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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

08
Out17

Como se vive o "agora"...

por Fátima Pinheiro

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Ao encontrar algo belo digo a quem está perto: olha, que beleza; e aponto com o dedo, se for caso disso. Em tempos encontrei-me com um budista a sério, um Mestre. Por acaso esta frase é estúpida. Encontrei-me, sim, com uma pessoa. Uma Beleza. Por isso aponto para ele e para o Centro que fundou em Sintra: Georges Stobbaerts.

Este homem sempre me  "acompanhou" porque sempre fiz yoga nos seus centros; era uma assistente fabulosa que dava as sessões. Era hata yoga, uma prática muito boa, secular. Não se confunde com religião, embora seja um re-ligar; do "eu" consigo mesmo. Há uns anos que deixei, mas dou por mim a fazer os exercícios. Desde o respirar (às vezes esquecemo-nos...), ao corrigir a postura, a concentrar-me com mais facilidade, etc. Posso dizer que Stobbaerts tem estado sempre presente.

Do encontro que tive com ele  - umas semanas antes de ele morrer  - fiquei a experimentar o que nunca tinha experimentado e hoje partilho. Sendo eu católica e ele budista, foi a nossa diferença, vivida na raíz, que permitiu abraço tão belo. Abraço que "ficou". Pensava eu que o budismo era desencarnado. Verifiquei que vivido na profundidade e sabedoria de Stobbaerts, no estar com ele, nos encontramos no mesmo Mistério da Vida. Mais do que palavras, é a "carne" que conta. Uma Presença que está, que Acontece e nos rega no momento. Momentos assim são eternos: o céu é mesmo a verdade das coisas, dos "agoras". O Centro que dirige e construiu com as suas próprias mãos - e mãos amigas da região e do Norte de Portugal - fica na Várzea de Sintra. Tinha tanto para lhe perguntar. Soube-me a muito, por isso foi pouco. Mudou-me.

O que mais me impressionou foi o facto de ele viver o "presente". É um homem pleno. E aumentou-me o desejo de ser assim: nem fugir para o passado, nem sonhar o futuro. Estar com ele e ver que ele vive "assim", foi como se ele me tivesse pegado um vírus. Perguntei-lhe a certa altura - na "entrevista" que partilho - como é que se vive o presente. Respondeu: "experimenta"; "para viver o presente é preciso praticar" Ontem já "fiz" mais "assim". É um murro no estômago. Estando mais "presente", estou no dia num silêncio que me faz ver melhor. Há um esforço da minha parte, mas tudo se torna mais simples, porque exige "apenas" atenção ao que Acontece. E as reações que tenho são acções de uma liberdade procurada e procurante.

O problema da nossa sociedade é que não pára, não dá lugar à "atenção" ao "eu", e cai no superficial. Descuido o meu "eu". O yoga "serve" para que me encontre comigo mesmo; não para mudar o mundo. Eu já sabia tudo isto, mas o que impacta é ver alguém que vive o que diz. Stobbaerts vive o presente, vê-se que está diante de uma Presença que ele diz desconhecer, mas sabe que o transcende. Por isso o encontro de si consigo mesmo é o segredo. A começar com a humildade, que é "a coisa mais bonita" que há. E apesar de me ter dito que infinito e finito são o "mesmo", eu vi que uma coisa é ele, outra o mistério da Vida, que nos transcende a ambos. Nós não nos pertencemos a nós, nem a ninguém, mas ao Mistério da vida, que é uma procura de vida, permanente. Felicidade, plenitude, serenidade, experimento. Fiquei de aprofundar o que é essa Presença; vou voltar porque o melhor da vida é mesmo a vida. E ali encontrei um homem "vivo". Que dirige o seu cavalo: uma história que ele contou, está na entrevista, e diz que "era uma vez um homem que cavalgava e alguém lhe perguntou para onde ia...".  Não pode ir no sábado ao Encontro TenChi - Sintra, sobre o tema "Escutar o Gesto". Mas decidi voltar ao Centro. Stobbaerts está sempre lá, mergulhado calmamente no "presente" e a partilhar a sua vida. Nos livros que publica e na Vida do centro, que se multiplica em momentos que podem levar cada um a encontrar-se consigo mesmo. Porque ele Vive. Por isso, misteriosamente, a Presença não pode não ter um Nome e um Rosto, humanos. Paradoxalmente é então aquilo que nos separa, aquilo que principalmente, nos une. Somos agora amigos. E com a forte palavra "amigo" quero significar o que Cristo diz aos que o seguem: Já não vos chamo servos, chamo-vos amigos porque um servo não sabe o que o Senhor faz. Foi por isso que Stobbaerts - que diz que não é um mestre mas um debutante - no meio do meu bombardeamento de perguntas, e num momento em que nelas me perdi, com um sorriso sereno e terno, constatou e prometeu: já vi que você às vezes perde-se,... é preciso estar presente; mas não vai se perder mais na sua vida. Ele lá sabe. E convidou-me a voltar "nem que seja só para respirar".

