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A CRISE VISTA POR MANOEL DE OLIVEIRA

por Fátima Pinheiro, em 05.04.16

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 num intervalo das filmagens de "O gebo e a Sombra" , Ricardo Trepa e Jeanne Moreau/imagem tirada da net

 

Um Colóquio Internacional "Manoel de Oliveira: a Poetics of Dissent" nos próximos dias 7 e 8 na Universidade Católica, a não perder. 

 

E um remake sobre aquele que considero um dos melhores de Oliveira, artigo que escrevi antes da apresentação do filme em Veneza. A Crise continua mas não nos define. O grito sim!

 

"Crises não matam vida e cinema. No festival de Veneza, daqui a dias, Manoel de Oliveira apresenta o seu novo filme, O gebo e a sombra. "Faz um filme sobre a pobreza", pedem-lhe. Ao que respondeu ser "um tema muito difícil". A dona crise fê-lo partir (d)a peça homónima de Raul Brandão, de uma atualidade que não esperávamos encontrar. Em quatro atos (96 páginas da edição do Círculo de Leitores), o teatro diagnostica o humano: as sociedades em contrastes e dramas desafiam a liberdade de cada um a desejar uma vida maior. Como Oliveira nas suas obras, não dá soluções mas mostra-se, e neste caso do cinema, no poder que a imagem tem. Provoca e faz, ou não, avançar. Cheio de sombras e de gebos, é solar. Penetra o eu, e o pássaro vai decidir se sai ou não da gaiola, recorrente nos filmes a que nunca me habituarei. Não há mensagem, há uma pergunta que sai da boca do Gebo, o pai: resta saber se a gente vem a este mundo para ser feliz. O gebo, o pobre, sou eu. E quero saber agora, como no céu. Que estás tu a olhar para mim, velha cheia de sonhos irrealizados?, pergunta João, o filho, à mulher, Sofia, no take da página 51.

Isto da política está cada vez pior. Era preciso um homem de pulso. (p53.) Já não há arte (p13); não há nada que chegue à arte... ponho-me a pensar[nela] e vem-me uma tristeza (p45). A gente chega a pensar em morrer(p24). Foi tudo inútil! (p96). Como me dói o que dizes, aqui no coração(p78). Talvez a verdade nos salve (p72). Entretanto, a vida dura, nas suas pungentes urgências, impaciências, cansaços e tampas, leva a esquecer, às vezes a entreter: trabalhar e dormir. E a sacrifícios. Não há que cismar, e o tempo é dominado por outras coisas, que o coração dói. Não se acompanha mais, diz o fado.

Mas não acaba assim! Há uma sombra que pisca, e o coração sabe que não é de pedra (p74). Brandão põe em João a possibilidade de mudar; ele faz gritar por um sentido. Na peça é apresentado com estas palavras: Aí está o homem!(p38). Eu tinha boca e nunca tinha gritado (p96), espanta-se o Gebo. Ele, homem do dever (p.73), entrega-se à polícia, por um dinheiro do suor da sua contabilidade, que foi o filho a roubar. Dostoievski espreita por muitas páginas desta peça, é inegável. E Oliveira gosta muito disso. Afinal, como Claudel, no Anúncio a Maria: para que serve a vida se não for para ser dada?Fui eu que roubei (p83).

João: vocês não sabem o que é a vida. A vida! (p43). E eu, pobre voz, peço:Não entendo e quero ver... (p75). Ver! Se nós pudéssemos ver! (p77). E o que faz perguntar não cessa de amparar, vindo da boca do filho as palavras de toque, a apontar um lugar: Não procures em mim outra figura senão a que conheces...a do desespero não queiras vê-la... (p60). A promessa vem das palavras do pai: Espera que quero ver e hei-de ver! (p78).

