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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

31
Ago17

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fotografia Rasante 

 

"Eu agora vivo um dia de cada vez", dizem-me como se me estivessem a dar a notícia de última hora. E tenho ouvido esta frase vezes sem conta. E os títulos de muitos livros que têm vendido que nem pão quente vão nesse sentido, género "O poder do agora".  Eu também já a disse e digo, porque eu, há uns meses, também decidi viver um dia de cada vez.

Há sempre uma razão para essa decisão.  Mas não é só uma decisão. Como se poderia viver se não fosse um dia de cada vez? A verdade é que, por um lado, ninguém pode garantir que chega hoje ao final do dia. Não sabemos nem o dia, nem a hora. Por outro lado não é mentira eu dizer que hoje vivi muitos dias, ou seja, ontem, ao olhar para o dia que tinha passado, entrei no "palácio da memória" e vivi muitos, muitos dias. 

Viver um dia de cada vez  - falo do que oiço e vejo  - pode querer dizer, vou mas é gozar e o resto, o que vem, logo se vê. Há mesmo quem pise, ou se aproveite dos outros, para ser mais, no dia de hoje. Menos paleio, mais ação. E nesta forma de viver há mil nuances.

A ansiedade vem, e é verdade, de a pessoa se fixar no futuro, no que serei, ou no passado, o que fui.  Há casos doentios. Mas a verdade é que o passado e o futuro têm que estar. Se não estivessem não viveriamos de forma humana. Mas isto é como uma receita de um bolo, o bolo do tempo. O tempo  presente precisa dos ingredientes todos, nas quantidades certas. O poder do agora, o seize the day,  não se capta numa decisão voluntarista de tipo esperto,  ideológico e estratégico, mas num entender que nada me falta decidir a não ser o alimentar de uma terna, dedicada, integral e arrasadora paixão por mim mesmo, hoje. Sem calculismos, aberta à surpresa e corajosa para inverter o caminho, parar, ou aceitar mesmo as mãos atadas. Como um dia alguém me disse "que o quotidiano se torne heróico e o heróico se torne quotidiano". Como se as minhas mãos não fossem minhas. E realmente, em certo sentido, não são.

Numa  palavra, viver um dia de cada vez não é a decisão agridoce de não ter outro remédio, mas a alegria que vem do abraçar tudo o que me está a acontecer.

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26
Ago17

"let's focus" ou "let's fuck us"?

por Fátima Pinheiro

 

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fotografia Rasante

 

Já ouvi quem tivesse usado uma expressão, quando deveria ter usado a  outra, num encontro em que o objetivo era focar-se sobre um tema. O que o alto dirigente português disse foi afinal outra coisa. Os americanos ficaram a gozar o prato. O português disse "Let's fuk us on this subject!". Em vez do queria mesmo dizer, que era "let's focus!" Mas vendo bem não estava assim tão errado.

Na realidade o que se tem passado no nosso país corresponde mais a um "let's fuck" do que a um "let's focus". Anda tudo a marimbar-se, a concentração e o focar-se já era. O que é que realmente interessa? Sexo, dinheiro, luxo. Para ter, ter, ter. Para poder. É a cultura do goza enquanto podes, a vida são dois dias. 

Eu também sei que a vida são dois dias. Por isso não a perco em "fuck" que passa rápido. Invisto na alta banca. Não quero apenas "viver bem, comer bem e não fazer mal a ninguém". Quero gozar até ao tutano, não me interessa só o que está à pele, quero arrepiar-me também por dentro. 

