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Rasante

Rasante

Quem tem nas mãos as rédeas de mim?

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 Tarkovsky

 

Já leram a entrevista que Mariana Mortágua dá ao Diário de Notícias de hoje?  É só uma sugestão. Tem tudo a ver com o post rasante de hoje, e ela é muito acessível.

Hoje escrevo sobre dieta. Uma dieta, imaginem, que fiquei a conhecer ao ler "As Confissões", de Santo Agostino, livro escrito no século IV. Um dos meus  livros  preferidos. Já aqui escrevi porquê. Diz o filósofo: "o meu amor é o meu peso." Ao principio estranhei. Depois tenho vindo a perceber, e confere comigo.  É mesmo assim! Diz ele que eu tenho dois amores. Lembrei-me logo do Marco Paulo. Mas claro que é principalmente outra coisa, muito simples por sinal.

Eu tenho pesos. A vida faz-se por escolhas, com critérios mais ou menos conscientes. O que me leva a inclinar-me para um lado ou para outro? Há um permanente e discreto pendor da minha vontade, um movimento, ou movimentos, que posso surprender no agir. O que me faz correr, ou arrastar-me? Sim, muitas vezes deixo-me ir, sou arrastada e deixo que decidam por mim, quando seria caso para decisão minha. Quem tem nas mãos as rédas de mim? O meu amor.

Onde está o meu amor? Onde ponho o meu coração? Agostinho diz que o meu amor tem uma mistura. S.Paulo disse-o uns séculos antes: vejo o bem que quero, e não estou para isso, ou seja, quero-o e não o faço; faço antes o mal que não quero. Ainda  bem que ele "caíu do cavalo", senão não teria reconhecido esta evidência em que caimos cada dia. Caimos e levantamos numa mistura que se vai decantando com tempo e paciência, e muita dieta. E sobretudo com a força do que, no mais fundo de nós, queremos, Deus. Deus não é uma muleta, como muitas vezes é visto. Ele é aquele X que no fundo amamos, cuida de nós e nos faz queres aceitar regressar à boa cavalgada que é viver. Porquê? Porque é a coisa mas atrativa que há. Ou prefiro outros senhores?

Sim, é impossível escapar a outras "dependêcias". Dependemos sempre de alguma coisa. De outros senhores, ou deuses, ou de um deus que inventamos à nossa maneira. A minha liberdade tem as rédeas, mas o cavalo não sou eu que o faço. Tarkovsky, um senhor do cinema, sabia tudo isso, por isso escolhi uma imagem dele a encabeçar este post.

Eu quero o cavalo que me sirva.