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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


D.Quixote (Ricardo Trêpa), no filme " O Velho do Restelo" de Manoel de Oliveira/imagem tirada da net

 

Ricardo Trêpa, no penúltimo dia das filmagens da obra que hoje estreia no Cinema Ideal, naquele jardim onde o filme começou a acontecer, disse-me: ”É um filme sobre grandes sonhos; é um filme de grande importância para o meu avô; é mais um sonho concretizado. E Deus queira que venham mais filmes, porque é isso que o meu avô gosta”. O neto do realizador foi um dos actores que nesse dia encontrei no jardim por detrás da casa do cineasta. Disseram-me o pouco e o muito. Sintetizei em seis pontos e perguntei a Maria do Rosário Lupi Bello (MRLB), professora de Cinema e estudiosa da obra de Manoel de Oliveira, o significado das palavras de Ricardo Trêpa, Diogo Dória, Luis Miguel Cintra e Mário Barroso.

 

1. A dimensão onírica da obra de Oliveira firma-se neste filme. Aqueles homens sentados num banco de jardim, tanto podem estar num jardim moderno como num jardim sonhado pelo realizador. “Um jardim de Espíritos”, como me referiu DD. São eles Dom Quixote (não Cervantes) (RT), Camilo (MB),Camões (LMC) e Teixeira de Pascoaes (DD). Há também duas mulheres. Camilo é a personagem central da obra que Oliveira tem presente neste filme. Camilo é aliás o grande tema do cineasta. Este filme parte de um ensaio do Pe João Marques acerca da obra "O Penitente", de Teixeira de Pascoaes. Aqueles homens são "um mundo de espíritos" disse-me DD. "Será isto a eternidade?", expressão utilizada por LMC para expressar o que sentiu quando chegou ao jardim. “Personagens verdadeiras e de ficção; é como se os filmes de Oliveira durassem a eternidade”, frisou LMC. “Oliveira deu sempre voz ao inconsciente e agora está cada vez mais consciente disso”, acrescenta.

MRLB: “Para Oliveira a História terrena fala sempre de ‘outra’ história, a da eternidade. Saber olhar o curso dos acontecimentos, as figuras que marcaram os tempos, é a forma de perspectivar o efémero segundo uma lógica de imortalidade, lendo os sinais de que os tempos concretos são feitos. O onírico permite remeter os acontecimentos para uma dimensão sem limites e assim perscrutar o seu significado escondido, misterioso."

 

2. O filme revela, mais uma vez,uma posição contraditória em Oliveira: "um amor à vida e a consciência de que a vida é o mais efémero possível",sintetizou LMC. E acrescentou: "Sabe, tenho muitas conversas ontológicas com ele!"

MRLB: “O amor entre homem e mulher é sinal disso mesmo: de que só uma dimensão transcendente o pode plenamente cumprir. Por isso Oliveira fala de ‘amores frustrados’ – de um certo ponto de vista, é como se na terra todos os amores fossem ‘fr.ustrados’, ou seja, incompletos, não plenos. Mas Oliveira – casado há mais de 70 anos! - acredita no mesmo céu estrelado de que fala a Teresa do ‘Amor de Perdição’, um céu onde o amor se cumpre. A sua perspectiva é sempre a de um drama atravessado pela esperança”.

 

3. A filmografia de Oliveira mantem o subtil sentido de humor a que já nos habituou.Neste caso é RT que o sustem, ao falar das mulheres de uma forma bem diferente da de Camilo. Esta é, diz MB, "crua e cruel".

MRLB: “A mulher é, para Oliveira, uma figura ambivalente, simultaneamente atractiva e destrutiva, forte mas perigosa, podendo ser tanto purificadora quanto perversa. Tal como para Agustina Bessa-Luís, é na mulher que o Mistério se faz presente com maior evidência. O humor funciona como uma espécie de ‘protecção’, que permite enfrentar o perigo e o desconhecido sem perder uma certa frescura, é uma forma de constatar a dimensão do mal sem desistir da certeza do bem.”

 

4. O filme mostra mais uma vez mais o gosto do realizador pelo artifício. LMC disse-me que Oliveira lhe perguntou: "Queres vir de LMC ou de Camões?". Cintra achou que não lhe parecia necessário vir vestido de Camões, uma vez que iria apenas contextualizar a cena e ler as estrofes dos "Lusíadas", no episódio do velho do restelo. Uns dias mais tarde diz-lhe: "Estive a pensar melhor, vens de Camões."

MRLB: “Para Manoel de Oliveira o artifício é uma forma de tornar a verdade mais evidente. Oliveira não acredita no ‘realismo’  ingénuo, mas sim no valor da arte como ‘lente artificial’ que pode representar o que as coisas realmente são, sem se ficar por aquilo que aparentam ser. Por isso gosta de repetir que o cinema não filma a vida, mas sim a representação da vida, o teatro da existência.”

 

5. A identidade nacional mantem-se recorrente. Aliás o filme trará uma visão do mundo atual, com a respetiva crise. Camões é o filósofo, sublinha LMC. A introdução de Cervantes prende-se precisamente a este ponto.

MRLB: “Essa é uma preocupação recorrente em Oliveira, sobretudo a partir de certa altura da sua carreira: procurar olhar e compreender a história do nosso País e o seu lugar no mundo. Oliveira ama a realidade mais do que a sua interpretação, ama tudo aquilo que é objectivo, e a História é feita de dados factuais e objectivos, cuja leitura pode ajudar a viver melhor.”

 

6. Camilo - e seus amores frustrados - é tema central na obra de Manoel de Oliveira, todos o quiseram sublinhar.Sobretudo MB, não fosse esta a terceira vez que o ator interpreta a pessoa do autor de "O amor de perdição". "Alguma novidade neste seu Camilo?", pergunto. "Oliveira tem o mesmo olhar, a mesma simpatia, a mesma ternura em relação a Camilo. O resto não sei. Ele é que sabe como vai usar tudo isto, todos os fragmentos aqui recolhidos." Mas, lembrou, "há um texto que fala do mundo, da vida, do amor, da morte..."; "é uma reflexão sobre a nossa sociedade."

MRLB: “O que interessa a Oliveira não são ‘temas’ ou ‘ideologias’, mas sim pessoas, cada pessoa. Nesse aspecto aproxima-se muito de Camilo, homem mil vezes apaixonado, que viveu a vida intensamente, sem se preocupar em teorizar sobre ela. O olhar de Oliveira tem sempre no horizonte o drama existencial de cada ser humano, e portanto é sempre universal, sem deixar de ser muito português.”

 

Na recente entrevista à Variety – de resposta curtas e concisas – Oliveira esclarece que este filme não é diferente dos outros que fez, só por ter ser sido filmado nas traseiras da sua casa. Mais: é o aviso de que as vitórias podem vir na companhia de derrotas nunca dantes pensadas. E assim reflecte sobre a Humanidade. Parafraseando Tawin: Oliveira não se repete mas rima. Só "ouvido"...

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