E Sofia, mulher do filho, e que não tem este nome sem mais, quando o coração está negro como a noite (p82) - e é de noite que se pergunta (p17; 61-62) - vai dando sempre a deixa: o que eu acho é que há talvez outra coisa maior que não conheço, mas pressinto... É uma coisa que me mete medo e que me atrai. (p75). Eu, o Gebo: Outra coisa?... outra coisa maior? (p76). Eu:No céu? A sabedoria: Não, na terra. (cfr. p76)

Somos uns desgraçados. Por isso é preciso dar tempo e espaço na terra, agora, já, às estrelas que aparecem. Oliveira é seguramente uma das mais brilhantes. E, na p95, o Gebo termina o que escrevo: Ah, essas noites em que a luz se foi fazendo cada vez mais clara [refere-se ao tempo passado na prisão, de castigo a pagar o crime]... Uma hora em que entendi tudo e todas as vozes dentro de mim se sumiram com medo à minha própria voz. A gente só não se arrepende do mal que faz neste mundo."

 

 

 

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PORTUGAL 21: Crise na Comunicação Social e mais...

por Fátima Pinheiro, em 19.02.16

Hugo Nogueira, fundador da Associação Portugal XXI. Encontramo-nos hoje ao almoço. Vale a pena ouvi-lo.

 

 

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 Hugo Nogueira, fotografia tirada da net

Grupo Portugal XXI surgiu há cerca de um ano.

É um grupo de reflexão fundado por XXI cidadãos com diferentes experiências profissionais e diferentes sensibilidades partidárias, mas com um interesse comum: a causa pública. Entendem que não basta identificar os problemas, importa ainda indicar e escolher os caminhos para os ultrapassar. Convidam quem sabe para partilhar aquilo que sabe. Para isso reunem os membros fundadores num jantar de dois em dois meses. Os jantares assumem diferentes formas e contornos, que vão desde tertúlias a debates, podendo ainda assumir a forma de conferências. Cada encontro tem sempre um ou mais oradores que respondem a uma dúvida provocatória.​  

O que querem

O Grupo Portugal XXI surgiu da vontade dos seus fundadores de debaterem os temas mais relevantes para Portugal num espaço de liberdade, aberto ao exterior, que se preste a um convívio entre os fundadores e os seus convidados. Pretendem assim dar um contributo efectivo para a sociedade em que vivemos, ajudando a estabelecer pontes, a promover consensos e a identificar soluções e caminhos alternativos para resolver os desafios que Portugal hoje enfrenta.

 

 

 

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 fotografia @fatima pinheiro

 

The musician recognizes an ugliness in this world we live. However he is the prove of the opposite. He´s full of energy, generosity and beauty.

Here we listen to what Ronald Brautigam thinks about music, what is a public, what makes music a Must, what it gives, how to "make" it, and more. The talk had place yesterday, at Fundação Calouste Gulbenkian, after he played Mozart piano concert nº27. 

He decided to be a musician when he was 4 , 5 years old,in bed, listening to his father playing Chopin. Play is for him to share a passion. We realy need music, to live the best way the ugliness of life. "Let´s not be sad, we are going to dye" says Haydn  in an opera that inspired this Mozart concert he played. Everybody has music. Music gives you energy. When he plays, music comes alive; when he plays happens that thing that  music gives. What´s that, I asked...

 

 

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Portugal, precisa-se!

por Fátima Pinheiro, em 13.11.15

 

 Sátántangó , Béla Tarr, imagem tiradad da net

 

 

José Ribeiro e Castro,Raquel Abecasis e Pedro Quintela numa conversa inacabada no Conhaque-Philo, sobre a Europa. Decorreu ao mesmo tempo em que Maria de Belém confessava a Maria João Avillez, na Capela do Rato, que gostava do Pai-Nosso e que o Povo é quem mais ordena. Com efeito, na 4ªa feira a Casa Museu Medeiros e Almeida foi lugar de mais uma tertúlia do  Ciclo "A Europa Somos nós". O meu gravador não registou tudo, deixo simplesmente o mote de Ribeiro e Castro (na minha amadora gravação). Digo apenas que me esclareceu este "juntar"  de pessoas tão diderentes e tão iguais, de obra feita e a fazer. Foi uma espécie de "personstorming".

