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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

09
Out17

Os que estão na mó de baixo...

por Fátima Pinheiro

 

A Vida é injusta e muito difícil, dizias. Eu digo-te antes, a vida parece injusta, nós é que não entendemos tudo. Falámos nestes dias das nossas vidas. De política também, que faz parte da vida, é pública, e recentemente muito pública mesmo.  Mas em feliz hora,  o Prémio Nobel da Literatura foi este ano para Kazuo Ishiguro. Precisavamos de um filósofo de boas pretensões e não de um vaidoso qualquer. E que, mais uma vez mostrasse que a vida é literatura, no sentido que o dizer reflecte o que somos de uma forma criativa, inspiradora bela.  Bela, como a vida, que às vezes parece cruel e injusta. A palavra pode mudar,  independentemente da intenção do autor. As coisas mais belas, as mais importantes, não dependem de nós. E são elas que nos fazem correr. Isso sim, depende de nós.

E aqui para nós. Só está na mó de baixo quem quer. A vida é um moinho. Ponho aqui para mim e para ti. Não, não fico à beira do abismo. Ainda o Nobel e as razões da academia : a Academia informou em comunicado que Ishiguro recebeu o prêmio porque "nos seus romances, de grande força emocional, revelou o abismo sob a nossa sensação ilusória de conexão com o mundo".

Neste tempo de incerteza em  que vivemos, como refere o escritor no video que escolhi e postei em cima, importa lembrar que costumamos por uma pedra no passado, quer nas vidas pessoais, quer na História. Isso é desumano. Importa trazer tudo ao de cima, à flor da pele. Doa o que doer.

É esta a literatura que interessa. Dou parabéns à Academia. Não que eu ache que a literatura, para o ser, tenha que ter mensagem. A mensagem, a vida,  é que tem que ser literatura.  E música,  a mais metafísica de todas as artes. 

Tudo tem um propósito. O que anda agora mais nas vistas são as distintas agitações dentro dos partidos. Refiro-me a Portugal. Os que estão na mó de cima, os que passaram para a mó de baixo. É tempo sim de viver, com tudo no prato, e nada debaixo do tapete. A vida é breve e bela demais para jogos e joguinhos.  Chega de espelhos e leituras que não nos levam a nada. Tenho sim saudades do teu olhar, não me deixes ir embora!

Anthony Hopkins um mestre. E ainda Ishiguro, no livro em que usa o esquema fabuloso de uma escola que educa doadores de orgãos (sem que estes o saibam desde o nício), pergunta, pela boca de uma professora: será que temos alma ? 

 

 

 

 

 

 

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29
Ago17

 

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com Noronha da Costa, na Casa Museu Medeiros e Ameida

Dêem-me perguntas. Adoro. Deus e o diabo vão aturar-me sempre. Escolhi estudar Filosofia por "desporto". É mesmo o trabalho que gosto. E "felizes" os que trabalham naquilo que gostam, porque aumentam ao gostar natural o das horas de trabalho - dimensão enorme da existência, não só por nos ocupar longas horas, mas porque é através dele que temos a oportunidade de realizar, descobrir e construir. Tudo. O desemprego pode aumentar. Mas trabalho há sempre. O dinheiro é uma grande chatice, e quero também escrever sobre isso. Mas hoje escrevo sobre homens e mulheres. O assunto interessa-me há muito. Nas discussões de adolescência, quando se falava das diferenças entre homens e mulheres, amuava e não discutia. Dizia apenas que o que interessava era a pessoa. Estava completamente out. Eles estavam certos.

No fundo fui sempre um bocadinho tótó; um dia, na 3ª classe, perguntei à D. Júlia por que é que na pré-história só se falava do "homem", se "não havia então mulheres?"...; não que fosse completamente estúpida, um dia até mordi a Cristina. E agora? Não falo de cor. Não há muitos anos, por razões de trabalho recebi uma pessoa que tinha nascido homem (devia ter sido cá uma brasa! alto, olhos lindos, verdes, etc; fui tentando adivinhar ao longo da conversa como seira "ela" antes, mas não me podia distrair porque o tema era sério) e que tinha feito uma operação de restituição sexual e agora é mulher. Passamos umas boas, boas, horas, a "tratar" do problema que a levava ali. Normalmente quando falo com alguém olho muito para a pessoa. Foi o que aconteceu. Ela olhava-me intensamente. A certa altura disse-me que se sentia tão bem a falar comigo que nem tinha vontade de fumar. E cheirava-se que fumava muito. E que era feliz com o namorado. Mas o que eu via não coincidia. Ela dizia uma coisa e eu via outra. Não me venham com a conversa do "respeito". O que é que isso acrescenta aos factos? É como a palavra "assumir"? Mas assumir o quê. A pessoa é, ou não é. Ama ou não ama. Eu sei lá se sou se sou mais doente do que aquela rapariga? E que há muitas doenças que escangalham a pessoa há. Respeitar, assumir, estão a mais. Se não é doença, melhor.

