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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

09
Ago17

A vida é um espaço de encontro/TM Rasante

 

E para terminar os meus posts sobre Van Gogh, deixo o registo da conversa com um dos responsáveis de um evento cultural, onde pude ver uma magnífica exposição do artista. A conversa teve lugar após a sessão inaugural deste evento que abriu com chave de ouro: Paul Bhatti, ex-ministro da Harmonia Nacional do Paquistão. Após  o assassinato do seu irmão, Paul, médico, é agora um activista pelo diálogo inter-religioso no Paquistão. Apesar de viver sob ameaça de morte, Bhatti  tem uma presença imponente, corajosa, e de uma paz sorridente e desarmante. Foi ele que deu o mote a este evento cultural. E  nessa noite houve mais: Elvira Fortunato, Henrique Leitão, Afonso Reis Cabral.

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28
Jul17

A cultura do autoclismo

por Fátima Pinheiro

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Tanta pressa!! Passamos a vida a despachar. Ontem uma amiga de infância fez anos. Enviei logo de manhã uma sms, para despachar. O ideal era ir lá e dar um abraço. Mas ao menos um telefonema seria muito melhor do que a mensagem  digital. E o que dizer da voz, as gargalhadas!! Mas pronto, ao menos estive digitalmente. Sou tão organizadinha. E tenho medo de não ter tempo para tudo. Não é bem medo. É não querer deixar nada para trás, não me deixar ao improviso. Se fosse um funeral, ia, claro. Mas amanhã é dia de trabalho, e tenho tanto para fazer!! Ou então vou já à missa, para despachar. Ao menos cumpri o dever dominical. Eu que gosto e preciso de missa sempre, caio nesta tantas vezes!

Outra.  Vamos ao cinema. Antes comemos qualquer coisa - não é jantar - e depressinha. A que horas é o filme? perguntamos entre duas dentadas, faltam 5 minutos, despacha-te. Mas tem os anúncios. Ok. E vamos. Este está feito, fui ao cinema. Às vezes adormeço. Quem bom! Despacho umas horas de sono, e fui ver um fime. Quer dizer não vi nada. Parece que fazemos tudo o que é bom, mas sem o fazer. Não gozamos mesmo. É como lavar mal os dentes. Mas lavamos. Ou curtir o almoço com um colega, sem almoçar e na boca, com o sabor agro-doce de uma coisa que não leva a lugar nenhum. Só para despachar este ar antiquado de quem, na prática, não  vive neste maravilhoso século XXI, de homens e mulheres que mudam de partner como quem vai à casa de banho, faz o que tem a fazer e clica no autoclismo.  É como ir ao ginásio, a correr, claro! Agora inventaram o conceito  de "escapadinhas"...

E no trabalho? Às vezes dá gosto, outras não. É como os dias. É como o fim de semana. Muitas vezes o melhor é despachar: os cinco dias que passem depressa para chegar aos dois; ou que se despachem os dois para chegar aos cinco. O mesmo dos dias de férias. Temos pressa de chegar às rotinas do trabalho. E queremos mais um reveillon, queremos passar para o ano a seguir. E as prendas, ou prenda, de Natal? Tudo a  postos. Agora às vezes, para despachar, é um envelope com dinheiro. E damos a  boa  desculpa de que é com dinheiro porque a pessoa pode escolher o que quer. Ele tem tudo! Ela é que sabe! Na, na, queremos é vêr  o assunto despachado,  não ter que pensar. Bastaria um bocadihno para imaginar o que a pessoa gostaria. Mas, até ja me esqueci de ti! Já não sei quase nada de ti. De que cor é o teu cabelo? És careca? Fiquei na semana que passou, ou ainda me lembro de coisas de há 10 anos ou mais atrás. E nunca mais tenho netos!!! E a viagem que vou fazer para o ano. E a minha festa de anos? Feita. E aquela dos meus filhos arrumados, só falta o mais novo!!!!!?????? E os dias para os sogros??

