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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

29
Ago17

 

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com Noronha da Costa, na Casa Museu Medeiros e Ameida

Dêem-me perguntas. Adoro. Deus e o diabo vão aturar-me sempre. Escolhi estudar Filosofia por "desporto". É mesmo o trabalho que gosto. E "felizes" os que trabalham naquilo que gostam, porque aumentam ao gostar natural o das horas de trabalho - dimensão enorme da existência, não só por nos ocupar longas horas, mas porque é através dele que temos a oportunidade de realizar, descobrir e construir. Tudo. O desemprego pode aumentar. Mas trabalho há sempre. O dinheiro é uma grande chatice, e quero também escrever sobre isso. Mas hoje escrevo sobre homens e mulheres. O assunto interessa-me há muito. Nas discussões de adolescência, quando se falava das diferenças entre homens e mulheres, amuava e não discutia. Dizia apenas que o que interessava era a pessoa. Estava completamente out. Eles estavam certos.

No fundo fui sempre um bocadinho tótó; um dia, na 3ª classe, perguntei à D. Júlia por que é que na pré-história só se falava do "homem", se "não havia então mulheres?"...; não que fosse completamente estúpida, um dia até mordi a Cristina. E agora? Não falo de cor. Não há muitos anos, por razões de trabalho recebi uma pessoa que tinha nascido homem (devia ter sido cá uma brasa! alto, olhos lindos, verdes, etc; fui tentando adivinhar ao longo da conversa como seira "ela" antes, mas não me podia distrair porque o tema era sério) e que tinha feito uma operação de restituição sexual e agora é mulher. Passamos umas boas, boas, horas, a "tratar" do problema que a levava ali. Normalmente quando falo com alguém olho muito para a pessoa. Foi o que aconteceu. Ela olhava-me intensamente. A certa altura disse-me que se sentia tão bem a falar comigo que nem tinha vontade de fumar. E cheirava-se que fumava muito. E que era feliz com o namorado. Mas o que eu via não coincidia. Ela dizia uma coisa e eu via outra. Não me venham com a conversa do "respeito". O que é que isso acrescenta aos factos? É como a palavra "assumir"? Mas assumir o quê. A pessoa é, ou não é. Ama ou não ama. Eu sei lá se sou se sou mais doente do que aquela rapariga? E que há muitas doenças que escangalham a pessoa há. Respeitar, assumir, estão a mais. Se não é doença, melhor.

As diferenças entre homem e mulher qualquer criança sabe. É como quando pergunto aos amigos dos meus filhos quando vêm pela primeira vez lá a casa: quantos dedos do pé tenho, e eles dizem logo "5". "Como é que sabes? Não estás a ver!", dizia eu.  Podia escrever um livro com as respostas. Mas têm a certeza que é "5". Não precisam de ver. Por acaso num deles só tenho quatro, fui operada...

É uma questão de sexualidade. O que é sexualidade? Não estou a devolver a batata quente. É a pergunta que fiz e à qual venho obtendo resposta. Já sabia mas faltava mais. E continuo a aprender. E aprender implica descobrir os elos, as razões, e de como o sentimento a ela (à razão) está colado (Kant neste ponto não teve pontaria, porque eu não sou, nem quero ser, anjo). E nada se percebe se não se passa pela homossexualidade; e aqui há a masculina e a feminina, que distam uma da outra como o céu da terra. "Perdi" muito tempo a ver as pessoas. Fiquei a conhecer-me melhor e aos outros. E isto não acaba...

Andamos muito tempo no tabu do corpo. Foi a religião católica, dizem. Há uma parte de razão, nos factos. Mas não esquecer as religiões e as morais antigas, e as de hoje, que pensam que ao inundarem-nos de incensos, óleos e mirras (olhem as lojas dos milhares de centros comercias) nos querem elevar acima do sofrimento, que vem do corpo e sofrimentos adjacentes. Nunca gostei de anestesias, prefiro chorar. Mas, claro, gosto mais de abraços. Todos. O corpo é muito bom!

Ó Richard, meu oficial e cavalheiro, que pena! E eu que gosto tanto do Lama, de facto. Mas foi um papa polaco, filósofo, que agarrou em Husserl e voltou a olhar para o corpo e a discorrer (não fosse ele um atleta). Estava demasiado perto da Rússia para não se ter deixado espantar pela beleza dos corpos de um homem e de uma mulher. Foi nele que bebi, aprendo, e vou vivendo as "palavras" magníficas. Experimento e verifico quem sou e o que é ser mulher. Experimento e verifico o que é ser homem. Sei o que se ganha e o que se perde. Não respeito, nem assumo. Limito-me a ser mulher. Mas sei porque não gosto do "mesmo do mesmo". Não sou bruxa, sou apenas humana, converso, dou atenção (tento) e por isso sei os factos e as razões - porque conheci e conheço pessoas assim - que levaram (e levam; e aqui mea culpa...) a procurar o mesmo do mesmo.