As diferenças entre homem e mulher qualquer criança sabe. É como quando pergunto aos amigos dos meus filhos quando vêm pela primeira vez lá a casa: quantos dedos do pé tenho, e eles dizem logo "5". "Como é que sabes? Não estás a ver!", dizia eu.  Podia escrever um livro com as respostas. Mas têm a certeza que é "5". Não precisam de ver. Por acaso num deles só tenho quatro, fui operada...

É uma questão de sexualidade. O que é sexualidade? Não estou a devolver a batata quente. É a pergunta que fiz e à qual venho obtendo resposta. Já sabia mas faltava mais. E continuo a aprender. E aprender implica descobrir os elos, as razões, e de como o sentimento a ela (à razão) está colado (Kant neste ponto não teve pontaria, porque eu não sou, nem quero ser, anjo). E nada se percebe se não se passa pela homossexualidade; e aqui há a masculina e a feminina, que distam uma da outra como o céu da terra. "Perdi" muito tempo a ver as pessoas. Fiquei a conhecer-me melhor e aos outros. E isto não acaba...

Andamos muito tempo no tabu do corpo. Foi a religião católica, dizem. Há uma parte de razão, nos factos. Mas não esquecer as religiões e as morais antigas, e as de hoje, que pensam que ao inundarem-nos de incensos, óleos e mirras (olhem as lojas dos milhares de centros comercias) nos querem elevar acima do sofrimento, que vem do corpo e sofrimentos adjacentes. Nunca gostei de anestesias, prefiro chorar. Mas, claro, gosto mais de abraços. Todos. O corpo é muito bom!

Ó Richard, meu oficial e cavalheiro, que pena! E eu que gosto tanto do Lama, de facto. Mas foi um papa polaco, filósofo, que agarrou em Husserl e voltou a olhar para o corpo e a discorrer (não fosse ele um atleta). Estava demasiado perto da Rússia para não se ter deixado espantar pela beleza dos corpos de um homem e de uma mulher. Foi nele que bebi, aprendo, e vou vivendo as "palavras" magníficas. Experimento e verifico quem sou e o que é ser mulher. Experimento e verifico o que é ser homem. Sei o que se ganha e o que se perde. Não respeito, nem assumo. Limito-me a ser mulher. Mas sei porque não gosto do "mesmo do mesmo". Não sou bruxa, sou apenas humana, converso, dou atenção (tento) e por isso sei os factos e as razões - porque conheci e conheço pessoas assim - que levaram (e levam; e aqui mea culpa...) a procurar o mesmo do mesmo.

A mim o diferente abre-me ao mistério, dá-me vertigens. Voo e vejo mais longe - saio da gaiola - e não me limito às promessas de um conforto que insiste em invadir-me como se fosse uma ditadura a dizer "da igual, se te gusta"! Isto já vai longo. Há pano para mangas. Para as por e tirar. A sexualidade reside na bela diferença. Beleza é a resposta, por isso quero conviver com ela.

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28
Jun17

Não tomaste conta de mim!!!

por Fátima Pinheiro

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 imagem tirada da net

 

O gesto de ontem no Meo Arena vale por si. A beleza da solidariedade e dos valores envolvidos, diz tudo. Parabéns a todos. Da minha parte, que raramente vejo a tv, vi, e liguei para aquela linha muitas vezes. Devo dizer que gosto muito da Cristina Ferreira. Tem gargalhada genuínas.  A vida é bela, disse antes de cantar o Salvador Sobral. Mas do que eu gostei em especial, mesmo, foi do direto do Presidente da Câmara de Pedrógão, e dos diretos feitos por um Pedro Teixeira como eu nunca tinha visto. Maravilhoso.  Sem uma pinga de espírito negativo, o homem que ficou a tratar dos vivos, e não veio a Lisboa, apesar de ter sido convidado, como confessou na entrevista, é um homem maduro. E no top ponho o meu Pedro Abrunhosa e aquele genial angolano, que eu não conhecia, e cantou "todos me chamam louco".