Tanta pressa. E os dias não perdoam. Vão passando. E vou a correr buscar os filhos, sobrinhos, ou visitar os velhinhos que encaixo aos sábados na minha vida, ou vou ao jantar marcado atempadamente para não falhar - ou despachar... - fazer as compras, o comer. E a loiça lavada, e  a roupa em dia. E o livro todo lido. Às vezes a passar as páginas à pressa, para chegar ao fim. E ter lido! Há quem leia em cruzado. E fui ver o tio ao hospital. E as rotinas das praias e dos toldos ! E a abstenção, os inquéritos parlamentares, comissões independentes e segredos de justiça?

Pode ser tudo muito bom, eu sei. Mas pode ser tudo muito mau. E por ser a despachar - vida que não me dá prazer nem gozo - tenho vindo a inovar. Como? Comecei seriamente há uns meses. Embora dê trabalho, é muito simples. É perguntar-me: "Fatinha, o que queres?" "Escreve num papel!". Esta pergunta pode ser feita em qualquer lugar, mesmo em plena asneira.

Escrevi tudinho. É só coragem e decisão. E tenho vindo a despachar o que não me interessa. Uma espécie de ascese. O papel é um vade  mecum, um escapulário onde decidi  escrever os nomes dos meus amigos.  Há coisas que não se deitam no autoclismo. 

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29
Jun17

Salvador: A case of me

por Fátima Pinheiro

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Fotografia tirada da net

 

Um homem que canta o que cantou, as palavras mais apropriadas para aquela noite, na qual corria ainda muito sangue, e veio ainda depois pedir desculpa pelo que disse, e agora é enxovalhado!!!!!! Mostra o país em que vivemos. Transcrevo as palavras de Jonnhy Mitchell, A case of you. Sangue do meu sangue. Salvador é um caso. É genial.

 

"Just before our love got lost you said "I am as constant as a northern star" And I said "Constantly in the darkness Where's that at? If you want me I'll be in the bar" On the back of a cartoon coaster In the blue TV screen light I drew a map of Canada Oh Canada With your face sketched on it twice Oh you're in my blood like holy wine You taste so bitter and so sweet Oh I could drink a case of you darling Still I'd be on my feet oh I would still be on my feet Oh I am a lonely painter I live in a box of paints I'm frightened by the devil And I'm drawn to those ones that ain't afraid I remember that time you told me you said "Love is touching souls" Surely you touched mine 'Cause part of you pours out of me In these lines from time to time Oh, you're in my blood like holy wine You taste so bitter and so sweet Oh I could drink a case of you darling And I would still be on my feet I would still be on my feet I met a woman She had a mouth like yours She knew your life She knew your devils and your deeds And she said "Go to him, stay with him if you can But be prepared to bleed" Oh but you are in my blood You're my holy wine You're so bitter, bitter and so sweet."

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19
Mai17

Saiu-me e disparou

por Fátima Pinheiro

 

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 a capa de umas revistas que gosto

 

Explodi! Ele há coisas, há.  Já ando um bocado farta da agenda mediática Fátima, Papa, Sobrais e Benfica. Dá muito jeito uma agenda  pronta a comer, quase self service. Eu própria, como se está a ver, estou neste momento a usá-la. Eles, os tópicos, não são de agora e não são consensuais.  Mas nestes dias só se fala deles. Sempre com filtros, monoclos, não há outra forma. Descartes pensava que sim, mas enganou-se. E tudo ao mesmo tempo, o que levou a uma espécie de atropelamento, por vezes um certo stress, de sempre mesmo do mesmo. Assuntos interessantes, mas sem se adiantar nada de novo, de constructor. Salvo raras excepções. Abençoado João Canijo. E certos livros.  Passada a febre, já voltamos ao normal. Ou não??

