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uma coisa maior

por Fátima Pinheiro, em 28.05.17

 

 

As trevas parecem dominar. Mas no olhar no romper da aurora, pode dar-se sobressalto do coração. A luz impõe-se e é ela a brilhar, assim o sobressalto não se “ocupe” e atire para canto. Oiço: apesar “disto” – contrariedade -, eu consigo ultrapassar. Um estoicismo que esmorece e morre no primeiro, ou segundo lance. Falo por mim.

Uma pessoa pode não perceber nada da música que ouve cantar mas se está mesmo a ouvir música, percebe que aquele que canta sabe porque canta. Nesta ária de Händel é evidente que o que canta manifesta uma “coisa” maior que ele. E que voz!!!

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Michael Nyman no PIANO de Adriano Jordão

por Fátima Pinheiro, em 19.05.16

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Mychael Nyman de arrasar

 

Adriano Jordão é o diretor Artístico do Festival de Música de Sintra, que vai na sua 51ª edição.  Também criou o de Macau, o dos Açores e o de Mateus. No dia da inauguração, a passada 5ªfeira, lá fomos ter com ele.

 

Como é que o senhor entrou neste “comboio”?
Eu?

Sim, o senhor, é um homem da música, pianista, esteve também no Brasil como nosso conselheiro cultural,e agora...

Exatamente. Eu tenho muita experiência na minha vida de festivais de música. 

O que é para si um festival? Eu já apanhei muitos festivais de Sintra  que não têm nada a ver uns com os outros.

Ainda bem que me pergunta! O que é que quer dizer para si a palavra “festival”?

Festa!

Claro. A primeira coisa é que tem de ser uma festa.
Mas o senhor é  que vai responder! Não esteja a tirar ideias... (risos)
Mas é isso mesmo. Tem de ser uma festa! A origem semântica de festival é a mesma do que a de “festa”. É uma festa, tem de ser um acontecimento. Não pode ser, como às vezes se fazem, juntar uns concertos, umas atividades, ao lado umas das outras... Tem que haver uma lógica...

Qual é a lógica deste festival de Sintra?
Ora, ainda bem que me perguntou! É o seguinte: Sintra é para mim romantismo. Sintra é exotismo. E Sintra também é, na tradição do festival, o piano. O instrumento, piano.

Sintra é o piano?

Sim, pela Marquesa do Cadaval. Para este ano, centrámo-nos no piano mas não no piano de uma maneira, digamos, “incoerente”. Então o que é que há? Há um piano hoje, do Michael Nyman. A seguir temos os dois pianos. Depois, temos o piano como instrumento de percussão. As pessoas não se lembram que o piano é um instrumento de percussão. Depois temos o piano em 4 mãos. Depois temos o piano num reportório que não é próprio do piano. Por exemplo: fados e tangos. A pessoa não liga tango ao piano, em princípio. Depois temos o piano noutro reportório também não habitual: Música árabe no piano. No Palácio da Pena. Tem tudo a ver!

Ai tenho de ir a esse, eu não tinha pensado....
Claro! E depois temos um concerto paradigmático de Sintra, um recital de Chopin no Palácio de Queluz. Uma grande chopiniana romântica. Aí estamos em pleno...em Sintra. Depois temos um concerto com um programa que é a história da música do piano. De Bach a Bartok. Depois temos um jovem artista português....
Está a ver se eu não tivesse vindo fazer-lhe um Rasante...

Claro, não veria a lógica! Portanto, a parte da festa já percebeu. Basta estar comigo para fazer uma festa!

Exactamente! Professor, eu não sei como é que o trato...
Adriano.
Já agora, como é que se trata um artista?
“Ó pá, tás bom?” (risos)

"Opá, tás bom?" diga-me quem é este homem que daqui pouco eu vou ouvir. Qual é a mais valia dele?

Nyman é um homem que se celebrizou através de um filme chamado?
Ai isso eu não sei!
Ah,  “O Piano”, está a ver? Portanto, se eu faço uma coisa, ligada toda ao piano, tem toda a lógica começar com uma aproximação ao piano que não é a aproximação da música clássica e elitista. Não vem de casaco fazer um recital de Chopin, não é nada disso. Percebe?

