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Rasante

Rasante

Jorge Silva Melo: "é muito bom estar vivo!"

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Jorge Silva Melo, imagem tirada da net 

 

No dia da estreia de O Jardim Zoológico de Vidro, de Tennessee Williams, não resisti a umas perguntas ao encenador, o homem do teatro da politécnica. A pinta dele. A "uma mulher sem importância", não houve palavra que não "me" ouvisse, resposta a tudo. Um homem livre. Isto a minutos da estreia. Nas calmas, porque nele vida e teatro coincidem. Hoje, dia do Corpo de Deus, feliz coincidência, é bom postar aqui uma conversa com uma pessoa que encarna,cada noite, a esperança. Foi Péguy que pôs o dedo na ferida ao gritar que ela é a virtude pequenina que ampara as outras duas, a fé e a caridade. É ela que cada dia acorda com olhar renovado e diz bom dia - neste caso "boa noite" cada noite - aos pobres e órfãos. Assim como eu quero ser. No pórtico.

 

Rasante (R): Jorge Silva Melo. Vamos ter uma estreia fabulosa com certeza, Tennessee Williams, por si...

 

Jorge Silva Melo (J) : O Jardim Zoológico de Vidro, é a primeira peça no fundo escrita  pelo Tennessee Williams, ele já tinha escrito outras, mas esta é a primeira que teve um êxito gigantesco em 46, e que é uma peça de adeus. É uma mãe, dois filhos, um rapaz e uma rapariga e o rapaz já mais velho, vai-se lembrando de como foi a vida naquela casa, como a mãe era possessiva, autoritária, charmosa, falhada (completamente) mas, possessiva, e como ele separou...


R: Como um bocadinho todas as mães, não é?

J: Como as mães devem ser! Está na sua obrigação! risos


R: Assim muito possessivas também não...

J: Eu acho que faz bem... risos


R: Porquê, já agora?

J:  Então, é o que está nesta mãe! Ela sonha para os filhos aquilo que não teve... A filha é deficiente como a verdadeira irmã do Tennessee Williams, era deficiente, sofreu uma lobotomia e ficou como um vegetal até ao fim da vida, e viveu mais tempo do que o Tennessee Williams....

 

R: E o resto, vimos ver a peça, também não pode estar a contar tudo!

J: Mas é a maneira dele dizer adeus, e porque é que ele saiu de casa e porque é que ele sentiu sempre um remorso.

 

R: E porque é que se interessou por esta peça?

J: Esta adequa-se muito bem a este teatrinho íntimo...

R: Que já é a terceira peça este ano, não é? Pelo que eu li, eu estive aqui na anterior...

 

J: Pois exatamente, tivemos duas peças do Tennessee Williams, no São Luís e no São João. E esta adequa-se a este teatro pequenino, íntimo, porque é como se fosse um segredo. É um remorso ou uma confissão. E essa dimensão íntima adequa-se a este teatrinho.

 

R: A este teatrinho...

J: Onde os atores até podem falar mais baixinho do que eu estou a falar agora.

R: E diga-me uma coisa, gosta muito de Tennessee Williams, porque é que o escolhe? Poderia escolher outros!

 

J: É um autor muito marcante e que inventou muito do teatro moderno contemporâneo, aqui nesta peça ele marcou para sempre o teatro americano, ele consegue roubar ao cinema os flash backs, o narrador, os intertítulos, os saltos na narrativa e esta humanidade fermente e não normativa, que ele enquadra. São pessoas que não são heróis. Embora tenham uma vontade enorme de vencer na vida, mas não são heróis nem são exemplos. Isso foi tal surpresa, a peça fez 3 anos seguidos em cena, todas as noites quando estreou! 


R: E agora aqui também não se sabe... *Risos

J: Não fica 3 anos em cena! Risos

R: Nunca se sabe...
Sempre abertos ao mistério, não é...


J: Exatamente Risos

R: Teve alguma surpresa, nestes ensaios, estão a ensair há quanto tempo, só para ter uma ideia?

