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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

19
Ago17

A beleza desarmante de Nolan

por Fátima Pinheiro

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O fedor em que vivemos não deixa lugar a dúvidas: isto não vai lá com paleios, mensagens ou declarações. É o recente filme de Christopher Nolan que me faz hoje falar assim. É tão bom que eu, uma incondicional de Manoel de Oliveira, vejo nele traços da Caça, do Non ou Vã Glória de Mandar e O meu caso. Vi todos estes filmes com dificuldade em puxar o queixo para cima. Com o de Nolan, ainda estou na ressaca. Acho mesmo que Oliveira teria gostado da obra deste realizador que sabe mais do que fazer Batman. O dinheiro é pouco se com ele se pode fazer muito. A ausência dele, de dinheiro, também não impede que se realizem filmes geniais, como é o caso de Oliveira. O que há assim de tão especial em Dunkirk (2017)?

Filmes com temas da Segunda guerra mundial, Auchswitz e outros, há que chegue. Parece gasto. Mas a força que vem da câmara de Nolan tem a imponência de me mostrar hoje o que sou eu e a minha circunstância. Sem filtros ou mensagens dá-me diante dos olhos a monstruosidade do mal, na doçura de quem não desiste de esperar. Tira-me de paneleirices, boas intenções, escritas ou consuetudinárias, Onus ou vestidas de quem tem apenas uma ideia na cabeça: a vã glória de mandar. Põe-me na bandeja da manhã a indústria da celulose, o teatro dos Pedrógãos de sessões contínuas há dois meses, a orfandade de não ter governo nem quem mande mesmo nas forças armadas. Páro aqui porque um post tem que ser pequenino. Numa palavra: nada encontro na bandeja mediática. But we shall never surrender.

Há tempo para tudo: uma bacalhauzada a Macron, o consolo ao Rei de Espanha. Mas poupem-me a um MNE que disse (quando Costa estava a banhos....foi a banhos foi!!!! Devia ter ido sim, um banhozinho a sério só faz bem, mas tem que ser um banho em águas limpas) que está tudo bem, a um MD e um CEMGFA que também que sim, a um MF que é uma luz bruxuleante precisamente em Bruxelas, a um MC que é pura poesia, poupem-se e poupem-nos. Eu ofereço o espelho, pode ser?

Uns meses antes de começar as filmagens de O Velho do Restelo, Oliveira disse-me nos olhos: é preciso acreditar. Acredito sim. Mas com razões. Em obra feita. Acredito em quem me clarifica e até pinta os narizes dos aviões alemães de amarelo para me facilitar a vida. Obrigada Nolan porque fizeste um filme que é já para mim um clássico. Desarmante. Não provoca a lágrima que distrai, não chora sobre leite derramado, mas faz-me fazer, plena de uma arquitetura de imagens e planos de uma beleza que parece Impossível.

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03
Abr17

Manoel de Oliveira, fez dois anos

por Fátima Pinheiro

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 a imagem é tirada da net

Fez ontem 2 anos. Era uma Quinta-feira santa, vieram escoltá-lo. Na sexta santa, às 15 horas, junto da faina do seu Douro, foi a enterrar, da Igreja de Cristo Rei. A terra, que ele nos dá sempre objetiva e nela misturado, aguardou o silêncio do sábado que é santo, na antecipação da explosão, anunciada na cara que Pasolini escolheu para aquela Maria. É muita fé! Nem falta dizer que ao terceiro dia ressuscitou. Pontaria não lhe faltou, vê-se. E não era ao calhas. Era ao pormenor, ao detalhe, num olhar exigente e assim obediente ao real. E assim se aprende que ao “sim” interessa voltá-lo, porque, ao contrário do “non”, muda. Nunca tinha entrado num olhar assim. Estranho, o caso de Manoel de Oliveira. Palavras leva-as o vento. E que importa? A vida é “incertitude”, confessou em Veneza ao apresentar Angélica. A morte sim, certeza, “une sortie”. Como? Um “Acto da Primavera” – Auto da Paixão – em 1963. Outro documentário míssil, que não passou despercebido, como ele nunca passou. Ao colega que se dizia ateu, deu-lhe em 1964 na Paixão Segundo Mateus. Ambos estranhos. Mas não pela longevidade do primeiro e pelo segundo ter sido assassinado. Falo por mim, entranharei sempre.