Uma jornalista que é mesmo jornalista, sem esquemas ou  poses mediáticas, com olhos de perguntar, a querer abarcar todos os factores e não o polticamente correto, e que na vida e no trabalho é a mesma pessoa; um padre, mistura de S.Francisco e S. António, a quem a vocação foi a de seguir, não a Academia, onde seria uma estrela, mas a fundação e direção de uma Associação,o Vale dÁcor, que acolhe e cuida de pessoas com toxicodependência; um europeista convicto, de perfil mais conhecido que os outros, e que aportou ao debate a porta que o vale dÁcor alberga, promessa de felicidade para cada um. Sim, porque Portugal e a Europa somos nós. Refere literatura especializida, e lembra em que prato da Balança Portugal está. Não é brincadeira, precisa-se.

 

Na próxima 3ªfeira, dia 17, sentam-se no mesmo local Francisco Sarsfield Cabral e João Luís César das Neves sob o mote: "A juventude da Velha Europa". A nossa.

 

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Três bons rapazes: Marcelo, José e Eduardo

por Fátima Pinheiro, em 10.11.15

 

 à porta da Capela do Rato estava o Rui Ochoa

 

“A Europa não existe” disse Eduardo Lourenço na abertura do Conhaque-Philo2015, faz hoje uma semana. Não existe mas seduz, comentei. Ele, que estava ao lado de José Manuel Fernandes para conversar sobre o tema “Europa: Observas-te a ti mesma?”, coincidia com este num ponto: a crise é profunda, é diferente das outras, por não ser uma crise intra-europeia, e é necessário encontrar saídas. Ou não?

A Europa não existe, a Europa somos nós. A lembrar o que Oliveira dizia do Cinema: o cinema não existe, o que existe são as cadeiras. O mesmo a dizer dos “públicos”: só os urinóis. Existiram sim para mim esta semana (por entre os milhares de "agoras" que vivi) o cruzar-me com aqueles dois bons rapazes mais um outro, Marcelo Rebelo de Sousa – nas conversas sobre Deus, uma iniciativa do Pe Tolentino Mendonça -, a provocarem-me  uma reflexão sobre a Europa.

Eu sei que uma barriga vazia precisa “primeiro” de pão. Mas eu vejo muita barriga cheia, a começar pelo meu lindo umbiguinho, bem longe destes maduras “peripatices”. E no entanto ela seduz! E porquê? A India e a China, disse o José, fornecem tecnologia e mão de obra, ao passo que a Europa é o Museu. Não que nela não se "faça" do bom e do melhor, mas porque a Europa é o  lugar de memória. Não de um fixismo no passado, mas de um húmus do qual se alimentam liberdade e criatividade. De mulheres e homens que são bons – Marcelo sublinhou que “Deus é a razão de ser da vida” -, pelo menos e sobretudo no sentido ontológico (a moral vem “depois” é outra coisa). De homens e mulheres que são capazes de amar mas têm tendência a ter medo uns dos outros – “O drama do nosso tempo é o medo do outro” (Bento XVI) – e que precisamente por meio desses medos e desuniões vão atraindo e seguindo em frente, incluindo. Eu sei que parece que não. Mas nem tudo o que parece é.

 

 

 

 

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OLIVEIRA EM 33 DIAS: quem nos dá Portugal (8)

por Fátima Pinheiro, em 31.05.15

 imagem tirada da net/ Painéis de S. Vicente de Fora - Uma visão Poética (2009)

 

« "Painéis de S. Vicente de Fora - Uma visão Poética" (2009) é uma reflexão de Manoel de  Oliveira (MO). Numa época que se preocupa mais com coisas penúltimas, MO dá-nos Portugal. O que inspira a reflexão, reconhece o realizador, é a crise em que a humanidade vive. O filme é assim apelo à paz, a uma visão humanista que não exclui nenhuma raça. Marco Müller, diretor do Festival de Veneza no dia da estreia do filme: "o grande mistério destes Painéis reside em não se saber ao certo quem são as personagens nele representadas, porque se algumas são reconhecíveis, muitas outras não o são".

