Portugal, este último até por dever de ofício. Daí que, quando apareceu em Fátima aos pastorinhos, Nossa Senhora, tivesse já mais de 270 anos de experiência na língua de Camões, muito mais do que Vossa Excelência Reverendíssima, ou eu temos. Já agora, e sendo, um dos dirigentes da secção cultural da Santa Sé, em quantas línguas dos homens, Vossa Excelência Reverendíssima é expert, 7, 8, 12...70 X 7 (490)? Já que imagino que a língua dos anjos seja cadeira curricular básica em qualquer seminário.

Quando eu concluir o meu livro "Presença de Nossa Senhora em Fátima. Contributo para uma fenomenologia das Aparições", com base no que aprendi em Washington com Robert Sokolovsky, a conversa será outra. Hoje foi um discurso meio blogueiro.

 

O discurso teológico avança e faz-se com a ajuda preciosa da sua eterna serva, a  filosofia, "The making of essential distinctions", como bem a define aquele autor. Isto no momento adequado, sem esquecer a pastoral da Igreja, e sempre no serviço da fé. Agora, como "eu sou eu e a minha circunstância", escrevi estas linhas, na espuma destes dias, que  antecedem a vinda do Papa ao Santuário de  Fátima no centenário das Aparições.

 

* Nós para os outros Bispos também só usamos os apelidos ex: Cardeal Ratzinguer, Cardeal Montini etc. Porque é que para os de nacionalidade portuguesa temos de usar o nome completo e de mais com Dom... Nunca ouvi chamar Dom Joseph Aloisius ou Dom Christoph Schonborn ou mesmo Papa Dom Francisco....

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22
Abr17

Fátima mascarada

por Fátima Pinheiro

Com a vinda do Papa a Fátima têm proliferado livros, artigos e filmes, que bem revelam o estado mediocre da produção cultural  no nosso país e  no  estrangeiro. Assunto ao qual é indiferente muito  boa gente. Mas a moral é uma coisa, conhecimento é outra. Não se tape o  sol com a peneira.

Quero então dizer que  vivemos a curto prazo, que também as editoras atravessam problemas, que não há estratégia educativa, e, gravíssimo, uma ignorância que brada aos céus. Mais, mente-se, dão-se cambalhotas epistemológicas, ofende-se, manipula-se, com base  em pressupostos que passam longe do crivo da inteligência e dos  factos. E uma ausência de filosofia  que bem mostra que se Descartes já passou de moda a um nível consciente, a um nível subjacente está bem actuante. Varrem-se séculos  de filosofia, vibra-se com o "eu sou eu e a minha circunstância" de Ortega e com os saltos de Kierkeegaard no irracional, e sobre Husserl, o genial filósofo  do  século xx ( e seguintes),  uma esponja! Confunde-se fé com superstição, razão com ciência, filosofia e teologia.

Já não se escreve para esclarecer (até porque quem não está esclarecido, não esclarece). Escreve-se para aparecer, para dar cartas, marcar posição. Sim, a liberdade é uma conquista.  Mas não é uma coisa absoluta. É simples, mas dá trabalho. Um trabalho diário de libertação. E se o papa bem sabe o que é a teologia da libertação, que sublinha a necessidade de dar condições materiais de  vida  às vidas, Ele é também o intelectual que sabe das necessidades de uma teologia da libertação de preconceitos em estado bruto, para que se caminhe no conhecimento. A verdade liberta.

Com bem sublinhou  Aura Miguel, os  pastorinhos  levaram uma vida de verdade, e é por isso que vão ser canonizados. Não é por terem visto Nossa Senhora. A verdade é que viram. Basta um pouco de honestidade intelectual. Mas é muito mais cómodo ficar no discurso que se choca com os desnecessários sacrifícios e explorações comerciais...E a Igreja a deixar e a incentivar. Mas importa não esquecer que Fátima é  também um fenómeno  de massas. Agora, não se reduz a isso. Tavez seja o aspecto mais visível. E é a isso que os nossos olhos se habituram.