O que parecia a uma primeira vista apenas prenho de tédio e obnubilação, sai-me ao contrário e cada vez melhor. “Eu cá aprecio, mas…”, oiço agora e sempre. A questão é no entanto outra. O cinema afinal o que vale?, é a pergunta. Por outras palavras, tenho a “certitude” que o realizador faria o melhor Bond de sempre, se tivesse dinheiro. Mas era preciso querer fazê-lo. Ele não quis. Para saber porquê é preciso ver os seus filmes. Pão, Belle Toujours, Vale Abraão, O Gebo e a Sombra, lembro-me agora. Mas não há nenhum que não me caiba. Excedem-me. Vejo-me num espelho. Como agradecer? Caminhar em e para face a face. Na glória. Como quem começa à mesa, uma refeição, e o que quer “comer” é o outro. Deixar-se uma unidade, em que cada um se distingue cada vez mais do outro. Não há filme de Oliveira que não tenha ceias. A Divina Comédia tem mesmo uma última ceia à volta da qual passeiam Maria João Pires e Dostoievski. Agradeço sim. De mãos dadas, como irmãos, na massa, à luz da sombra que lhe expõe a ferida a todo o terreno. Na pobreza que me ensinou a pedir. E no bravo fluvial da sua cidade, onde planos e acções se continuam a cortar, para me dar vida. Pergunta Claudel: para que serve a vida se não for para ser dada?

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08
Fev17

Os olhos da ásia

por Fátima Pinheiro

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imagem tirada da net

 

O filme de João Mário Grilo, "Os olhos da Ásia", também baseado no livro de Shusaku Endo que inspirou Scorcese, "Silêncio", foi feito há 20 anos. Só o vi há dias (o Nimas está sempre de parabéns; e com o filme trouxe - para uma conversa no fim do visionamento - o próprio realizador e o Pe Tolentino Mendonça).

O que silenciou João Mário Grilo? O filme por ele realizado, já o referi,  tem 20 anos. Claro que já era conhecido pelos entendidos . Mas o comum dos mortais, moi-même,  ficaria na ignorância, não fosse o Cinema Nimas tê-lo  passado ontem à noite a propósito do "silêncio" de Scorcese. Thanks Martin.

O que silenciou João Mário Grilo? Nada. Mostra tudo. Vinte anos não é nada. Sem ser "trop clair", mostra, como nada mostram as mensagens que Scorcese quer passar. Detrás de um trabalho há sempre uma motivação (conheço as dos dois: ir ao youtube; e ter ido ao Nimas; quer dizer ouvi-as no que eles disseram). Mas o resultado é exterior. Tenho à volta de metro e meio e mesmo assim digo que o "filme" de Scorcesse é ideológico, político, numa palavra, gosto sim do "Táxi Driver". E no "Silêncio" esmera na fotografia, na qual é genial.

O "filme" é ideológico porque numa  auto-provocação à sua medida, e à medida do autor do livro, falam a voz de Deus ao dizer "Pisa-Me". Deus é transcendente ( palavra de que João Mário Grilo não se esqueçeu ao referir a cena do baptismo, nos "Olhos da Ásia", na conversa no Nimas; palavra que ainda não tinha ouvido em todo este correr de linha em torno do filme de Scorcese, todo ele muito a escorregar para uma linha protestante, intimista, imanentista). Só Deus pode dizer essas palavras (e  todo o filme parte deste não-pressuposto). Não me venham dizer que isto é fição; há fições e interpretações que são um abuso de direito. Sobretudo em filmes, ou livros,  onde a realidade "real" pode ser deturpada (não me obriguem a falar outra vez de José Rodrigues dos Santos, o que aqui fiz muitas vezes; e diga-se que nem comparo Santos a Scorcese, é só por causas das vendas milionárias de ambos). 