A mim o diferente abre-me ao mistério, dá-me vertigens. Voo e vejo mais longe - saio da gaiola - e não me limito às promessas de um conforto que insiste em invadir-me como se fosse uma ditadura a dizer "da igual, se te gusta"! Isto já vai longo. Há pano para mangas. Para as por e tirar. A sexualidade reside na bela diferença. Beleza é a resposta, por isso quero conviver com ela.

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14
Ago17

Tenho interesse em mudar?

por Fátima Pinheiro

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 Naomi Tereza Salmon, Exhibits , 1994

 

Deu a vida por um homem. É uma história conhecida, a deste homem que hoje recordo. Refiro-me ao dar a vida no sentido de morrer mesmo. Lembro-me em particular dos que o fizeram e fazem por um futuro a vir (para abreviar, comunistas e homens-bomba). Ou seja, por utopias. Este post não é contudo um artigo da categoria "obituário", mas é sim uma opinião, por muito que seja desagrável. Há opiniões muito desagradáveis, sobretudo para uma mentalidade que erigiu o agradável em valor primordial. Nem por acaso folheei há pouco um livro que tenho na cabeceira, "Beleza desarmada", de Julián Carron, cuja apresentação em Portugal foi feita pelo historiador Rui Ramos, no Campo Pequeno. E vejo sempre com muito agrado a apresentação desse livro em S.Paulo na Livraria Cultura. A pessoa a quem dedico este pequeno texto deu a vida por um homem que conheceu num campo de concentração. Trata-se de  Maximiano Kolbe, que João Paulo II canonizou, e cuja Memória a Igreja hoje celebra. Sei que, para  dar um exemplo atual, muitos bombeiros merecem o altar e muitos são aqueles que têm morrido queimados vivos. Mas nada disso tira o valor ao caso que hoje aqui trago.

Quero  sublinhar dois pontos. Primeiro, que a crise que se vive hoje a vários níveis tem origem numa sociedade que acreditou que os valores do cristianismo poderiam vingar sem ele. A famosa "Religião nos limites da razão", do filósofo Kant. O resultado está à vista: em privado ninguém se entende, cada um faz o que lhe apetece  e a gestão da vida pública é o que se vê. Pedrogão é um bom case study. A cosmética das uniões de valores e pessoas ao sabor das ondas já mostrou que tem pés de barro. As mesmas palavras de sempre - trabalho, família, política, amor, religião, prazer e outras- estão vazias, como vazios estão quem as pronuncia e com elas se engana e enganam os outros, enquanto vivemos a média dos 70 anos que nos cabe neste planeta.

O  segundo ponto que sublinho: para quem está interessado em mudar-se a si à sociedade em que vive, olhar para o gesto de Kolbe fornece as razões que podem realmente mudar para um sentido que faz sentido. Mais: muda mesmo!

No final de julho de 1941 estava o santo no Bloco 14, “bunker da morte”: um subterrâneo, onde um grupo de sorteados, nus, esperavam a morte. Era um terror, podia ser a qualquer momento. As razões de Kolbe? Ofereceu-se para morrer em lugar de um deles, que gritava pela sua família. Kolbe não se ofereceu pela humanidade. Deu sim a sua vida por aquele homem. A revolução que transforma vem deste olhar para o outro , nos  olhos, como filho de um mesmo Pai. As igualdades, as liberdades e a fraternidades são "nadas", "fazem mal" (Papa Francisco), se não se nutrem n'Aquele que um dia chamou este filho polaco a ser abraçado para ser franciscano. Sem o Cristianismo assim entendido e vivido, não vamos longe. Graças a ele, o bunker da morte foi bem longe. Transformou-se em capela de oração e de cânticos, com vozes cada dia mais debilitadas, mas vozes. Foi com injeção letal num braço que se estendeu espontaneamente, e que chega até mim...

 

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13
Jan17

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Martin Scorsese, imagem tirada da net

 

O Filme "Silêncio" de Martim Scorcese, estreia para a semana. Tem suscitado grandes e diferentes expectativas, vindas de sensibilidades, perspectivas e credos. Não só o filme mas também o próprio Scorcese se têm dado a conhecer num assunto que, por muito que digam o contrário, não é do foro privado. A eterna discussão acerca do que é público tem sido uma faca de dois gumes. Factos são factos. Falam por si sem "dentros" nem "foras"; não se sujeitam a interpretações baratas, nem às que "dão de barato". É preciso tempo para conhecer e discernir.

