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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


01
Jul14
~
Real Gabinete de Leitura

Tinhamos vindo de um Colóquio de literatura, numa Universidade de S. Paulo. Merecida paragem no calçadão. Nem sei como é que a água de côco vive ao lado do real gabinete de leitura, que aproveitamos para visitar nesse fim de semana. A memória é mesmo engraçada. Estes dias resolvi dar livros que tinha meio mortos nas estantes. Bons. Desde que me conheço fui acumulando livros, preciosidades. Como se neles estivesse a chave da vida, uma alegria, mesmo nos mais banais. Mas por várias razões decidi que era melhor pô-los nas mãos de quem os pode folhear, ler. Ficar apenas com o que penso que ainda tenho tempo para ler. Despedi-me de cada um deles, não sem comoção. Como se um bocadinho de mim morresse naquele momento. Mas todo o despojamento é um ressuscitar. Um fazer vir ao de cima vida nova. E já tive bom retorno, de quem leu e gostou. Em troca fui encontrando alguns aos quais já tinha perdido o rasto e agora, finalmente, vou ler. Tal como na moda, o menos é mais.

Os dois grandes Doutores da Igreja, S. Agostinho e S.Tomás, disseram das suas magnas obras, palavras que me fizeram pensar. Mudaram-me, como se eles a mim também me continuassem a escrever, cada dia. E de uma coisa “de nada”, cresci num vazio que me liberta. Experimentei com mais sangue, que as palavras não me pertencem. Como a vida não nos pertence. Gosto de ver os livros em lugares de sonho, em tempos que já não voltam, e em futuros que nunca serão, porque desse nada sabemos. Somos livres. Como no dia em que mergulhei no Real Gabinete de Leitura, no Rio de Janeiro, depois de beber uma boa água de Côco, no calçadão. Como no dia em que verifiquei que sou um livro, um Palácio do qual conheço apenas algumas salas. Onde convivem no mesmo sofá as receitas de Maria Lurdes Modesto, e a Crítica da razão pura de Kant (estes ficaram cá em casa).

S.Tomás disse que a sua obra é palha. E entretanto punha a cabeça no sacrário a ver se entendia alguma coisa. E – lindo! – que o enunciado não termina em si, mas na “coisa”: ou seja, não interessa se é “apple”, “maçã” ou “pomme”, mas a fruta que comemos mesmo. S.Agostinho, por seu lado, disse que se calhar teria sido uma perda de tempo escrever um tratado dobre “A Trindade”, composto por 15 Livros. Mas a verdade é que tanto um como outro, chegaram à conclusão que não foi em vão. Porquê? Porque mudaram. Quem os lê, muda também. Os livros são mesmo para de-coração. É como os amigos: poucos e bons.

Poucos e bons. Cheios de música, como cantam estes dois: “Há uma música do Povo,/Nem sei dizer se é um Fado/Que ouvindo-a há um ritmo novo/No ser que tenho guardado/Ouvindo-a sou quem seria/Se desejar fosse ser/É uma simples melodia/Das que se aprendem a viver/Mas é tão consoladora/A vaga e triste canção/Que a minha/alma já não chora/Nem eu tenho coração/Sou uma emoção estrangeira,/Um erro de sonho ido/Canto de qualquer maneira/ E acabo com um sentido!” Fernando Pessoa/ música de Mário Pacheco/Mariza e Camané http://www.youtube.com/watch?v=9RvTuyhdOsg&feature=share&list=RD9RvTuyhdOsg .

E para que queremos ler se nos esquecemos de nós? “Deslocam-se os homens para admirar as alturas dos montes, e as ondas alterosas dos mares, e os cursos larguíssimos dos rios, e a imensidão do oceano, e as órbitas dos astros e não prestam atenção a si mesmos” [Confissões, S. Agostinho, edição crítica, ICM, Lisboa, 2000, X, p.457-459]. Adivinhando a grandeza da herança, e sublinhando o mesmo ponto: “Oh! Se os homens se reconhecerem homens…”[IX,34, p.429]. Os livros não são para decoração, mas para de-coração. De salteado. De cor. Para mim. Escolher, ler e reter. É muito bom. Como a água de côco, e tudo o mais, que ficou para contar.

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