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Como consigo o equilíbrio...

por Fátima Pinheiro, em 17.06.17

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 imagem tirada da net

 

A ideia deste post vem porque Nick Wallenda, de 33 anos, membro de uma célebre família de artistas de circo, conseguiu – sob um fio de aço, a uma altura de quase 50 metros e por uma distância de quase 550, e em pouco mais de meia hora – atravessar as Niagara Falls. Usou uma corda de segurança. Até porque o seu avó morreu numa aventura do mesmo tipo. Muitas conversas sobre a dificuldade em equilibrar a vida.

Como consigo o equilíbrio? Esta história verídica que vou contar ilumina. Uma amiga contou-me a história de uma amiga que lhe contou que chegava ao fim do dia exausta. O trabalho. Os filhos. O marido. Os amigos. Os outros. O supermercado. O “descanso”. As refeições. Tudo. E que na véspera, à noite, chorara e chorara. Não sabia conseguir o equilibrio nisso tudo. Despedaçada. Como o Raskalnikov. A minha amiga perguntou-lhe então: “quando choraste ontem à noite, qual dessas partes tuas chorou?”. E ela desatou a chorar outra vez. Era ela toda que chorara. Ela. Compreendeu, e chorou de alegria. O equilibrio é realmente impossível porque eu não sou feita de partes, às fatias. Fatia executiva, fatia recreativa, fatia mulher, fatia mãe, fatia voluntariado, fatia famíla alargada, fatia cultura, fatia religiosa, fatia administradora do condomío, uf! Viver por segmentos só é possível se eu me contentar em “ser” assim fatiada, na eterna questão de conseguir o tal equilíbrio na minha vida. E então como é? Se sou eu inteira que choro, é porque é sendo inteira em tudo, que está o segredo. Um orçamento equilibrado, tudo bem, e é bom que se faça. A disciplina do Nick, ok. Mas a vida não se sujeita a orçamentos. Quem domina o princípio e o fim? Viver é assim deixar de fazer contas, soltos no fio, ou seiva, que em cada instante nos é dado. O único trabalho é o de ser livre. Agora. Arriscar. E arriscar porque há razões para isso. O que ME INTER-ESSA. De certo modo não “dá trabalho” porque a vida acontece. A criança não entra no quarto escuro sozinha. Mas de mão dada em quem confia, arrisca. Há razões para entrar. O Nick não deixou de fazer o que fez, sem esse fio que o segurava. E arriscou. Arriscou-se. Eu quero. É simples. Só não é simples porque nós complicamos. Olhar para os olhos esbugalhados de quem vive assim, ajuda. Ilumina.

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 HOJE

 

MAR14

Sempre NÓS -JOÃO Soares E JOSÉ Milhazes - 14 MARÇO

Público 

 

JOÃO SOARES e JOSÉ MILHAZES como nunca os vimos. Dois homens bem diferentes, e com muito em comum, entre ‘Perigos e guerras’. Esforçados? Estarão hoje á noite3ª feira no Conhaque-Philo.

 

Provocador e desafiante, o Conhaque-Philo, uma iniciativa da bloguista Fátima Pinheiro, convida gente a conversar, com café, um vinho ou mesmo um conhaque, junta políticos, jornalistas, economistas, artistas, empresários. Nesta sua 3ªedição para debater ‘Sempre Nós’: os nós que são as pessoas, os nós que atamos e desatamos, os nós da nossa História, os que queremos agarrar para construir o presente e o futuro. Oue queremos do que nos espera? Orgulhosamente acompanhados?

 

Rui Ramos, Luís Osório e Siiri Milhazes abriram na 3ª-feira passada, de forma brilhante, este novo ciclo de tertúlias, conversando sobre ‘Só se conquista o que se dá’.

 

António Correia de Campos, Joaquim Sapinho, Ângelo Correia, Raquel Abecasis, Luís Miguel Cintra, Francisco Seixas da Costa, Filipe Magalhães, Pedro Abrunhosa, Rui de Carvalho, e Paula Roque, são os que se seguirão.