Madonas, Trump, Rússia, a má da Coreia, Brasil, agora pela voz de Temer, Uber, Lua de mel de Bruno Carvalho, e pouco mais. Sempre no fundo a intolerância, a ONU de Guterres, as autárquicas, os mártires cristãos na Siria, Macron, Chico Buarque e Carminho, Rui Moreira. E Marcelo, Ronaldo e Costa sempre. Ah, e o terrorismo, já me ia esquecendo. Sobral no Parlamento e a Aveiro a fazer furor, agora no Brasil. A economia a crescer, e de quem é afinal o mérito, e onde e como vai ser o festival da Eurovisão. As videntes e a Terceira Guerra Mundial. Voltamos a ler-nos no epidérmico. Mas onde é que está o gato?

Voltando ao que me referia inicialmente  - onde já vai a discussão teológica visões versus aparições - há dois dias saiu-me quase sem querer um post.  Muito porque nâo gostei da televisão, salvo raras excepções. Estive em Fátima a 13 mas pernoitei de véspera em casa de uns amigos, e vi pela televisão. Tiraram-me a fotografia que inspirou o dito post. Tive tantas visualiações! E fiz o que sempre faço. Escrevo o que penso das coisas que se passam e gostei de ter tido muitas visualizações. E penso na razão que terá feito subir os que por aqui passam.

Cheguei a uma primeira conclusão. O facto de toda esta circunstância  ser rica de potencialdades mudou-me; fez-me carregar o botão com mais força e parar. Fazendo o que sempre faço, fi-lo de forma mais exigente, paradoxalmente, baixando os braços. A querer respostas mais completas. A querer uma comunicaçâo social mais séria, uma vida mais autêntica. A pedir que me ajudem na procura e construção de músicas, teologias, políticas e pessoas mais belas. A ser uma pessoa mais bela.  É o que quero. Talvez o Salvador, a cantar como ninguém, seja o mais pessoal e universal de tudo isto, mais um "pastorinho" que me ensina o que me corresponde: eu sei que não se ama sozinho.

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05
Mai17

Geringonça intelectual

por Fátima Pinheiro

Aquela caipirosca, ao pôr do sol, à beira mar, hmmm! É subjectivo, senão eu não dava por nada. E o meu pequeno almoço, hoje de manhã, subjectivo. O sumo era o mesmo, mas cada um bebeu-o e comeu, senão só vi os outros a comer e a beber,  e eu não. Amanhece, vemos ambos o sol a irromper (hoje muito timidamente) no céu. Subjectivo. O sol não, mas ele a aparecer-me hoje de manhã, é coisa minha. E o chover também . Resumindo, tudo o que acontece é subjectivo, senão eu não dava por isso. Seja a pedra em que tropeço, ou as do castelo de S.Jorge, seja um sonho, seja uma ideia, seja o mar, seja o horizonte, são subjectivos,  não estivesse eu a falar deles. E faço-o com recurso à minha memória. E quanto mais potente for a memória que agora exerco, mais forte a presença das coisas que referi, tão forte que por momentos estou quase a beber a caipirinha (cfr. S.Agostinho). Mas não. Se quero uma caipirinha tenho que ir beber outra. Parece conversa de chacha. Mas não. Até porque palavras leva-as o vento. Todas. São palha diante da imensidão de Deus (S. Tomás).

A filosofia morreu, e fomos nós que a matamos. Diz-se que a verdade morreu. Verdades, sim senhora, senão é arrogância e falta de humildade. Tenho reparado que só ateus e agnósticos dizem coisas do género : "eu, na minha humilde opinião." Mas ai se lhes pisam os calos,  e que ninguém se atreva a negar-lhes a verdade desportiva. Quem quer poucachinho? Verdade  (Aletheia) quer também dizer luz.

