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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


Manoel de Oliveira, no trabalho de realização do "Gebo e da Sombra"/imagem tirada da net 

 

Talvez o melhor da sua última década, palavras de um crítico acerca do recente filme de Manoel de Oliveira “O gebo e a sombra”, homónimo da peça de Raul Brandão. Quando o vi pela primeira vez encontrei qualquer coisa mais. Comparar interessa, se estão em jogo critérios: Oliveira apurou a sua aposta numa performance sem redes. Seis atores geniais, dão-nos em 92 minutos, numa cozinha – a famosa gaiola - a totalidade e a beleza do carácter dramático da existência humana. Está tudo aqui. Numa divinal dança de luz e sombra, vale o silêncio que nos poderá devolver a nós próprios. Estamos diante da pedra preciosa do colar que é a cinematografia dum olhar inigualável?

O que cativa não é a largueza de imagens como as de um Vale Abraão. É antes uma contenção, densidade, a espessura do humano todo. Em altas vagas sem fundo, que provocam a liberdade do espetador a um mergulho sem fim, no terreno ontológico a que Oliveira sempre nos habituou. Preso numa fidelidade às palavras de Brandão, faz outra coisa. Não por prescindir do último ato, mas por dele fixar o melhor.

É uma história sobre a pobreza: Gebo, contabilista, chega a casa com o dinheiro do trabalho. Esperam-no a mulher, Doroteia, e a nora, Sofia. O filho, João, acaba por roubá-lo e fugir. Duas visitas frequentes, o Chamiço e a Candidinha, dão o contraponto de humor e ligam o interior ao exterior da casa. O mesmo fazem as janelas e as portas, através das quais o dia dará lugar à noite, e esta à manhã, quando batem à porta e se dá o Acontecimento.

Está tudo aqui, diz Jeanne Moreau, fazendo festinhas na mala de Michael Londsdale. Como seria bom ter este dinheiro; dizer: faz isto, faz aquilo. E Luis Miguel Cintra: a arte! a política! era preciso visão, um pulso forte! a rotina instalou-se. Um frio de rachar, lá fora! Ai, e a música!; exprime melhor que tudo o amor; ficavam-me todas pelo beicinho. E finge que toca flauta!

Leonor Silveira, mulher sábia, cuida de todos, ocultando (com o sogro) de Claudia Cardinale, mulher de dores, o desassossego de Ricardo Trepa, seu super-homem. Em frequentes esperas religiosas à janela, recebe sinais do tempo. Do espelhado chuvoso, cabem na câmara de Oliveira, ela, de costas, e uma Imagem de Nossa Senhora, num nicho, lá fora. Depois, numa das suas rondas da noite – aquela em que João desaparecera com o dinheiro -, lá está Sofia diante da mesma estátua (agora grande) num diálogo silencioso. O cinema de Oliveira não tem pinga de moralismo. Mostra-se o cruzar de olhares onde a nossa liberdade é também implicada. Somos, ou não, apanhados no fogo cruzado daquela oração?

A culpa do marido, ela sabe, é diluída no desejo que ele tem de uma vida melhor. Não é melhor morrer do que viver sepultado?, perguntara ele uma vez, num dos momentos do seu permanente desassossego. É o que ela pergunta à Senhora, de quem recebeu seguramente pronta resposta: a consolação, que Oliveira dá no rosto sereno e luminoso de uma Leonor Silveira irrepreensível.

Batem à porta, de madrugada. A esperada visita da polícia escancara os olhos da trindade: o pobre, a sofia e a doroteia. Espantadas por razões diferentes ouvem: quem roubou fui eu. De pé, com o sol que se adivinha por incidir em metade do écran, o Gebo deixa desvanecer a sombra. É o acontecimento de uma liberdade que também me devolve a humanidade, que me devolve a mim mesma: uma imaculada realização.

 

(Dezembro 2012)

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