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Rasante

Rasante

Cortar relações

 

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JW

maurigrafias.blogspot

 

Tema sempre atual. Atar, reatar. Estar numa relação. Cortar relações. No facebook chama-se "bloquear". Mas as palavras não são tudo, não esgotam a realidade. Será razoável cortar relações? Podemos realmente fazê-lo?

 

Óbvio que não conhecemos tudo de uma vez e que a verdade não é "absoluta". Como "luz" (Aletheia=verdade) não é absoluta. Tudo depende de que lado o cubo me é dado, ou me aparece (fenómeno = aparecer-me). Verdade não significa que haja apenas uma face de um cubo que não existe. Pendurada, ou assim. Por isso, amigos, quanto mais subjectivo eu for (quanto mais me deixar invadir por este lado do cubo) mais objectivo sou. Não posso é ficar parado numa face do cubo: é preciso virá-lo, revirá-lo, mexê-lo, remexê-lo. Perspectivá-lo. Vê-lo noutros espaços, noutros tempos. Bebê-lo mediante os olhos de outros. Uma aventura que se dá num horizonte que não é a soma das partes, mas excede, em cada passo, em cada respirar, em cada, abraço, em cada olhar, em cada beijo. Cada dia. Como? Muito simples. E a realidade, o que há (o que sei e o que não sei que há e como é), vai sendo descoberto precisamente como relação, da qual não dominamos os contornos e potencialidades. Desde a Trindade, que é relação, ao que se passa comigo, eu comigo somos três.

 

O material tem sempre razão. As relações de sangue não se podem cortar. As outras que eu digo que corto não dependem de palavras mentirosas. Só se pode cortar aquilo que nunca esteve cosido. Viver é então manter, alimentar, tratar do "cosido". É conhecer, amar os laços. Não adianta pintar a manta. "Conhece-te a ti mesmo", "O homem é um ser social", "Eu sou eu e a minha circunstância", tudo bem. Não alinho é com Kant, que nas suas  gordas críticas da razão, nega que a realidade se possa conhecer. Ao distinguir entre "fenómeno" e "coisa em si", isto é, ao distinguir entre o que me aparece, no espaço e no tempo, e a coisa tal como ela é em si, se está a por num patamar que não sei de que espaço e de que tempo... Ou melhor, sei muito bem. Aqui ao leme sou mais do que eu, meu querido Pessoa.