 

ENTRADA GRATUITA

 

Às 21h na Casa Museu Medeiros e Almeida, hoje

 

 

Programa

7 MARÇO (3ªfeira) – “SÓ SE CONQUISTA O QUE SE DÁ”
Rui Ramos/ Luis Osório/Siiri Milhazes

14 MARÇO (3ªfeira) – “ENTRE PERIGOS E GUERRAS”
João Soares/José Milhazes

21 MARÇO (3ªfeira) – “ENGENHO E ARTE”
Joaquim Sapinho/Ângelo Correia

28 MARÇO (3ªfeira) “PARA ALÉM DA TAPROBANA”
Raquel Abecasis/Luis Miguel Cintra/Francisco Seixas da Costa

4 ABRIL (3ªfeira) – “A FORÇA HUMANA”
António Correia de Campos/Filipe de Sousa Magalhães/Higino Cruz

12 ABRIL (4ª feira) – “Tens os olhos de Deus”
Pedro Abrunhosa/ Rui de Carvalho/Paula Roque 

 

 

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«Tudo bem?»

por Fátima Pinheiro, em 19.01.17

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 a fazer bolachinhas

 

É a pergunta que diz tudo e diz nada. Cruzamo-nos e ... lá vem a pergunta: "tudo bem?". Não digo que seja uma coisa falsa. Mas, e falo por mim (sempre), o que pergunto ao perguntar "tudo bem?". Bem sei que nos agitamos de um lado para o outro. O tempo para responder à pergunta não chega para a pergunta, etc. Outras vezes não quero saber se está tudo bem. Claro que desejo e quero que tudo esteja bem. Não, não é isso; é que faço a pergunta tipo no automático, género das formigas que se cruzam (penso eu; na volta elas, as formigas, dizem umas às outras: "amo-te"...) e nem sequer penso na sua grandeza. Que raio|! A gente vale mais, muito mais. Já me maravilhei hoje com alguém, com o dom da existência?

 

Andando eu agora em menos agitações (no final de contas, não mandamos nos minutos, os nossos minutos estão contados), penso nas pessoas que conheço. Penso nas superficialidades dos momentos sérios e nas dos momentos de brincadeira. Nas minhas superficialidades e nas dos outros. Mas não me ralo em contar. Essas contabilidades fazem perder o bom bom da vida. Estou a dizer que ando a aproveitar o que as circunstâncias me dão, e a fazer delas o que elas são na realidade.

 

O importante nisto tudo é que vivo cada vez mais, experimento, a diferença entre um sorriso que só tem capa, e um sorriso que molha de alegria. O meu e o dos outros. Sei o que é um sorriso salvo. Uma pessoa salva. Já me tinham dito que só a partir dos 50 é que podemos começar a perceber, a viver a vida...

 

O momento em que percebo isso com uma clareza incontornável, corro apressada a desfazer-me das estupidezes. Quero que tudo esteja bem. Aos poucos (ainda há muita porcaria) penso e faço o que me parece bem. Fiz uma lista das coisas a re-parar. Finalmente entendi o que quer dizer "não deixes para amanhã aquilo que podes fazer hoje." O que posso faço hoje. Há coisas que não consigo fazer hoje. Mas sei que se continuar a desejar muito, mesmo o que me parece impossível, tudo virá a seu tempo.

 

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Gustavo Santos: músculos e best sellers

por Fátima Pinheiro, em 04.09.15

 imagem tirada da net

 

Caro Gustavo

 

conheco-te do facebook e já noutra ocasião escrevi sobre os teus livros e disse que dizias frases verdadeiras. Simplesmente não gosto do teu populismo,moralismo, isto é, da tua falta de argumentos. Ainda ontem apareceste no meu feed de notícias a dizer esta: "(...) A educação que tiveste já não é desculpa para nada. Perdoa quem tens a perdoar e põe-te a mexer. (...)" in "AGARRA O AGORA". Apeteceu-me perguntar-te: porquê  e para onde? Mas se calhar o que tenho mesmo é inveja  dos teus músculos e da quantidade de livros que vendes. E posso dizer-te que às vezes aprendo contigo. Ontem, por exemplo. E tu,  se quiseres aprender alguma coisa comigo lê o meu livro "RASANTE".

 

E hoje quero escrever como tu e dizer:" Quanto queres mesmo uma pessoa, corre e alcançarás. Se não correste é sinal de que não a queres assim tanto. Deixa e segue mas é o teu coração. Não te mexas."