Só duas notas para exemplificar. Angelo d'Orsi, sabe porque é que a bala está na coroa? Se soubesse, não escreveria o que escreveu no seu livro que li por recomendação de Vitor Serrão . Gramsci não tem instrumentos para compreender Fátima. Fátima é superstição e regressso ao pré-moderno? Não. Não foi espetar a bala na coroa sem mais. Dum historiador espera-se História. E já agora, D. Carlos Azevedo, sabe o que diz Husserl das potencialidades da intencionalidade? Dum teólogo também se espera Filosofia.

Antes a Fina da Armada e seu par, o Pe da "Fátima Desmascarada".

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16
Abr17

5 propósitos para o novo ano

por Fátima Pinheiro

 

 

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1. Agir cada dia com a consciência  que este pode ser o meu último dia. Tenho verificado que olhar assim as circunstâncias, em vez de me encher do pessimismo da indiferença, ou do  "vale tudo", pelo contrário maximiza o potencial de cada gesto meu, aumentando a qualidade das relações. E porque  de facto posso estar  a viver o meu último dia. "Cada dia tem o seu afã", mas sem stresses, porque "Roma e Pavia" não se fizeram num dia, embora  grão a grão encha a galinha o papo - isto para dizer que desistir jamais.

2. Ter consciência que um dia não são dias, que cada dia existe cheio de minutos e horas que desafiam as minhas decisões. Ou deixo andar ou faço acontecer. "Protagonista ou nada". Fazer acontecer pode ser a-guardar ou então virar página, não importa. Mas o propósito é decidir, escolher, e não me alienar na decisão alheia, ou ir  adiando. Como reza o ditado "não deixes para amanhã o que podes fazer hoje". O tempo não é para perder. E há tempo que baste e há tempo para tudo.

3. Rechear-me da cultura daqueles que viveram antes, e dos que vivem no meu presente, daqueles em quem reconheço a autoridade de quem  vive uma vida "em primeira mão". Ninguém inventa a  roda,  mas antes, cada um roda de forma diferente. A novidade e inovação de cada um é incompatível com o seguidismo, com a carneirada. Como diz  o povo, embora o diga para o corpo, para combater a  gripe, "aninha-te e abifa-te". A alma anda muitas vezes engripada, pelo que precisa dos remédios culturais,  da nossa cultura e das culturas  dos  outros , onde se inclui o senso comum dos costumes , o dos saberes e das artes, e o da sabedoria popular.

4. As pesssoas são uma surpresa, por isso vou passar a "parar, escutar e olhar", como se fosse a primeira vez. Todos e principalmente quem já conheço. Tenho por vezes verificado que afinal "não era assim", que tinha interpretado mal. É, no fundo, saber dar prioridade. E experimentar a  alegria que é a de ir lavando os pre-conceitos, sem os quais não se avança. Porque enganos  e tristezas não pagam dívidas, sigo em frente com a história que Deus me deu, dá e dará. E corto a direito. 

5. Não fazer acepção de pessoas porque todas fomos pó e seremos pó,  embora cada credo, religião ou filosofia de vida encare a vida de formas diferente, isto é, sabendo que teoricamente cada pessoa pode forjar a sua propria religião e uma certa,  ou menos certa, sua visão  das coisas  Mas não fazer delas  das pessoas, de cada um, degraus para chegar seja onde for. As pessoas, eu incluída, somos lugar de incondicional e inestimável valor. Sabem porquê , claro. Como nada acontece à toa, não será sem razões que escrevo estas linhas na vigília Pascal, mãe de todas as vigílias, como alguém notou, há muitos séculos, já o mundo era uma criança...

