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Política: bem comum ou bolsos particulares?

por Fátima Pinheiro, em 29.08.14
fotografia da net

A Platão e Aristóteles regresso, para não ir mais longe e para partir do sistemático. Duas visões do que é o "político". Passo ainda por Camus, pelo seu fabuloso discurso de aceitação do Nobel da Literatura, no qual cada frase é uma bomba, uma mão cheia de humanidade. Plena de "essenciais". É bom ler, reler e "usar". Aqui: http://youtu.be/M5QD-32MCv4. Camus aqui, para uma boa politíca? Sim, porque como ele reconhece, o verdadeiro artista não se põe acima dos outros homens, mas, com a sua geração, luta por uma comunidade vivente onde viver e morrer sejam dignos. Reconciliando trabalho e cultura, a arte tem a dupla e nobre tarefa, um duplo compromisso difícil de manter: a recusa de mentir acerca daquilo que se sabe; e a resistência à opressão.Também a arte está ao seviço da verdade e da liberdade, e o artista é um justo e um apaixonado pela justiça.

A nossa geração, continua o nobel, recusa o niilismo reinante, mas não vai conseguir refazer o mundo. Tem contudo uma tarefa ainda maior. Herdeira de uma civilização morta, vivendo um instante mortal (aqui Camus refere a 1ª e a 2ªguerra mundiais; as revoluções impotentes, as técnicas tornadas loucas; os ideais mortos; as ideologias exaustas; os poderes mediocres que tudo podem destruir, mas já não sabem convencer; a inteligência que se reduz a servir a opressão...), a nossa geração tem a vocação, não de ser optimista, mas sim a vocação de impedir que o mundo se disfaça.

Sim, não é Steiner - por muito que diga verdades - que, homologando Adorno, me vem decretar que a arte virou tetraplégica. Nem é a urgência que pode fazer da política um affair de Mercearia. Artistas e políticos são homens iguais aos outros. Neste ponto Camus, mais uma vez, não cessa de reconhecer os seus e os meus limites. Mas a vocação é a palavra chave. Caimos? Levantamo-nos.

A modernidade no seu Lado B possibilitou um solipsismo que insiste em impedir o Lado A da Política. Que nos dias de hoje - e salvo raras excepções - a Política seja o que se experimenta ("estão mexendo no meu bolso") não é de hoje. Mais do mesmo. Mas como me disse um sábio amigo no dia 23 de Abril do anos passado; "é preciso acreditar". Foi na Foz, e nunca mais me esqueci.

Com efeito como se pode trabalhar para o "bem comum", se por "bem" se entende já não nada em que se "acorde"? Somos tantos, e cada um com a sua postura! Conquista revolucionária que bem caro temos vindo a pagar. O relativismo - todas as concepções têm igual valor - tem vindo a ganhar terreno. Tudo se afirma pela diferença, tudo tem igual "valor". Longe os tempos dos valores universais que apenas cabem no paradigma actual em que vivemos como cabides sem vestuário. Ou ossos sem carne. Todos defendem igualdade, liberdade, fraternidade, amor, justiça, paz, beleza, justiça, e a dignidade da pessoa humana. E o que se entende por tudo isto? As coisas mais diversas. Uma taça, mas uma taça vazia. É o bem comum que acabamos por ir tendo. Um desejo vazio, uma intenção de construção, uma saudade de ideais. Não há "comum" para além deste. Se houvesse como tudo seria diferente! Restam-nos os bolsos onde pomos o que queremos ou podemos. O que fazer?

Falta Filosofia. Falta uma reflexão que vá ao mundo inteligível da "República", ou às primeiras causas e princípios da Metafísica do Estagirita. Platão e Aristóteles. Mais os incontornáveis da Filosofia Política. Porquê? Porque sem reflexão não há acção digna do homem. Já nos esquecemos que o homem é um animal político? E que o homem só é humano se o "seu" animal não for um "lobo", mas antes um "convivente" fraterno e solidário. Mas as urgências costumam abafar ócios. Ficamos apenas com uma sociedade ou mundo de negócios, capazes das maiores monstruosidades. Assim não vamos longe.

O risco que se corre é o de vivermos em brandos lumes e fogueiras arbitrárias e indiferentes. Sem alma. Apenas de corpos que se agitam sem se saberem mover. Confunde-se vida e vivacidade. "Ganha" o que fala melhor, ou o que tem melhor imagem, mais dinheiro. Não interessa tanto o que se vende mas o "como" se vende.

Interessa sobretudo uma algibeira bem provida. Para me guardar, proteger e iluminar. Já não interesa ser virtuoso. Quase ninguém quer ser virtuoso. "Nem morto!", costuma dizer-se. Sobretudo aqueles para quem os limites são um obstáculo e não uma oportunidade.

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