Sinto-me frágil? E quero asas de condor? Um traço de avião, quando um beijo não basta? Jorge Palma, Florbela Espanca, Pedro Abrunhosa! Sim. Objectividade é o presente de quem procura. Descartes sai do cogito, porque nunca saiu do mundo. Nossa Senhora apareceu em Fátima como entendeu. Assuntos tão sérios não se arrumam num post. Mas não é com pseudo esclarecimentos mediáticos que a coisa vai. Ainda esta semana, mais livros, mais entrevistas sobre se a Senhora apareceu ou não. É a cultura do descarte. Para se vender e marcar pontos.

Termos técnicos não caem do céu aos trambolhões. Não é preciso Teologia nem Filosofia para saber que as Aparições são verdadeiras. Os pastorinhos eram só pastores, com uma vida e simplicidade exemplares. Só uma má fé geringonçica teima em não querer ver. Em não aceitar que não são visões fantasiosas que levam  um homem como o Papa a ajoealhar-se diante da Senhora mais brihante que o sol, aparecida na Cova da Iria, em cima duma azinheira, faz 100 anos a 13 de Maio. Foi subjectivo, e, paradoxalmente, uma Presença, duma objectividade inexplicáveis.

 

 

 

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13
Abr17

ECCE MEN ou PAUSA

por Fátima Pinheiro

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 Zurbaran, Nossa Senhora em pequenina

imagem tirada da net

 

Sim, é sobre a Semana Santa. No princípio era Descartes. "Culturalmente" falando, claro. Já tinha havido muitos filósofos antes. E há-os por todo o lado. O eu foi dividido, a parte mensurável uma, a parte não mensurável, outra.  O ideal da ciência: tudo medir. Mas há coisas que não se medem. Uma coisa é o  olho, outra o olhar. A fenomenologia tem razão. Husserl e M.-Ponty, neste ponto, em particular. A mão e o gesto, etc.

O golpe cartesiano deu lugar a tanta sabedoria, como se o eu se desdobrasse nas suas infinitas possibilidades como projecto, podendo assim reflectir-se e ficar a conhecer-se melhor. É a vantagem da História. De nascer hoje. Aliás não pode ser de outra forma.

E o eu desagregou-se a um ponto que já não se considera insensato afirmar que cada um é o pós-pós-pós-moderno que quiser ser. Sem esquecer a utopia de um futuro feliz e socialista ao qual pouco importa que cada um possa assistir, porque o material é decomponível. E a luta era para o outro, e para o outro a seguir, sempre para melhor, mas sem mim.

E sem esquecer a, tão de hoje, modalidade de um eu que se quer ele próprio confundir com o infinito; passando assim a haver só infinito, sem que o eu se diferencie. Um desejo de dissolução, porque a dor é insuportável, melhor então é vivê-la estando acima dela. Multiplicam-se filosofias, religiões, movimentos, sincretismos, “à la cartes”, etc., que encorajam e ensinam uma ascese que se pretende boa. Uma elevação ou despojamento que devolve o eu ao Absoluto, a gota ao mar, uma espécie de panteísmo. Uma felicidade sem eu, sem mim.

A mim parece-me mais humano um eu que não se apague e que veja cumprida a sua fome e sede de infinito, como lembrou a nossa Florbela Espanca. Um eu que quanto mais grita pelo que quer, mas se afirma a si mesmo, sendo ele e não outro. Porque é nessa diferença que pode entender e partilhar o seu e o grito do outro. Na mesma dor. Na mesma alegria. A desejar beberem e comerem do mesmo Pão e do mesmo Vinho.

De que me serve um futuro ou uma dissolução, se aquilo que eu sou é mesmo fome  e sede de infinito, mas AGORA e sem PAUSAS? Insaciáveis. Sobretudo diante da dor, dos outros, que é minha também. Gosto de vestir a camisola. Eu, não outro. Também a dou se for preciso. É isso que quer dizer que nos comemos e bebemos uns aos outros. Simpatia. Compaixão. Amizade. Amor.