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29
Ago17

 

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com Noronha da Costa, na Casa Museu Medeiros e Ameida

Dêem-me perguntas. Adoro. Deus e o diabo vão aturar-me sempre. Escolhi estudar Filosofia por "desporto". É mesmo o trabalho que gosto. E "felizes" os que trabalham naquilo que gostam, porque aumentam ao gostar natural o das horas de trabalho - dimensão enorme da existência, não só por nos ocupar longas horas, mas porque é através dele que temos a oportunidade de realizar, descobrir e construir. Tudo. O desemprego pode aumentar. Mas trabalho há sempre. O dinheiro é uma grande chatice, e quero também escrever sobre isso. Mas hoje escrevo sobre homens e mulheres. O assunto interessa-me há muito. Nas discussões de adolescência, quando se falava das diferenças entre homens e mulheres, amuava e não discutia. Dizia apenas que o que interessava era a pessoa. Estava completamente out. Eles estavam certos.

No fundo fui sempre um bocadinho tótó; um dia, na 3ª classe, perguntei à D. Júlia por que é que na pré-história só se falava do "homem", se "não havia então mulheres?"...; não que fosse completamente estúpida, um dia até mordi a Cristina. E agora? Não falo de cor. Não há muitos anos, por razões de trabalho recebi uma pessoa que tinha nascido homem (devia ter sido cá uma brasa! alto, olhos lindos, verdes, etc; fui tentando adivinhar ao longo da conversa como seira "ela" antes, mas não me podia distrair porque o tema era sério) e que tinha feito uma operação de restituição sexual e agora é mulher. Passamos umas boas, boas, horas, a "tratar" do problema que a levava ali. Normalmente quando falo com alguém olho muito para a pessoa. Foi o que aconteceu. Ela olhava-me intensamente. A certa altura disse-me que se sentia tão bem a falar comigo que nem tinha vontade de fumar. E cheirava-se que fumava muito. E que era feliz com o namorado. Mas o que eu via não coincidia. Ela dizia uma coisa e eu via outra. Não me venham com a conversa do "respeito". O que é que isso acrescenta aos factos? É como a palavra "assumir"? Mas assumir o quê. A pessoa é, ou não é. Ama ou não ama. Eu sei lá se sou se sou mais doente do que aquela rapariga? E que há muitas doenças que escangalham a pessoa há. Respeitar, assumir, estão a mais. Se não é doença, melhor.

As diferenças entre homem e mulher qualquer criança sabe. É como quando pergunto aos amigos dos meus filhos quando vêm pela primeira vez lá a casa: quantos dedos do pé tenho, e eles dizem logo "5". "Como é que sabes? Não estás a ver!", dizia eu.  Podia escrever um livro com as respostas. Mas têm a certeza que é "5". Não precisam de ver. Por acaso num deles só tenho quatro, fui operada...

É uma questão de sexualidade. O que é sexualidade? Não estou a devolver a batata quente. É a pergunta que fiz e à qual venho obtendo resposta. Já sabia mas faltava mais. E continuo a aprender. E aprender implica descobrir os elos, as razões, e de como o sentimento a ela (à razão) está colado (Kant neste ponto não teve pontaria, porque eu não sou, nem quero ser, anjo). E nada se percebe se não se passa pela homossexualidade; e aqui há a masculina e a feminina, que distam uma da outra como o céu da terra. "Perdi" muito tempo a ver as pessoas. Fiquei a conhecer-me melhor e aos outros. E isto não acaba...