Japão, século XVII, misionários católicos "convidados" a abjurar. Pisar o fumié (peça fininha, tipo tapete com a imagem de Cristo), e as torturas vão sendo mais subtis: a da fossa (cabeça para baixo, cortes atrás das orelhas, que é para não morrer logo, e uma fossa bem pertinho do nariz), a da água a subir, que é para se ir  morrendo afogado, e páro. Há quem nem vá ver o fime por isto. É preciso apanhar o peixe gordo. Cristovão Ferreira, um jesuíta nascido em Torres Vedras, é um desses. Os pequeninos imitam os grandes. Mas Deus é que sabe!

Volto aqui depois de ver o filme. Mas um filme não tem "mensagens". Desconfio!

As obras de arte não transmitem mensagens, honram-nos com a sua presença; são. Por isso digo já o que penso acerca do que por aí corre, nas narrativas. 

Não me queiram convencer que o martírio é uma "coisa" desnecessária. A História da Igreja está aí, mostrando ser um organismo vivo, que tem crescido com muito sangue, e, também, com muito erro. E isso sabia-o e sabe-o, o seu fundador, que começou logo por escolher para primeiro Papa um homem que o negou publicamente, Pedro. Isso sabio-o, Ele  também, porque a Sua Cruz era para todos. Disse-o: se Me perseguiram a mim, o mesmo vos farão.  Isso sabia-o Pedro: foi crucificado, e de cabeça para baixo (não quis ter honra de ser crucificado como o Mestre).

A Igreja é um Mistério. Não à maneira de Hitchcock, mas como uma coisa que surpreende há dois mil anos com "cenas" destas. Cristianismo sem Cristo? Não obrigada. S.Paulo também sabia que "já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim". Mas nada de confusões, eu sou tanto mais eu quanto mais me distingo. Porquê? Porque sou liberdade. 

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 Luis Miguel Cintra em "Non, a vã Glória de Mandar"/imagem tirada da net

 

«Fora eu mosca e escreveria outra coisa. Assim sendo, vou a Veneza em pensamento, recordando o que "vi" no Centro Cultural de Belém em 12.5.2010. O novo filme de Oliveira, "O velho do restelo", tem estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza, que hoje começa. O filme está seguramente implicado nestas palavras. Mas ficamos à espera como referi aquihttp://rasante.blogs.sapo.pt/oliveira-em-veneza-estreia-e-segue-22532 . Manoel de Oliveira é cultura portuguesa, é universalidade. Ele não é “apenas” um homem que tem hoje 105 anos, até porque, como ele diz, o que conta não é a duração mas o argumento.

O meu De Oiro Faina Fluvial, num dos seus filmes sobre a História de Portugal afirma, com toda a certeza, pela boca de Luis Miguel Cintra : ”só se conquista o que se dá”.Portanto nada de “regressos”, ao passado, ao futuro, nada de imperialismos, ou “familiares”. O que conta é a Presença. Embora, como o cineasta tenha afirmado em Serralves na estreia do filme “Os Painéis de S.Vicente”, o Presente tenha uma “fábrica”: o Passado. Quem foi ontem à Cinemateca - os encartados - diz que a curta-metragem de 20 minutos abre com as ondas do mar, e que delas emergem momentos de filmes anteriores como «Non, a Vã Glória de Mandar» e o « O Quinto Império". A identidade portuguesa mais uma vez a dar o mote à lucidez que nos invade de um olhar enamorado.

Religião e arte: Palavra de Manoel de Oliveira no encontro de Bento XVI com o mundo da cultura
CCB 12 de Maio 2010

«Antes de mais quero agradecer este muito honroso convite para pronunciar, neste encontro, umas simples e breves palavras. Principiarei por dizer-vos ter pensado que as éticas, se não também mesmo as artes, seriam derivadas das religiões que procuram dar uma explicação da existência do ser humano face à sua inserção concreta no cosmos. Universo e homem, criações dum ser transcendente, colocam-nos problemas inquietantes para cuja solução “o Verbo, que se fez carne” em Cristo, nos trouxe insuperáveis graças divinas.

As Artes desde os primórdios sempre estiveram estreitamente ligadas às religiões e o cristianismo foi pródigo em expressões artísticas depois da passagem de Cristo pela terra e até aos dias de hoje.