Pois, eu estou a imaginar, porque eu ainda não...
Agora vamos ver o que é que acontece! Se as minhas previsões estiverem erradas, para a próxima entrevista a Maia.
A Maia? (risos)
Está a ver? Faz uma entrevista à Maia!
O que vale é que estamos no ano da misericórdia. (risos)
A Maia faz uma previsão, e é muito melhor do que eu!
Para terminar, isto já passou o tempo e vai começar...
Já está rasante! (risos)
As pessoas não podem ir a tudo, não têm dinheiro, não têm...A cultura é cara...Qual é o concerto imperdível?
Depende do ponto de vista...
Do seu ponto de vista...
Para mim obviamente, eu diria que é o concerto “Recital Chopin” em Queluz. Eu sou um homem da música clássica. Para estes jovens que estão aqui hoje, o imperdível é o Michael Nyman! Quem seja muito curioso, se calhar quer é ir ver música árabe no Palácio da Pena.

E se eu tiver os pontos de vista todos, quero ir a tudo!
Exactamente, ir a todos os concertos!
Olhe, muito obrigada, foi um prazer conhecê-lo e espero ter outra oportunidade para falar consigo, obrigada.
Com certeza, para a próxima traga a bola de cristal...

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Manoel de Oliveira: uma Poética do Sim

por Fátima Pinheiro, em 04.04.16

 

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imagem do making off do documentário/ tirada da net

 

  

 

Oliveira é uma energia renovável. Passou um ano da sua morte. E afinal havia outro (aposto que na gaveta há mais…). O último filme Documentário de Oliveira: “Um século de energia”, encomenda da EDP para a sua campanha publicitária, a ser exibido em 10 cidades portuguesas, a pedido do cineasta, que, durante os trabalhos de montagem, foi por outra “porta”, e acabou por não ver o resultado final. Eu podia ver o filme e ficar calada. É de uma beleza tão “ordinária” que bastava ver e experimentar a correspondência ao mais "eu" do meu "eu". Contudo, como Henri de Lubac sublinha, a mística é uma colheita da tarde. O mundo em que vivo – a minha rua – diz-me que há muita espiritualidade. Pois depende do que por isso se entende. A mim,há muitos que me sabem a pouco. Há mesmo, por vezes, mais mística no futebol. Este post é um registo filosófico, em si menor (isto exige outro texto), do que esta obra de arte oferece ao mais que socrático, “conhece-te a ti mesmo”. Nas III Jornadas de cinema em português http://www.livroslabcom.ubi.pt/pdfs/20141204-201201_cinema_em_portugues_iii_jornadas_2010.pdf expliquei a minha forma de ver os trabalhos deste homem, a quem vi, não há muito, no CCB, de joelhos, a beijar as mãos de Bento XVI. Numa palavra: “. . . nous sommes devant un grand mystère.” (Baecque, A., Parsi, J., 1996). Mas a filosofia, ao invés do que se pensa, articula, distingue, esclarece. Pode gerar felicidade, energia, argumentando até ao abismo que há que saltar, se for caso disso.

 

Oliveira utiliza uma “câmara” fenomenológica. Sim, há formas filosóficas de ver o cinema - e agora dizemo-lo mesmo de forma poética: a razão sabe por onde vai o cinema, no trabalho de mostrar e articular razões. Pondo as coisas de forma mais clara – e esta é a melhor definição de Filosofia que encontrei – a Filosofia faz as distinções essenciais (Cfr. Sokolowski, 1992). Quem a define assim é Husserl, por onde passa a filosofia hoje. Desde 1900. O conhecimento não é um fenómeno estático mas um encontro de duas energias, encontro interminável, mas de contornos definidos, isto é limitados; a Filosofia, como lembra inúmeras vezes Husserl, é uma ciência que possui o seu rigor próprio. A realidade impõe que o guião se converta e não vá por ali; disse-me um dia Luis Miguel Cintra, que no momento de filmar MO tem uma grande sensibilidade ao que acontece; ou “L’événement fonctionne comme ouverture dont la possibilité peut toujours se répéter.” (Lavin, 2008). 

