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Rasante

Rasante

Mário Soares: uma rosa não morre.

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 imagem tirada da net

 

Porque morreste escrevo-te uma carta. Preferia ter falado contigo. Fica para depois. Mesmo. Eu, que até nem te tenho entre os meus preferidos, queria estar agora ao teu colo. Estranho não é? Mas a morte rega-me de uma espécie de à vontade ontológico, nesta ditadura que a vida parece ser. O que quero dizer? Tanta coisa. A morte obriga a por o preto no branco. Óbvio que não terminaste. Nem sequer te podes limitar a viver nas memórias, essas também morrem. As rosas é que não. Podes ser cremado, mas isso não é determinante.

Sempre te definiste como português, laico e republicano. Eu também sou portuguesa, e sou católicia, e boa rapariga. Na outra parte do Céu, que é aquela onde estarás agora  - não acredito que não queiras falar com Ele -, espero vir a falar contigo. Acredito que o Céu seja o face-a-face, o eterno diálogo, abraço que não termina. No céu os abraços não terminam. E como o Céu é a verdade das coisas, eu já começei a abraçar há algum tempo. Com intermitências, claro. Santo não é o que nunca cai, mas sim aquele que se levanta sempre, porque há uma mão que o convida e agarra. Desde pequena que tenho os joelhos cheios de betadine.  A minha Religião chama cada pessoa à santidade. E não é por acaso que me ensina que cada um de nós é  à "imagem e semelhança de Deus". Estas duas palavras, imagem e semelhança, não estão aqui por acaso. Nem todo o que diz que é católico, o é. Como também não é correcto dizer que se é católico não praticante. Seria como dizer "sou um nudista não praticante". Ou dizer que um esquimó é um frustado porque não o pode praticar (ao nudismo ).

Eu, que nem gostei muito de ti, agora, paradoxalmente, tenho o coração amolecido. Ia agora a dizer-te "é-te indiferente", mas isso seria mentira. Corre-nos nas veias o sangue dos nosso avós. E sabes que mais? Não te quero reduzido a três dias de luto nacional, nem ao homem que vai ficar na História pela sua luta pela liberdade, pelo papel fundamental na adesão à União Europeia. E muito menos pelos erros que todos nós cometemos. Bandeiras pisadas, içadas, e quejandos. Interessa -me o teu destino. Fomos feitos para viver sempre. Vá lá!

Por outras palavras, todos os homens são iguais e todos são diferentes. Iguais como pessoas. Diferentes como as pessoas  que fazem, e fazem diferente. Agora uma distinção fundamental: há homens com pinta e homens sem pinta. Tu tens pinta. O importante é a rosa, o importante é que Ele gosta de ti.