Sou um homem do cinema, do cinema que é a sétima das artes, logo a mais recente de todas as expressões artísticas, pois não tem mais que um século, enquanto outras terão milénios. Em dois dos meus filmes, figurava um Anjo. No “Acto da Primavera”, baseado em um auto popular, da família dos chamados Mistérios ainda no século XVI. Este figurava a Paixão de Cristo, projecto que realizei em 1962, e onde a figura de um Anjo fazia parte do próprio contexto religioso desse Auto. No outro filme, “Cristóvão Colombo – O Enigma, realizado já em 2007, o Anjo não constava do contexto da história do livro em que me baseei. No entanto, pareceu-me bem introduzir o Anjo da Guarda, aqui o da nação portuguesa, como prévia configuração do Destino, tantas vezes adverso e tantas outras favorável às acções humanas, como aconteceu nessa feliz viagem do navegador que, pela primeira vez, encontrou as ilhas americanas de Antilhas. Isto levou-me a repensar as figuras dos Anjos fora e dentro das Igrejas, parecendo-me conotadas com prefigurações dos espíritos. Ora se os espíritos são um só, então temos nele a natureza de Deus.

Considerando, porém, a religião e a arte, ambas se me afiguram, ainda que de um modo distinto é certo, intimamente voltadas para o homem e o universo, para a condição humana e a natureza Divina. E nisto não residirá a memória e a saudade do Paraíso perdido, de que nos fala a Bíblia, tesouro inesgotável da nossa cultura europeia? Acossados pelas especulações da razão, sempre se levantam terríveis dúvidas e descrenças, a que se procura opor a fé do Evangelho que remove montanhas. E os seres humanos caminham na esperança, apesar de todos os negativismos. Como diz o padre António Vieira: «Terrível palavra é o “Non”, por qualquer lado que o tomeis é sempre Non…», terminando por lembrar que o “Non” tira a Esperança que é a última coisa que a natureza deixou ao homem.

Se as artes nada mais aspiram a ser que um reflexo das coisas e acções vivas dos procedimentos e sentimentos humanos do universo real ou em fantasias imaginadas, pode aceitar-se o que um realizador mexicano, Artur Ripstein, classificou dum modo magnífico e surpreendente o cinema como sendo o espelho da vida. E é-o de facto.

Não querendo alongar-me mais, aproveito a circunstância para, como pertencente à família cristã, de cujos valores comungo, e que são as raízes da nação portuguesa e a de toda a Europa, quer queiramos ou não, saudar com profunda veneração sua Santidade, o Papa Bento XVI em visita ao nosso País e rogar filialmente que nos deixe a Sua bênção.»

E um «encore», este em Cannes: http://youtu.be/Ayd9r7-1nHE »

 

(27 Agosto 204)

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 A Beleza de D. Giussani/ imagem tirada da net

 

O CL é um Movimento da Igreja Católica. Ontem, o “novo” Cardeal D.Manuel Clemente, celebrou Missa pelo 10º aniversário da morte de D. Luigi Giussani, seu fundador, e pelo 33º aniversário do reconhecimento pontifício do CL. Pouco conhecido entre nós, o “movimento” começou nos anos 50 (cfr. http://por.clonline.org/). O Papa Francisco vai encontrar-se no próximo dia 7 de Março, em Roma, com este “rosto" de Igreja, como tem feito com outros "rostos" que são a Igreja, uma vida.

Este post destaca porém uma outra “ignorância”. Para tal refiro um jornalista italiano, que contou em livro a vida de Giussani. Usarei em tradução livre a edição italiana - Alberto SAVORANA, Vita di don Giussani,  Rizzoli – Milano, 2013 - em breve em português. Tudo isto para quê? Simples. Um dia, o já padre Giussani  ia no comboio. Ouviu uma conversa entre teenagers sobre Religião e Igreja. Constatou algo muito significativo: as posições que cada um defendia eram baseadas em ignorância, e desenvolvidas a partir de falsos preconceitos. Pensou (digo por minhas palavras): é preciso dar a conhecer, falar verdade, a ignorância é pior que o piolho. Para que a vida seja boa, mas já, e não para depois. Cristo prometeu que quem O seguisse teria a vida eterna e o cêntuplo JÁ.  E o que os miúdos dizem interessa-me. Quero ir para o meio deles. E veio também para o meio de mim, Graças a Deus, já há mais de 20 anos...

A questão decisiva  para Giussani, à qual dedicou toda a sua acção educativa, a sua vida, é então esta: Cristo: sim ou não? Hoje continua verdade. Quem sabe mesmo o que é o cristianismo? A educação é a rocha de sociedade, das pessoas. A minha pedra angular. Sem ela não vamos muito longe.