A noite tinha um manto de espírito positivo, uma montanha de sorrisos de portugueses a apreciarem os portugueses, uma onda de "nós somos incríveis, sabemos unirmo-nos, fazer um mega evento", e por aí. Tipo "we are the portuguese". E o mundo das estrelas da rádio e da tv. E que que grande concerto! Que artistas temos!

Mas não posso deixar de lado o que penso. Cantam mas não "animam". Só uma pessoa vale mais que 1 milhão e 153 mil euros. Este número tem sido repetido nos media, que já incomoda. Sabem quanto custa um estádio? Ou quanto custou a Quinta do Relógio?  Não estou a dizer que este dinheiro de ontem não vale. E como valem os discursos comovidos das pessoas que ontem falaram.  Mas nada apaga o que aconteceu. E o concerto de ontem - eu sei que a ideia não é essa - pode ser um tapar o sol com a peneira.  O que eu queria mesmo, porque um País que se preze é assim que funciona,  tem sido e vai seguramente ser adiado. É uma palavrinha de quem nos governa. E ação estruturada. Visão.

Parafraseando o meu querido Abrunhosa, cada morto de Pedrógão pode dizer "não tomaste conta de mim". O calor do Meo Arena é também um fogo. Por isso me chamam louco. São as estrelas no céu. O brilho da arte. A arte está de de Parabéns. E nós portugueses também. Os vivos e os mortos.

 

 

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28
Mai17

uma coisa maior

por Fátima Pinheiro

 

 

As trevas parecem dominar. Mas no olhar no romper da aurora, pode dar-se sobressalto do coração. A luz impõe-se e é ela a brilhar, assim o sobressalto não se “ocupe” e atire para canto. Oiço: apesar “disto” – contrariedade -, eu consigo ultrapassar. Um estoicismo que esmorece e morre no primeiro, ou segundo lance. Falo por mim.

Uma pessoa pode não perceber nada da música que ouve cantar mas se está mesmo a ouvir música, percebe que aquele que canta sabe porque canta. Nesta ária de Händel é evidente que o que canta manifesta uma “coisa” maior que ele. E que voz!!!

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19
Mai16

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Mychael Nyman de arrasar

 

Adriano Jordão é o diretor Artístico do Festival de Música de Sintra, que vai na sua 51ª edição.  Também criou o de Macau, o dos Açores e o de Mateus. No dia da inauguração, a passada 5ªfeira, lá fomos ter com ele.

 

Como é que o senhor entrou neste “comboio”?
Eu?

Sim, o senhor, é um homem da música, pianista, esteve também no Brasil como nosso conselheiro cultural,e agora...

Exatamente. Eu tenho muita experiência na minha vida de festivais de música. 

O que é para si um festival? Eu já apanhei muitos festivais de Sintra  que não têm nada a ver uns com os outros.

Ainda bem que me pergunta! O que é que quer dizer para si a palavra “festival”?

Festa!

Claro. A primeira coisa é que tem de ser uma festa.
Mas o senhor é  que vai responder! Não esteja a tirar ideias... (risos)
Mas é isso mesmo. Tem de ser uma festa! A origem semântica de festival é a mesma do que a de “festa”. É uma festa, tem de ser um acontecimento. Não pode ser, como às vezes se fazem, juntar uns concertos, umas atividades, ao lado umas das outras... Tem que haver uma lógica...

Qual é a lógica deste festival de Sintra?
Ora, ainda bem que me perguntou! É o seguinte: Sintra é para mim romantismo. Sintra é exotismo. E Sintra também é, na tradição do festival, o piano. O instrumento, piano.

Sintra é o piano?

Sim, pela Marquesa do Cadaval. Para este ano, centrámo-nos no piano mas não no piano de uma maneira, digamos, “incoerente”. Então o que é que há? Há um piano hoje, do Michael Nyman. A seguir temos os dois pianos. Depois, temos o piano como instrumento de percussão. As pessoas não se lembram que o piano é um instrumento de percussão. Depois temos o piano em 4 mãos. Depois temos o piano num reportório que não é próprio do piano. Por exemplo: fados e tangos. A pessoa não liga tango ao piano, em princípio. Depois temos o piano noutro reportório também não habitual: Música árabe no piano. No Palácio da Pena. Tem tudo a ver!