Andamos muito tempo no tabu do corpo. Foi a religião católica, dizem. Há uma parte de razão, nos factos. Mas não esquecer as religiões e as morais antigas, e as de hoje, que pensam que ao inundarem-nos de incensos, óleos e mirras (olhem as lojas dos milhares de centros comercias) nos querem elevar acima do sofrimento, que vem do corpo e sofrimentos adjacentes. Nunca gostei de anestesias, prefiro chorar. Mas, claro, gosto mais de abraços. Todos. O corpo é muito bom!

Ó Richard, meu oficial e cavalheiro, que pena! E eu que gosto tanto do Lama, de facto. Mas foi um papa polaco, filósofo, que agarrou em Husserl e voltou a olhar para o corpo e a discorrer (não fosse ele um atleta). Estava demasiado perto da Rússia para não se ter deixado espantar pela beleza dos corpos de um homem e de uma mulher. Foi nele que bebi, aprendo, e vou vivendo as "palavras" magníficas. Experimento e verifico quem sou e o que é ser mulher. Experimento e verifico o que é ser homem. Sei o que se ganha e o que se perde. Não respeito, nem assumo. Limito-me a ser mulher. Mas sei porque não gosto do "mesmo do mesmo". Não sou bruxa, sou apenas humana, converso, dou atenção (tento) e por isso sei os factos e as razões - porque conheci e conheço pessoas assim - que levaram (e levam; e aqui mea culpa...) a procurar o mesmo do mesmo.

A mim o diferente abre-me ao mistério, dá-me vertigens. Voo e vejo mais longe - saio da gaiola - e não me limito às promessas de um conforto que insiste em invadir-me como se fosse uma ditadura a dizer "da igual, se te gusta"! Isto já vai longo. Há pano para mangas. Para as por e tirar. A sexualidade reside na bela diferença. Beleza é a resposta, por isso quero conviver com ela.

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21
Ago17

Kilo metrosexuais

por Fátima Pinheiro

 

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Pelo sim, pelo não, é melhor dizer que não tenho nada contra as pessoas metrosexuais. Um homem faz o quer, ponto. A liberdade é o must. Agora, eu também sou livre. Tenho pelos e tiro alguns. Mas prefiro ir mais longe, um género ou espécie de kilometrosexuais. Tá-se memo a ver que ontem vi muito pessoal quasi desnudado. A acordar com esta capilar narrativa!

Pessoas muito rapadas parecem-me galinhas depenadas. Sempre disse às minhas filhas para não fazerem depilação total e que um dia iria vir a moda das peludas. Para os cabeleireiros o negócio não se estragaria porque se inventaria o método do implante de pelos. Sintéticos ou naturais e de todas as cores. E eu a pagar para tirarem definitivamente, e depois a pagar para depois porem, também definitivamente. Definitivamente já foi o que era. Ou não? A morte sim, é definitiva. Aí é que não há pelo que resista. Mas a gente sabe lá...

Uma vez tirei os pelos como as brasileiras e jurei para nunca mais. Não é por causa do doer, nada me dói na depilação, às vezes até adormeço. É porque alguns pelos fazem falta. E porque não me interessa o sim porque sim. Acho até esta conversa um bocado estúpida. Só falo disto porque anda por aí. Então no verão! É porque a Maria de Lourdes, filha da Madona, exibe sua penugem axilar sem pudor. É ela e uma do Mónaco, que vi na Ola espanhola. É guess quem das belas portuguesas dos cor de rosa fez isto ou aquilo.  Tudo muito divertido. Eu gosto de tudo. De tudo o que acontece. Mas há coisas de que gosto mais. E há coisas de que gosto mesmo. E há aquilo de gosto definitivamente. 

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15
Ago17

Dogmas há poucos, seu palerma!

por Fátima Pinheiro

 

 

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O ano passado, na procissão da Festa da Assunção, na Igreja de Colares

fotografia do meu telemóvel

 

Não me refiro-me a "dogma" no sentido básico do termo, "verdade". Um dogma significa uma verdade. Basta ir ao dicionário. Um quadrado tem quatro lados iguais é uma verdade, um dogma. Quanto a esses, há muitos.