Hoje mesmo, D. Manuel Clemente, profere, no Mosteiro dos Jerónimos, a primeira catequese da Quaresma, este ano subordinada ao tema "A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira". Mas isto é tarefa de cada um. Já foi tempo em que a Igreja era uma “coisa” de alguns. Cristo é para mim “sim” ou “não”? Para responder é necessário saber de quem estamos a falar.

Destaco então o capítulo 19 do livro que referi. A mim esclareceu-me, e vejo-me num caminho em que a companhia deste movimento me alegra e me dá um gosto de vida nova. Como deu a S.Paulo, a Santa Teresinha do Menino Jesus e a tantos. Porquê? Porque a resposta à pergunta é a razoabilidade que enche e transborda do nosso ”coração”, das exigências e evidências que correm e fazem correr a natureza humana. Quem não tem sede de verdade, justiça, bem e beleza?

  • O que é a religiosidade? «A essência da razão». E qual é a pergunta que se faz mais vezes? «Faço-me tantas». Pode citar uma, pelo menos? «Se Deus deu aos católicos a inteligência, é para a usarem ou fazerem um holocausto dela?»
  • Quando “os tempos são maus”…quer dizer que veio o momento da conversão do coração e da maturidade na fé. [...] A vida vale a pena ser vivida para edificar a glória de Deus, isto é, para construir a humanidade nova na Igreja. Pois bem, em toda a história do cristianismo a condição para construir é o sacrifício, isto é, a cruz …A maturidade da nossa fé - eis a ressurreição.
  • Introdução à realidade, é o que é a educação. A palavra “realidade” está para a palavra “educação” tal como a meta está para um caminho. A meta é todo o significado do andar humano: esta não está presente unicamente no momento em que a empresa se realiza e termina, mas também em cada passo da estrada. Assim é a realidade, que determina integralmente o movimento educativo, passo a passo, e é a sua realização.
  • Infelizmente, a mentalidade laica – Giussani nota que isto é evidente na escola – «não está interessada em dar um contributo para a tomada de consciência efectiva de uma hipótese que explique as coisas unitariamente. O analismo que predomina nos programas abandona o aluno frente a uma heterogeneidade de coisas e a uma série de soluções contrárias entre si que o deixam, consoante a sua sensibilidade, desconcertado e desalentado no meio da incerteza». Em consequência, o jovem «sente, normalmente, a falta de alguém que o guie e que o ajude a descobrir aquele sentido de unidade das coisas, sem o qual ele vive uma dissociação»
  • É precisamente esta constatação que leva Giussani a aprofundar o conceito de autoridade: «A experiência da autoridade surge em nós como um encontro com uma pessoa rica na consciência da realidade; de modo que esta se nos imponha com a revelação e nos traga novidade, espanto e respeito. Da sua parte há uma atracção inevitável, da nossa parte uma inevitável dependência, sujeição». Para Giussani, a autoridade, de uma certa maneira, é o meu “eu” mais verdadeiro. Mas muitas vezes, hoje a autoridade propõe-se e é vista como algo que nos é estranho, que “se acrescenta” ao indivíduo. A autoridade permanece fora da consciência, ainda que talvez seja um limite devotamente aceite»
  • Dentro do percurso educativo, a figura da autoridade é central até accionar a verificação da proposta vinda da tradição «e isto só pode ser feito por iniciativa do jovem e por mais ninguém.

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03
Dez14

Transcendência? Não obrigada?

por Fátima Pinheiro

 

 

     imagem  do filme "Nostalgia" (1983) de Andrei Tarkovski

 

As recentes semanas bem podem ser chamadas de semanas da dignidade humana. Até António Costa no Congresso do PS a gritou a berrar, citando, também, a “bengala” Papa Francisco, que a ela se referiu como um dos pilares esquecidos de uma Europa “avó” e “envelhecida e engelhada” embrulhada em burocracias e tecnicismos, em números e discursos numa linha de "cultura do descartável" e de "consumismo exacerbado" (no Discurso do dia 24 no Parlamento Europeu).

 

Ontem foi o apelo do sucessor de Pedro, num encontro, na sede da Academia Pontifícia das Ciências, com os vários líderes religiosos mundiais numa declaração comum pela erradicação da escravatura até 2020 e para sempre. Francisco qualificou como crime de lesa humanidade todas as formas de escravatura moderna: “Trabalharemos juntos para erradicar o terrível flagelo da escravidão moderna, em todas as suas formas: a exploração física, económica, sexual e psicológica de homens, mulheres e crianças acorrenta dezenas de milhões de pessoas à desumanização e à humilhação”. Na cerimónia do acordo, estiveram líderes anglicanos, muçulmanos, hindus, budistas, judeus, ortodoxos e católicos, que assinalaram desta maneira o Dia Mundial para a Abolição da Escravatura. 

