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Rasante

Rasante

A cultura do autoclismo

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Tanta pressa!! Passamos a vida a despachar. Ontem uma amiga de infância fez anos. Enviei logo de manhã uma sms, para despachar. O ideal era ir lá e dar um abraço. Mas ao menos um telefonema seria muito melhor do que a mensagem  digital. E o que dizer da voz, as gargalhadas!! Mas pronto, ao menos estive digitalmente. Sou tão organizadinha. E tenho medo de não ter tempo para tudo. Não é bem medo. É não querer deixar nada para trás, não me deixar ao improviso. Se fosse um funeral, ia, claro. Mas amanhã é dia de trabalho, e tenho tanto para fazer!! Ou então vou já à missa, para despachar. Ao menos cumpri o dever dominical. Eu que gosto e preciso de missa sempre, caio nesta tantas vezes!

Outra.  Vamos ao cinema. Antes comemos qualquer coisa - não é jantar - e depressinha. A que horas é o filme? perguntamos entre duas dentadas, faltam 5 minutos, despacha-te. Mas tem os anúncios. Ok. E vamos. Este está feito, fui ao cinema. Às vezes adormeço. Quem bom! Despacho umas horas de sono, e fui ver um fime. Quer dizer não vi nada. Parece que fazemos tudo o que é bom, mas sem o fazer. Não gozamos mesmo. É como lavar mal os dentes. Mas lavamos. Ou curtir o almoço com um colega, sem almoçar e na boca, com o sabor agro-doce de uma coisa que não leva a lugar nenhum. Só para despachar este ar antiquado de quem, na prática, não  vive neste maravilhoso século XXI, de homens e mulheres que mudam de partner como quem vai à casa de banho, faz o que tem a fazer e clica no autoclismo.  É como ir ao ginásio, a correr, claro! Agora inventaram o conceito  de "escapadinhas"...

E no trabalho? Às vezes dá gosto, outras não. É como os dias. É como o fim de semana. Muitas vezes o melhor é despachar: os cinco dias que passem depressa para chegar aos dois; ou que se despachem os dois para chegar aos cinco. O mesmo dos dias de férias. Temos pressa de chegar às rotinas do trabalho. E queremos mais um reveillon, queremos passar para o ano a seguir. E as prendas, ou prenda, de Natal? Tudo a  postos. Agora às vezes, para despachar, é um envelope com dinheiro. E damos a  boa  desculpa de que é com dinheiro porque a pessoa pode escolher o que quer. Ele tem tudo! Ela é que sabe! Na, na, queremos é vêr  o assunto despachado,  não ter que pensar. Bastaria um bocadihno para imaginar o que a pessoa gostaria. Mas, até ja me esqueci de ti! Já não sei quase nada de ti. De que cor é o teu cabelo? És careca? Fiquei na semana que passou, ou ainda me lembro de coisas de há 10 anos ou mais atrás. E nunca mais tenho netos!!! E a viagem que vou fazer para o ano. E a minha festa de anos? Feita. E aquela dos meus filhos arrumados, só falta o mais novo!!!!!?????? E os dias para os sogros??

Tanta pressa. E os dias não perdoam. Vão passando. E vou a correr buscar os filhos, sobrinhos, ou visitar os velhinhos que encaixo aos sábados na minha vida, ou vou ao jantar marcado atempadamente para não falhar - ou despachar... - fazer as compras, o comer. E a loiça lavada, e  a roupa em dia. E o livro todo lido. Às vezes a passar as páginas à pressa, para chegar ao fim. E ter lido! Há quem leia em cruzado. E fui ver o tio ao hospital. E as rotinas das praias e dos toldos ! E a abstenção, os inquéritos parlamentares, comissões independentes e segredos de justiça?

Pode ser tudo muito bom, eu sei. Mas pode ser tudo muito mau. E por ser a despachar - vida que não me dá prazer nem gozo - tenho vindo a inovar. Como? Comecei seriamente há uns meses. Embora dê trabalho, é muito simples. É perguntar-me: "Fatinha, o que queres?" "Escreve num papel!". Esta pergunta pode ser feita em qualquer lugar, mesmo em plena asneira.

Escrevi tudinho. É só coragem e decisão. E tenho vindo a despachar o que não me interessa. Uma espécie de ascese. O papel é um vade  mecum, um escapulário onde decidi  escrever os nomes dos meus amigos.  Há coisas que não se deitam no autoclismo.