O "filme" é político porque todo o mundo o interpreta, o usa, e mais não sei o quê. A seu favor terá a "sorte" de não ter sido o filme do ano. Hollywood decide. O que faz o dinheiro, também sei.

Um filme com mensagens não é um filme. Um filme "limita-se" a mostrar. A "ser" vida. Estou farta de consciências tranquilas, a começar pela minha. Mais vale dizer: Senhor Scorcese, ponha aqui o seu pezinho (no fumié); o senhor estava interessado em fazer um filme sobre o martírio, e vai complicar com apostasias ! Não haveria um caminho melhor? Veja as regras do método cartesiano. O senhor que conhece bem o jesuitismo sabe do que falo. Vá do mais simples para o mais complexo; e aí sim, a apostasia. E não sabia quem era Pedro!?? E que ele é a rocha? Sabe que é muito mais fácil olhar e decidir por aquilo que é mesmo maior que nós. Ao lado do Amor que Deus nos tem, e que tudo abraça sem ver limites culturais, o que é o meu tremer? Voltar à Casa do Pai,  onde há muitas moradas. Ao lado do Amor que Deus, que abraça qualquer um, europeu, asiático, africano, o que é o meu tremer? Ou ando a brincar?

"Os olhos da Ásia" mostram. Deixam-me de batata quente - fumié - na mão. Nem João Mário Grilo tem a noção completa do que fez. Sim, porque o filme agora é também da liberdade de quem o vê, com outros olhos, esses sim, de Deus, que é "mesmo" transcendente.

 

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  imagem tirada da net

Andrei Tarkovsky, "Stalker" (1984)

 

Pode Chernobyl ser uma beleza? Pode sim senhor Ministro. O cinema é a 7ª arte. Por isso Chernobyl pode sim, ser uma beleza. A Cinemateca, Deus a guarde, vai passando estas genialidades. Alguém, ido ao engano, arrependido de ter ido ver este filme dizia: "a paisagem é horrível!". Não sabia que o que estava a ver se passava na estação nuclear de Chernobyl. Melhor, no que de Chernobyl restou e só ao realizador russo lembrou fazer ali: o percurso de vida de cada um. Um com letra grande. O meu percurso de vida. O Caminho.

 

A força de cada imagem leva-nos ao perguntar que todos temos e queremos e sabemos calar. Mas a força do sentido, que teima em gritar em cada mesma imgem, vence o mais desprevenido. Não há bons nem maus filmes. Há filmes. E estes não têm mensagem. Como dizia o mestre Oliveira - que lembramos mais estes dias porque faz 108 - o cinema é a vida, e públicos só os urinóis. A "paisagem" é horrível? Pois é, vêmo-la todos os dias nestas convivências de uns com os outros que mais parecem um teatro de cegueira.

Paradoxalmente, ao homem que desde o início nos deu a cara de Oliveira, que todos estimamos, cortam-lhe as pernas. Sim senhor Ministro, estou a falar de Luís Miguel Cintra. Toda a regra tem uma excepção. Eu sou democrata, mas sei o que é a poesia. Públicos? Só os urinóis. E Cintra? Responda quem sabe.

 

 

 

 

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05
Abr16

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 num intervalo das filmagens de "O gebo e a Sombra" , Ricardo Trepa e Jeanne Moreau/imagem tirada da net

 

Um Colóquio Internacional "Manoel de Oliveira: a Poetics of Dissent" nos próximos dias 7 e 8 na Universidade Católica, a não perder. 

 

E um remake sobre aquele que considero um dos melhores de Oliveira, artigo que escrevi antes da apresentação do filme em Veneza. A Crise continua mas não nos define. O grito sim!