 

Soares veio também em socorro da dignidade humana, a de José Sócrates. Sim porque os outros, melhor, alguns, são apenas uma “cambada”.

 

Ao falar de dignidade humana importa compreender as razões dessa mesma dignidade. Onde estão as razões da dignidade humana? Ou é sim porque sim? Francisco é claro, mas entre os nossos e os 23 aplausos que interromperam o seu discurso no Parlamento Europeu, bem pode dizer que "cada ser humano é imagem de Deus. Deus é amor e liberdade, que se doa em relações interpessoais, de modo que cada ser humano é uma pessoa livre, destinada a existir para o bem de outros, em igualdade e fraternidade", que nós bem olhamos para o lado e assobiamos.

 

Mas alguma vez eu admito uma razão superior à minha? Era o que faltava. Deus sim, se for um Deus deduzido a esquadro e régua, um “Arquitecto” que cabe nos meus traços iluminados e iluministas. Quem me tira a minha maioridade intelectual?

 

Assobio enquanto Francisco propõe uma viagem às raízes religiosas e defende a liberdade de culto. "Queridos eurodeputados, chegou a hora de construir juntos a Europa que gira não em torno da economia, mas da sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis; a Europa que abraça com coragem o seu passado e olha com confiança o seu futuro, para viver plenamente e com esperança o seu presente".

 

Bem lembrou Dostoievski que um dos sinais de humanidade é a inquietação META-FÍSICA, e Maurice Blondel que, em 1893, gritou alto e a bom som que, por aquela razão de Imagem e Semelhança, o Cristianismo é superior à razão, embora em nada lhe seja contrário.

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O papa Francisco foi recentemente à Coreia e à Albânia. "Desde " S.João Paulo II, a Rádio Renascença envia a jornalista Aura Miguel,  para acompanhar as viagens dos Papas. É a única vaticanista portuguesa, uma profissional exemplar, que um dia quis ser diplomata, como conta num dos seus livros. "Venha saber como é viver a fé em contextos adversos e o que significa optar pelo essencial quando tudo à volta diz o contrário!", é o convite que ela deixa aos leitores deste Rasante. Enviou-mo ontem. Eu - primeira leitora deste blogue - aceitei. É hoje à noite, em frente ao Coliseu, e não é preciso bilhete, a não ser a boa e simples curiosidade acerca do que se passa, e "fazer" o que um dia lhe disse João Paulo II. Santidade, como posso ser uma boa jornalista? Perguntou ela , mais ou menos com estas palavras. Como é vaticanista, Aura faz quase todas as viagens no avião papal. Foi pois num deles que Ele lhe respondeu : "é preciso discernir, discernir sempre".

Aura Miguel conhece como ninguém quem é este Papa que a todos agrada - ver os videos dela no youtube, como este que considero DOS MELHORES, http://youtu.be/1tt1k0gNxbw  "como o Vaticano se tornou próximo como ninguém". A jornalista  acampanhou estas últimas duas visitas, que eu também segui, quase como se fosse  no avião de Francisco, e andasse com Ele por dois Países dos quais pouco conheço. Duas ou três coisas (como eu gosto deste título do blogue doutro Francisco, o Embaixador Seixas da Costa, que fez o seu último posto em Brasília! - "Me perdoa, tá?"): eu que vivo a fé num contexto "adverso", eu que quero saber o que andamos aqui a fazer, eu que sei que a fé é simples ( nós é que "simples" só às vezes...), opto pelo essencial?

Há Papas e Papas. Conversa de chá das cinco (estamos na mesa ao lado a tomar o café e ouve-se tudo): eu gosto mais do João Paulo II... Ai, Ratzinger, que horror, aquele ar frio, parece a polícia. Este Papa é que é. E o nome Francisco é o máximo.  Poderia referir outros chás e outros cafés. Mas hoje não é para isso. Hoje é sobre a Coreia e a Albânia que quero aprender a discernir. Sem saber o que se passa lá, como poderei discernir? Não gosto de falar de cor, e muito menos de conversa fiada. Os jornalistas têm muito a aprender com ela. Muito do "jornalismo" que temos: "diz-se", "tem que se"; ou "vai-se" em comitivas em aviões e "cobrem-se" os acontecimentos. Não é que às vezes são mesmo "cobertos"? Ficamos iguais ou pior. O jornalismo a sério é de todo o terreno - não é para ficar de pantufas no hotel pago; estou a falar nas horas de serviço, claro. E sobre as notícias do que se passa em Portugal? Vai dar tudo ao mesmo. Como em tudo há raras excepções. Temos crème de la crème temos, é preciso é saber discernir. Tenho aprendido a ler o essencial. Como sei? Muda-me em direção ao melhor, nos outros e em mim. Tenho a certeza que S.Antão me vai propocionar hoje à noite mais um passo. 

