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Rasante

Rasante

A beleza desarmante de Nolan

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O fedor em que vivemos não deixa lugar a dúvidas: isto não vai lá com paleios, mensagens ou declarações. É o recente filme de Christopher Nolan que me faz hoje falar assim. É tão bom que eu, uma incondicional de Manoel de Oliveira, vejo nele traços da Caça, do Non ou Vã Glória de Mandar e O meu caso. Vi todos estes filmes com dificuldade em puxar o queixo para cima. Com o de Nolan, ainda estou na ressaca. Acho mesmo que Oliveira teria gostado da obra deste realizador que sabe mais do que fazer Batman. O dinheiro é pouco se com ele se pode fazer muito. A ausência dele, de dinheiro, também não impede que se realizem filmes geniais, como é o caso de Oliveira. O que há assim de tão especial em Dunkirk (2017)?

Filmes com temas da Segunda guerra mundial, Auchswitz e outros, há que chegue. Parece gasto. Mas a força que vem da câmara de Nolan tem a imponência de me mostrar hoje o que sou eu e a minha circunstância. Sem filtros ou mensagens dá-me diante dos olhos a monstruosidade do mal, na doçura de quem não desiste de esperar. Tira-me de paneleirices, boas intenções, escritas ou consuetudinárias, Onus ou vestidas de quem tem apenas uma ideia na cabeça: a vã glória de mandar. Põe-me na bandeja da manhã a indústria da celulose, o teatro dos Pedrógãos de sessões contínuas há dois meses, a orfandade de não ter governo nem quem mande mesmo nas forças armadas. Páro aqui porque um post tem que ser pequenino. Numa palavra: nada encontro na bandeja mediática. But we shall never surrender.

Há tempo para tudo: uma bacalhauzada a Macron, o consolo ao Rei de Espanha. Mas poupem-me a um MNE que disse (quando Costa estava a banhos....foi a banhos foi!!!! Devia ter ido sim, um banhozinho a sério só faz bem, mas tem que ser um banho em águas limpas) que está tudo bem, a um MD e um CEMGFA que também que sim, a um MF que é uma luz bruxuleante precisamente em Bruxelas, a um MC que é pura poesia, poupem-se e poupem-nos. Eu ofereço o espelho, pode ser?

Uns meses antes de começar as filmagens de O Velho do Restelo, Oliveira disse-me nos olhos: é preciso acreditar. Acredito sim. Mas com razões. Em obra feita. Acredito em quem me clarifica e até pinta os narizes dos aviões alemães de amarelo para me facilitar a vida. Obrigada Nolan porque fizeste um filme que é já para mim um clássico. Desarmante. Não provoca a lágrima que distrai, não chora sobre leite derramado, mas faz-me fazer, plena de uma arquitetura de imagens e planos de uma beleza que parece Impossível.