 

"Crises não matam vida e cinema. No festival de Veneza, daqui a dias, Manoel de Oliveira apresenta o seu novo filme, O gebo e a sombra. "Faz um filme sobre a pobreza", pedem-lhe. Ao que respondeu ser "um tema muito difícil". A dona crise fê-lo partir (d)a peça homónima de Raul Brandão, de uma atualidade que não esperávamos encontrar. Em quatro atos (96 páginas da edição do Círculo de Leitores), o teatro diagnostica o humano: as sociedades em contrastes e dramas desafiam a liberdade de cada um a desejar uma vida maior. Como Oliveira nas suas obras, não dá soluções mas mostra-se, e neste caso do cinema, no poder que a imagem tem. Provoca e faz, ou não, avançar. Cheio de sombras e de gebos, é solar. Penetra o eu, e o pássaro vai decidir se sai ou não da gaiola, recorrente nos filmes a que nunca me habituarei. Não há mensagem, há uma pergunta que sai da boca do Gebo, o pai: resta saber se a gente vem a este mundo para ser feliz. O gebo, o pobre, sou eu. E quero saber agora, como no céu. Que estás tu a olhar para mim, velha cheia de sonhos irrealizados?, pergunta João, o filho, à mulher, Sofia, no take da página 51.

Isto da política está cada vez pior. Era preciso um homem de pulso. (p53.) Já não há arte (p13); não há nada que chegue à arte... ponho-me a pensar[nela] e vem-me uma tristeza (p45). A gente chega a pensar em morrer(p24). Foi tudo inútil! (p96). Como me dói o que dizes, aqui no coração(p78). Talvez a verdade nos salve (p72). Entretanto, a vida dura, nas suas pungentes urgências, impaciências, cansaços e tampas, leva a esquecer, às vezes a entreter: trabalhar e dormir. E a sacrifícios. Não há que cismar, e o tempo é dominado por outras coisas, que o coração dói. Não se acompanha mais, diz o fado.

Mas não acaba assim! Há uma sombra que pisca, e o coração sabe que não é de pedra (p74). Brandão põe em João a possibilidade de mudar; ele faz gritar por um sentido. Na peça é apresentado com estas palavras: Aí está o homem!(p38). Eu tinha boca e nunca tinha gritado (p96), espanta-se o Gebo. Ele, homem do dever (p.73), entrega-se à polícia, por um dinheiro do suor da sua contabilidade, que foi o filho a roubar. Dostoievski espreita por muitas páginas desta peça, é inegável. E Oliveira gosta muito disso. Afinal, como Claudel, no Anúncio a Maria: para que serve a vida se não for para ser dada?Fui eu que roubei (p83).

João: vocês não sabem o que é a vida. A vida! (p43). E eu, pobre voz, peço:Não entendo e quero ver... (p75). Ver! Se nós pudéssemos ver! (p77). E o que faz perguntar não cessa de amparar, vindo da boca do filho as palavras de toque, a apontar um lugar: Não procures em mim outra figura senão a que conheces...a do desespero não queiras vê-la... (p60). A promessa vem das palavras do pai: Espera que quero ver e hei-de ver! (p78).

E Sofia, mulher do filho, e que não tem este nome sem mais, quando o coração está negro como a noite (p82) - e é de noite que se pergunta (p17; 61-62) - vai dando sempre a deixa: o que eu acho é que há talvez outra coisa maior que não conheço, mas pressinto... É uma coisa que me mete medo e que me atrai. (p75). Eu, o Gebo: Outra coisa?... outra coisa maior? (p76). Eu:No céu? A sabedoria: Não, na terra. (cfr. p76)

Somos uns desgraçados. Por isso é preciso dar tempo e espaço na terra, agora, já, às estrelas que aparecem. Oliveira é seguramente uma das mais brilhantes. E, na p95, o Gebo termina o que escrevo: Ah, essas noites em que a luz se foi fazendo cada vez mais clara [refere-se ao tempo passado na prisão, de castigo a pagar o crime]... Uma hora em que entendi tudo e todas as vozes dentro de mim se sumiram com medo à minha própria voz. A gente só não se arrepende do mal que faz neste mundo."