E o melhor mesmo, é uma boa refeição em que cada um saboreia com gosto o que está à mesa no meio de todos. E brinda. Em companhia. Não quero que comam por mim. Não o impessoal. Posso até morrer de fome. Mas isso é uma decisão minha.

Onde está o LOCUS ISTE? O meu lugar? Na verdade eu não tenho lugar, eu sou um lugar, sou eu.

Onde “está” o LOCUS ISTE? Acontece-me. A mim.  Tudo o mais seria alienação estética, religiosa, e outras. A minha tensão está em sentir, levantar-me, com os meus pés. Toda. Onde quer que seja. A ser eu, aos bocadinhos, sem maniqueísmos. Para que serve a minha vida se não é para ser dada, dizia Claudel. As coisas anunciam-se e eu quero dizer sim. Não mudo o mundo, sei que há quem lute por um feijão. Posso dar sopa a toda a gente? Se calhar podiamos. Mas quem nos dá a nós?

O mais importante no Cristianismo não são os valores, não é a moral. O diamante do cristianismo está muitas vezes envolto na lama das nossas mãos sujas. Mas está.

As partes da feijoada de que eu gosto mais são a farofa e a couve. Passo sem elas se for bom. E não quero nada rever-me naquilo que o Cardeal Cerejeira dizia dos católicos (ou de Lisboa, ou Portugal, não me recordo agora): comem, bem e não fazem mal a ninguém.

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27
Mar17

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Marcelo espalha afeto por todo o Portugal. De onde lhe vem a energia? O Presidente esteve no Meeting de Lisboa 2017, neste sábado à tarde. Já tinha estado no ano passado, e estará para o ano, disse-o nas palavras finais, de saudação aos participantes neste evento anual, que já faz história na Praça de Touros do Campo Pequeno. Nascido de uma vida que é o Movimento Comunhão e Libertação, é um evento cultural no autêntico sentido do termo. Não é um discurso, mas uma presença. Não é uma utopia mas um Acontecimento.

O tema deste ano: Do amor ninguém foge. Como já aqui referi, a frase tem a sua história, a de um homem chamado José que passava a vida a fugir das prisões até que foi parar a uma das prisões do sistema APAC, no Brasil, que difere, entre outros elementos, em que as chaves estão nas mãos dos reclusos.O Juiz responsável por grande parte desta obra foi um dos conferencistas que inaugurou o Meeting. Ao visitar o lugar de onde José já teria fugido, espantado deu com ele lá. Porque não fugiste?, perguntou -lhe. Do amor ninguém foge, foi a resposta daquele homem. Não é utopia, não é discurso.

O que se Mostra são pessoas cheias de vida e obra, contagiam, mudam, protagonizam, fazem acontecer. Entre exposições, conferências, testemunhos, reflecte-se nas caras das pessoas que nele participaram. Uma Coisa maior que nós, que tem por nome Cristo.

Marcelo disse : o Meeting é para carregar baterias. Eu diria que é para carregar o coração. O meu precisa de carregar cada dia.Tem uma fome e uma sede do Amor, um vazio rico na sua pobreza. Como testemunhou um rapaz italiano de 21 anos, saido da toxicodependência, este vazio é a força que o faz andar em frente, de fratura exposta a fazer história, a mudar corações, a começar pelo seu. Do Amor ninguém foge. 

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24
Mar17

Haja homens e dinheiro para vinho!

por Fátima Pinheiro

 

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Muito se tem falado de dinheiro, homens, mulheres e vinho. Não há cultura que os não tenha. As redes sociais são uma mistura de verdades e falsidades, pelo que, para chegar ao diamante, é preciso trabalho. O trigo e o joio crescem juntos e, diz o mesmo livro, é preciso discernir sempre. Uma opinião que construa bem comum torna-nos mais humanos porque incide sobre a vida de cada um de nós. Uma opinião tem mais valor ou razão se tiver em conta os aspetos da vida, sem nada esquecer. Sou eu que decido o que quero, por muito que apertem os condicionalismos que habitam nas minhas circunstãncias. Sou eu que paro, olho, e vejo. E peço ajuda.