Eu já aqui disse - foi  no Prós e contras - como vejo este Papa http://youtu.be/RhfNYlQrHGk . O Cristianismo não são os valores. Como o principal não são os seus "monstruosos" aspetos externos: o despesismo dos escândalos do vaticano, a sua pedofilia, tudo verdades. Os valores são iguais em todas as pessoas de bem, e todos queremos endireitar o mundo, não duvido. E é bom. Mas não chega para se perceber o que está em causa. Neste sentido a esquerda divina - que vive também de certas homilias, ou cassettes - dá muitas vezes uma no cravo e outra na ferradura. 

Até parece que estou enxofrada com os discursos que valorizam este Papa ( com os 11 milhões de seguidores no Twitter). Mas não, não me enxofro por isso. O que me enxofra - talvez até por deformação profissional - é a ignorância: o que é específico no cristianismo não são os ensinamentos de Cristo. Esses são iguais aos de Buda, Maomet, ONU, etc.

Estou contente com tanto elogio, sim! Mas por razões que não dependem de aberturas de Papas, mas do Logos da vida. Por isso gosto mesmo de Pasolini e daquela troca de olhares entre Maria e José, quando este percebe finalmente o que estava em causa. Aquela silenciosa troca de olhares  (o filme "Evangelho segundo Mateus" está inteirinho no youtube) dá-se porque a Ponte tinha acabado de se fazer - ou fazer - Presente. A Unidade está dada. Não é uma Utopia. O essencial do Cristianismo é própria Pessoa de Jesus Cristo.  Ponte feita, encarnou há 2000 anos e hoje Passa por mim no Rossio. 




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22
Ago14

Gosto de observar as ressacas

por Fátima Pinheiro

imagem tirada da net

"Tudo o que parece é." Ensinaram-me que era ao contrário: "nem tudo o que parece é." Na escola ensinaram-me uma "Alegoria da Caverna" que não tem nada a ver com o que Platão quis dizer. A herança cultural que me cabe, e que espreita em cada esquina das minhas "cenas" quotidianas, invade-me mais platónica que aristotélica. Na Universidade ensinaram-me que Santo Agostinho é platónico e que S.Tomás é aristotélico. Depois foi preciso von Balthazar ser citado para ouvir dizer que a verdade é sinfónica, quanto já se sabia. Um cristianismo dualista? Não há. Se há quem pense que sim, que o cristianismo é "esquartejante", ou não sabe o que é o cristianismo ou não sabe o que é o dualismo. Observar, observar e observar, é preciso. Ninguém é feliz de beber de um ideal. Feliz é aquele que "bebe" de pessoas. Se a água for podre melhor morrer de sede do que de uma ideia que, por definição, não "sabe" acontecer. Chama-se a isto "cair na real".

Mas como estas ideias falsas foram passando, e muitas delas por práticas e prédicas a condizer, o ditado tem vingado e vive-se em dualismos constantes. Dizem os místicos de todos quadrantes que é preciso deixar assentar o lodo para começar a ver. E que ver não é difícil, que o difícil é querer ver. Simone Weil bem frisou que a mãe das virtudes é a atenção; e que é esse desejar a luz que produz luz. Platão nunca disse que as sombras projectadas no fundo da caverna eram aparências. E que no "mundo lá fora" é que era. O que ele disse foi que as sombras tinham a realidade de serem aparências. Eram aliás tão reais que foram elas a suscitar o interesse de um dos escravos a querer ir mais longe. Tudo interligado, portanto.

Por tudo isto, do que gosto é de observar. Não que seja isto um estar de "fora". Antes pelo contrário, observar é beber. Mas há "beberes e beberes". A selectividade aprende-se no tipo de ressaca que se tem. Depois é escolher.

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Há dias, aqui no Rasente, escrevi sobre Paulo Coelho. Retive o "bom" mas disse desde logo que era muito critica em relação à sua obra. Em tempos escrevi este texto, que mantem toda a sua actualidade.

«Ao escrever estas linhas não estão em causa as intenções dos autores (Browns, Coelhos e outros) ou mesmo as de quem os lê. Estão sim, na mesa, coisas objectivas, factos, teses, que escapam a esse domínio. Não é por acaso que muitos e muitos visitantes do Museu Louvre já não estejam interessados em ver o famoso sorriso de Mona Lisa. Pena!