 

Há tantas fenomenologias, quanto os fenomenólogos. Oliveira é um realizador fenomenológico, como foram muitos. O suprasumo deste movimento filosófico está em Husserl e nas categorias que ele encontrou para entender os mundos. Realçamos as seguintes:Parte/todo; horizonte; Identidade/Perspectivas/Ausência/Presença /Memória – Retenção (passado), Reconhecimento (presente), Antecipação (futuro). Muito para um post, eu sei, mas vou dizê-lo sinteticamente. Olhando para "Um século de energia", a partir de como mais de um século de energia  se realiza uma história, uma vida. Oliveira vai mais uma vez ao que é o humano. E é porque a sua experiência energética é tão rica que consegue mostrar o tecido que faz a vida, o invisível que nos rega, nos move e ilumina. Fenomenologia? Oliveira mostra de forma genial imagens que "aparecem" (fenómeno) plenas de "lógica" (logos), acontecendo assim um todo em que as partes se distinguem sem se confundir. 

 

“Hulha Branca”, que realizou em 1932,antecipa o documentário; é retido e cresce, no presente; naquele espaço de Serralves, ao "criar" a música e a dança que projectam as suas sombras, numa unidade que dá cada coisa no seu lugar. A força artística dos movimentos das bailarinas e os sons do quarteto que insiste no tom, são um todo cujas partes não se perdem contando assim uma história onde é ilustrado o processo de transformação de energia.

 

Os moinhos de vento antecipam-se nas suas sombras nos pinheiros e arbustros. Aparecem depois na sua imponência a mostrar futuras formas de energia. Como os braços, nos gestos erguidos daquelas mulheres que dançam nas cores de um escarlate, que se funde no preto e branco do que não passou. Os fios eléctricos são riscas horizontais no fundo azul de um céu: uma pintura viva de natureza, arte e trabalho (minuto 7,minuto  9). O que acontece desde a imagem inicial onde se vê também o Douro da faina fluvial. A arte que MO põe sobreposta excede, promete, espanta, como um grito bom a pedir e mostrar sentido. Tudo a um ritmo conjugado de pitch´s, fotografias, flashes; doações,segundo a segundo; bateres de corações: coincidências em que me revejo, ausências grávidas de presenças, a mostrar o invisível; faces do cubo que nunca se dá todo, e é sempre envolvido num todo pressentido em horizonte.

 

E a água, traz o sol e o vento. Como irmãos,da mesma terra, da mesma fonte. Sem que a aparente inutilidade da arte belisque o trabalho ou negócio, espelhados em caras de homens alegres, de dentes tortos, e olhos e mãos iguais a "mim". De mãos dadas, na mesma luta - o melhor de mim -, como canta Mariza no making off. No filme não há letra. Há a música da água, de sinos, do vento, do poderoso silêncio. Dos pássaros. E o som do mostrar que "sem ver,é acreditar"; "é preciso perder para se ganhar". "O melhor de mim está por chegar". Aqui compara-se a cena final do filme e a do making off: MO de mãos postas na bengala, a equipa que para ele olha a pedir a genialidade. O minuto 2.54 não mente a mesma câmara,os mesmos séculos, o mesmo "eu". Tudo a terra une. E a água enche-se de humanidade,escorrendo por paredes abaixo, e por debaixo de pontes,arcos e escadas de pedras, no mesmo sangue. O melhor, de mim. A desafiar-me o meu SIM.

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 fotografia @fatima pinheiro

 

The musician recognizes an ugliness in this world we live. However he is the prove of the opposite. He´s full of energy, generosity and beauty.

Here we listen to what Ronald Brautigam thinks about music, what is a public, what makes music a Must, what it gives, how to "make" it, and more. The talk had place yesterday, at Fundação Calouste Gulbenkian, after he played Mozart piano concert nº27. 

He decided to be a musician when he was 4 , 5 years old,in bed, listening to his father playing Chopin. Play is for him to share a passion. We realy need music, to live the best way the ugliness of life. "Let´s not be sad, we are going to dye" says Haydn  in an opera that inspired this Mozart concert he played. Everybody has music. Music gives you energy. When he plays, music comes alive; when he plays happens that thing that  music gives. What´s that, I asked...