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08
Ago17


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fotografia de um dos meus Conhaque-Philo, que me fazem muito feliz, na Casa Museu Medeiros e Almeida

 

O meu método para ser feliz custou-me apenas o que vivi até hoje e é feito de lugares comuns. Só se distingue dos outros porque é o meu. Contudo, porque é mais o que nos une do que aquilo que nos separa, partilho. Penso que posso poupar tempo a muitos, e porque faz parte da vida um princípio básico: experimento mais alegria em dar do que em receber, o que só acontece - a alegria - depois de dar. Sem saltar primeiro,  nada de verdadeiramente  interessante me acontece. É uma receita sim. Uma prescrição que tenho aprendido. Paradoxalmente, é no entanto intransmissível. E os 5 highligts andam sempre juntos e sem ordem cronológica. São casados.  O sol nasce para todos, mas ninguém o vê por mim. O meu método numa palavra: rasar. 

 

Manoel de Oliveira, o Papa, Eduardo Lourenço, Santo Agostinho, Luigi Giussani, Luis Osório, Mafalda Sá da Bandeira, Georges Stobbaerts, Tim Cook,  são decisivos. "O resto é mar, coisas que eu não sei contar".

 

1. Confiar

Sem isso nada feito. Confiar significa apostar na hipótese de que ela, a vida, é e está para me ser favorável. Também posso mandar tudo à fava. É uma opção. Razões para a minha hipótese? Basta reconhecer que houve pelo menos uma vez na vida em que foi assim.

 2. Simplificar 

A vida é simples, não é difícil. Ela, a vida é, sim, complexa. Razões? O que faço eu para me por a funcionar, o que fiz e faço para ser e existir? Rien, de rien. Do envelope vazio não tiro 20€, verdade? Dificil é por exemplo, e digo para mim agora, fazer o pino ou jogar como o Ronaldo. Por outras palavras,  a vida está ao meu alcance, o trabalho que me é exigido é tão  só seguir ou desbravar as circunstâncias. Ser muito esperta a olhar, abrir os olhos. Observar, observar, observar. O quê? O que me vai caindo ao colo, e levantar o rabinho para ir ver por detrás, debaixo da mesa, ou do outro lado da rua. A vida é simples e exige simplicidade. E trabalho.

3. Distinguir

Distinguir o que interessa daquilo que não leva a lado nenhum. Distinguir essenciais. Aguçando o interesse, o gosto, ir ao core, ao que vale a minha atenção. "Não me encontrei no lixo". Um bom banho ajuda sempre. E depois? Depois sento-me e escrevo num papel o que quero. Um plano ambicioso. Mas verdadeiro. Um plano com aquilo que quero mesmo, de coração na mesa e sem medos. Neste momento não interessa se vou ou não vou conseguir. Interessa sim saber identificar aquilo que me pode fazer feliz. Sem rodeios, identificar o alvo. Mas sem pintar a manta ou brincar às utopias mentirosas, porque nos enganam com adiares perniciosos e subversivos. Por exemplo, não me venham dizer que gordura é formosura.

4. Decidir

Identificado o que quero, segue-se a grande revolução: ter coragem para decidir lutar pelo que quero. Revolução significa ruptura e por vezes vilolência. Este é o ponto de viragem. E não é difícil!!!!! Está à mão. É arranjar a coragem, cuja etimologia é "ação do coração".  Escuso de subir aos altos das montanhas ou ao fundo dos mares. É já.

5. Pedir

Não dá para nos isolarmos. É mentira. Tudo e todos ajudam. Mesmo quem nos é obstáculo. Podemos usar a varinha mágica do espírito positivo que corta a direito e entende quem mais não sabe do que emanar o negativo. Há pessoas e coisas leves e outras pesadas. Neste ponto o segredo está no pedir eficaz, que pede à pessoa certa. Se pedimos também a Deus, então chama-se oração. E peço também aos outros e a tudo.  Arrepio caminho, ganho gosto e consolação. É mesmo "impossível viver sozinho". Companhia, memórias, sabedoria, amor. Vamos a isto, agora!!!