Ai tenho de ir a esse, eu não tinha pensado....
Claro! E depois temos um concerto paradigmático de Sintra, um recital de Chopin no Palácio de Queluz. Uma grande chopiniana romântica. Aí estamos em pleno...em Sintra. Depois temos um concerto com um programa que é a história da música do piano. De Bach a Bartok. Depois temos um jovem artista português....
Está a ver se eu não tivesse vindo fazer-lhe um Rasante...

Claro, não veria a lógica! Portanto, a parte da festa já percebeu. Basta estar comigo para fazer uma festa!

Exactamente! Professor, eu não sei como é que o trato...
Adriano.
Já agora, como é que se trata um artista?
“Ó pá, tás bom?” (risos)

"Opá, tás bom?" diga-me quem é este homem que daqui pouco eu vou ouvir. Qual é a mais valia dele?

Nyman é um homem que se celebrizou através de um filme chamado?
Ai isso eu não sei!
Ah,  “O Piano”, está a ver? Portanto, se eu faço uma coisa, ligada toda ao piano, tem toda a lógica começar com uma aproximação ao piano que não é a aproximação da música clássica e elitista. Não vem de casaco fazer um recital de Chopin, não é nada disso. Percebe?

Pois, eu estou a imaginar, porque eu ainda não...
Agora vamos ver o que é que acontece! Se as minhas previsões estiverem erradas, para a próxima entrevista a Maia.
A Maia? (risos)
Está a ver? Faz uma entrevista à Maia!
O que vale é que estamos no ano da misericórdia. (risos)
A Maia faz uma previsão, e é muito melhor do que eu!
Para terminar, isto já passou o tempo e vai começar...
Já está rasante! (risos)
As pessoas não podem ir a tudo, não têm dinheiro, não têm...A cultura é cara...Qual é o concerto imperdível?
Depende do ponto de vista...
Do seu ponto de vista...
Para mim obviamente, eu diria que é o concerto “Recital Chopin” em Queluz. Eu sou um homem da música clássica. Para estes jovens que estão aqui hoje, o imperdível é o Michael Nyman! Quem seja muito curioso, se calhar quer é ir ver música árabe no Palácio da Pena.

E se eu tiver os pontos de vista todos, quero ir a tudo!
Exactamente, ir a todos os concertos!
Olhe, muito obrigada, foi um prazer conhecê-lo e espero ter outra oportunidade para falar consigo, obrigada.
Com certeza, para a próxima traga a bola de cristal...

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04
Abr16

 

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imagem do making off do documentário/ tirada da net

 

  

 

Oliveira é uma energia renovável. Passou um ano da sua morte. E afinal havia outro (aposto que na gaveta há mais…). O último filme Documentário de Oliveira: “Um século de energia”, encomenda da EDP para a sua campanha publicitária, a ser exibido em 10 cidades portuguesas, a pedido do cineasta, que, durante os trabalhos de montagem, foi por outra “porta”, e acabou por não ver o resultado final. Eu podia ver o filme e ficar calada. É de uma beleza tão “ordinária” que bastava ver e experimentar a correspondência ao mais "eu" do meu "eu". Contudo, como Henri de Lubac sublinha, a mística é uma colheita da tarde. O mundo em que vivo – a minha rua – diz-me que há muita espiritualidade. Pois depende do que por isso se entende. A mim,há muitos que me sabem a pouco. Há mesmo, por vezes, mais mística no futebol. Este post é um registo filosófico, em si menor (isto exige outro texto), do que esta obra de arte oferece ao mais que socrático, “conhece-te a ti mesmo”. Nas III Jornadas de cinema em português http://www.livroslabcom.ubi.pt/pdfs/20141204-201201_cinema_em_portugues_iii_jornadas_2010.pdf expliquei a minha forma de ver os trabalhos deste homem, a quem vi, não há muito, no CCB, de joelhos, a beijar as mãos de Bento XVI. Numa palavra: “. . . nous sommes devant un grand mystère.” (Baecque, A., Parsi, J., 1996). Mas a filosofia, ao invés do que se pensa, articula, distingue, esclarece. Pode gerar felicidade, energia, argumentando até ao abismo que há que saltar, se for caso disso.