 

 

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Vasco Graça Moura em Ópera

por Fátima Pinheiro, em 07.01.16

 

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 imagem tirada da net

 

Prémio Vasco Graça Moura e então lembrei-me. Quero ver outra vez a ópera Banksters, de João Botelho, que foi a Vasco Graça Moura "esculpir" o texto. Diante dela é como se estivessemos a ver um filme assinado Botelho, mas em carne e osso, corpo-a-corpo. As "óperas" que Botelho incarna nas suas "telas", mas agora como ópera mesmo. Se calhar é verdade a teoria de que a ópera é a arte mais completa. Porque tem lá todas as outras, e neste caso, também a sétima. O texto, "adaptado" por Vasco Graça Moura, é de José Régio, para quem o cinema é a síntese de todas as artes. Em que ficamos? A questão nem é essa...

A experiência proporcionada por Banksters é a afirmação de uma coisa "maior", de uma dimensão que ultrapassa a razão, embora seja esta a reconhecê-lo. A unidade ou fusão das artes em jogo no espetáculo - "numa nota só" (e Botelho reconhece sempre que a música é a matéria que trabalha) - não se baseia numa construção, embora haja ali muito, muito trabalho (imagino os cigarros fumados). A unidade que se mostra a quem a vê, acontece por um excesso. Imprevisível. Não é por acaso que no primeiro acto, à esquerda, imponentes, estão os vitrais "roubados" a Gerhard Richter. A apontar para o "mistério", para uma dimensão "desconhecida" mas "presente", que ilumina de escondida. Prodigiosa a capacidade de deixar que o prodigioso aconteça: uma unidade buscada, que aconteçe ali e então, mas que "opera" num tempo e num espaço que nos escorrega por entre os dedos. É preciso talento, e esse, por muito que se "opere", é, pura e simplesmente, "dado".

O trabalho que se nota nesta ópera resulta numa coisa 100 vezes mais. Música forte mas subtil; orquestra numa execução contida mas brilhante à direção de um condutor totalmente entregue às "entregas" em ação, no palco e por baixo dele; cenários, guarda roupa, sóbrios, elegantes, apropriados, e a "obedecer" ao estilo e às cores explosivas, sedutoras, cheias de batons e veludos, e ternura, que já conhecemos dos filmes do realizador; um coro do S.Carlos investido duma humildade e de uma grandiosidade comoventes, vestidos e etéreos, bem audíveis mas a deixar um silêncio arrebatador; um "ramo" de representações impecáveis, todos eles e elas, entregues ao "papel" com um talento inquestionável, todos; uns bailarinos encarnando uma sexualidade impregnada de complementaridade, a marcar todos os estilos musicais, do rock à valsa, no passo rigoroso, e aos toques " surpresa" saídos da música. Tudo a passar pela "escrita" do encenador. A " isso", e à bela Música de Nuno Corte-Real, se deve a obra, a "nota só", numa fusão desatómica. Tudo e ligado.

Não há fissuras, nem fora de tom. E se há porventuras falhas que, essas, só os experts em ópera sabem identificar, elas - que até as deve haver porque se trata de obra humana - ficam seguramente num segundo plano que em nada ofusca a beleza que se dá a intuir.

A ópera é "tão consoladora" que nos faz mergullhar num oceano onde a nossa vida está implicada. Leva-nos a Régio, leva-nos a Jacob, leva-nos ao Anjo, leva-nos a Deus e ao Diabo, leva-nos à Bíblia, aos Genesis 32, leva-nos sobretudo às artes, todas, "em palco", aos tais "roubos" que Botelho referiu numa entrevista -aquando da estreia - ao Expresso. Leva-nos sem querer (im)piedosamente ao centro de nós mesmos. À luta que vivemos com as perguntas que trazemos desde que somos "homens" e que a arte, se é arte, não nos deixa esquecer, assim nos apanhe a jeito.

Jacob passou a noite a lutar com "um estranho", e não foi por isso que deixou de lutar. E lutou mesmo. Nada de onírico, ou de ilusão. Não. Lutou e bem: ficou coxo e mudaram-lhe o nome, passou a chamar-se Israel. O nosso protagonista não se limitou a ser morrido.