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29
Mai17

A mim não me enganas tu

por Fátima Pinheiro

 

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Foi ao pequeno almoço. Com o dia em frente. Estava uma das minhas revistas preferidas mesmo ao meu lado. Uma daquelas que não li, e está em banho maria quase há um ano, numa mesa da sala. Porque sim, gosto da "Attitude" e do  tema de capa deste número: felicidade. "Aquela é uma pessoa de atitude", dizemos por vezes. "Mas não ganha nada com isso", acrescentamos por vezes. O outro é que se safa. Sem um propósito à altura do humano que nos mede, a vida acaba por ser uma sucessão de safadices, sacanices, violências: físicas, psicológicas, morais religiosas. Contra homens, animais e mais que haja. Atitude: é precisa? perdeu-se?

Tenho presente atitudes de que me orgulho, nos outros e em mim. E sei que é ambivalente. Atitude de ditador e de santo, de mafia e de gebo. A questão é a montante. Não vale a pena fingir. O melhor para mim é saber o que quero, cara a descoberto, desmascarada. Sempre, sempre, a perguntar. A quem sabe claro. E às coisas também. Usar inteligência e liberdade. O resto, a grande parte da performance, está nas minhas mãos. A minha atitude.

Sem ela , sem uma atitude sustentada, acabo por vegetar, e não ser feliz. Sim, a felicidade não passou de moda. Posso dizer que a rosa é feliz, mas a felicidade aplica-a em primeiro lugar a quem sabe se o é, ou não. E a mim não me enganas tu, diz a canção.

 

 

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21
Mai17

Ando a desencabeçar!

por Fátima Pinheiro

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         algures no Alentejo

 

Gosto muito deste blog. Tenho um enorme prazer em alinhavar ideias, porque sim, principalmente porque me alarga as vistas, o mesmo é dizer, aumenta-me a qualidade de vida. Como se passasse a respirar. E verifico que a partilha tem resultados bons. E tudo fica melhor à minha volta. Tudo! Sem um sorriso à minha frente não vou mesmo a lado nenhum.

Muitas pessoas não precisam de escrever. Mas eu sim. É uma espécie de lavar os dentes. Kant dizia que a leitura do jornal diário tinha substituído a oração da manhã. Constatava. Eu rezo, não acredito na morte, tenho fé, faço por isso. Ponho-me a jeito. Quero ser feliz. Claro que a vida é misteriosa, nas suas curvas.

Nos últimos fins de semana tenho tido o privilégio de viver circunstâncias revolucionárias. Uma espécie de pinos. Gente nova, sítios novos, perspetivas novas. Não que esteja mais rica, ou que tenha mais pessoas amigas, ou mais saúde. Não que esteja mais nova, ou  tenha mais coisas. Ou que tenha descoberto um quinta ou sexta essência. Então?

Ando passo a passo, um de cada vez. Quando caio levanto-me, porque a vida dá-me a mão e eu agarro-a com as forças que vou tendo. Como se diz aqui no Alentejo, ando a desencabeçar. É muito bom!

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23
Dez16

Se não chego ao dia de Natal

por Fátima Pinheiro

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Eu sei lá se chego ao dia de natal. Não é brincadeira e digo-o em primeiro lugar a mim mesma. Muitos de nós não chegarão lá. Digo isto para mim, para não andar no natal em stresses, e para fazer as pazes com quem ainda me falta fazer. Deus queira que eu tenha mais tempo para isso, para poder ainda abraçar a tempo. Não porque tenha medo de ir parar ao inferno. Eu quero sim viver bem, sem nós, mas, ses e mas(es), porcariazinhas. Sem falsos risos ou chorares. E irei adiar...

Se  não chegar ao natal não terei o prazer de abraçar quem magoei ou quem me magoou. Quero uma coisa feliz, plena do que fazem os afectos.

