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Rasante

Rasante

Daniel Oliveira disse-me “Sou filho do Herberto Helder" e ainda António Costa

Herberto Helder é, entre os poetas vivos, topo. Contudo, não dá a cara. Para ele, dar a cara é escrever o que escreve. Mas poderá alguém considerar-se dono da sua poesia? Como poeta, saberá isto melhor que eu. Ou será ele um espírito? Então ele, para quem a palavra “carne” diz tudo! É só ler a sua poesia. Os leitores, que como eu o admiram e lhe compram os livros de edição limitada, a um preço complexo, terão alguns direitos. Não desistirei de o entrevistar. Só se morrer primeiro que ele. E se "não sou digna de entrar em sua morada", seja ao menos entrevistado por um jornalista de carteira. Eu sei, a cultura "dá pouco". Os jornais não a consideram dama de primeira página. E se o fazem é "assim" em letra pequenina que é para aparentar que "aqui" tratamos de tudo, até de cultura! Ou então são do género de porem na capa outras damas, em grande e a mostrar o melhor dos seus argumentos. Eu cá prefiro não ir ao engano! Mas voltando à vaca quente, gostaria de uma entrevista minha, porque tenho as minhas perguntas. Ainda bem que tenho uma pinta de paciente, a ciência da Paz.

Evocando outros poetas que estimo. A maior sofisticação está na maior simplicidade, não é Sophia? Que o coração não é para adiar, sim António! Que a vida se vai comendo como os gomos de uma laranja, em metáfora, pois é Nuno! E que o amor... vou buscar os sonetos do William, ou não saio de "casa" e pego no Luís. Mas já que falo de Camões, experimento que o que é bom "arde e vê-se", não fosse o nosso sangue bater "contra a carne", não é Herberto? E por falar de ti, quando é que, com os teus olhos de prosas - que nos sonegas - nos dizes o que achas disto tudo? Do nosso hoje; do que gira em Portugal. Do PS “renovado”, ou da reedição do Sócrates, ou do "António Costa representa o pior de Sócrates", como glosou ontem Nuno Melo à Rádio Renascença, sei lá. Ou Passos Coelho, que dele só se aponta o "lado B". Todos temos as nossas quedas, ou não? Destas e de outras coisas podias falar, dizer o que pensas? Carne contra carne. Retórica sim, essa devia ser privada. Não precisamos de “poesia” barata. A política e os comentários são para fazer com caixa alta. E quem escreve "assim" Poesia....

Sim, nessa "carne" há mais que o constitucional poético. Da minha parte li-te, reli-te, já fui à leitaria da Trindade – onde dizem que vais - mil vezes, e nada. Pode o nosso grande poeta recusar-se a presentear-nos com uma conversa? Um dia, a capa de uma revista era o nosso Helder. "Uau, conseguiram!", pensei. Não. Era um artigo acerca do homem que se recusa a dizer-nos mais do que aquilo que diz na sua poesia. Partilhará com os seus e "não dará" nenhuma entrevista. "Então mato-me!", alguém terá dito. "Que se mate", terá Herberto comentado.

Mas eu quero. Porque nos poemas que fazes, todos ensanguentados, são tarantinos de sombra e luz "contra a carne". A minha também. Abrem caminhos, canais, portas, janelas, rios - e eu também tenho o direito de aí querer correr fora do papel. Cara a cara. Para todos.

Prende-se isto ao que se entende pelo labor ou paixão de escrever. Ninguém escreve só para si. A folha em branco é a cara do "outro" que do outro lado, ou dentro de nós, espera palavras prometidas. Anseia por humanidade. E eu quero uma vida humana, onde o orçamento conta, seguramente, mas não é tudo. A poesia não é a resposta, mas também faz parte do jogo. Por isso eu acho que quem a faz como ninguém, hoje, tem o dever de nos dar uma prosa política, hoje. A arte tem uma dimensão e uma força anímica universais que não escapam a uma inscrição “carnal” na História. E hoje esta faz-se, constrói-se, com outros meios, estando nós mais longe e mais perto uns dos outros. Meu caro, quer queiras quer não, estás na tourada.

Espero que me leias, e se pensares "vai dar uma volta", acredita que vou, e feliz. Desiludida? Não. Só uma coisa me desilude. Mas essa não ta digo; em público, claro. E para começar diz-me: “porque foges tanto?” E "para que serve a vida se não for para ser dada?" (Paul Claudel). Quando quiseres dou-te o meu telemóvel. Pede-o ao teu filho e convida-me para um café.

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