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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


15
Jul15

Grécia: "bora" pintar as raízes!

por Fátima Pinheiro

 

 imagem tirada da net

 

A Grécia, a Europa, têm dado água pelas barbas. Acabo de ouvir o primeio ministro grego afirmar que tudo não passa  de "chantagem e asfixia". Já não se sabe o que se é, assinam-se papéis mesmo sem acreditar neles. Nada de novo de baixo do sol, posso dizer. Afinal sempre existimos assim; agitados pelo vento, ao sabor de marés, de um lado para o outro. Mas chegamos a este novo ponto do tempo, igual e diferente de todos os outros. E ontem levantou-se, outra vez, uma voz neste deserto. A do Papa Francisco no regresso da sua visita à América do Sul: os governantes gregos que “levaram o país à dívida internacional têm responsabilidade”; o novo governo começou “uma reforma justa”. E disse que se as empresas podem pedir apoio em caso de falência, por que razão não o deve poder fazer também um país? O Papa já se tinha referido antes à situação da Grécia. No início do mês,  Francisco pediu aos fiéis católicos que rezassem pelo povo grego. “A dignidade da pessoa humana deve manter-se no centro de qualquer debate político ou técnico, assim como tomar decisões responsáveis”, disse, na altura. Então?

 

Eu, que também sou grega, vou amá-los como a mim mesma? Sim, é isso aí que o padre jesuita, sucessor de Pedro,  tem como horizonte em tudo o que diz, faz e é. A sua Cadeira não é uma qualquer. Precisamos de olhar as suas pernas, as suas raízes, e nelas vejo  eros e agapé. Um é grego e o outro judaico-cristão? Sim ou não? Mas isto não é matéria de referendos. É mais simples e terra firme, rocha. Na Grécia enfatiza-se o erótico, mas também aí encontramos a gratuidade, isto é, o amor que passa por nos e nos ultrapassa, agápico. Mas o que Francisco nos garante, ou confirma, excede qualquer medida e, nesse mais, corresponde-nos. Como nos ilumina T.S.Elliot: num momento do tempo mas fora do tempo, o Verbo encarna e habita aqui entre nós.  Em que ficamos?

 

Raízes leva-as o vento? Andamos deveras carecas? Absolutamente. O "conhece-te a ti mesmo", que não é só grego mas "universal", chegou tão só ao desamparo que se respira e se entranha, corroendo até a um nada que parece ser tudo? Aqui paro. Não me parece que a nulidade tenha a última palavra...

 

Como os escravos da caverna de Platão (República VII), a curiosidade diante das sombras projetadas na parede de fundo - que eles ignoram terem só a realidade de serem aparências, porque já nasceram presos por cadeias e fixos nelas, sem poder virar a cabeça - , levou um deles a libertar-se, subir a caverna e sair para o ar livre. Para fora da caverna. E vendo de onde vinha a luz, viu o filme todo. Louco, como Francisco. Eu também prefiro assim. Não preciso de extensões nem de implantes. Nem de Rawls, nem de Habermas. Nem de eurogrupos. Muito menos de parar. Colo-me como uma brasileira a Milton Nascimento e canto com ele, alto e a bom senso, na certeza que vou descobrir o que me faz sentir eu caçador de mim. Nada pode parar a vida que nada fiz para ter, e muito menos merecer.

 

Decido existir na cegueira de quem ao sair do escuro para a luz, de repente, nada vê. Porque experimento que aos poucos, a vida toda, cada coisa, aparece-me na sua consistência, ou sabor. Naturalmente. Tudo escorrega em beleza. Fenomenologia, pura e dura; doce e colorida; exata e harmoniosa. Como a bola me atrai e faz correr, a rodar como um cubo que dança só para mim, com o número certo de lados. O que tem a Grécia a ver com isto? Tudo. Dívidas há muitas, já dizia George Steiner, dizemos todos, digo eu.  E esquecemo-nos de as pagar. Preto no branco. À sombra do colorido das raízes.

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