Não é desses que falo agora. Porque hoje a Igreja Católica celebra o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, escrevo sobre dogma neste sentido técnico. Quanto a estes nem chegam a meia dúzia. Estes são proclamados ex-cátedra. Sim, porque mesmo na Igreja há muitos dogmas naquele primeiro sentido. É ir ao Catecismo.

Assunção? Subida ao céu? Em corpo e alma?

Numa época em que corpo ou é idolatrado (corpos Danone, etc.; como se fossemos só casca) ou ignorado e para esquecer (filosofias que afirmam a pés juntos que a dor pode ser sublimada; como se alguma vez a dor fosse uma ilusão), fez e faz falta esta bússola do dia 15 de Agosto. Foi por isso que Igreja o proclamou . Estrela a guiar. A Igreja é Mãe e Mestra. É este um Dogma inventado pelo Vaticano? Não. Dogma quer "apenas" dizer "é assim", e é proclamado ex-catedra porque a força de uma experiência milenar, tra-diz-se cada dia, falando mais alto que todas as mentiras juntas. Um Dogma neste sentido forte não surge do nada mas de uma história milenar. Maria desde sempre foi assim entendida, isto é, sempre foi vista como tendo subido ao Céu em corpo e alma, desde as primeiras comunidades de cristãos. Nem é preciso recorrer à Iconografia.

Subiu Ela e subiremos nós. O resto é conversa miudinha, de quem ainda não entendeu que a força da História fala mais alto que o barulho. Muitos são os que passam a vida a botar discurso, a homologar ou engolir  dogmas por todos os poros, muitos deles tretas relativistas, e chamam-me tótó por acreditar no Dogma da Assunção. "A Igreja é um antro de imoralidade", pedofilia, orgias, etc., e com esta e frases parecidas, pretende-se arrumá-la. Mas a Igreja tem a sua raiz numa questão de conhecimento, de Logos. Não se mede pela moral.

A ignorância é pior que o piolho. Não há honestidade intelectual ser contra ou ignorar ou falsear a História. Sabemos quantos dogmas ex-catedra foram proclamados pela Igreja? Eu por acaso sei. Não é que seja melhor pessoa por isso. Graças a Deus que não sou definida pelas asneiras que faço!!! Apenas cresco e apareco. E um dia vou morrer. Mas to be continued, em corpo e alma. Como Ela.  Se Deus quiser.

 

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08
Dez15

 imagem tirada da net

 

 

A  Igreja raramente recorre à proclamação de um Dogma no sentido forte do termo, isto é, ex cathedra ( de resto há muitos dogmas, entendendo-se estes como máximas, verdades, opiniões). Mas quando o faz é por razões pedagógicas, para realçar algum aspeto que esteja a ser “descurado”  na vida da Igreja; e fá-lo a partir dessa experiência de vida. Isto é, reconhece formalmente o que já é vivido no seu seio, na sua prática milenar. Numa palavra, não o faz à la a carte e por razões do “eclesialmente” correcto, ou para inglês ver. Vem isto a propósito do Papa Francisco, mais uma vez a marcar pontos ao “obrigar” a pensar e a conhecer a Igreja; a fazer as distinções essenciais. Foi no regresso da sua  visita à Terra Santa, ao responder à pergunta dos jornalistas: o celibato dos padres poderá deixar de ser obrigatório? Já em 2012 se tinha pronunciado sobre este assunto. Paulo VI e Bento VI também. Em ambas as ocasiões disse: eu sou a favor do celibato dos padres; embora não seja um Dogma – e por isso pode mudar-se - , o celibato é um Dom de Deus à Igreja, uma disciplina, uma regra de vida que eu aprecio muito; por isso, apesar dos seus prós e contras eu sou a favor; temos do celibato dos padres dez séculos de boa experiência; a tradição tem a sua validade…. Não se espere portanto que o próximo Sínodo de Outubro, sobre a Família, se centre na questão do celibato, e outras que vêm à colação (contraceção, homossexualidade, etc.). É preciso ir a montante: pensar, entender, clarificar o que é a família, que está em crise, e tudo ver a essa luz.