Davide Rondoni está em Lisboa. Fui ouvi-lo ontem numa conferênia "O amor não é justo: uma leitura de Miguel Mañara". Antes dele o Pe Pedro Quintela fez um discurso que é tão verdadeiro e atual como a obra que fundou e dirige, o Vale de Acor. Assim começou o Meeting de Lisboa 2017, cuja abertura oficicial é hoje, e tem como tema "Do amor ninguém foge".

A alternativa de Mañara é também a minha. Não se trata de decidir entre a vida e a morte, mas sim entre o Amor e a Morte. O coração, o eu, tem uma sede de infinito que o faz procurar, por entre as mulheres e vinhos. Não encontra. E procura. É bom ser D.Juan. É sinal de um bater de coração, que não se satisfaz com meias tintas, nem com intermitências de prazer. Ele quer comer e beber o que mais deseja, e não desiste de procurar. Ao encontrar the one, e de ser correspondido, acaba por não a poder ter. Aí estão o problema e a solução. Amar é não possuir. Se te dizem "tu és a razão da minha vida", estão a dizer-te uma impossibilidade. Haja homens e dinheiro para vinho. Amar e ser amado, é lançarmo-nos, entre beijos e abraços, em algo que não abraçamos totalmente, sublinhou o incatalogável Pe Pedro Quintela.

Haja homens e dinheiro para vinho. Logo à noite, na praça de touros do Campo Pequeno, as pegas vão ser muitas. Do amor ninguém foge. Sei porquê e quero mais.

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  imagem tirada da net

Andrei Tarkovsky, "Stalker" (1984)

 

Pode Chernobyl ser uma beleza? Pode sim senhor Ministro. O cinema é a 7ª arte. Por isso Chernobyl pode sim, ser uma beleza. A Cinemateca, Deus a guarde, vai passando estas genialidades. Alguém, ido ao engano, arrependido de ter ido ver este filme dizia: "a paisagem é horrível!". Não sabia que o que estava a ver se passava na estação nuclear de Chernobyl. Melhor, no que de Chernobyl restou e só ao realizador russo lembrou fazer ali: o percurso de vida de cada um. Um com letra grande. O meu percurso de vida. O Caminho.

 

A força de cada imagem leva-nos ao perguntar que todos temos e queremos e sabemos calar. Mas a força do sentido, que teima em gritar em cada mesma imgem, vence o mais desprevenido. Não há bons nem maus filmes. Há filmes. E estes não têm mensagem. Como dizia o mestre Oliveira - que lembramos mais estes dias porque faz 108 - o cinema é a vida, e públicos só os urinóis. A "paisagem" é horrível? Pois é, vêmo-la todos os dias nestas convivências de uns com os outros que mais parecem um teatro de cegueira.

Paradoxalmente, ao homem que desde o início nos deu a cara de Oliveira, que todos estimamos, cortam-lhe as pernas. Sim senhor Ministro, estou a falar de Luís Miguel Cintra. Toda a regra tem uma excepção. Eu sou democrata, mas sei o que é a poesia. Públicos? Só os urinóis. E Cintra? Responda quem sabe.

 

 

 

 

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 Teresa Vilaça e João Almeida/Casa Museu Medeiros e Almeida

 

 

A Casa Museu Medeiros e Almeida fez anteontem 15 anos. O Rasante esteve na Festa e trocou umas palavras com a sua directora, Teresa Vilaça, que nos fez lembrar Picasso : "dêem-me um museu e eu encho-o."


Rasante (F) : Teresa Vilaça, Diretora da Casa Museu Medeiros e Almeida que faz hoje 15 anos. Em poucas palavras ou sintetizando, o que é esta Casa?