Não sei com que nome João Botelho ficou, mas é agora mais João Botelho e ficou com uma perna, um passo, diferente. Esperamos mais. Ópera? Cinema? Não é essa a questão. "E eu quem sou?" (Leopardi). A arte nasceu para "responder" a isto, ou para viver isso, e promete ficar. Não é uma evasão estético-sentimental dos problemas do quotidiano. Eu própria de lá saí com um andar diferente, marcado. E a conhecer melhor o meu nome. E não se trata de ética, nem de intenções, mas sim de "pura" Física.

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O Fado não existe (audio)

por Fátima Pinheiro, em 31.07.15

 

 Ana Roque/TM Rasante

 

Ontem fiz-me ao fado. De facto, e apesar de ele ter nascido um dia, quando o vento mal bulia, o fado não existe. Adeus tristeza, cantou-me a Ana Roque no fim da conversa que tivemos no final do seu espetáculo. Não existe?!

É como disse um dia Manoel de Oliveira: o cinema não existe, existem sim as cadeiras. Oiçam o que registei. E no fim marquem como "não ouvido". Apesar de não existir, ele nasce cada dia, neste veleiro, na boca de um marinheiro. Beija o ar, mais nada, e tudo é teu.

 

 

 

 

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Grande Rasante no Porto

por Fátima Pinheiro, em 01.06.15

 Manoel de Oliveira e Rui Moreira/imagem tirada da net

 

A  Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) deu à Câmara Municipal do Porto (CMP), na semana passada, o galardão de Melhor Programação Cultural Autárquica 2014. "É o reconhecimento de que a estratégia de Rui Moreira estava certa", disse  Paulo Cunha e Silva. Ao Jornal de Notícias, o vereador da cultura declarou que a política cultural tem "o apoio incondicional de todo o Executivo e a vontade de participação da cidade". Que sortuda eu sou. Em boas mãos estarei quando na próxima 5ªfeira o meu livro "Rasante" (Chiado Editora, 2014), for apresentado pelo Presidente da Câmara, na Casa do Infante. E mais, porque tudo o que o escrevo, desde 2012 no meu primeiro blog, o 100mim - digo e repito -, o devo a Manoel de Oliveira; e é diante do Douro que toda esta faina se passa. Uma espécie de "Acto da Primavera". E estou à vontade, sinto-me em casa. Não há por aqui falsas humildades.

 

O que aconteceu pela mão da CML desde 2013: criação do Teatro Municipal do Porto (com a agregação do Rivoli e Campo Alegre), reabertura da Galeria da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, a Feira do Livro nos jardins do Palácio de Cristal, o lançamento do Fórum do Futuro (que este ano voltará a realizar-se), concertos, exposições (de que se destaca "You Love Me, You Love Me Not", da Fundação Sindika Dokolo), entre muitas outras. Ainda dizem que o Porto é escuro. Estou a puxar a brasa à minha sardinha? Pois estou. É uma honra para mim ser acolhida no Porto na quinta-feira. O Rasante é apenas um pretexto. Bom, mas pretexto. O que conta é o que não sei dizer. O que conta é aquilo que faz a arte.

 

Rasante? Foi Eduardo Lourenço que um dia me disse que o que passa por mim - por cada um de nós - assim se chama. Fogo que arde sem se ver. E nós consentimos. Ou não. Não é muito melhor dizer "sim"?

 

 

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OLIVEIRA EM 33 DIAS: quem nos dá Portugal (8)

por Fátima Pinheiro, em 31.05.15

 imagem tirada da net/ Painéis de S. Vicente de Fora - Uma visão Poética (2009)

 

« "Painéis de S. Vicente de Fora - Uma visão Poética" (2009) é uma reflexão de Manoel de  Oliveira (MO). Numa época que se preocupa mais com coisas penúltimas, MO dá-nos Portugal. O que inspira a reflexão, reconhece o realizador, é a crise em que a humanidade vive. O filme é assim apelo à paz, a uma visão humanista que não exclui nenhuma raça. Marco Müller, diretor do Festival de Veneza no dia da estreia do filme: "o grande mistério destes Painéis reside em não se saber ao certo quem são as personagens nele representadas, porque se algumas são reconhecíveis, muitas outras não o são".