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29
Abr16

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 os três

fotografia de Inês Torres da Silva

 
O sofá, a mamã e eu  é um espetáculo! Uma amiga convidou-me e fui. No fim, claro, fiz umas perguntinhas à Mamã, Valéria Carvalho. Mãe na vida real e no palco, escreveu com João Lima, o seu filho, um texto atrativo, pleno de ritmo e a prender-nos o tempo todo. Por isso voltei, e quero voltar como os meus filhos, e "comigo". É na Fundação Portuguesa das Comunicações, até 14 de Maio, às sextas e sábados. Mas espero que repitam, merece ser visto por muitos e muitos.
 
Leve e solto, o "show de bola" transporta-nos ao "eu", que eu sou, sem o qual nada de interessante acontece. O filho já não é só uma promessa e a mãe é uma atriz de mão cheia. Ambos com uma performance notável. Vitalidade, vitalidade, vitalidade. O monólogo lá mais para o fim revela uma mulher integral, e uma Rita Ferro no seu melhor (é ela que o escreve). O fim não conto, mas tem uma surpresa muito boa. Alegria e alegria. E conta-nos de príncipes e princesas encantados. Nessa noite eu fui uma delas. 
 
A publicidade resume assim: "peça que retrata o quotidiano familiar de uma mãe trabalhadora e consumista com o seu único filho a sair da adolescência para a idade adulta. Os dois vivem situações hilariantes, a par de alguns momentos de emoção, numa história pontuada pela ternura."
 
A nossa conversa segue em baixo. A seguir corri para Alfragide e "deslarguei-me".
 
Rasante (R): Vejo e revejo e não me canso. Cada vez gosto mais. Porque será?
Valéria Carvalho (VC): Alegra-me saber ! Talvez porque o texto mesmo sendo leve é profundo e subtil e aborda questões muito verdadeiras.
 
R. Ideia fabulosa: mãe e filho na arte e na vida real. Como surgiu a ideia?
VC: Desde sempre, eu e o João "brincamos" de teatro. Agora, como ele acabou de sair da EPTC Escola Profissional de Teatro de Cascais,  senti que ele estava preparado para este desafio, na vida tudo tem o seu tempo e eu senti que devia ser agora.
 
R. Diz-me Razões para ver a peça?
VC: É uma peça curiosa, divertida e profunda. Com encenação brilhante do italiano Lamberto Carrozzi  que conheci no Mindelact (Festival de Teatro do Mindelo). Música absolutamente fantástica de Marco Santos. Modéstia à parte, a nossa interpretação (minha e do meu filhote)... fomos muito bem dirigidos. A Fundação Portuguesa das Comunicações é um local muito agradável e de fácil acesso, aqui ao pé do Mercado da Ribeira. Mas sobretudo porque é uma peça contemporânea que agora temas atuais e dá alimento para a alma.
 
R. Quais têm sido as reações do Público?
VC: Reações muito verdadeiras, as pessoas riem bastante, mas também emocionam-se muito. É uma peça que faz refletir, sem dúvida. 
 
R.O que te surpreende na peça?
 VC: A reação do público! As pessoas acham graça onde nunca pensamos, é curioso. 
 
 R.Ser mãe. O que é?
VC: É  uma lição constante de humildade, de coragem, de evolução como ser humano
 
R.O "eu" que és, e que dizes tão bem no monólogo final, como o "defines"?
 VC: É um "eu" igual ao de toda gente... Um eu que precisa  aprender a amar a si próprio para poder amar e ser amado. É isto que viemos fazer aqui na Terra. 
 
R. O que é o "príncipe encantado" que referes no final?
VC: É aquele amor puro e verdadeiro, bonito e especial que acreditamos desde criança que vai aparecer  e fazer de nós uma princesa. Quando crescemos percebemos que é o contrário, é preciso se sentir princesa primeiro para o príncipe aparecer...
 
 R.Mas não será a felicidade uma utopia?
VC: É uma conquista diária, é a capacidade de reconhecer no dia a dia as coisas boas e agradecer para que elas se multipliquem.
 
 R. Adoro o vosso sofá (que não é do Ikea...) mas não sei dizer o nome. Como é?
 VC: Hahahahaha é um John Richard Ashton Classe A!!!!!
 
