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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


08
Fev17

Os olhos da ásia

por Fátima Pinheiro

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imagem tirada da net

 

O filme de João Mário Grilo, "Os olhos da Ásia", também baseado no livro de Shusaku Endo que inspirou Scorcese, "Silêncio", foi feito há 20 anos. Só o vi há dias (o Nimas está sempre de parabéns; e com o filme trouxe - para uma conversa no fim do visionamento - o próprio realizador e o Pe Tolentino Mendonça).

O que silenciou João Mário Grilo? O filme por ele realizado, já o referi,  tem 20 anos. Claro que já era conhecido pelos entendidos . Mas o comum dos mortais, moi-même,  ficaria na ignorância, não fosse o Cinema Nimas tê-lo  passado ontem à noite a propósito do "silêncio" de Scorcese. Thanks Martin.

O que silenciou João Mário Grilo? Nada. Mostra tudo. Vinte anos não é nada. Sem ser "trop clair", mostra, como nada mostram as mensagens que Scorcese quer passar. Detrás de um trabalho há sempre uma motivação (conheço as dos dois: ir ao youtube; e ter ido ao Nimas; quer dizer ouvi-as no que eles disseram). Mas o resultado é exterior. Tenho à volta de metro e meio e mesmo assim digo que o "filme" de Scorcesse é ideológico, político, numa palavra, gosto sim do "Táxi Driver". E no "Silêncio" esmera na fotografia, na qual é genial.

O "filme" é ideológico porque numa  auto-provocação à sua medida, e à medida do autor do livro, falam a voz de Deus ao dizer "Pisa-Me". Deus é transcendente ( palavra de que João Mário Grilo não se esqueçeu ao referir a cena do baptismo, nos "Olhos da Ásia", na conversa no Nimas; palavra que ainda não tinha ouvido em todo este correr de linha em torno do filme de Scorcese, todo ele muito a escorregar para uma linha protestante, intimista, imanentista). Só Deus pode dizer essas palavras (e  todo o filme parte deste não-pressuposto). Não me venham dizer que isto é fição; há fições e interpretações que são um abuso de direito. Sobretudo em filmes, ou livros,  onde a realidade "real" pode ser deturpada (não me obriguem a falar outra vez de José Rodrigues dos Santos, o que aqui fiz muitas vezes; e diga-se que nem comparo Santos a Scorcese, é só por causas das vendas milionárias de ambos). 

O "filme" é político porque todo o mundo o interpreta, o usa, e mais não sei o quê. A seu favor terá a "sorte" de não ter sido o filme do ano. Hollywood decide. O que faz o dinheiro, também sei.

Um filme com mensagens não é um filme. Um filme "limita-se" a mostrar. A "ser" vida. Estou farta de consciências tranquilas, a começar pela minha. Mais vale dizer: Senhor Scorcese, ponha aqui o seu pezinho (no fumié); o senhor estava interessado em fazer um filme sobre o martírio, e vai complicar com apostasias ! Não haveria um caminho melhor? Veja as regras do método cartesiano. O senhor que conhece bem o jesuitismo sabe do que falo. Vá do mais simples para o mais complexo; e aí sim, a apostasia. E não sabia quem era Pedro!?? E que ele é a rocha? Sabe que é muito mais fácil olhar e decidir por aquilo que é mesmo maior que nós. Ao lado do Amor que Deus nos tem, e que tudo abraça sem ver limites culturais, o que é o meu tremer? Voltar à Casa do Pai,  onde há muitas moradas. Ao lado do Amor que Deus, que abraça qualquer um, europeu, asiático, africano, o que é o meu tremer? Ou ando a brincar?

"Os olhos da Ásia" mostram. Deixam-me de batata quente - fumié - na mão. Nem João Mário Grilo tem a noção completa do que fez. Sim, porque o filme agora é também da liberdade de quem o vê, com outros olhos, esses sim, de Deus, que é "mesmo" transcendente.

 

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