J: Há 2 meses, normalmente uma peça tem 2 meses de ensaios. Tive uma surpresa porque há uma personagem, que é chamada a personagem “mais realista”, que é o contraponto desta família, e que é o Jim. E o Jim normalmente é visto como o homem que cumpre o sonho americano. Vai ser racional, vai vencer na vida, e não é nada. Ele QUER, ele QUER ter o sonho americano, mas ainda é tão falhado como todos os outros. Está convencido que a ciência, se vai desenvolver, está convencido que se vai curar, e que vai vencer na vida mas é com a mesma fragilidade do que todos os outros. E isso é muito bonito. Isso eu nunca tinha visto em nenhuma das versões da peça que eu já vi, não tinha visto uma tal fragilidade nesta personagem do Jim. Foi um prazer trabalhar com o José Mata, que é quem faz esse papel e foi uma das grandes descobertas da peça, que eu conhecia de cor e salteado, e nunca tinha reparado que o rapaz era muito mais frágil do que aquilo que nos parecia ser.

R: E sente-se, assim, frágil?

J: Sim, claro... Claro! *Risos


R: Qual é a nossa maior fragilidade?


J:
A fragilidade do teu nome é “mulher”, diz o Shakespeare. Risos

R: Então, diga lá um bocadinho, você é um homem de (se) fiar...

 

J: A fragilidade é aquilo que não conseguimos vencer, aquilo que não conseguimos fazer, aquilo que achávamos que estava “à nossa mão”.

 

R: A vida é simples ou difícil?

J: A vida é ir deixando para trás uma série de propostas e apostas.

R: Mas é simples ou é difícil? É porque eu acho que é simples...

J: É simples, é simples.

R: Eu também acho.

J: Mas é deixar para trás muita coisa.

R: Mas é simples porquê, já agora?  Eu depois também lhe posso dar a minha opinião Risos


J: É simples porque é só viver. É acordar e viver.

 R: Tal e qual!


J: Mas... Temos que deixar muita coisa para trás e isso é quase sempre doloroso.

R: Mas nem para toda gente é simples.

 

J: Não, há muitas pessoas que gostam muito de fazer uma grande complicação.

R: E sabe porquê?

 

J: Não.

R: Eu estou a perguntar...

J: Não... As pessoas gostam de complicar muito.

R: Porque também não é “só deixar ir”... Há uma coisa que temos de fazer. Há uma que eu faço!

J: Não, tem muito de ser feito, MUITO de ser feito.

R: O que é que faz?

J: Trabalho! *Risos

R: Mas mais do que isso, está bem, a vida é um trabalho... Eu acho que é a liberdade, a pessoa é livre de desistir, de decidir...

J: Mas é livre também de querer transformar, querer fazer as coisas, querer realizar.

R: Para quê?

J: Para isso, para estar viva. A vida é viver.

R: Temos um minutinho... Também é adverso, à palavra “beleza”?

J: Não, gosto da beleza e fico entusiasmado com essa hipótese.

R: É porque há artistas, que quando falo na beleza, quase que me “matam”.

J: Agora está muito na moda.

R: E então dizem “interessante”, arranjam assim uns sinónimos... *Risos

J: Não, eu gosto da beleza. Uma vez escrevi um texto que me foi pedido pelo José Tolentino a dizer que a beleza dá-me pontapés, excita-me, faz-me renascer para a vida, ponta-peia-me!

R: Ela define-se mais pela negativa do que pela positiva... ou não? Fá-lo estar vivo? A mim faz!

J: Sim... Faz-me estar vivo e faz me querer fazer coisas... Belas.


R: Esta peça é uma peça bela.

J: É, é uma peça que... Ainda ontem, no ensaio geral, haviam espectadores que estavam a chorar... Queriam casar com a rapariga, no fundo! *Risos

R: Risos* Bem... Fica para outro encontro, isto é mesmo só um apontamento... Eu acho que as peças ou a arte não têm mensagem. Concorda comigo? Não lhe vou perguntar mensagem até porque... Nem quero que tenha!

J: Não, estamos aqui a ver e a viver uma fragilidade de quatro personagens que são nossos primos, somos nós próprios, não somos primos... Mas nós conhecemos. E gostamos de os ver.

R: Obrigada, agora começou a chover, temos que acabar!*Risos
E vamos então ver e convidamos... Quer dirigir assim um apelo? Para que as pessoas saiam de casa, tirem os chinelos e venham ver coisas bonitas!


J: É tão importante estarmos juntos a ver, portanto, o teatro tem essa coisa extraordinária. Há pessoas vivas que estão daquele lado e outras que estão vivas, deste lado. Estamos todos vivos a ver uma coisa, sofrendo, e é muito bom estar vivo!

R: Isso é muito bom. E ninguém sabe quem regressa a casa, não é?

J: Exatamente.

R: Obrigada e pelo que tem feito pelo teatro e pelo que vai fazer!

J: Obrigadíssimo!