Teresa (T): Esta Casa é a casa onde viveu o senhor António Medeiros e Almeida e a mulher. Mais tarde, transformou-se em Casa Museu. Também pela ausência de descendência ele quis abri-la ao público e, portanto, oferecê-la ao usufruto do público.

F: Só que esse senhor, não sei se muita gente saberá quem é...

T: Não, se calhar não sabem quem é mas de facto ele foi um grande empresário, foi um homem muito importante. Foi um homem tão importante, mas bastante low-profile; tão importante quanto foram os Champalimaud, os Melo ou mesmo os Espirito Santo mas ele, e aliás era amigo deles todos, e dava-se com todos, mas de facto muito low-profile, acaba por ser um bocado pouco conhecido.

 

F: De qualquer modo, deixo o link para quem quiser e vale realmente a pena visitar esta casa. Eu também não a conhecia há uns anos, conheci, e agora considero um pouco a minha casa mas Teresa diga lá então.

T: Mas portanto eu posso dizer que esta casa apresenta a melhor coleção de artes decorativas que o país tem. Mesmo tendo a certeza que a fundação Gulbenkian é uma boa coleção mas a fundação Gulbenkian foi feita por um não-português.

F: Então Medeiros e Almeida é o maior colecionador português!


F: E cheio de gosto....

T: Cheio!

F: Diga lá peças... Coleções...

T: Peças únicas que não se vêem mais em lado nenhum, o relógio de noite da Rainha Catarina de Bragança, ...

F: E montes de relógios, não é?

T: Para além da melhor coleção de relógios que a Europa apresenta, os relógios Breguet, a melhor coleção de primeiras encomendas da porcelana da China da passagem dos portugueses no século XVI pela China, já que foram os primeiros a lá chegar... Uma belíssima coleção de mobiliário assinado francês...

F: Eu até li no New York Times há pouco tempo que esta é uma casa obrigatória de se visitar, que pouca gente conhece mas que é obrigatória de se visitar. É verdade, não é?

T: Exatamente.... Neste momento, é considerado um dos pequenos museus obrigatórios já que os pequenos museus são chamados os museus cheios de charme. É uma casa com as memórias... Que transporta as memórias do casal que aqui habitou, e isso é muito apetecível às pessoas.


F:
Outra coisa que eu noto, porque eu venho também de vez em quando aqui comer neste adorável buffet que se pode usufruir todos os dias (a comida é muito importante e as refeições são muito importantes...). E tenho visto a casa e tenho apreciado cada vez mais a casa. Sinto-me em casa. O que é que diz às pessoas, para virem cá?

T: Exatamente, que venham ver uma casa que no fundo toca a todos porque todos temos as nossas memórias e as nossas memórias são sempre mais ou menos coincidentes com aquilo que se vê aqui, e portanto, isso toca-nos muito, é uma coisa que todos saímos daqui com um encantamento. Para além de que aproveitamos também e vemos belíssimas obras de arte, que nos deixam...

 

F: E a casa está sempre cheia de coisas, colaborações... Eu própria até faço cá uns debates, mas agora não venho cá para falar sobre isso, mas noto que tem sempre exposições... Como é que é, as pessoas chegam aqui... A Teresa tem olho! 


T: Nós temos uma programação que normalmente está a dois anos e portanto, vamos conseguindo manter essa programação perfeitamente viva... Mas de qualquer maneira, um dos objetivos desta casa é exatamente ser transversal a todos os tipos, não é só museu, e, portanto, também abrimos os espaços a debates, a conferências a temas fraturantes enfim, a tudo aquilo que nos aproxime cada vez mais da sociedade civil, que é isso que nós pretendemos.

 

F: Por exemplo, este ano, o que é que se destaca? Eu vim cá várias vezes e vi sempre coisas novas... Coisas de pintura, de fotografia...

