Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


27
Ago14
Manoel de Oliveira, fotografia da net

Fora eu mosca e escreveria outra coisa. Assim sendo, vou a Veneza em pensamento, recordando o que "vi" no Centro Cultural de Belém em 12.5.2010. O novo filme de Oliveira, "O velho do restelo", tem estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza, que hoje começa. O filme está seguramente implicado nestas palavras. Mas ficamos à espera como referi aqui http://rasante.blogs.sapo.pt/oliveira-em-veneza-estreia-e-segue-22532 . Manoel de Oliveira é cultura portuguesa, é universalidade. Ele não é “apenas” um homem que tem hoje 105 anos, até porque, como ele diz, o que conta não é a duração mas o argumento.

O meu De Oiro Faina Fluvial, num dos seus filmes sobre a História de Portugal afirma, com toda a certeza, pela boca de Luis Miguel Cintra : ”só se conquista o que se dá”.Portanto nada de “regressos”, ao passado, ao futuro, nada de imperialismos, ou “familiares”. O que conta é a Presença. Embora, como o cineasta tenha afirmado em Serralves na estreia do filme “Os Painéis de S.Vicente”, o Presente tenha uma “fábrica”: o Passado. Quem foi ontem à Cinemateca - os encartados - diz que a curta-metragem de 20 minutos abre com as ondas do mar, e que delas emergem momentos de filmes anteriores como «Non, a Vã Glória de Mandar» e o « O Quinto Império". A identidade portuguesa mais uma vez a dar o mote à lucidez que nos invade de um olhar enamorado.

Religião e arte: Palavra de Manoel de Oliveira no encontro de Bento XVI com o mundo da cultura
CCB 12 de Maio 2010

«Antes de mais quero agradecer este muito honroso convite para pronunciar, neste encontro, umas simples e breves palavras. Principiarei por dizer-vos ter pensado que as éticas, se não também mesmo as artes, seriam derivadas das religiões que procuram dar uma explicação da existência do ser humano face à sua inserção concreta no cosmos. Universo e homem, criações dum ser transcendente, colocam-nos problemas inquietantes para cuja solução “o Verbo, que se fez carne” em Cristo, nos trouxe insuperáveis graças divinas.

As Artes desde os primórdios sempre estiveram estreitamente ligadas às religiões e o cristianismo foi pródigo em expressões artísticas depois da passagem de Cristo pela terra e até aos dias de hoje.

Sou um homem do cinema, do cinema que é a sétima das artes, logo a mais recente de todas as expressões artísticas, pois não tem mais que um século, enquanto outras terão milénios. Em dois dos meus filmes, figurava um Anjo. No “Acto da Primavera”, baseado em um auto popular, da família dos chamados Mistérios ainda no século XVI. Este figurava a Paixão de Cristo, projecto que realizei em 1962, e onde a figura de um Anjo fazia parte do próprio contexto religioso desse Auto. No outro filme, “Cristóvão Colombo – O Enigma, realizado já em 2007, o Anjo não constava do contexto da história do livro em que me baseei. No entanto, pareceu-me bem introduzir o Anjo da Guarda, aqui o da nação portuguesa, como prévia configuração do Destino, tantas vezes adverso e tantas outras favorável às acções humanas, como aconteceu nessa feliz viagem do navegador que, pela primeira vez, encontrou as ilhas americanas de Antilhas. Isto levou-me a repensar as figuras dos Anjos fora e dentro das Igrejas, parecendo-me conotadas com prefigurações dos espíritos. Ora se os espíritos são um só, então temos nele a natureza de Deus.

Considerando, porém, a religião e a arte, ambas se me afiguram, ainda que de um modo distinto é certo, intimamente voltadas para o homem e o universo, para a condição humana e a natureza Divina. E nisto não residirá a memória e a saudade do Paraíso perdido, de que nos fala a Bíblia, tesouro inesgotável da nossa cultura europeia? Acossados pelas especulações da razão, sempre se levantam terríveis dúvidas e descrenças, a que se procura opor a fé do Evangelho que remove montanhas. E os seres humanos caminham na esperança, apesar de todos os negativismos. Como diz o padre António Vieira: «Terrível palavra é o “Non”, por qualquer lado que o tomeis é sempre Non…», terminando por lembrar que o “Non” tira a Esperança que é a última coisa que a natureza deixou ao homem.

Se as artes nada mais aspiram a ser que um reflexo das coisas e acções vivas dos procedimentos e sentimentos humanos do universo real ou em fantasias imaginadas, pode aceitar-se o que um realizador mexicano, Artur Ripstein, classificou dum modo magnífico e surpreendente o cinema como sendo o espelho da vida. E é-o de facto.

Não querendo alongar-me mais, aproveito a circunstância para, como pertencente à família cristã, de cujos valores comungo, e que são as raízes da nação portuguesa e a de toda a Europa, quer queiramos ou não, saudar com profunda veneração sua Santidade, o Papa Bento XVI em visita ao nosso País e rogar filialmente que nos deixe a Sua bênção.»

E um «encore», este em Cannes: http://youtu.be/Ayd9r7-1nHE

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D


Links

imagens rasantes