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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


23
Jul17

Gozar o domingo

por Fátima Pinheiro

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Comentando opiniões sobre a fé em Deus, um professor meu dizia: todos ficam excitados com a frase de Kierkegaard "a fé é um salto no irracional"; calam-se, e o assunto "relações fé e razão", está arrumado; só que se esquecem de perguntar quem é que dá o salto. A Ressureição ninguém a viu. Por isso a Ciência, a dama da demonstração, não é para aqui chamada. Mas a maior parte das vezes, é em seu nome que se nega a veracidade do tal acontecimento. É uma espécie de anacronismo metodológico. Este assunto pode ser posto numa pergunta que me é dirigida por quem diz que o túmulo de Jesus está vazio: foi assalto? Ou: quem dizes tu que é Jesus de Nazaré? É Deus? Ou não? O mesmo filósofo reconhece que esta é "a" pergunta . É que se Ele é Deus, se ressuscitou, tudo muda de figura. Mas como posso eu saber? Ou: quem salta, onde, para onde, como, e porquê?

Se a vida apenas se dirige para a morte, nada na vida faz sentido completo e bem fizeram muitos, como o meu vizinho, que acabou com a brincadeira há dias. Qual é o gozo de gozar se tudo é vão? Mas também fazem bem os que decidem ficar. Agora, se é para ressuscitar, e se eu não vi, então vou perguntar a quem diz que acredita. Vou chamar-lhe Pedro. Não lhe pergunto por ser bonzinho, mas por ser um homem onde brilha uma "coisa maior" que ele, e isso atrai-me. Mas para me dar argumentos; não me contento com fezadas, quero saber porquê. Que razões me dás da tua fé, Pedro?

Não vi. Procurei. E onde vi uma humanidade maior, uma alegria estampada no rosto, parei e disse: eu quero isto para mim. No túmulo vazio vi umas mulheres que diziam: Ele não está aqui, ressuscitou, porque o tinham ouvido de um anjo. A Maria Madalena, que não O conheceu logo (pensou que era o jardineiro), Ele pediu para dar a notícia. Era um homem diferente dos outros, diante do qual o meu coração palpitava mesmo. Um homem que correspondia ao meu desejo de humanidade.

E passou de boca em boca. De carne em carne, de curiosidade em curiosidade. Uma vida que tem milhares de anos, e que chega até mim numa cara que me atrai, toca, e põe em carne viva as minhas inquietações. Como aquelas mulheres, eu quero e hoje: verdade, beleza, justiça, bem, amor. À volta tudo grita ou conspira o contrário, mas aquele homem era, em pessoa, tudo aquilo. E seguiram-No.

Seguir é simples como beber um copo de água. Um salto. Igual a muitos saltos que dou ao acreditar, por exemplo, pelo que sei e vejo, que o meu filho, desta vez, não me está a mentir. Não o posso demonstrar, isto é, dizer todos os passos que me levam a julgar como verdade que assim é. Mais simples: não é por razões científicas que sei que o meu filho me está a falar verdade. É por outro método, ao qual os filósofos chamam de certeza moral: confiar num outro que me dá razões para tal. Para não ir mais longe, foi John Henry Newman em "The Grammar of assent" que explicou isto melhor que ninguém. Demonstra que tratando-se do sobrenatural, a razão não faz nada que não costume já fazer em assuntos naturais, como o do meu filho. Salta. Só que para lá do natural.

Quem salta é então a razão. Porque encontra "alguém" da sua família: razões. Também posso saltar por fezada. Mas é desumano ir atrás porque "sim". Pedro não. Eu também não. Só descanso, ao saltar no desconhecido que me conhece como ninguém. Por isso é razoável reconhecer que Ele ressuscitou: senão eu não seria o que sou, nem quem sou. Sei-o porque me experimento. E está na cara. E se um dia me aparecer um outro Pedro maior, vou segui-lo. A coerência não é por si, um valor. Nestas coisas o valor está em termo-nos em conta. Mas o que eu vi no Pedro é de tal ordem que duvido que mude. Não que seja eu a medi-lo. É ele que me mede a mim. Como disse a Zaqueu, o tipo que cobrava impostos e que, por ser baixinho, teve que subir a uma árvore para O ver passar: desce daí que Eu vou a tua casa agora. Procurou, encontrou. Saltou cheio de razões, mesmo não abarcando tudo. Bom sinal: se eu tudo abarcasse estaria apenas diante de um mim e não de uma coisa maior. O cristianismo é superior à razão, mas em nada lhe é contrário. E é a razão que reconhece que há algo maior que ela. A fé é "Um raio de luz na escuridão", diz sempre o Papa Francisco.

 

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