Porque fez MO este filme? Para saber porque é que num dos dois painéis onde aparece S. Vicente, ele traz o livro aberto com uma passagem da Missa do Espírito Santo (João, XIV, 28-31). E no outro, o santo pega no livro fechado e tem o bastão da virilidade debaixo do braço, e a mão a deter o chefe guerreiro. E para saber por que razão no painel dos pobres, apenas um homem se encontra prostrado de cotovelos no chão.

O Painel em que o livro está aberto, Oliveira roda:"olhai bem!".E repete. É o cinema de Oliveira na exigência da contemplação. O filme termina com uma dança dos Pauliteiros de Miranda, dançando em frente ao quadro, num apelo à alegria de viver, a um banquete.

O filme começa com S. Vicente a "sair" dos Painéis, a colocar-se diante deles (de nós) e faz aquelas perguntas. Ricardo Trêpa convoca, para isso, alguns homens dos painéis. Vão "saindo" das 60 figuras do original (contando com a dupla representação de São Vicente), 18 personagens que se vão colocando no mesmo plano, isto é diante do Políptico, a olhar para nós.Vinde! E começa com os guerreiros. Vinde vós, também, homens do povo. E vós, os homens do painel da Relíquia. Vinde vós os frades, eles também, têm o seu papel, sem dúvida - embora não seja apenas sobre eles que recai a responsabilidade de fazer a paz. No fim é também convocado Diogo Dória, o infante D. Henrique, que irá fazer um apelo à paz. O Arcebispo não é convocado porque, diz o Santo, "já sabe o que vou dizer".

No Painel da esquerda São Vicente detém com a mão o chefe guerreiro como que a dizer: "É tempo de acabar [a guerra]". Ao que este, surpreso, responde "Eu?". Este é o ponto central da reflexão. É como se Oliveira nos provocasse - cada um - à mesma pergunta. E é de notar que é a única vez, nos escassos minutos do filme (sempre ao som da "música" de vento e de mar), que o Santo intensifica o tom de vós, numa intencionalidade, ou acting, muito incisivos: "Eu?" Como se dissesse: o que é que eu tenho a ver com isso? Sou eu que faço a Guerra? Sou eu que vou fazer a paz?

Quem está de joelhos, é o Oliveira? Sou eu? Diz o santo: o pescador é o único prostrado de joelhos a rezar pela salvação do mundo. É como se os Painéis fossem um só. O Painel da humanidade, com todas as raças, a "ecoar o clamor da crise" : o grito do pobre, do pobre saudoso de sentido (Eduardo Lourenço).

A razão pela qual num dos painéis o livro está aberto, e no outro fechado, é o corte entre Passado e Presente que Oliveira quer "unir". A razão da necessidade do homem estar de cotovelos, no chão, é porque é preciso gritar do fundo (S. Agostinho, Confissões II). Não basta perguntar por perguntar. Num dos seus mais belos filmes, o Vale Abrãao, Oliveira põe o dedo na nossa ferida.  É da boca de João Perry que vem a "minha" dramática alternativa : "vive-se....ou não se vive...".  Nos Painéis a vida, o viver, é deixar o livro aberto, sôbolo olhar que corre. E correr...

Oliveira é um "livro aberto" mediante um trabalho - construção - que revela o movimento de um Políptico trespassado de um presente que chega até nós como uma Nação Amada, e Ajoelhada diante do Livro que Ricardo Trepa traz ao "colo" (evocando quiçá a figura de Nª Senhora - Rainha do Porto, a cidade do Douro, da "sinfónica" faina fluvial); um Portugal que não nega que se enraíza num Cristianismo que nunca ficou "em casa" mas arriscou uma Missão que a Europa parece hoje querer esquecer.»

(2/7/2013 - Expresso on line)

 

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 Ela e eleimagem tirada da net

 

Eduardo Lourenço fez-nos ontem um filme - uma grande curta metragem - sobre Manoel de Oliveira. Não foram 5, mas 10 minutos. O que me custou "cortar" esta conversa que tivemos na Av. de Berna  ao som de sirenes! Mas Domingo continua no Cinema Medeia Monumental a partir das 15h, como aqui já referi. Às 22h "Vou para casa" (2001). Fica aqui um aperitivo. Uma promessa.