A Madre Teresa de Calcutá dizia que a Palavra de Deus não é a Bíblia. What? A Palavra de Deus é a Bíblia, sim, mas mais a Tradição. Dogma e Tradição casam bem, como há pouco referi. São poucos os Dogmas ex-Cathedra. Mas como o século 19 resultou numa aceleração permanente – ainda em andamento -, nestes últimos dois séculos foram proclamados três Dogmas.

 

Em 1854 o da Imaculada Conceção de Nossa Senhora, que sublinha a atualidade do pecado original como razão da fragilidade do humano, que se traduz na dificuldade em não conseguir realizar o bem que se vê e gosta e quer, mas acaba por fazer o que não gosta, ou no fundo não se quer. Em 1870, o Dogma da Infabilidade Papal (em matérias de Fé), para mostrar que o homem não é a medida de todas as coisas, numa época em que esse é um sound bite vertiginoso e imparável. E em 1950, o Dogma da Assunção de Maria ao Céu em corpo e alma, para lembrar a unidade de corpo e alma, que é o homem; o corpo não é o usa, gasta e deita fora; uma “coisa”, “um número”, mas uma dimensão essencial do humano. ”Eu não tenho um corpo, eu sou um corpo”, é uma pedra no pântano materialista então a iniciar um reinado do qual ainda hoje se desconhecem contornos. João Paulo II viria a seguir, e devido à sua formação fenomenológica, foi capaz de começar um estudo sobre a sexualidade que se veio a concretizar na sua obra, e nas catequeses de 4ªfeira, já publicadas entre nós. A designada “Teologia do corpo”.

 

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03
Set15

Sou nudista não praticante

por Fátima Pinheiro

 Henri Cartier Bresson / imagem tirada da net

 

Já viu um nudista não praticante? Eu não. Até agora só vi nudistas. E não sou praticante. Não sou nudista, quero eu dizer. Até posso vir a ser. Se tiver razões para isso. Vem isto a propósito da expressão "católico não praticante", que muitos utilizam ao posicionaram-se no quadro das religiões. Dizem-me isto quando eu digo que sou católica, que vou à missa e o resto. Podem dizer. Como eu também o posso. Cada um é o que escolhe. Mas não faz pleno sentido dizer "católico não praticante". Usa-se o adjetivo para dar mais força a essa auto-declaração? Porque sempre são 3.000 anos "às costas"! E com cremação ou sem ela, quando um dos nossos morre, lá se chama o padre, não é?

Eu percebo o sentido que se quer dar: alguém, batizado ou não, quer dizer com essa expressão que tem determinado apreço por certos valores "católicos", mas que não aceita tudo o que o Vaticano diz. Mas para apreciar e seguir esses valores não é preciso ser católico. Qualquer moral os apregoa: amor, justiça, paz, e os outros todos.

O que oiço mais de quem assim se designa é: a Igreja está cheia de contradições; o fausto, pompa e circunstância; as riquezas em geral; a pedofilia; os padres que têm amantes; a inquisição; e mais, muito mais. Mesmo assim não tem sentido. É como se alguém dissesse: eu sou nudista, mas não sou praticante. Mas não é bom. É bom ser-se plenamente uma coisa. Ser benfiquista assim-assim, por exemplo, não tem graça nenhuma. Quando ele perde, na minha casa cai o Carmo e a Trindade. Mas ninguém é obrigado a ser isto ou aquilo. E como pessoas valemos todos o mesmo. Qual o mal em ser católico, ou não o ser? Onde está a liberdade religiosa? E não me venham com os fantasmas do passado. Neste ponto todos temos culpas no cartório.