E para ser verdadeira contigo, digo-te já que não vou comprar os teus livros. Mas tenho a certeza que com o que escreves empurras muita gente para uma auto-ajuda preciosa; sei que o erro é, como diz Chesterton, " uma verdade enlouquecida", e que todas as filosofias têm razão, só que umas têm mais que outras. Não me leves a mal. Leva-me até a bem. E agradeço-te o pensamento de ontem. E vou passar a fazer como tu: por no meu facebook algumas frases do "RASANTE" e outra soltas, assim como aquela que pus acima, ao teu estilo. Olha, agora lembrei-me desta: "Pensas que és mais que os outros? Estás enganado ou enganada. Todos somos de um valor inestimável." Sabes dizer porquê, qual a razão, Gustavo? Aposto que não. Mas não faz mal. Vamos mas é agarrar o dia, que o resto vem por  acréscimo.

com toda estima

 

Fátima

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Enamorar-se ou apaixonar-se?

por Fátima Pinheiro, em 16.09.14
uma praia da net


"O amor romântico costuma ser muito falso: ninguém vive mais enganado que um apaixonado e poucos sofrem tanto como ele. O amor autêntico tem tanto a ver com o enamoramento, que hoje é o sonho por excelencia, o único mito que ainda resta no Ocidente. No amor autêntico não se espera nada do outro; no romântico, sim. E mais: o amor romântico é essecialmente a esperança de que o parceiro nos dará a felicidade. Quando nos apaixonamos, sobrecarregamos o outro com as nossas expectativas. E tais são as expectativas que carregamos sobre o ser amado que, no fim, dele ou dela já não resta praticamente nada. Então o outro é simplesmente uma desculpa, uma máscara das nossas expectativas. Por isso costuma passar-se tão rapidamente do enamoramento ao ódio ou à indiferença, porque ninguém pode satisfazer expectativas tão monstruosas (...). O ser amado não existe para que o outro não se perca, mas para se perderem, juntos, para viverem, em companhia, a libertadora aventura da perdição." É o chamado FALL in love. Não sei dizer isto melhor, mas subscrevo cada linha deste livro que leio, enquanto releio os Maias.

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Gosto de observar as ressacas

por Fátima Pinheiro, em 22.08.14

imagem tirada da net

"Tudo o que parece é." Ensinaram-me que era ao contrário: "nem tudo o que parece é." Na escola ensinaram-me uma "Alegoria da Caverna" que não tem nada a ver com o que Platão quis dizer. A herança cultural que me cabe, e que espreita em cada esquina das minhas "cenas" quotidianas, invade-me mais platónica que aristotélica. Na Universidade ensinaram-me que Santo Agostinho é platónico e que S.Tomás é aristotélico. Depois foi preciso von Balthazar ser citado para ouvir dizer que a verdade é sinfónica, quanto já se sabia. Um cristianismo dualista? Não há. Se há quem pense que sim, que o cristianismo é "esquartejante", ou não sabe o que é o cristianismo ou não sabe o que é o dualismo. Observar, observar e observar, é preciso. Ninguém é feliz de beber de um ideal. Feliz é aquele que "bebe" de pessoas. Se a água for podre melhor morrer de sede do que de uma ideia que, por definição, não "sabe" acontecer. Chama-se a isto "cair na real".

Mas como estas ideias falsas foram passando, e muitas delas por práticas e prédicas a condizer, o ditado tem vingado e vive-se em dualismos constantes. Dizem os místicos de todos quadrantes que é preciso deixar assentar o lodo para começar a ver. E que ver não é difícil, que o difícil é querer ver. Simone Weil bem frisou que a mãe das virtudes é a atenção; e que é esse desejar a luz que produz luz. Platão nunca disse que as sombras projectadas no fundo da caverna eram aparências. E que no "mundo lá fora" é que era. O que ele disse foi que as sombras tinham a realidade de serem aparências. Eram aliás tão reais que foram elas a suscitar o interesse de um dos escravos a querer ir mais longe. Tudo interligado, portanto.

Por tudo isto, do que gosto é de observar. Não que seja isto um estar de "fora". Antes pelo contrário, observar é beber. Mas há "beberes e beberes". A selectividade aprende-se no tipo de ressaca que se tem. Depois é escolher.

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A «silly season» tem desde ontem mais um tema

por Fátima Pinheiro, em 09.08.14

(fotografia da net)