 

Oliveira utiliza uma “câmara” fenomenológica. Sim, há formas filosóficas de ver o cinema - e agora dizemo-lo mesmo de forma poética: a razão sabe por onde vai o cinema, no trabalho de mostrar e articular razões. Pondo as coisas de forma mais clara – e esta é a melhor definição de Filosofia que encontrei – a Filosofia faz as distinções essenciais (Cfr. Sokolowski, 1992). Quem a define assim é Husserl, por onde passa a filosofia hoje. Desde 1900. O conhecimento não é um fenómeno estático mas um encontro de duas energias, encontro interminável, mas de contornos definidos, isto é limitados; a Filosofia, como lembra inúmeras vezes Husserl, é uma ciência que possui o seu rigor próprio. A realidade impõe que o guião se converta e não vá por ali; disse-me um dia Luis Miguel Cintra, que no momento de filmar MO tem uma grande sensibilidade ao que acontece; ou “L’événement fonctionne comme ouverture dont la possibilité peut toujours se répéter.” (Lavin, 2008). 

 

Há tantas fenomenologias, quanto os fenomenólogos. Oliveira é um realizador fenomenológico, como foram muitos. O suprasumo deste movimento filosófico está em Husserl e nas categorias que ele encontrou para entender os mundos. Realçamos as seguintes:Parte/todo; horizonte; Identidade/Perspectivas/Ausência/Presença /Memória – Retenção (passado), Reconhecimento (presente), Antecipação (futuro). Muito para um post, eu sei, mas vou dizê-lo sinteticamente. Olhando para "Um século de energia", a partir de como mais de um século de energia  se realiza uma história, uma vida. Oliveira vai mais uma vez ao que é o humano. E é porque a sua experiência energética é tão rica que consegue mostrar o tecido que faz a vida, o invisível que nos rega, nos move e ilumina. Fenomenologia? Oliveira mostra de forma genial imagens que "aparecem" (fenómeno) plenas de "lógica" (logos), acontecendo assim um todo em que as partes se distinguem sem se confundir. 

 

“Hulha Branca”, que realizou em 1932,antecipa o documentário; é retido e cresce, no presente; naquele espaço de Serralves, ao "criar" a música e a dança que projectam as suas sombras, numa unidade que dá cada coisa no seu lugar. A força artística dos movimentos das bailarinas e os sons do quarteto que insiste no tom, são um todo cujas partes não se perdem contando assim uma história onde é ilustrado o processo de transformação de energia.

 

Os moinhos de vento antecipam-se nas suas sombras nos pinheiros e arbustros. Aparecem depois na sua imponência a mostrar futuras formas de energia. Como os braços, nos gestos erguidos daquelas mulheres que dançam nas cores de um escarlate, que se funde no preto e branco do que não passou. Os fios eléctricos são riscas horizontais no fundo azul de um céu: uma pintura viva de natureza, arte e trabalho (minuto 7,minuto  9). O que acontece desde a imagem inicial onde se vê também o Douro da faina fluvial. A arte que MO põe sobreposta excede, promete, espanta, como um grito bom a pedir e mostrar sentido. Tudo a um ritmo conjugado de pitch´s, fotografias, flashes; doações,segundo a segundo; bateres de corações: coincidências em que me revejo, ausências grávidas de presenças, a mostrar o invisível; faces do cubo que nunca se dá todo, e é sempre envolvido num todo pressentido em horizonte.

 

E a água, traz o sol e o vento. Como irmãos,da mesma terra, da mesma fonte. Sem que a aparente inutilidade da arte belisque o trabalho ou negócio, espelhados em caras de homens alegres, de dentes tortos, e olhos e mãos iguais a "mim". De mãos dadas, na mesma luta - o melhor de mim -, como canta Mariza no making off. No filme não há letra. Há a música da água, de sinos, do vento, do poderoso silêncio. Dos pássaros. E o som do mostrar que "sem ver,é acreditar"; "é preciso perder para se ganhar". "O melhor de mim está por chegar". Aqui compara-se a cena final do filme e a do making off: MO de mãos postas na bengala, a equipa que para ele olha a pedir a genialidade. O minuto 2.54 não mente a mesma câmara,os mesmos séculos, o mesmo "eu". Tudo a terra une. E a água enche-se de humanidade,escorrendo por paredes abaixo, e por debaixo de pontes,arcos e escadas de pedras, no mesmo sangue. O melhor, de mim. A desafiar-me o meu SIM.