É costume dizer-se que para uma boa diplomacia há dois assuntos que devem ser evitados: religião e política. Vou a muito sítio e confirma. Fala-se de tudo, menos disso. Há que ser politicamente correto. Como se fosse possível viver tirando a pele: a da política e a da religião. Eu percebo que se possa viver sem querer tomar posição; o que redunda numa posição também. Mas como optei por refletir estas coisas, sou politicamente incorreta. Se vem a propósito, abordo tudo. Às vezes também o faço quando parece não vir a propósito, como hoje, se calhar, agora aqui.. Ou seja, não faço questão de começar a atirar para matar, mas considero mais humano não fazer tabu de certos temas. Uso a "razão". Nasci com ela. E aplico-me à argumentação. Na praia onde descansamos, ainda sabe melhor. E vai mais um mergulho.

É bom ser-se plenamente de uma coisa, dizia eu. Pois é, a minha família (a começar por mim) está cheia de contradições. Mas eu não a trocava por nada. Tenho orgulho nela. Por ser a minha. E não me calo. O segredo e a intimidade é outra coisa. E esta última é do que mais humano há. Aí o silêncio é natural. Como a respiração. Aliás, sem isso não há "família" que resista.

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17
Ago15

Quem me dera um Físico assim!

por Fátima Pinheiro

 

vamos a isto/ imagem tirada da net

 

Hoje acordei de um regresso ao passado. Sonhei com um Físico que estava sentado na primeira fila a ouvir-me a discursar assim:

« A Física é um esforço intelectual ímpar em que toda a humanidade se tem envolvido há séculos.

Na verdade, pode mesmo dizer-se que é um esforço intelectual milenar pois desde a remota Antiguidade até aos nossos dias os homens têm tentado incessantemente compreender os mistérios mais profundos da realidade que os rodeia.

A Física é, sem dúvida, um dos maiores empreendimentos intelectuais na história da humanidade.

Em certo sentido a Física ocupa um lugar único entre todas as ciências. Nenhuma outra ciência conseguiu combinar até hoje, de forma tão profunda e tão frutuosa, a relação entre observação da natureza e aplicação de técnicas matemáticas.

Nenhuma outra ciência conseguiu tantos sucessos, tantas respostas para as perguntas com que se debatia.

É, pois, compreensível que a Física se tenha tornado num modelo que muitas outras disciplinas científicas têm pretendido imitar e, ao mesmo tempo, que a própria designação “Física” se tenha tornado sinónimo de um conhecimento certo, seguro e rigorosamente fundamentado e testado.

Isto não significa que a história da Física tenha sido uma serena história de acumulação de saber. Pelo contrário. Foi sempre uma história pautada por debates e polémicas, foi sempre uma história humana, com toda a paixão da alma humana.

Na verdade, como todos sabemos, alguns dos mais profundos e vivos debates intelectuais que afectaram a história da humanidade, nasceram de polémicas em torno de assuntos de Física e o facto de esses debates terem influenciado outros âmbitos culturais, artísticos, filosóficos e religiosos, é uma confirmação da excepcional importância da Física (...)

Conjunto de princípios básicos que unem todos os físicos e que constituem como que os fundamentos epistemológicos desta ciência:

  • que a razão humana é capaz de superar mesmo as interrogações mais perturbadoras;
  • que a natureza é compreensível;
  • que a matemática é fonte de saber seguro sobre o mundo natural;
  • que a observação, a experiência é, como diziam os navegadores portugueses do passado, “ a mãe do conhecimento”.

 O extraordinário sucesso da Física não é apenas uma fonte de regozijo que vem do passado; é uma fonte de esperança para o futuro.

Mas todos os empreendimentos humanos têm um lado mais obscuro. Precisamente no século XX, quando os progressos e conquistas da Física atingiam um desenvolvimento nunca igualado, os físicos viram-se a braços com graves dilemas éticos.

Saber é verdadeiramente uma forma de poder e muitos físicos sucumbiram, e sucumbem ainda hoje, a usar o seu saber ao serviço de poderes muitas vezes totalitários.

Tudo isto exige dos físicos uma elevada responsabilidade moral, e todos esperamos que o Ano Internacional da Física sirva para sensibilizar, sobretudo os mais jovens, para a responsabilidade que vem com o conhecimento.

Mas aqui temos bons motivos para celebrar com alegria: a história da Física é muito mais a história do conhecimento que foi posto a bom uso, do que o contrário.