Nunca acreditei na história da Silly Season. Nunca as férias deixaram de fornecer assunto aos jornalistas. Assunto Bom e assunto Mau, como agora se diz – Nietzsche, com o seu “para além” de um e outro, tem tanto a dar. Que pena a Filosofia estar tão em baixo, a "perder pontos" para a ética e para questões de linguagem e de estados de alma. Não que estes não sejam muito importantes, mas há mais Filosofia do que aquela que encontro nas filosofias do cansaço, na astrologia, ou nas arrelias multiculturais; há mais do que nas gramáticas não transversais e nas antropologias que partem do ponto de vista que os animais têm de mim. Mais do que nas Ecologias “baratas”, ou nos “shots” filosóficos para todos os gostos. Filosofia & Company e em kits simpáticos: ela em dez minutos, ou no meu bolso, ou a ser bebida entre dois cafés, colorida e sem ser chata. Era não era? Mas há coisas que quando querem mudar o seu “core”, passam a ser outra coisa, e, neste caso de uma inutilidade que não pertence à “ociosiosidade” da Filosofia. Serve apenas para facturar à custa da ignorância alheia. É mau, muito mau.
A Filosofia não se vende, compra-se. Não é de graça, não. É cara, vem sem acessórios, a preto e branco, e quanto melhor mais consoladora. De resto não vale a pena. É areia para os olhos, ou caruma a engasgar piqueniques.
Mas vamos ao tema de hoje. E restrinjo-me só à secção de Política. Desde ontem que os nossos media têm mais uma «atracção». E se puxarem bem por ele – o que não é muito difícil, e nem sei se necessário – vão sair aí umas boas peças. Refiro-me ao regresso do deputado europeu Marinho Pinto, que surpreendeu nas últimas eleições com um resultado inesperado. Acaba de chegar e vai à corrida das legislativas 2015. Mas que grave! Se “quiserem” eu posso dar mais ideias. Por exemplo: quem é mais sexy, Drago ou Pinto? Dani vai sair do eixo do mal, ou do bem, e juntar-se ao bem bom de um novo pedaço de esquerda?
Em Bruxelas e Estrasburgo já não se fala de outra coisa. Como se pode viver sem Marinho Pinto? Até já se arranjou uma musiquinha: “How Am I Supposed To Live Without You? I could hardly believe it/When I heard the news today/I had to come and get it straight from you/They said you were leavin'/Someone's swept your heart away/From the look upon your face, I see it's true/So tell me all about it, tell me 'bout theplans you're makin'/Then tell me one thing more before I go/Tell me how am I suppose to live without you/Now that I've been lovin' you so long/How am I suppose to live without you/How am I suppose to carry on/When all that I've been livin' for is gone/I didn't come here for cryin'/Didn't come here to break down/It's just a dream of mine is coming to an end/And how can I blame you/When I build my world around/The hope that one day we'd be so much/more than friends/And I don't wanna know/the price I'm gonna pay for dream.”
Não resisti a transcrever o Bolton todo. Mas assim até dá para a banda sonora do filme de Luís Filipe Menezes no facebook, que trata da beleza e da sustentável alegria de umas férias de sonho.
O resto sabemos. Todos vão ouvir: o homem que era 15%, ONUS e Obamas de ar muito zangado, o Iraque, outra vez – tudo em registo de “bora lá ter a consciência tranquila”. E ainda mais ricos e pobrezinhos do Bês não Bês, de dinheiros em Sing a Pura, mosquitos e baratas bem boas que por lá se comem. E mais: vamos ver nos títulos os que não têm férias, os que nem as têm por não terem trabalho. Mais de Maddie e outros desaparecidos. Para acabar: redes em geral. Listas em geral: de livros, de rentrées ideais, "agora é que é...". Ou: "veja quem é seu amigo!". Ou "Será que o Alentejo já deu o que tinha a dar?". "Jesus necessário para a felicidade?" (mas esta é mais no Natal ou na Páscoa). "A auto-ajuda foi chão que deu uvas?" Etc.

Eu vou “to south”, acabo de uma vez com os jornais, e, como disse aqui ontem, não escrevo mais sobre Sócrates. Mas na maleta levo e trago mais surpresas, que espreitam. Não perco nenhuma. E começo a apurar pressentimento e gosto. É bom, muito bom. Apenas mais esta: os Antónios são bons, cuidado com eles. A importância de se chamar António, resumo assim.

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O que penso do “fenómeno” Paulo Coelho e assim

por Fátima Pinheiro, em 29.07.14

Há dias, aqui no Rasente, escrevi sobre Paulo Coelho. Retive o "bom" mas disse desde logo que era muito critica em relação à sua obra. Em tempos escrevi este texto, que mantem toda a sua actualidade.

«Ao escrever estas linhas não estão em causa as intenções dos autores (Browns, Coelhos e outros) ou mesmo as de quem os lê. Estão sim, na mesa, coisas objectivas, factos, teses, que escapam a esse domínio. Não é por acaso que muitos e muitos visitantes do Museu Louvre já não estejam interessados em ver o famoso sorriso de Mona Lisa. Pena!