 

 

 

 

 

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13
Abr17

ECCE MEN ou PAUSA

por Fátima Pinheiro

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 Zurbaran, Nossa Senhora em pequenina

imagem tirada da net

 

Sim, é sobre a Semana Santa. No princípio era Descartes. "Culturalmente" falando, claro. Já tinha havido muitos filósofos antes. E há-os por todo o lado. O eu foi dividido, a parte mensurável uma, a parte não mensurável, outra.  O ideal da ciência: tudo medir. Mas há coisas que não se medem. Uma coisa é o  olho, outra o olhar. A fenomenologia tem razão. Husserl e M.-Ponty, neste ponto, em particular. A mão e o gesto, etc.

O golpe cartesiano deu lugar a tanta sabedoria, como se o eu se desdobrasse nas suas infinitas possibilidades como projecto, podendo assim reflectir-se e ficar a conhecer-se melhor. É a vantagem da História. De nascer hoje. Aliás não pode ser de outra forma.

E o eu desagregou-se a um ponto que já não se considera insensato afirmar que cada um é o pós-pós-pós-moderno que quiser ser. Sem esquecer a utopia de um futuro feliz e socialista ao qual pouco importa que cada um possa assistir, porque o material é decomponível. E a luta era para o outro, e para o outro a seguir, sempre para melhor, mas sem mim.

E sem esquecer a, tão de hoje, modalidade de um eu que se quer ele próprio confundir com o infinito; passando assim a haver só infinito, sem que o eu se diferencie. Um desejo de dissolução, porque a dor é insuportável, melhor então é vivê-la estando acima dela. Multiplicam-se filosofias, religiões, movimentos, sincretismos, “à la cartes”, etc., que encorajam e ensinam uma ascese que se pretende boa. Uma elevação ou despojamento que devolve o eu ao Absoluto, a gota ao mar, uma espécie de panteísmo. Uma felicidade sem eu, sem mim.

A mim parece-me mais humano um eu que não se apague e que veja cumprida a sua fome e sede de infinito, como lembrou a nossa Florbela Espanca. Um eu que quanto mais grita pelo que quer, mas se afirma a si mesmo, sendo ele e não outro. Porque é nessa diferença que pode entender e partilhar o seu e o grito do outro. Na mesma dor. Na mesma alegria. A desejar beberem e comerem do mesmo Pão e do mesmo Vinho.

De que me serve um futuro ou uma dissolução, se aquilo que eu sou é mesmo fome  e sede de infinito, mas AGORA e sem PAUSAS? Insaciáveis. Sobretudo diante da dor, dos outros, que é minha também. Gosto de vestir a camisola. Eu, não outro. Também a dou se for preciso. É isso que quer dizer que nos comemos e bebemos uns aos outros. Simpatia. Compaixão. Amizade. Amor.

E o melhor mesmo, é uma boa refeição em que cada um saboreia com gosto o que está à mesa no meio de todos. E brinda. Em companhia. Não quero que comam por mim. Não o impessoal. Posso até morrer de fome. Mas isso é uma decisão minha.

Onde está o LOCUS ISTE? O meu lugar? Na verdade eu não tenho lugar, eu sou um lugar, sou eu.

Onde “está” o LOCUS ISTE? Acontece-me. A mim.  Tudo o mais seria alienação estética, religiosa, e outras. A minha tensão está em sentir, levantar-me, com os meus pés. Toda. Onde quer que seja. A ser eu, aos bocadinhos, sem maniqueísmos. Para que serve a minha vida se não é para ser dada, dizia Claudel. As coisas anunciam-se e eu quero dizer sim. Não mudo o mundo, sei que há quem lute por um feijão. Posso dar sopa a toda a gente? Se calhar podiamos. Mas quem nos dá a nós?

O mais importante no Cristianismo não são os valores, não é a moral. O diamante do cristianismo está muitas vezes envolto na lama das nossas mãos sujas. Mas está.

As partes da feijoada de que eu gosto mais são a farofa e a couve. Passo sem elas se for bom. E não quero nada rever-me naquilo que o Cardeal Cerejeira dizia dos católicos (ou de Lisboa, ou Portugal, não me recordo agora): comem, bem e não fazem mal a ninguém.

