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Rasante

Rasante

“As Sombras de Grey”: vamos antes brincar às casinhas?

antes de entrar no quartinho de brincar/imagem tirada da net 

 

O sucesso do filme de Grey deve-se ao facto de sermos feitos para o mistério. Só que nos oferece um mistério raquítico, e não aquele que não cabe no desejo que habita em mim, em cada ritmo meu. Desejo que me acompanha desde que sou lançada ao mundo e berro e nesse momento todos se comovem, até ao respiro que nos leva “desta para melhor”. Porque será que gosto de coisas misteriosas? Assim como brincar às escondidas? O que acabo de ver em estreia, e que pretende ser arraso e liberdade,  é mais uma burricada, e a malta engole. 

 

Quando era pequenina adorava o oculto. E agora também. Céus escuros, céus estrelados, quartos ou sótãos proibidos atraem-me. Em pequenina às vezes “entrava” neles, e às vezes tinha medo e precisava da mão de alguém mais crescido (podia ser o irmão mais velho, um ano de diferença chega); outras só mesmo pela mão da mãe ou do pai. E considero que o mesmo se passa com as pessoas em geral. O sucesso do filme «As Cinquenta Sombras de Grey» - adaptação cinematográfica do livro best-seller – tem seguramente parte da sua explicação neste gosto. Desde o seu lançamento, a trilogia «Cinquenta Sombras» foi traduzida em 51 idiomas em todo o mundo e vendeu milhões. Todos! É o hit, fenómeno do qual todos falam, um pouco à maneira do que aconteceu com o livro “O Código da Vinci.” Só que no caso de Grey o cinzento mancha o vermelho fresquinho do amor. Faz mal.

 

O amor do irresistível homem poderoso em tudo, mata. A confiante jornalista é um caso de “o amor é cego”. Quando ele lhe pega na mão para a levar à câmara do brincar dele, ela, de olhos cerrados por ele, ainda lhe pergunta se é o quarto dos jogos de computador ou assim (para jornalista sabe pouquinho; deve ser estagiária; eu com a idade dela já sabia mais qualquer coisita…). Dir-lhe-ia: Não entres tão depressa nesse quarto claríssimo! Ou cantava-lhe com a Dora: “não sejas mau para mim”http://youtu.be/rSFxafh6QJ4

 

Mas não. Nada há que eu não controle, diz convicto o educado Sr.Grey. O querer dela também. E uma rapariga fica a pensar que dar-se é dar-se “assim”. “O meu Ernesto ama-me mesmo”, diz uma. A outra: “Nem penses, o meu Artur tem umas algemas novas que nem imaginas”, replica a outra. “E o chicote!” É o amor. E isto vai-se entranhando e chega-se a pensar que é assim. E o amor fica reduzido ao receber dum domínio que nos faz pensar que somos as únicas a ter tais “delicadezas”. E de sexo, venham-me depois falar de pedofilia ou de padres que fazem isto ou aquilo. Ou pisem-me nos transportes públicos: aí protesto. Mas com os Greys, fiche!

 

O amor é cego. Neste caso é mesmo ceguinho: sombras que não deixam ver porque nada escondem. Câmaras claras que só sabem descarregar o mesmo do mesmo. Não dão o novo amanhecer. O "nosso" (?) mundo está contaminado de Anastasia(s), estudantes de literatura, ou outra coisa,  a chocarem com Christian (s) Grey. Numa ilusão real de um amor etéreo. Numa carne mentirosa porque desenhada a régua e esquadro, carne talhada à medida de um plano. Tudo o contrário da carne viva de um gosto de vida nova, de um prazer que nasce sempre novo, que penetra  os olhos do outro, deixando sempre o fundo dum lago que não tem fundo. Olhos que são janelas do infinito. Olhos de corpos singulares. Pessoais. Já o livro nada nos dava disto. O mesmo do filme. Vá lá. Não são vampiros. Mas é muito pobrezinho. Mesmo desumano. Mesmo destrutivo. E é isto que vende; o que também não é novidade. É a globalização da indiferença, disse hoje o Papa Francisco, nesta quarta-feira de cinzas.