Porque fez MO este filme? Para saber porque é que num dos dois painéis onde aparece S. Vicente, ele traz o livro aberto com uma passagem da Missa do Espírito Santo (João, XIV, 28-31). E no outro, o santo pega no livro fechado e tem o bastão da virilidade debaixo do braço, e a mão a deter o chefe guerreiro. E para saber por que razão no painel dos pobres, apenas um homem se encontra prostrado de cotovelos no chão.

O Painel em que o livro está aberto, Oliveira roda:"olhai bem!".E repete. É o cinema de Oliveira na exigência da contemplação. O filme termina com uma dança dos Pauliteiros de Miranda, dançando em frente ao quadro, num apelo à alegria de viver, a um banquete.

O filme começa com S. Vicente a "sair" dos Painéis, a colocar-se diante deles (de nós) e faz aquelas perguntas. Ricardo Trêpa convoca, para isso, alguns homens dos painéis. Vão "saindo" das 60 figuras do original (contando com a dupla representação de São Vicente), 18 personagens que se vão colocando no mesmo plano, isto é diante do Políptico, a olhar para nós.Vinde! E começa com os guerreiros. Vinde vós, também, homens do povo. E vós, os homens do painel da Relíquia. Vinde vós os frades, eles também, têm o seu papel, sem dúvida - embora não seja apenas sobre eles que recai a responsabilidade de fazer a paz. No fim é também convocado Diogo Dória, o infante D. Henrique, que irá fazer um apelo à paz. O Arcebispo não é convocado porque, diz o Santo, "já sabe o que vou dizer".

No Painel da esquerda São Vicente detém com a mão o chefe guerreiro como que a dizer: "É tempo de acabar [a guerra]". Ao que este, surpreso, responde "Eu?". Este é o ponto central da reflexão. É como se Oliveira nos provocasse - cada um - à mesma pergunta. E é de notar que é a única vez, nos escassos minutos do filme (sempre ao som da "música" de vento e de mar), que o Santo intensifica o tom de vós, numa intencionalidade, ou acting, muito incisivos: "Eu?" Como se dissesse: o que é que eu tenho a ver com isso? Sou eu que faço a Guerra? Sou eu que vou fazer a paz?

Quem está de joelhos, é o Oliveira? Sou eu? Diz o santo: o pescador é o único prostrado de joelhos a rezar pela salvação do mundo. É como se os Painéis fossem um só. O Painel da humanidade, com todas as raças, a "ecoar o clamor da crise" : o grito do pobre, do pobre saudoso de sentido (Eduardo Lourenço).

A razão pela qual num dos painéis o livro está aberto, e no outro fechado, é o corte entre Passado e Presente que Oliveira quer "unir". A razão da necessidade do homem estar de cotovelos, no chão, é porque é preciso gritar do fundo (S. Agostinho, Confissões II). Não basta perguntar por perguntar. Num dos seus mais belos filmes, o Vale Abrãao, Oliveira põe o dedo na nossa ferida.  É da boca de João Perry que vem a "minha" dramática alternativa : "vive-se....ou não se vive...".  Nos Painéis a vida, o viver, é deixar o livro aberto, sôbolo olhar que corre. E correr...

Oliveira é um "livro aberto" mediante um trabalho - construção - que revela o movimento de um Políptico trespassado de um presente que chega até nós como uma Nação Amada, e Ajoelhada diante do Livro que Ricardo Trepa traz ao "colo" (evocando quiçá a figura de Nª Senhora - Rainha do Porto, a cidade do Douro, da "sinfónica" faina fluvial); um Portugal que não nega que se enraíza num Cristianismo que nunca ficou "em casa" mas arriscou uma Missão que a Europa parece hoje querer esquecer.»

(2/7/2013 - Expresso on line)

 

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O filósofo francês Fabrice Hadjadj esteve em Portugal no mês passado. Fez uma Conferência na qual  comentou e reflectiu o Discurso  do Papa Francisco  no  POR UMA ECONOMIA CADA VEZ MAIS INCLUSIVA*

 

É da boa Antropologia. Está cheia de razões adequadas. Um must. Uma Conferência em que Portugal e o mundo se descobrem em pleno.

