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Rasante

Rasante

Deus tem password e eu sei qual é

 

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Quando escrevo sou como o sol, é para todos. Só faz sentido falar de Deus, se me referir a esse "desconhecido", esse nome que tem aquele significado de "eu acredito em alguma coisa superior". Falo uma linguagem universal. Os que dizem que não existe tal coisa chamam-se ateus. Os que dizem que existe são os "teos", ou  crentes. Os que dizem que não pode haver esse género de certezas são os agnósticos. Dizem que são tão humildes, tão humildes, que não se atrevem a uma opinião. Há pessoas que acumulam, e até se pode ser tudo dependendo dos dias e do mood, sendo assim Deus tratado como uma espécie de multibanco sem password. Ora anda cá, ó Deus. Como se afinal o conhecessemos até muito bem. Como é que Tu permites isto! Ou aquilo.

Toda esta conversa porquê e para quê? Estive ontem outra vez com o "Crime e Castigo", de Dostoievsky. Almocei com um amigo recém chegado de umas curtas férias na Rússia e a sobremesa passou por ir ao romance tirar umas dúvidas. Genial: lê-lo é ler- me. É ler os outros, o mundo, a vida, as nossa vidas.

Posso enganar meio mundo, enganar-me a mim mesmo, mas a Ele não. Deus não é um edifício inteligente, mas não é parvo de todo! E, tendo um sentido de humor inexcedível, não está contudo para brincadeiras. Raskolnikov, o herói do livro, matou uma  velha aggiota e, qual lady McBeth, tem que matar uma segunda, ainda mais velhota, Lizaveta, que não era suposto estar na casa, mas estava e viu. Foi à vida também.

Raskolnikov, nome que significa "em pedaços", "quebrado", vive na ansiedade de quem, apesar da sua tese de ser um homem acima do comum dos mortais - o nietzscheano para além do bem e do mal; matar uma mulher que vive do dinheiro dos aflitos é quase uma obrigação, por um ideal -, apesar disso, dizia eu, ele tem um sentido de que o que fez não está certo. Uma velha imoral sim, agora Lizaveta, que era boazinha!!!....O escritor russo não inventa personagens ao acaso. Lizaveta tem este efeito de complicar o que lhe parecera, ao agora feito em cacos, tão linear. Mexe e remexe. Até que não resiste ao olhar de uma mulher, a crente Sónia, que por ele se apaixona. E como "do amor ninguém foge", é sob o olhar dela e no seu abraço que é salvo, sabe o que fazer: entrega-se. A decisão custou-lhe, até lhe chegou a parecer impossivel. Mas, imponente, o seu grito "sou um criminoso", proferido de joelhos, abraçado por Sónia (que significa "sol", "luz") naquela ponte imperial, diante dos que ali passavam,  devolveu-o a si.

Foi como a  revolução que aconteceu a  Lázaro morto, episódio descrito na Bíblia e que Sónia lhe lera, a seu pedido: quero saber onde te leva a tua fé, diz ele à  rapariga. Entregou-se não por cobardia, como chegou a pensar, mas por um amor concreto. Não por uma questão de valores, mas por uma pessoa. A minha fé  leva-me até si, disse ela antes de recitar de cor a passagem de Lázaro.

Durante sete anos  preso na Sibéria, ela está sempre presente. Potente e desarmada numa gratuidade que é divina e humana. E vai mesmo lá visitá-lo, nos poucos intervalos que tem entre a vida de costureira em S.Petersburgo. Não são apenas os que precisam de ver cosidos os seus chapéus que precisam dela. 

 A password?  É de caras.