 
 

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05
Mar16

Sou um Espetáculo! Eu e o SOKOLOV

por Fátima Pinheiro

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Não porque a arte seja para mim uma segunda pele;  não porque hoje não me responsabilizo pelo que vai acontecer no planeta amanhã, durante e depois de beber todas as notas de Schuman e Chopin saídas da genialidade de Grigory Sokolov, quando eu, no final, cair nas mãos dele. Não porque nesta louca beleza de semana eu tenha feito mil coisas, sem me dividir e estar sempre toda em tudo. Sou um espetáculo porque sou um espanto. Em primeiro lugar, sou-o para mim mesma.

Às vezes perguntam-me: "como é que consegues fazer tanta coisa?". Ser eu, ser mulher, ser mãe, ser amiga, ser inimiga, fazer quase tudo em casa (ok, tenho uma bimbi), ter um trabalho "normal" e mais, isto é, escrever nos meus dois blogues, e escrever coisas por aí. Adorar ir às lojas. Cuscar com os amigos. Ajudar na Mercearia Criativa da minha irmã. Isto não acaba: sobra-me tempo para ajudar quem precisa (eu incluída), para fazer "contas", para dançar, para ver muita coisa linda - refiro-me às artes, todas, gosto de todas; "vejo" quer dizer também oiço, cheiro, mexo, saboreio. E outras coisas lindas. Todas. E adoro produtos e tocar. Sou mazinha. Também estou e muito bem nos milagres do facebook. Vou à missa todos os dias, como os padres e o novo Papa Francisco. E à Catequese. E ao Domingo é mais comprido. Farto-me de fazer coisas cá em casa, desde a festa do Carnaval, aos jantares dos benfeitores da condução (no qual juntei as três pessoas que me ajudaram a conduzir depois de ter estado anos sem o fazer, apesar de ter a carta). E ando sempre a inventar: vou fazer uma festa de Primavera, adoro servir, acolher mais uma conferência do José Milhazes sobre o ícone de Kazan. No meio da fazedura do jantar, diz-me um: "podes ajudar-me nos Lusíadas AGORA, tenho teste amanhã?", e quase ao mesmo tempo "o que é o jantar hoje?." Ainda me sobram horas para ter mau feitio, para as coisas me saírem torto. Mas também para rir, chorar, provocar. E mais diria: adoro chegar a casa mais cedo e fazer lanches parecidos com os que a minha avó materna fazia; tempo também de não fazer outras coisas que devia; e coisas que não devia fazer;  tempo de fazer o que não gosto. E para amostra chega.

"Como é que consegues fazer tanta coisa?". A verdade é que não consigo. É muito simples: É que eu estou sempre a "fazer" o mesmo. E não tenho nada a "defender". É só ser "eu". "Então mas não é porque consegues equilibrar tudo?" Eu? Equilibrar? Nem pensar! Isso seria matar o artista. Porquê? Eu explico. Uma amiga disse-me um dia que na vida não se trata de fazer equilíbrios e contou-me o que uma vez ouvira dizer a uma rapariga, numa conferência sobre felicidade e vida contemporânea (o título é horrível, eu também não gosto). À noite, quando o dia acabou, estás sozinha no teu quarto, e se acontece que choras, quem chora? É a executiva, a mãe, a mulher, quem chora? Quem chora és TU. Todinha e tudinho, se fores simples, como as crianças.

Equilibrar é possível, mas é uma alienação, tem cara triste quem assim tenta sobreviver. Viver é sim por toda a minha liberdade e empenho em deixar que "o que acontece" me aconteça mesmo (não me sentar na cadeira ao lado, fingir que não é comigo, e ficar a "ver passar"). A minha verdade está em espelhar tudo isso. Em ser um espetáculo. Em não fazer nada, a não ser "tender" na atenção do simples esforço de "querer" ser mesmo "eu". Não sou nada de especial, porque como eu não há igual. Sou mesmo ordinária. Hoje. Claro que penso em amanhã e no homem que me co-move como poucos aqui,  e amanhã às 19h Gulbenkian.