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09
Abr17

Mais uma Semana Santa

por Fátima Pinheiro

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Bent Hamer, 1001 Gram (2014)

 

Mais uma Semana  Santa, soma e segue. Até morrer. "Vai um de cada vez", disseram-me outro dia numa missa de corpo presente. Eterno retorno ou ressureição?

Um livro que conta a vida de um sacerdote da Diocese de Milão, Luigi Giussani. Usarei em tradução livre a edição italiana - Alberto SAVORANA, Vita di don Giussani, Rizzoli – Milano, 2013 - em breve em português. Aliás, o primeiro de quarenta capítulos foi lançado no Meeting de Lisboa, na presença do autor. Tudo isto para quê?

Simples. Um dia, anos cinquenta, o já padre Giussani ia no comboio. Ouviu uma conversa entre teenagers sobre Religião e Igreja. Constatou algo muito significativo: as posições que cada um defendia eram baseadas em ignorância, e desenvolvidas a partir de falsos preconceitos. Pensou (digo por minhas palavras): é preciso dar a conhecer, falar verdade.

Para que a vida seja boa, mas já, e não para depois; nesta Semana Santa, que é diferente de todas as outras. Cristo prometeu que quem O seguisse teria a vida eterna e o cêntuplo JÁ. E o que os miúdos dizem no comboio da vida interessa-me. Quero ir para o meio deles. E veio também para o meio de mim, Graças a Deus, já há mais de 20 anos...

A questão decisiva para Giussani, à qual dedicou toda a sua acção educativa, através do Comunhão e Libertação, a sua vida, é então esta: Cristo: sim ou não? Hoje continua verdade. Quem sabe mesmo o que é o cristianismo?

A educação é a rocha de sociedade, das pessoas. A minha pedra angular. Sem ela não vamos muito longe. Hoje mesmo. A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira. Mas isto é tarefa de cada um. Já foi tempo em que a Igreja era uma “coisa” de alguns. Cristo é para mim “sim” ou “não”? Para responder é necessário saber de quem estamos a falar. Destaco então o capítulo 19 do livro que referi. A mim esclareceu-me, e vejo-me num caminho em que a companhia deste movimento me alegra e me dá um gosto de vida nova. Como deu a S.Paulo, a Santa Teresinha do Menino Jesus e a tantos. Porquê?

Porque a resposta à pergunta é a razoabilidade que enche e transborda do nosso ”coração”, das exigências e evidências que correm e fazem correr a natureza humana.

Agora do livro. Quem não tem sede de verdade, justiça, bem e beleza? O que é a religiosidade? «A essência da razão».

E qual é a pergunta que se faz mais vezes? «Faço-me tantas». Pode citar uma, pelo menos? «Se Deus deu aos católicos a inteligência, é para a usarem ou fazerem um holocausto dela?» Quando “os tempos são maus”…quer dizer que veio o momento da conversão do coração e da maturidade na fé. [...] A vida vale a pena ser vivida para edificar a glória de Deus, isto é, para construir a humanidade nova na Igreja. Pois bem, em toda a história do cristianismo a condição para construir é o sacrifício, isto é, a cruz …A maturidade da nossa fé - eis a ressurreição. Introdução à realidade, é o que é a educação. A palavra “realidade” está para a palavra “educação” tal como a meta está para um caminho. A meta é todo o significado do andar humano: esta não está presente unicamente no momento em que a empresa se realiza e termina, mas também em cada passo da estrada. Assim é a realidade, que determina integralmente o movimento educativo, passo a passo, e é a sua realização. Infelizmente, a mentalidade laica – Giussani nota que isto é evidente na escola – «não está interessada em dar um contributo para a tomada de consciência efectiva de uma hipótese que explique as coisas unitariamente. O analismo que predomina nos programas abandona o aluno frente a uma heterogeneidade de coisas e a uma série de soluções contrárias entre si que o deixam, consoante a sua sensibilidade, desconcertado e desalentado no meio da incerteza». Em consequência, o jovem «sente, normalmente, a falta de alguém que o guie e que o ajude a descobrir aquele sentido de unidade das coisas, sem o qual ele vive uma dissociação» . É precisamente esta constatação que leva Giussani a aprofundar o conceito de autoridade: «A experiência da autoridade surge em nós como um encontro com uma pessoa rica na consciência da realidade; de modo que esta se nos imponha com a revelação e nos traga novidade, espanto e respeito. Da sua parte há uma atracção inevitável, da nossa parte uma inevitável dependência, sujeição». Para Giussani, a autoridade, de uma certa maneira, é o meu “eu” mais verdadeiro. Mas muitas vezes, hoje a autoridade propõe-se e é vista como algo que nos é estranho, que “se acrescenta” ao indivíduo. A autoridade permanece fora da consciência, ainda que talvez seja um limite devotamente aceite» Dentro do percurso educativo, a figura da autoridade é central até accionar a verificação da proposta vinda da tradição «e isto só pode ser feito por iniciativa do jovem e por mais ninguém.