 

 

 

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04
Abr16

 

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imagem do making off do documentário/ tirada da net

 

  

 

Oliveira é uma energia renovável. Passou um ano da sua morte. E afinal havia outro (aposto que na gaveta há mais…). O último filme Documentário de Oliveira: “Um século de energia”, encomenda da EDP para a sua campanha publicitária, a ser exibido em 10 cidades portuguesas, a pedido do cineasta, que, durante os trabalhos de montagem, foi por outra “porta”, e acabou por não ver o resultado final. Eu podia ver o filme e ficar calada. É de uma beleza tão “ordinária” que bastava ver e experimentar a correspondência ao mais "eu" do meu "eu". Contudo, como Henri de Lubac sublinha, a mística é uma colheita da tarde. O mundo em que vivo – a minha rua – diz-me que há muita espiritualidade. Pois depende do que por isso se entende. A mim,há muitos que me sabem a pouco. Há mesmo, por vezes, mais mística no futebol. Este post é um registo filosófico, em si menor (isto exige outro texto), do que esta obra de arte oferece ao mais que socrático, “conhece-te a ti mesmo”. Nas III Jornadas de cinema em português http://www.livroslabcom.ubi.pt/pdfs/20141204-201201_cinema_em_portugues_iii_jornadas_2010.pdf expliquei a minha forma de ver os trabalhos deste homem, a quem vi, não há muito, no CCB, de joelhos, a beijar as mãos de Bento XVI. Numa palavra: “. . . nous sommes devant un grand mystère.” (Baecque, A., Parsi, J., 1996). Mas a filosofia, ao invés do que se pensa, articula, distingue, esclarece. Pode gerar felicidade, energia, argumentando até ao abismo que há que saltar, se for caso disso.

 

Oliveira utiliza uma “câmara” fenomenológica. Sim, há formas filosóficas de ver o cinema - e agora dizemo-lo mesmo de forma poética: a razão sabe por onde vai o cinema, no trabalho de mostrar e articular razões. Pondo as coisas de forma mais clara – e esta é a melhor definição de Filosofia que encontrei – a Filosofia faz as distinções essenciais (Cfr. Sokolowski, 1992). Quem a define assim é Husserl, por onde passa a filosofia hoje. Desde 1900. O conhecimento não é um fenómeno estático mas um encontro de duas energias, encontro interminável, mas de contornos definidos, isto é limitados; a Filosofia, como lembra inúmeras vezes Husserl, é uma ciência que possui o seu rigor próprio. A realidade impõe que o guião se converta e não vá por ali; disse-me um dia Luis Miguel Cintra, que no momento de filmar MO tem uma grande sensibilidade ao que acontece; ou “L’événement fonctionne comme ouverture dont la possibilité peut toujours se répéter.” (Lavin, 2008). 

 

Há tantas fenomenologias, quanto os fenomenólogos. Oliveira é um realizador fenomenológico, como foram muitos. O suprasumo deste movimento filosófico está em Husserl e nas categorias que ele encontrou para entender os mundos. Realçamos as seguintes:Parte/todo; horizonte; Identidade/Perspectivas/Ausência/Presença /Memória – Retenção (passado), Reconhecimento (presente), Antecipação (futuro). Muito para um post, eu sei, mas vou dizê-lo sinteticamente. Olhando para "Um século de energia", a partir de como mais de um século de energia  se realiza uma história, uma vida. Oliveira vai mais uma vez ao que é o humano. E é porque a sua experiência energética é tão rica que consegue mostrar o tecido que faz a vida, o invisível que nos rega, nos move e ilumina. Fenomenologia? Oliveira mostra de forma genial imagens que "aparecem" (fenómeno) plenas de "lógica" (logos), acontecendo assim um todo em que as partes se distinguem sem se confundir. 