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 fotografia @fatima pinheiro

 

The musician recognizes an ugliness in this world we live. However he is the prove of the opposite. He´s full of energy, generosity and beauty.

Here we listen to what Ronald Brautigam thinks about music, what is a public, what makes music a Must, what it gives, how to "make" it, and more. The talk had place yesterday, at Fundação Calouste Gulbenkian, after he played Mozart piano concert nº27. 

He decided to be a musician when he was 4 , 5 years old,in bed, listening to his father playing Chopin. Play is for him to share a passion. We realy need music, to live the best way the ugliness of life. "Let´s not be sad, we are going to dye" says Haydn  in an opera that inspired this Mozart concert he played. Everybody has music. Music gives you energy. When he plays, music comes alive; when he plays happens that thing that  music gives. What´s that, I asked...

 

 

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07
Jan16

Vasco Graça Moura em Ópera

por Fátima Pinheiro

 

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 imagem tirada da net

 

Prémio Vasco Graça Moura e então lembrei-me. Quero ver outra vez a ópera Banksters, de João Botelho, que foi a Vasco Graça Moura "esculpir" o texto. Diante dela é como se estivessemos a ver um filme assinado Botelho, mas em carne e osso, corpo-a-corpo. As "óperas" que Botelho incarna nas suas "telas", mas agora como ópera mesmo. Se calhar é verdade a teoria de que a ópera é a arte mais completa. Porque tem lá todas as outras, e neste caso, também a sétima. O texto, "adaptado" por Vasco Graça Moura, é de José Régio, para quem o cinema é a síntese de todas as artes. Em que ficamos? A questão nem é essa...

A experiência proporcionada por Banksters é a afirmação de uma coisa "maior", de uma dimensão que ultrapassa a razão, embora seja esta a reconhecê-lo. A unidade ou fusão das artes em jogo no espetáculo - "numa nota só" (e Botelho reconhece sempre que a música é a matéria que trabalha) - não se baseia numa construção, embora haja ali muito, muito trabalho (imagino os cigarros fumados). A unidade que se mostra a quem a vê, acontece por um excesso. Imprevisível. Não é por acaso que no primeiro acto, à esquerda, imponentes, estão os vitrais "roubados" a Gerhard Richter. A apontar para o "mistério", para uma dimensão "desconhecida" mas "presente", que ilumina de escondida. Prodigiosa a capacidade de deixar que o prodigioso aconteça: uma unidade buscada, que aconteçe ali e então, mas que "opera" num tempo e num espaço que nos escorrega por entre os dedos. É preciso talento, e esse, por muito que se "opere", é, pura e simplesmente, "dado".

O trabalho que se nota nesta ópera resulta numa coisa 100 vezes mais. Música forte mas subtil; orquestra numa execução contida mas brilhante à direção de um condutor totalmente entregue às "entregas" em ação, no palco e por baixo dele; cenários, guarda roupa, sóbrios, elegantes, apropriados, e a "obedecer" ao estilo e às cores explosivas, sedutoras, cheias de batons e veludos, e ternura, que já conhecemos dos filmes do realizador; um coro do S.Carlos investido duma humildade e de uma grandiosidade comoventes, vestidos e etéreos, bem audíveis mas a deixar um silêncio arrebatador; um "ramo" de representações impecáveis, todos eles e elas, entregues ao "papel" com um talento inquestionável, todos; uns bailarinos encarnando uma sexualidade impregnada de complementaridade, a marcar todos os estilos musicais, do rock à valsa, no passo rigoroso, e aos toques " surpresa" saídos da música. Tudo a passar pela "escrita" do encenador. A " isso", e à bela Música de Nuno Corte-Real, se deve a obra, a "nota só", numa fusão desatómica. Tudo e ligado.

Não há fissuras, nem fora de tom. E se há porventuras falhas que, essas, só os experts em ópera sabem identificar, elas - que até as deve haver porque se trata de obra humana - ficam seguramente num segundo plano que em nada ofusca a beleza que se dá a intuir.