 

No que o gravador registou, tanto ele diz sobre cinema, o de ontem, o de hoje, sobre criação, sobre arte... E sobre Oliveira abre tanto! Isto confirma-me, cada vez com mais alegria, na certeza de que estou diante de um homem excepcional. Um homem. Um homem que de Oliveira prefere o filme "Francisca" (1981)"  um drama que define como sado masoquista. Um homem que nota cheio de certeza que o realizador "percebeu que o tema mais importante da vida humana é o facto de sermos mortais". "O cinema é a arte da mortalidade...". A certa altura, ao referir-se a um dos mais belos filmes alguma vez já realizados, "Vale Abraão", disse "Vale da Paixão". Que feliz "engano"!

 

E como diz numa palavra a "marca" Manoel de Oliveira? "Portugal como cinema",  "um homem".

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O que é morte? De Lili a Platão...

por Fátima Pinheiro, em 18.03.15

 

Era para ter posto uma fotografia das "As asas do desejo", de Wim Winders, mas gostei desta: dizem que a morte espreita/imagem da net 

 

Todos têm razão. De Lili - e Lilis há muitas - ao filósofo grego, as posturas diante da morte são quantas um homem quer. E não há ninguém que nada tenha a dizer sobre o "assunto". Desde o simples dito popular "a morte é certinha", aos filmes de Wemders ou Oliveira. Os chatos de serviço, os filósofos - será também por isso que eles estão fora de moda, e de modo -  têm por tarefa pensar nestes assuntos. Mas como a vida é curta e o tema complexo,vai-se adiando. Vamos ao urgente, depois se verá, e ficamo-nos. Lili tem razão: "estar morto é o contrário de estar vivo". Platão postula a imortalidade da alma. Certo. E eu? Avalio tudo e retenho o essencial. Tenho a postura que só será destronada por outra melhor, que me dê mais razões. "O Estranho Caso de Angélica", é elucidativo. Dá-me lume.

 

Saramago, entre tantos, perguntou um dia: "quem somos e o que somos, de facto? O que se passou antes de nós? O que virá depois?"  Eu, que agora escrevo, e você que me lê agora, um dia "batemos a sola". Contudo a morte é um corte de cada dia, e vai de qualquer troika à casa funerária que a seu tempo tratará dos nossos restos. Para não falar dos outros cortes, não menos existenciais: dos do dedo aos dos abraços "rotos". A filosofia e a arte lembram estas coisas da vida. Menos urgentes, mas não menos decisivas.

 

Concordo com a Madre Teresa de Calcutá: primeiro encher os estômagos, tratar das feridas. Mas uma coisa não tira a outra. Pelo contrário: aquelas "chatas" de serviço abrem janelas e portas. Ao espelhar o mistério da vida, filosofia  e arte não são fugas à realidade, embora muitas vezes sejam reduzidas a isso. Como? Para quem entende que a vida é uma coisa, e a filosofia e as artes são outra. Assuntos para tempos livres. Ou para quem não tem mais nada para fazer. Inutilidades. Coisa de ricos.

 

O referido filme de Oiveira, mais do que sobre a morte, "retrata" o mistério da vida. Uma hipótese. É Oliveira no seu melhor, a por em ação o seu olho prismático, deixando tudo refletir numa multiplicidade de matizes; sendo o cubo que mostra e oculta, ao mesmo tempo, as suas faces - por isso o filme não cansa (embora dê trabalho). Obra antiga e nova, a fidelidade ecoa de forma subtil Camilo e Agustina. E na Conferência de Imprensa de apresentação, em Cannes -  http://www.youtube.com/watch?v=BKqPH4FG32E  -, a pergunta é sobre a morte; a resposta de Oliveira, com toda a sua humanidade, "deixa-nos" o mistério da vida: "a morte é uma saída, a morte é uma porta, como dizia Tostoi". O resto, a nossa vida que cada dia nos dá hoje, e que temos como adquirida,  é que é "l' incertitude", remata o realizador.

 

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