 

“Hulha Branca”, que realizou em 1932,antecipa o documentário; é retido e cresce, no presente; naquele espaço de Serralves, ao "criar" a música e a dança que projectam as suas sombras, numa unidade que dá cada coisa no seu lugar. A força artística dos movimentos das bailarinas e os sons do quarteto que insiste no tom, são um todo cujas partes não se perdem contando assim uma história onde é ilustrado o processo de transformação de energia.

 

Os moinhos de vento antecipam-se nas suas sombras nos pinheiros e arbustros. Aparecem depois na sua imponência a mostrar futuras formas de energia. Como os braços, nos gestos erguidos daquelas mulheres que dançam nas cores de um escarlate, que se funde no preto e branco do que não passou. Os fios eléctricos são riscas horizontais no fundo azul de um céu: uma pintura viva de natureza, arte e trabalho (minuto 7,minuto  9). O que acontece desde a imagem inicial onde se vê também o Douro da faina fluvial. A arte que MO põe sobreposta excede, promete, espanta, como um grito bom a pedir e mostrar sentido. Tudo a um ritmo conjugado de pitch´s, fotografias, flashes; doações,segundo a segundo; bateres de corações: coincidências em que me revejo, ausências grávidas de presenças, a mostrar o invisível; faces do cubo que nunca se dá todo, e é sempre envolvido num todo pressentido em horizonte.

 

E a água, traz o sol e o vento. Como irmãos,da mesma terra, da mesma fonte. Sem que a aparente inutilidade da arte belisque o trabalho ou negócio, espelhados em caras de homens alegres, de dentes tortos, e olhos e mãos iguais a "mim". De mãos dadas, na mesma luta - o melhor de mim -, como canta Mariza no making off. No filme não há letra. Há a música da água, de sinos, do vento, do poderoso silêncio. Dos pássaros. E o som do mostrar que "sem ver,é acreditar"; "é preciso perder para se ganhar". "O melhor de mim está por chegar". Aqui compara-se a cena final do filme e a do making off: MO de mãos postas na bengala, a equipa que para ele olha a pedir a genialidade. O minuto 2.54 não mente a mesma câmara,os mesmos séculos, o mesmo "eu". Tudo a terra une. E a água enche-se de humanidade,escorrendo por paredes abaixo, e por debaixo de pontes,arcos e escadas de pedras, no mesmo sangue. O melhor, de mim. A desafiar-me o meu SIM.

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Guadalupe de Carvalho/fotografia de J. Marques

 

 

“Spectre”, é o nome do novo filme do 007.  Sempre gostei do agente ao serviço de Sua Majestade até ao momento em que me aparece este louro, mãos mesmo luvas brancas. Sempre o achei como que saido da lexívia. Bem, ele há para todos os gostos. Percebo porque foi este o eleito; mas acho mesmo que é um espectro do que já foi o Bond à séria...Estou a ficar velha? Estamos todos. 

 

 

 Porque agrada a todos os gostos. A Raquel Welch a emergir das águas com aquele biquini cor de laranja é apenas coisa estética. A ver de longe. Nem percebo porque foram agora buscar uns bocadinhos da bela Monica Bellucci. Se calhar vem precisamente nesta mesma lógica de agradar a todos. Mas claro que não vou perder. Aliás, não perdi o último, que fui ver com a minha amiga Guadalupe de Carvalho, conhecida em todo o Portugal e ilhas. Ela, tal como eu, saimos desconsoladas q. b. "Faltam aquelas cenas...tá a ver?". "É só pancadaria". "Aqueles beijos....". Como eu a entendo. Mas em Novembro (?) lá marcaremos presença. Olhem na fotografia acima. Não é linda de morrer? Ela sim, uma bond girl de verdade.