A pergunta muito repetida por quem visita aquela jóia de Paris é agora, antes, a de saber o sítio certo onde foi encontrado o corpo morto do conservador do museu, para estar “perto” de Tom Hanks, que encarnou na produção cinematográfica a trama de Dan Brown. Como até parece que com aquele filme “a montanha pariu um rato”, já para os “Anjos e Demónios”, do mesmo escritor, parece que Brad Pitt vai poder descansar.

Até damos de barato que o “Código da Vinci” não tenha qualquer pretensão científica. Faz linha num certo tipo de escrita que a muitos agrada. Como agrada a vasta produção de Paulo Coelho, e de outros também, até de penas lusas.

A pretensão científica poderá não prevalecer. Agora, não se pode ignorar o facto de que estamos diante de livros que abordam questões de interesse espiritual, histórico e filosófico, e que o fazem de uma forma que para o grande público – e é importante sublinhar que estamos a falar de obras intencionadas para o grande público -, podem ser lidas como “verdades”, isto é, como coisas que aconteceram mesmo daquela maneira.

Isto, já descontado todo o negócio que se tem gerado em torno destas produções, um fenómeno que vai do turismo ao franchising, de divulgações científicas e culturais de segunda e terceira mãos. Para não dizermos que já se chegou ao chinelo. Mas não é disto que se trata agora aqui directamente.

Quem pega, por exemplo, no “Alquimista” de Paulo Coelho, não está propriamente à procura de um livro policial, verdade? Está sim, e de uma forma despretensiosa e informal, à procura de um auxílio, de “dicas”, de uma inspiração ou orientação para o seu percurso de vida. Fartos dos escândalos das religiões oficiais – e sem tempo para grandes demandas – muitos se aventuram, sozinhos ou em grupo, em novos caminhos, em novas re-ligiões. Há uma vontade de re-ligação, de recuperar o tempo perdido.

Ou então simplesmente pega-se num livro de Paulo Coelho para descontrair “meditativamente”, isto é, para ler uma coisa que tem de certo modo algo a ver com a vida, mas que não implica com isso o mínimo compromisso com qualquer grupo religioso ou igreja. Teoricamente cada um pode, repito, construir, sozinho ou em grupo, a sua própria religião, o seu caminho de re-ligação ao infinito, na tentativa de encontrar o elo perdido. O autor pode não ter pretensões científicas mas é muitas vezes lido como se as tivesse. E aqui está um grave problema: o “Alquimista” não é a Bíblia ou o Corão, mas é para muitos tido como tal. Com Saramago é diferente, ele não é militante. “Caim”, o seu melhor livro – ele próprio o confessou quando o lançou na Culturgest – não belisca o livro sagrado. Saramago não oferece receitas, embora haja pontos críticos, que deixo para outro texto.

Importaria nestes casos uma clareza objectiva que distinguisse o que é daquilo que não é. A fome (às vezes avidez, às vezes chill out) de espiritualidade que hoje se vive, e se vê na disseminação de tudo o que é produto oriental ou africano – do chinelo ao incenso, do tofu à missanga pós-60 (claro!), dos spas de wellness às naturas das nossa catedrais de con-sumo (onde até também há coisas muito boas!a eterna história do trigo e do joio…) -, pega nos “fenómenos” que se vendem e adere. Segue. Lê, sublinha e pratica, um pouco de um lado e um pouco de outro.

Não é o catolicismo que se vê progressivamente “convertido” numa religião “à la carte”. É a própria vida e suas espiritualidades que assim se vivem e se decidem (melhor, são vividas e decididas) ao menu. Daí o êxito, ou a saída, de produtos que se ofereçem com essas características.

Dan Brown, Paulo Coelho e mais, estarão no céu, na 1ªfila. Mas não é disso que se trata; e até porque Deus é certificado na matemática do amor. Trata-se sim – e agora refira-se em particular o homem de Tom Hanks – de um ataque ao cristianismo histórico pretendendo reduzi-lo a um embuste de dois mil anos por um poder ávido de almas e de mundo. Nisto estou com o arcebispo de Chicago, que pergunta assim: “Haverá alguém que pense realmente que todos os máritres morreram para proteger o segredo de que Jesus e Maria Madalena eram casados?” (Carl OLSON, Sandra MIESEL. A Fraude de “O Código da Vinci”, p.10). E é de notar que o século XX deu mais mártires ao mundo, do que nos outros séculos todos que o antecederam. São factos. E há livros sobre o assunto.»

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