 

T: Acabou de sair daqui uma belíssima exposição sobre 2 artistas contemporâneos – a Carla Cabanas e o Manuel Valente Alves... Vamos ter ainda várias, práticamente mensais até o fim do ano...

F: E faz muitas visitas, não é?

 

T: Fazemos visitas diárias, há um site da casa museu, onde está isto tudo. Estamos permanentemente a fazer visitas até gratuitas, oferecemos visitas, visitas temáticas, visitas à casa Museu, visitas...

 

F: Aos Sábados... Às Segundas...

T: Aos Sábados... De 15 em 15 dias aos Sábados do meio dia à uma, há visitas guiadas gratuitas. À quinta-feira de 15 em 15 dias há visitas temáticas à hora de almoço gratuitas, portanto, os sábados de manhã são também gratuitos... Portanto, o público não pode dizer que não vem cá porque é muito caro.

 

F: E para se informarem então, vão ao site e vêem tudo?

 

T: Aconselho vivamente irem ao site. Se não entenderem o site, procuram o número de telefone, telefonam, que ao telefone daremos todas as informações.

F: Teresa, qual é a peça que a toca mais...

T: A que se destaca para mim. Eu sei, eu sei muito bem qual é.

F: Então diga.

T: É um par de cómodas que ainda hoje falámos. É um par de cómodas portuguesas em pau santo, Dom João V do século XVIII que é uma coisa magnifica, pela sua dimensão, pela sua escala, pelo seu movimento... São umas cómodas barrocas, lindíssimas que eu de facto...

 

F: E de onde lhe vem essa energia toda?

T: Ai, isso não sei...

F: Que está, está!

T: Eu penso que é uma necessidade, de avançar, continuar, e portanto, sem energia não seria possível dominar isto. Que apesar de tudo, é muito trabalho, e uma mini-mini, super equipa.

F: Mas é uma mini equipa!

T: Mini SUPER equipa!

F
: Uma coisa que lhe devo dizer é que no facebook estão sempre a meter coisas novas...

T: Permanentemente...

F: E uma coisa que eu noto, é que o vosso facebook relaciona os assuntos da atualidade com peças que vocês têm!

T: Exactamente!

F: E verifico que têm sempre uma peça que tem a ver com o atual.

T: Sempre. Temos 2500 peças expostas e portanto, a graça que se faz, diariamente, é chegar ao autor da peça, ou à pessoa com quem a peça está relacionada no dia do nascimento. Portanto no dia dos anos dessa personagem, que está relacionada de alguma maneira com a peça, nós pomos “Parabéns ao não sei quantos” e pomos a peça.

F: Ah... Certo... E depois têm coisas giríssimas. Abriu agora uma coleção, quer dizer agora não, há um ano creio, uma coleção de leques...


T: Exatamente.


F:
Que coleção é essa?

 

T: É uma belíssima coleção de 270 leques, dos quais, 70 são europeus e 200 chineses. E então abrimos; nós só expusemos para já, os europeus. Mas a ideia é daqui a 2 ou 3 anos,  fazer a rotação e virem os chineses. E expusemos os leques, que tem sido um sucesso porque é também uma temática das artes decorativas que não está muito explorada.

 

F: E hoje aqui nesta tarde de festa, que estamos aqui a concluir, ouvi também dizer que também há música... E que há...

 

T: Há Concertos...


F: E Ballet...


T: Sim, há ballet...Exactamente.

F: Há de tudo!

 

T: Há de tudo um pouco...


F: “Eu faço tudo”, pode dizer! Risos

T:
Exatamente. Eu faço tudo. Dinamizo...

F: A Teresa faz tudo, parabéns.

T: Muito obrigada Fátima.

F: E de certeza, o casal Medeiros e Almeida deve estar muito contente com o seu trabalho.

 

T: Espero que sim, eu espero que sim...

F: E convidamos todos a virem, que têm as portas abertas!


T: Muito obrigada!

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