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Nikolai Lugansky  apresentou ontem uma interpretação do concerto nº2 de Sergei Rachmaninov. No programa da Gulbenkian pode ler-se  o seguinte: "Em recente entrevista ao Telegraph, o pianista russo Nikolai Lugansky comparava a sua relação arrebatada com a música de Rachmaninov a um mistério bastante universal: 'Se nos apaixonamos por alguém, é muito difícil explicar porquê'. Para Lugansky, Rachmaninov, a par de Chopin, é o compositor cuja obra estará mais sintonizada e talhada para a interpretação pianística.!

No final da sua performance fui ter com ele. O que gravei tem uma coisa boa. Ele tocou ali à minha frente a melodia que mostrou ao pai ("a pitch with a small instrument"), quando tinha cinco anos e meio,  aquela melodia soviética em que ele percebeu que tinha nascido para a música. O resto é uma grande barulheira , mas ouvindo com atenção tem o que remete para o essencial A música é vida, inexplicável. O que interessa é a beleza. A felicidade. E que não foram as pessoas que criaram a musica. Nem Rachmaninov

Eu? Completamente de queixo caído com tanta genialidade. E a ficar em silêncio. O que é muito raro em mim. Mas é muito bom.

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30
Nov15

 

 

Audiência do Papa Francisco com o Movimento Comunhão e Libertação na Praça São Pedro no dia 7/03/2015

 

Não invento. São palavras que já Bento XVI usava. Ele, Papa Francisco, também. São palavras retiradas do Evangelho, ditas por Jesus ao enviar os seus amigos para as suas vidas. Hoje, na reta final final da sua ida a África , e com o programa que se sabe, elas revelam-se bem atuais. Francisco tem pinta: salero, samba, pé para qualquer tipo de tango. Tem medo é de mosquitos, ficamos entretanto a saber na sexta-feira passada.

 

Pinta? Sim. Hoje ele corre riscos aos quais se poderia escusar. E eu não sou nada de fazer de quixote. Falo de coisas objectivas. Sei que qualquer pessoa o pode fazer: arriscar. Mas Francisco faz, e é dele que hoje falo. Foco sim as razões pelas quais ele faz. Percebi na carne quando ele olhou para mim há uns meses, na Praça de S.Pedro. Fazer por fazer cansa. Francisco faz porque encontrou um caminho que tem o nome: FELICIDADE. E não descansa enquanto não vir todos felizes. A mim faz. Tudo na vida parte de um encontro.

 

Na fotografia ele está mesmo a olhar para mim. Há uns meses fui a Roma no âmbito de uma peregrinação, e como vejo mal ao longe (Atchim!), furei até ali...Pedi ao meu parceiro do lado: "quando ele passar pode tirar uma fotografia dele a olhar para mim, se ele olhar, claro; pode ser a olhar para si; tamvém serve....". Ainda experimento esse momento: uma positividade, uma docura e uma energia de vitória, assim como um chefe guerreiro. Também me esqueço e vou noutras ondas. Mas isso não interessa nem ao Menino Jesus. O amor é uma decisão a tomar em cada trago, sendo que o que me define não é o meu balançear mas aquela marca, aquela raça que faz de mim um "snoopy" de carne. 

 

Cada dia tem razões  para eu me levantar. Senão é uma "monstruosidade" ou um voluntarismo. Cada dia é uma reta final. O que interessa é ser resistente (disse ele hoje de manhã) e deixar-se atravessar pelo sangue da boa nova. Não tenhamos ilusões nas luzes bruxuleantes deste natal esvaziado, que bem nos quer animar mas não tem potência. Se posent sur ma bouche, mais jamais sur mon coeur.

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