Toda a investigação nasce sobretudo do desejo de satisfazer a curiosidade, mas é natural que depois os resultados dessa investigação sirvam para resolver problemas, por vezes problemas prementes, aumentando a duração da vida humana.

O progresso material que a Física gerou é de uma tal dimensão que é impossível de contabilizar. Temos razões fundadas para acreditar que o progresso da Física ajudará a resolver muitos problemas que hoje afligem os povos e as sociedades do nosso tempo.

Como conclusão, partilho a convicção de que a Física proporciona uma base significativa para a compreensão da natureza, proporciona aos homens e mulheres os instrumentos para construir as infra-estruturas científicas essenciais ao desenvolvimento; e a convicção de que a investigação na Física e as suas aplicações foram e continuam a ser uma importante força motriz dinamizadora de desenvolvimento científico e tecnológico.

A Física é um pilar fundamental da cultura contemporânea, que não pode ser substituído nem removido. Promove, pois, o bem-estar de toda a humanidade.

Depositamos a nossa esperança na Física e na Ciência no sentido de poder encontrar as soluções para os muitos problemas que afectam as sociedades modernas.

Portanto, estamos profundamente preocupados com a auto-exclusão dos jovens em relação à Física, não só porque os físicos desempenham um papel insubstituível nas sociedades baseadas no conhecimento, mas também porque o fenómeno da auto-exclusão se está a alastrar para as áreas afins da Ciência e Tecnologia(...).

Possa Einstein trazer o entusiasmo pela Física ao público em geral e inspirar uma nova geração de cientistas e engenheiros.

Muito obrigada.» [Pedro Sampaio Nunes, Discurso Inaugural do Ano Internacional da Física, 2005]

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12
Ago15

A vida é questão de músculo

por Fátima Pinheiro

  Satantago (1994)/ imagem tirada da net

 

A vida é questão de braços e de pernas.E é também dois dias. Como sempre, são filosofias o que trago no avental. E a filosofia, ao contrário do que se pensa, trata do "simples". Não parece mas é. Tão simples, tão simples, que é esquecido, adulterado, e pior...

Vamos ao que interessa. Todos nascemos um dia,  e um dia todos morreremos, embora não saibamos nem onde nem como. Contudo todos sabemos que a vida chegou-nos numa espécie de kit que se vai desdobrando e descobrindo., momento a momento. Agora é só decidir: abraço-a com todos os meus braços, ou, "vou andando", "tudo bem" com todas as pernas que for arranjando?

 

A vida, já mo disseram, é "Decisão para a existência". Eu acabo de decidir. Vou abraçá-la ao último trago, até ser por ela abraçada no dia em que iremos para outro lugar. Aí terei a certeza, ou evidência, que por ela sim, fui sempre abraçada. Com cuidado. Porque confirmarei quem foram as caras, os sorrisos, os olhares, os ombros, as lágrimas, as festas que sempre enxuguei, encostei, e me vão sustentando. Realmente isto não se faz sem Companhia. E às vezes não parecendo - porque a liberdade não está em saldos - , isto é muito BOM!

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   4.10.2014 Fátima Pinheiro/  MR@MIGUELRIBEIROPHOTO.COM

 

Nestas coisas a dois, ou dão os dois para a caixa, ou a coisa fica torta. Vem isto agora porque no meu facebook dei com um texto de um grupo de jovens casais católicos. Genial! Dizem como eu não saberia dizer. Por isso o transcrevo. Rasantes, não querem uma Igreja que mude com o mundo, mas uma Igreja que mude o mundo (Chesterton). E muito oportunos, enquanto em Roma decorre o Sínodo da família.

 

Cada um faz da sua vida o que quiser. No sentido em que temos razões, sentimentos e uma vontade que serve para consentir. Eu escolhi a Igreja Católica, ou, melhor foi Ela a mim. Não que seja melhor que os outros. Sei de mim o que faço e argoladas tenho feito e farei muitas. E até esta é uma das razões porque esta Igreja é mais humana que as outras. Não se venha agora com a coisa: fazes, confessa-te, e pronto. Toda a gente sabe que isso é batota. Mas até a batota “cabe” na Igreja de Pedro, que negou Cristo muito mais que três vezes. Mas tal como ele, também eu não digo como a raposa disse das uvas maduras: “são verdes, não prestam”. Não meço o que quero para a minha vida pelos meus “conseguires”. Todos, católicos e não católicos, somos feitos da mesma massa. A Igreja Católica não é uma moral mas sim uma presença que muda. Ai tanta ignorância sobre estes assuntos, sobre esta vida. 