A pergunta muito repetida por quem visita aquela jóia de Paris é agora, antes, a de saber o sítio certo onde foi encontrado o corpo morto do conservador do museu, para estar “perto” de Tom Hanks, que encarnou na produção cinematográfica a trama de Dan Brown. Como até parece que com aquele filme “a montanha pariu um rato”, já para os “Anjos e Demónios”, do mesmo escritor, parece que Brad Pitt vai poder descansar.

Até damos de barato que o “Código da Vinci” não tenha qualquer pretensão científica. Faz linha num certo tipo de escrita que a muitos agrada. Como agrada a vasta produção de Paulo Coelho, e de outros também, até de penas lusas.

A pretensão científica poderá não prevalecer. Agora, não se pode ignorar o facto de que estamos diante de livros que abordam questões de interesse espiritual, histórico e filosófico, e que o fazem de uma forma que para o grande público – e é importante sublinhar que estamos a falar de obras intencionadas para o grande público -, podem ser lidas como “verdades”, isto é, como coisas que aconteceram mesmo daquela maneira.

Isto, já descontado todo o negócio que se tem gerado em torno destas produções, um fenómeno que vai do turismo ao franchising, de divulgações científicas e culturais de segunda e terceira mãos. Para não dizermos que já se chegou ao chinelo. Mas não é disto que se trata agora aqui directamente.

Quem pega, por exemplo, no “Alquimista” de Paulo Coelho, não está propriamente à procura de um livro policial, verdade? Está sim, e de uma forma despretensiosa e informal, à procura de um auxílio, de “dicas”, de uma inspiração ou orientação para o seu percurso de vida. Fartos dos escândalos das religiões oficiais – e sem tempo para grandes demandas – muitos se aventuram, sozinhos ou em grupo, em novos caminhos, em novas re-ligiões. Há uma vontade de re-ligação, de recuperar o tempo perdido.

Ou então simplesmente pega-se num livro de Paulo Coelho para descontrair “meditativamente”, isto é, para ler uma coisa que tem de certo modo algo a ver com a vida, mas que não implica com isso o mínimo compromisso com qualquer grupo religioso ou igreja. Teoricamente cada um pode, repito, construir, sozinho ou em grupo, a sua própria religião, o seu caminho de re-ligação ao infinito, na tentativa de encontrar o elo perdido. O autor pode não ter pretensões científicas mas é muitas vezes lido como se as tivesse. E aqui está um grave problema: o “Alquimista” não é a Bíblia ou o Corão, mas é para muitos tido como tal. Com Saramago é diferente, ele não é militante. “Caim”, o seu melhor livro – ele próprio o confessou quando o lançou na Culturgest – não belisca o livro sagrado. Saramago não oferece receitas, embora haja pontos críticos, que deixo para outro texto.

Importaria nestes casos uma clareza objectiva que distinguisse o que é daquilo que não é. A fome (às vezes avidez, às vezes chill out) de espiritualidade que hoje se vive, e se vê na disseminação de tudo o que é produto oriental ou africano – do chinelo ao incenso, do tofu à missanga pós-60 (claro!), dos spas de wellness às naturas das nossa catedrais de con-sumo (onde até também há coisas muito boas!a eterna história do trigo e do joio…) -, pega nos “fenómenos” que se vendem e adere. Segue. Lê, sublinha e pratica, um pouco de um lado e um pouco de outro.

Não é o catolicismo que se vê progressivamente “convertido” numa religião “à la carte”. É a própria vida e suas espiritualidades que assim se vivem e se decidem (melhor, são vividas e decididas) ao menu. Daí o êxito, ou a saída, de produtos que se ofereçem com essas características.

Dan Brown, Paulo Coelho e mais, estarão no céu, na 1ªfila. Mas não é disso que se trata; e até porque Deus é certificado na matemática do amor. Trata-se sim – e agora refira-se em particular o homem de Tom Hanks – de um ataque ao cristianismo histórico pretendendo reduzi-lo a um embuste de dois mil anos por um poder ávido de almas e de mundo. Nisto estou com o arcebispo de Chicago, que pergunta assim: “Haverá alguém que pense realmente que todos os máritres morreram para proteger o segredo de que Jesus e Maria Madalena eram casados?” (Carl OLSON, Sandra MIESEL. A Fraude de “O Código da Vinci”, p.10). E é de notar que o século XX deu mais mártires ao mundo, do que nos outros séculos todos que o antecederam. São factos. E há livros sobre o assunto.»

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