 

*  «Agradeço ao Senhor Cardeal Presidente as suas palavras, agradeço-vos a companhia, o convite, o trabalho. É tão importante o que fazeis: reflectir sobre a realidade, mas meditar sem medo, fazê-lo com inteligência. Sem medo e com inteligência. Isto é um serviço.

Um de vós falava-me dos três reducionismos, mas eu falarei só do primeiro: o reducionismo antropológico. Penso que este momento coincida com o tempo mais significativo do reducionismo antropológico. Acontece com o homem o que se verifica com o vinho quando se torna bagaceira: passa por um alambique organizativo. Já não é vinho, é outra coisa: talvez mais útil, mais qualificada, mas não é vinho! Relativamente ao homem acontece a mesma coisa: o homem passa por este alambique e acaba — e isto digo-o seriamente! — perdendo a humanidade e torna-se um instrumento do sistema social, económico, sistema onde predominam os desequilíbrios. Quando o homem perde a sua humanidade, o que nos espera? Acontece o que digo numa linguagem comum: uma política, uma sociologia, uma atitude «do descartável»: descarta-se o que não serve, porque o homem não está no centro. E quando o homem não está no centro, há outra coisa no centro e o homem está ao serviço dela.

Portanto, a ideia é salvar o homem, no sentido que volte para o centro: da sociedade, dos pensamentos, da reflexão. De novo levar o homem para o centro. E isto é um bom trabalho, e vós já o fazeis. Estou-vos grato por este trabalho. Vós estudais, reflectis, fazeis estes congressos com este objectivo, para que o homem não seja descartado. Descartam-se as crianças, porque o nível de natalidade — pelo menos aqui na Europa — todos sabemos; descartam-se os idosos, porque não servem. E agora? Descarta-se toda uma geração de jovens, e isto é gravíssimo! Tomei conhecimento de um número: 75 milhões de jovens, com menos de 25 anos, sem trabalho. Os jovens «nem-nem». Nem estudam, nem trabalham. Não estudam porque não têm a possibilidade, não trabalham porque não há trabalho. É outro descarte! Qual será o próximo descarte? Detenhamo-nos a tempo, por favor!

Agradeço-vos. Agradeço-vos a ajuda que ofereceis com o vosso trabalho, com a vossa reflexão para recuperar esta situação desequilibrada e para recuperar o homem e levá-lo para o centro da reflexão e da vida. É o rei do Universo! E esta não é teologia, não é filosofia — é a realidade humana. Com isto, vamos em frente. Obrigado, obrigado verdadeiramente. Obrigado!»

 

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A minha "Teoria de tudo"

por Fátima Pinheiro, em 06.02.15

 imagem do filme "Para sempre Alice"/ tirada da net

 

Palavras e expressões. Cruzadas? Inúteis? Trocadas? Levadas pelo vento? Cruéis? Amantes? Gastas? Preciosas? Perdidas? Caladas? Punhais? Don´t come easyFechadas nelas ou a levar-nos longe? Sérias? Não se encontram, por vezes? Necessárias? Custam a engolir? Desentendem Delon e Dalida? Há homens delas? Estavam no Princípio? Sem elas nada se fez, nada se faz? Escusadas? Seja como for algumas tento não usar, assim como: "impossível", "a vida é difícil", "esquece". Então porquê? Tenho razões. E mais, sei que que de nada valem, se o que conta é realmente o que eles nos ajudam a intencionar. E sei que tudo valem, porque sem elas não sei como seria. Até o maior silêncio delas vive. Stephen Hawking (vejam o filme "A teoria de tudo", que estreou há pouco) com a doença que ainda hoje (com 72 anos) lhe fechou a boca, di-las com  um piscar de olho para o teclado e num olhar de encanto e de encantar.

 

"Imposível". Eu sei lá. Sou apenas metro do que posso medir. Ao cosmologista, com 25 anos diagnosticaram-lhe uma doença que lhe daria apenas 2 anos de vida.