 

Apesar de não ser jovem, de o meu casamento ter agora outra cara, assino então por baixo, porque quero ser católica mesmo. É no pertencer a esta família que encontro as razões do meu viver.

 

“No artigo publicado no passado dia 14 de Outubro, o jornal I quis saber como vivem e pensam os jovens casais católicos de hoje. Para ajudar a cumprir o propósito do artigo, vimos por este meio apresentar-nos: somos jovens casais católicos de hoje, unidos pelo Sacramento do Matrimónio, fiéis à doutrina da Igreja. Passamos a explicar:

 1)Somos casais, homem e mulher, baptizados, que aderiram a Cristo por Amor, em total liberdade. E esta adesão é completa porque, para nós, Amar implica uma experiência de entrega total, sem reservas ou limites: por isso frequentamos regularmente os Sacramentos e participamos activamente das comunidades e Movimentos a que pertencemos.

2) Entendendo o Amor como a nossa vocação, ou seja, aquilo para que fomos chamados, e tendo como exemplo máximo Cristo que morreu por nós na Cruz, para nós o Sacramento do Matrimónio não pode significar uma entrega menor que esta. Por isso, com Deus, tornamo-nos um só, uma só carne, até que a morte nos separe.

3) Sabemos que a sexualidade é parte integrante do nosso corpo e que, tal como ele, é boa e foi criada por Deus. Sabemos que não temos um corpo, mas que somos um corpo, e o sexo para nós só faz sentido se corresponder a uma entrega total por amor: livre, aberto a todas as suas consequências, sem reservas, uma experiência de comunhão total entre 2 pessoas. Menos do que isto não queremos.

Trocado por miúdos, dispensamos as pílulas, os preservativos e tudo o que poderia distorcer esta união livre. Não queremos ser objectos sexuais, queremos amar e ser amados. E não queremos excluir Deus desta parte da nossa vida. Para nós, o sexo tem tanto de humano como de divino. Os casais católicos de hoje são sem dúvida muito exigentes neste assunto.

4)Sim, estamos abertos à procriação, porque consideramos que a Vida é um dom. Os filhos são os frutos do nosso amor e não faria sentido negá-los, adiá-los ou planeá-los com a leveza de quem projecta umas férias ou a compra de uma casa. Viver assim, em generosidade, traz-nos uma alegria imensa. Mas sabemos que as circunstâncias da vida nem sempre são fáceis. E por essa razão procuramos conhecer o nosso corpo, estudar em casal a fertilidade da mulher, e os métodos naturais que melhor se adaptarem a nós nessas alturas difíceis. Mas a generosidade mantém-se. Os bebés, para nós, nunca são persona non grata.

5)Por último, era bom que fosse, mas nada disto veio da nossa cabeça. Veio do Novo Testamento, das encíclicas dos Papas (Humanae Vitae, Familiaris Consortio, ...), das catequeses do Papa João Paulo II que deram origem à Teologia do Corpo, e do próprio Catecismo, que estabelece inequivocamente, apesar de V.Exas. não terem publicado no fim do artigo, que: "a sexualidade é fonte de alegria e de prazer. (...) foi o próprio Criador quem estabeleceu que, nesta função, os esposos experimentassem prazer e satisfação do corpo e do espírito."

Serve esta carta aberta para dar testemunho real de casais jovens que vivem de acordo com aquilo que a Igreja lhes pede. Não faz sentido querer fazer uma entrevista a um maratonista e para tal inquirir uma pessoa que faz jogging aos sábados de manhã.

Queremos dizer que é possível e que desejamos que todos os casais sejam tão felizes como nós somos, apesar das dificuldades que possam surgir"  http://samuraisdecristo.blogspot.pt/2014/10/resposta-de-jovens-casais-catolicos-ao.html

 

 

 

 

 

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