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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


30
Abr15

BLACK to BASICS

por Fátima Pinheiro

 imagem tirada da net

 

Este post é igual ao anterior. Mas noutro contexto, como lembrou Bresson , nas suas Notas, realça outros aspectos.

Somos meso "black"  to basics, tótós, numa palavra, muito gostamos de nos gastarmos em assuntos que geram e gerem disputas morais, políticas, religiosas, para esquecer o que está na cara. Neste caso, para esquecer o que está numa barriga. Esquerda ou direita? Quando se trata do que está chapado na cara, diante de mim - para dar um exemplo, numa boa troca de olhares -,  de pouco interessa o assento parlamentar, o Deus em que se acredita ou não, posturas espirutuais e por aí.

 

Sim, estou a falar da rapariga de 12 anos, violada pelo padrasto, que tem um bébé de 5 meses no seu seio, e que acaba de ser constituida arguida. Em linguagem chã, suspeita-se que ela até gostaria daquilo, que já durava há uns anitos. Mas não falo  nem de ética nem de religião. Falo de realidades. Ontologia. E falo sobretudo do ponto a que chegou a sociedade que construo, falo de mim, com tudo o que isso implica aos outros. Falo de um homem que fez o que fez, sei lá porquê. E digo desde já que não acredito que se ele tivesse o "coração" ( o seu "eu") a funcionar de forma razoável, teria agido assim. Não, não estou a por as culpas apenas para os contextos sociais. Ele não será um tótó que não saiba de todo o que faz. Tem quota parte (não sei contabilizar) de responsabilidade. Mas, e independentemente deste meu tom mais sociológico e jurídico, há aqui um bébé. Que ainda não é, mas que já é.
 
A mãe dele tem doze anos. Pois tem. Mas o facto é que é mãe. Não está em condições de o ter? Nós tratamos do bébé. Já houve quem se adiantasse para o fazer. Dizia uma dessas pessoas, responsável de um Instituição Social, que já lhe apareceram muitas raparigas que tinham querido não ter os bébes que tinham na barriga, mas que depois de serem acolhidas, vieram agradecer o facto de ter aceite o desafio de serem mães. Não tiveram vergonha, foram pedir ajuda e hoje estão felizes pela decisão tomada.
 
Apregoamos solidariedades, estamos do lado das crianças que morrem nas guerras. E agora, com este bébé? Somos de um cinismo atroz, de uma cretinice vergonhosa, construimos uma civilização que vai perdendo o nome, a cara, e a decência. Abaixo de cão. Com toda a evidência estaríamos agora numa guerra contra quem quisesse impedir que nascessem gatinhos  e passarinhos. E muito bem. São para nascer, viver e morrer. Nos momentos certos, claro. Agora com este bébé, porque não fazemos igual?
 
O que "pensará" , o que "sentirá" ela? Está provado que com esta "idade" , e ainda invisível à vista desarmada - que não nos maravilhosos  registos digitais das tecnologias século XXI - , o ser que é gerado no seio de uma mulher "sabe", "sente" mais do que possamos imaginar. Nem nunca saberemos, porque a vida é trespassada por um fator misterioso, luminoso, que excede qualquer lógica.A vida não cabe no meu Filofax, nem depende de um Comunicado de um Hospital. A decisão dos especialistas de Santa Maria, apoiada pelo Ministério público, pode valer muito, mas não chega aos calcanhares do "superior interesse da criança", por ela, paradoxalmente, invovocado.
 
E qual é o superior interesse da criança, senão o de nascer?

 

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