 

 

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 imagem tirada da net

 

 

Poucos dias depois da morte de Oilveira, uma conversa com Eduardo Lourenço,  onde ele nos diz, afinal, o que entende por cinema. O que entende sobre a vida.

 

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21
Jul15
 

  Ingmar Bergman/fotografia tirada da net

 

Hoje fia fino. No Nimas às 21h 30, um filme fabuloso, um Bergman fabuloso, apresentados por um homem fabuloso, José Tolentino Mendonça. Vi o filme há pouco, "A luz de inverno". Vou re-petir tudo, e o que escrevi então aqui. Um de mil pontos de partida. Para mim,claro.

 

Rezava (ou rasava) assim:

 

«Os filmes são para ver "em grande". Ainda estão a tempo de ir ao Nimas ver o filme, do qual puz a imagem acima. Tenho pedido ao pai natal que me dê uns matraquilhos e uma sala de cinema para por na minha casa, mas até agora nada. Agora a sério. As versões restauradas melhoram, como é o caso desta obra de Bergman, de 1963, uma das três do seu ciclo "o silêncio de Deus". E o filme? E Bergman? E Oliveira? E o Pedro e Paulo, do título? Simples. Eu explico.

 

Em hora e meia, o que parece de uma aspreza e carregado de um tédio insuportável, pior ainda que um preto e branco que nos rouba o colorido da vida, é antes um presente que Bergman nos oferece. A Luz de Inverno é umempowerment, numa gestão que toca no mais fundo de nós e evidencia o que está em causa na vida. É uma comunhão. É uma libertação. E Oliveira? É chamado aqui porque é sobre ele que mais tenho escrito. Mas mais, eles dão-nos o mesmo, só que de formas diferentes. Acabo de os casar.

 

De Oliveira tenho dito e redito que tem uma forma fenomenológica de realizar. Bergman não prima nisso. Ainda não encontrei  o filosofar de Bergman. Só sei que vai "directo ao assunto", e que faz doer mais. Oliveira, sendo a autencidade em pessoa e nos filmes, é no entanto mais suave. Isto durante o filme. No depois, é Oliveira que dói mais, porque, continuando o filme presente, é um desafio constante à liberdade. Este filme de Bergman tem um fim que nunca poderia ser o de Oliveira. Bergman é um shot. Oliveira, uma agulha a ver se é apanhada pela veia. Um embucha,o outro estica. Mas se tivesse que dar um filósofo a Bergman - como a Oliveira dou Husserl - ia logo para S.Tomás. Ou Wittgenstein, para dar um do mesmo século. Mas que trabalho isto me vai dar! Fico-me hoje por estas notas rasantes. Digo ainda que ambos  mostram conteudos de fé e argumentos da razão. Parece-me que Bergman toca mais na fé, Oliveira na razão. Bergman é brutal no visionamento do filme: cada imagem tem um poder que ainda não encontrei noutros realizadores. Oliveira é uma música de fundo que se confunde com o nosso respirar.

 

Quem "aguentar" ver o filme até ao fim, ganha uma vida. Ontem privei com este perito em fazer com que os sentimentos saiam do ecrã, e se tornem tangíveis. São os meus sentimentos. Vivo-me por dentro. Sinto.

 

Diz Bénard da Costa (vem no folheto do Nimas) :"é o filme de Bergman em que o seu reinado é mais absoluto". Nudez absoluta.  E talvez o melhor comentário sobre Bergman (ainda estou) no folheto, seja este: "O cinema não é um ofício. É uma arte. O cinema não é um trabalho de equipa. O director está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico". (Jean-Luc Godard, "Bergmanorama", Cahiers du cinéma, Julho – 1958).  Pois é, Oliveira não dá - no decorrer do filme - as respostas.  E já que e Igreja celebra hoje dois homens espectaculares, digo  de Bergman e Oliveira, que um é Pedro, e o outro é Paulo.»

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05
Jul15

 Foi aqui que "tudo" começou, para mim.

 

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