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03
Abr17

Manoel de Oliveira, fez dois anos

por Fátima Pinheiro

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 a imagem é tirada da net

Fez ontem 2 anos. Era uma Quinta-feira santa, vieram escoltá-lo. Na sexta santa, às 15 horas, junto da faina do seu Douro, foi a enterrar, da Igreja de Cristo Rei. A terra, que ele nos dá sempre objetiva e nela misturado, aguardou o silêncio do sábado que é santo, na antecipação da explosão, anunciada na cara que Pasolini escolheu para aquela Maria. É muita fé! Nem falta dizer que ao terceiro dia ressuscitou. Pontaria não lhe faltou, vê-se. E não era ao calhas. Era ao pormenor, ao detalhe, num olhar exigente e assim obediente ao real. E assim se aprende que ao “sim” interessa voltá-lo, porque, ao contrário do “non”, muda. Nunca tinha entrado num olhar assim. Estranho, o caso de Manoel de Oliveira. Palavras leva-as o vento. E que importa? A vida é “incertitude”, confessou em Veneza ao apresentar Angélica. A morte sim, certeza, “une sortie”. Como? Um “Acto da Primavera” – Auto da Paixão – em 1963. Outro documentário míssil, que não passou despercebido, como ele nunca passou. Ao colega que se dizia ateu, deu-lhe em 1964 na Paixão Segundo Mateus. Ambos estranhos. Mas não pela longevidade do primeiro e pelo segundo ter sido assassinado. Falo por mim, entranharei sempre.

O que parecia a uma primeira vista apenas prenho de tédio e obnubilação, sai-me ao contrário e cada vez melhor. “Eu cá aprecio, mas…”, oiço agora e sempre. A questão é no entanto outra. O cinema afinal o que vale?, é a pergunta. Por outras palavras, tenho a “certitude” que o realizador faria o melhor Bond de sempre, se tivesse dinheiro. Mas era preciso querer fazê-lo. Ele não quis. Para saber porquê é preciso ver os seus filmes. Pão, Belle Toujours, Vale Abraão, O Gebo e a Sombra, lembro-me agora. Mas não há nenhum que não me caiba. Excedem-me. Vejo-me num espelho. Como agradecer? Caminhar em e para face a face. Na glória. Como quem começa à mesa, uma refeição, e o que quer “comer” é o outro. Deixar-se uma unidade, em que cada um se distingue cada vez mais do outro. Não há filme de Oliveira que não tenha ceias. A Divina Comédia tem mesmo uma última ceia à volta da qual passeiam Maria João Pires e Dostoievski. Agradeço sim. De mãos dadas, como irmãos, na massa, à luz da sombra que lhe expõe a ferida a todo o terreno. Na pobreza que me ensinou a pedir. E no bravo fluvial da sua cidade, onde planos e acções se continuam a cortar, para me dar vida. Pergunta Claudel: para que serve a vida se não for para ser dada?

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