 

"A vida é difícil". Depende de cada um, mas para mim seria díficil, por exemplo, fazer o pino ou fazer como o Ronaldo. A vida é, sim, complexa. Digam-me se é difícil eu, por exemplo, ter feito as minhas células e poder rir ou chorar? Ou fazer cada batida do meu coração? Sim , falo do canasto e do que que nele acontece.

 

"Esquece!". Basta ver o filme - ainda "quentinho" para mim -  "Para sempre Alice". Mas não preciso de ir aí. Quero saber. Digo: "não percebi!". A outra pessoa diz: "esquece!". Não esqueço. Eu quero saber. Doa o que doa. A que preço for. Tudo. Gerir o "momento"? Sim, é possível, é complexo (mas simples) e não esqueço -  muitas vezes sim, mas isso não é obstáculo e dou-me bem comigo. Levanto-me sempre. Não desisto de me entender a falar. 

 

 

 

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Alex Tsipras e o nosso PS : melhor é impossível?

por Fátima Pinheiro, em 01.02.15

 mais do que Alex, George: o homem de todo o momento/ imagem tirada da net

 

Todos escrevem sobre o Zorba do momento. É um must. Apesar de não ser o meu forte, o que é certo é que estou nesta jangada, e sei que tudo o que acontece aos outros pode também acontecer a mim. Exemplo, posso vir a comer bolo rei como o faz – ou fez – Cavaco Silva; vou um dia morrer, como aconteceu anteontem a uma amiga do tempo do liceu, que eu não via há muitos anos mas vi ontem no cemitério. É a designada “natureza humana” que o relativismo dos nossos dias teima em hastear como vitória da razão. O que contraria o facto de todos agora usarem as expressões “je suis” ou “je ne suis”, a começar com Charles hebdo e agora com Alex Tsipras e a Grécia. Já Baudelaire dizia “A Bovary sou eu." Enfim, ainda há quem pense que acaba de inventar a roda. Leiam, para dar um exemplo, o que Aristóteles escreve sobre a amizade, as suas categorias e a sua descrição delas. Pois, e Tsipras?

 

Eu posso vir a ser o grego também. Estou sempre disposta a mudar para melhor. Por isso já tenho em casa mais este dossier e começo por notar dois posts que apareceram no meu facebook: um de um amigo de infância e outro, de Francisco Seixas da Costa. “É um tempo novo na Europa. Não sabemos se, no plano político e económico, o sucesso está garantido. Porém, no ‘dress code’, a revolução já começou. O seu provável momento alto será a deslocação de Alex Tsipras, na próxima semana, a algumas capitais europeias. Irá sem gravata aos encontros? Imagino a agitação que atravessará os especialistas em protocolo. Por cá, quero crer que o ministro Paulo Portas, não obstante todas as divergências políticas, terá sentido, neste ponto particular, uma simpatia pelo estilo de vestuário novo chefe de governo grego.” E por cá, digo eu, o ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, acusou há dias o PS de estar a utilizar o caso da detenção do antigo primeiro-ministro José Sócrates para não discutir política: "O PS está, de certa forma, a instrumentalizar o que aconteceu a Sócrates para evitar que se discuta aquilo que é o modelo de governação do PS" ("Terça à Noite", da Rádio Renascença). "Basta olhar para a fotografia: são os mesmos que à época estavam nos destinos do país", disse. E?, pergunto eu. Pois há agora a Europa, a surpresa grega, o dizer mal de Durão Barroso, isto é, material de sobeja para o PS não falar do período em que não nos soube governar. E ganha pontos no eleitorado feminino: Tsipras pauta por um dress code “in”, numa mistura armani da Covilhã e Clooney: um Tó Kalon (deve ler-se com aquele cândido acento blasé camone).