A ópera é "tão consoladora" que nos faz mergullhar num oceano onde a nossa vida está implicada. Leva-nos a Régio, leva-nos a Jacob, leva-nos ao Anjo, leva-nos a Deus e ao Diabo, leva-nos à Bíblia, aos Genesis 32, leva-nos sobretudo às artes, todas, "em palco", aos tais "roubos" que Botelho referiu numa entrevista -aquando da estreia - ao Expresso. Leva-nos sem querer (im)piedosamente ao centro de nós mesmos. À luta que vivemos com as perguntas que trazemos desde que somos "homens" e que a arte, se é arte, não nos deixa esquecer, assim nos apanhe a jeito.

Jacob passou a noite a lutar com "um estranho", e não foi por isso que deixou de lutar. E lutou mesmo. Nada de onírico, ou de ilusão. Não. Lutou e bem: ficou coxo e mudaram-lhe o nome, passou a chamar-se Israel. O nosso protagonista não se limitou a ser morrido.

Não sei com que nome João Botelho ficou, mas é agora mais João Botelho e ficou com uma perna, um passo, diferente. Esperamos mais. Ópera? Cinema? Não é essa a questão. "E eu quem sou?" (Leopardi). A arte nasceu para "responder" a isto, ou para viver isso, e promete ficar. Não é uma evasão estético-sentimental dos problemas do quotidiano. Eu própria de lá saí com um andar diferente, marcado. E a conhecer melhor o meu nome. E não se trata de ética, nem de intenções, mas sim de "pura" Física.

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31
Jul15

O Fado não existe (audio)

por Fátima Pinheiro

 

 Ana Roque/TM Rasante

 

Ontem fiz-me ao fado. De facto, e apesar de ele ter nascido um dia, quando o vento mal bulia, o fado não existe. Adeus tristeza, cantou-me a Ana Roque no fim da conversa que tivemos no final do seu espetáculo. Não existe?!

É como disse um dia Manoel de Oliveira: o cinema não existe, existem sim as cadeiras. Oiçam o que registei. E no fim marquem como "não ouvido". Apesar de não existir, ele nasce cada dia, neste veleiro, na boca de um marinheiro. Beija o ar, mais nada, e tudo é teu.

 

 

 

 

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01
Jun15

Grande Rasante no Porto

por Fátima Pinheiro

 Manoel de Oliveira e Rui Moreira/imagem tirada da net

 

A  Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) deu à Câmara Municipal do Porto (CMP), na semana passada, o galardão de Melhor Programação Cultural Autárquica 2014. "É o reconhecimento de que a estratégia de Rui Moreira estava certa", disse  Paulo Cunha e Silva. Ao Jornal de Notícias, o vereador da cultura declarou que a política cultural tem "o apoio incondicional de todo o Executivo e a vontade de participação da cidade". Que sortuda eu sou. Em boas mãos estarei quando na próxima 5ªfeira o meu livro "Rasante" (Chiado Editora, 2014), for apresentado pelo Presidente da Câmara, na Casa do Infante. E mais, porque tudo o que o escrevo, desde 2012 no meu primeiro blog, o 100mim - digo e repito -, o devo a Manoel de Oliveira; e é diante do Douro que toda esta faina se passa. Uma espécie de "Acto da Primavera". E estou à vontade, sinto-me em casa. Não há por aqui falsas humildades.

 

O que aconteceu pela mão da CML desde 2013: criação do Teatro Municipal do Porto (com a agregação do Rivoli e Campo Alegre), reabertura da Galeria da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, a Feira do Livro nos jardins do Palácio de Cristal, o lançamento do Fórum do Futuro (que este ano voltará a realizar-se), concertos, exposições (de que se destaca "You Love Me, You Love Me Not", da Fundação Sindika Dokolo), entre muitas outras. Ainda dizem que o Porto é escuro. Estou a puxar a brasa à minha sardinha? Pois estou. É uma honra para mim ser acolhida no Porto na quinta-feira. O Rasante é apenas um pretexto. Bom, mas pretexto. O que conta é o que não sei dizer. O que conta é aquilo que faz a arte.

 

Rasante? Foi Eduardo Lourenço que um dia me disse que o que passa por mim - por cada um de nós - assim se chama. Fogo que arde sem se ver. E nós consentimos. Ou não. Não é muito melhor dizer "sim"?

 

 

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