 

E o meu amigo: “Há quase quatro anos, a 19 de Junho de 2011, escrevi aqui no Facebook: Como dizia há dias um professor universitário grego, comentando na BBC a crise no seu país, a solução encontrada pela UE e o FMI para a Grécia (e para a Irlanda e para Portugal...) é idêntica a dizer a alguém, que já não tem dinheiro para pagar a prestação da sua casa: ‘Tenho uma solução para o seu problema. Tem aqui um cartão de crédito com que vai poder pagar as prestações da casa.’ O pagamento da casa deixa de ser um problema mas, em contrapartida, vai faltar o dinheiro para pagar o cartão de crédito...Quem era o professor universitário grego? Yanis Varoufakis, o novo ministro das Finanças grego.” E? Isto é muito bom, digo eu.

 

Tsipras abana paradigmas, esquemas, prontos-a-comer. Obriga a uma reflexão, que é palavra que se mete medo a alguém, esse alguém não é humano. O eleito do momento não é, como Zorba, um grego simples que espalha o caos por onde passa. Hoje não sei dizer mais nada. E uma coisa é certa: eu não vou esperar para ver. Estou nisto até ao sangue.

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 «ei você aí»/imagem tirada da net

 

O Prémio Pessoa 2002 tem toda a razão: mais é demais. Sobrinho Simões lembrou esta verdade na segunda-feira passada, ao falar sobre a Nova Medicina, em Gaia. A Medicina do séc. XXI caracteriza-se por "uma mudança do paradigma profissional, por ‘novas’ doenças, por ‘novos’ doentes e por uma novíssima ciência médica inundada por algum fundamentalismo geneticista”. O professor catedrático de Anatomia Patológica na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, director do IPATIMUP, pôs o dedo em muitas feridas. Os "Médicos têm de voltar a ver e falar com os doentes". Não só pela importância de se conhecerem os antecedentes familiares, mas porque o doente é uma pessoa, um todo. Como eu percebo isto! Já saí de consultas sem que o médico me tivesse olhado nos olhos. E que há doentes que pensam que eles é que são os médicos? Também conheço. São os tempos e os saberes dos quais não sabemos muitas vezes tirar partido. É como na vida, no meio é que está a virtude. Ou não?

 

Uma relação mais próxima médico-doente aumenta também a capacidade dos centros de saúde e combate "a ideia de que todos temos de ter um hospital perto de casa": é apostar na prevenção, compreender a necessidade dos doentes relativamente a prognósticos, contribuir para uma medicina mais participada e personalizada, na qual se aposta num elevado grau de precisão. Sobrinho Simões traçou o quadro do sistema de saúde português que está sobrecarregado nas urgências devido ao comportamento dos portugueses. A rede de cuidados de saúde tem excessivos hospitais, um em cada esquina que fazem de tudo. Há centros de saúde a menos. E há enfermeiros e outros técnicos de saúde que seriam médicos de qualidade em muitos países no acompanhamento de muitas doenças, mas os portugueses querem sempre um médico.

 

Ao referir que a ciência médica passou a dispor de fabulosos instrumentos e tecnologias, Sobrinho Simões sublinhou que temos hoje uma nova medicina. No entanto está  acompanhada de um excesso de diagnóstico. Os avanços na genética têm sido usados para prever doenças, mas a ideia que resolve tudo é disparatada. Os médicos têm de voltar a ver os doentes e evitar os sobrediagnósticos que não trazem benefícios para a saúde. Sobrinho Simões deu o exemplo de micro cancros detetados por exames sofisticados no intestino que podem ser deixados porque o paciente não morrerá deles, mas de outra maleita. Com efeito há possibilidades de se ter muita informação, porém sem se saber que uso dela fazer. O excesso "é um dos perigos da civilização actual".

 

Por outro lado, os médicos defrontam-se hoje com doentes que deixaram de ser passivos, porque já submeteram os seus problemas a possíveis respostas em pesquisas na internet, com os perigos que isso representa a quem tem uma grande iliteracia médica. Os portugueses exageram na automedicação, especialmente nos antibióticos de modo que o seu efeito começa a falhar em doenças do passado, como a tuberculose, que hoje é uma nova doença devido a esse comportamento; não dispensam umas pastilhas; automedicam-se e pressionam os médicos  a receitarem antibióticos indiscriminadamente ("matar a mosca com morteiro").

 

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