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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

23
Ago17

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A Secretária de Estado da Modernização administrativa,  disse ao DN que é homossexual. Graça Fonseca considera “importante” fazer a declaração a que chama “afirmação política”, "assumiu" publicamente a sua homossexualidade, leio no jornal. Por isso escrevo este post. Mas principalmente porque o tema da sexualidade me interessa e é raro, sim, falar-se sobre o que é a sexualidade. E porque esta política está cada vez mais fora do real.

Tive o privilégio de estudar com  bons professores de fenomenologia. São João Paulo  II, que poucos conhecem como fenomenólego, deu um passo de gigante no estudo do corpo, uma vez que desde São Tomás de Aquino, século XIII, que não se  dizia nada de novo e verdadeiro sobre o tema. Ligando o sexo ao amor, reconheceu que sexo não se identifica com procriação, mas que as pessoas envolvidas se querem unir, fundir, se querem como que comer uma à outra. Novidade na Igreja Católica? Sim. Pouco conhecida? Sim. A Igreja Católica errou? Sim. A Ciência também erra? Sim. Lembro o que a Ciência disse antes de Galileu, antes de Pasteur. O pensamento evolui, sim senhor.

Em relação à secretária de estado tenho a dizer que entendo "assumir" como um verbo que não faz sentido no seu discurso.  Uma pessoa é homosexual, ponto. O que acrescenta "assumir"?

“Acho que as leis não bastam para mudar mentalidades", diz Graça Fonseca. Pois não, são as mentalidades que fazem mudar.

“Se as pessoas começarem a olhar para políticos, pessoas do cinema, desportistas, sabendo-os homossexuais, como é o meu caso, isso pode fazer que a próxima vez que sai uma notícia sobre pessoas serem mortas por serem homossexuais pensem em alguém por quem até têm simpatia”, sublinhou. Sim, eu gosto de ver os governantes a falarem de si. Agora, "assumir" aplica-se a responsabilidades. Por exemplo, quem assume a responsabilidade destes fogos? Isso sim. Isso é política!

“E se as pessoas perceberem que há um semelhante, que não odeiam, que é homossexual...". Será que li bem? Pessoas mortas ? Odiar?  Preferia estar enganada, mas esta entrevista cheira a agenda mediática, eleições (e aqui ressalvo as intenções da senhora secretária de estado, a quem ponho, como a cada pessoa, político ou não, acima de mim, por razões ontológicas). A esquerda é moderna, e eu sou de esquerda. Um dia destes ainda me vêem a "assumir" que sou católica? A palavra "assumir" é palavra de telenovela.

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A propósito da entrevista que deu, o Bispo Azevedo*, um dos dirigentes do departamento/repartição cultural do Estado do Vaticano, tem toda a razão, Nossa Senhora não precisou de aprender português para falar com a Lúcia.


O que Vossa Excelência Reverendíssima ainda desconhece com certeza é que aquando das Cortes de 1646 onde D. João IV assumiu coroar a imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, como rainha de Portugal, Ela ficou de tal maneira comovida que resolveu pedir (aliás como sempre o fez em Fátima...pedir) a alguns doutos portugueses que com Ela partilhavam o Reino Celeste, para lhe ensinarem o português. Entre eles se encontravam Santo António, que seria Doutor da Igreja em 1946, mas na altura já um belíssimo orador, Frei Bartolomeu dos Mártires a que se juntou uns anitos mais tarde o Padre António Vieira, especialista em figuras de estilo. Aprendeu num ápice ou não tivesse já Nossa Senhora a fantástica experiência do Pentecostes.

Numerosos anjos se lhe juntaram, tendo sido os mais assíduos, o Anjo da Paz e o Anjo de Portugal, este último até por dever de ofício. Daí que, quando apareceu em Fátima aos pastorinhos, Nossa Senhora, tivesse já mais de 270 anos de experiência na língua de Camões, muito mais do que Vossa Excelência Reverendíssima, ou eu temos. Já agora, e sendo, um dos dirigentes da secção cultural da Santa Sé, em quantas línguas dos homens, Vossa Excelência Reverendíssima é expert, 7, 8, 12...70 X 7 (490)? Já que imagino que a língua dos anjos seja cadeira curricular básica em qualquer seminário.

Quando eu concluir o meu livro "Presença de Nossa Senhora em Fátima. Contributo para uma fenomenologia das Aparições", com base no que aprendi em Washington com Robert Sokolovsky, a conversa será outra. Hoje foi um discurso meio blogueiro.

 

O discurso teológico avança e faz-se com a ajuda preciosa da sua eterna serva, a  filosofia, "The making of essential distinctions", como bem a define aquele autor. Isto no momento adequado, sem esquecer a pastoral da Igreja, e sempre no serviço da fé. Agora, como "eu sou eu e a minha circunstância", escrevi estas linhas, na espuma destes dias, que  antecedem a vinda do Papa ao Santuário de  Fátima no centenário das Aparições.

 

* Nós para os outros Bispos também só usamos os apelidos ex: Cardeal Ratzinguer, Cardeal Montini etc. Porque é que para os de nacionalidade portuguesa temos de usar o nome completo e de mais com Dom... Nunca ouvi chamar Dom Joseph Aloisius ou Dom Christoph Schonborn ou mesmo Papa Dom Francisco....

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15
Abr16

Cortar relações

por Fátima Pinheiro

 

jw relações.JPG

JW

maurigrafias.blogspot

 

Tema sempre atual. Atar, reatar. Estar numa relação. Cortar relações. No facebook chama-se "bloquear". Mas as palavras não são tudo, não esgotam a realidade. Será razoável cortar relações? Podemos realmente fazê-lo?

 

Óbvio que não conhecemos tudo de uma vez e que a verdade não é "absoluta". Como "luz" (Aletheia=verdade) não é absoluta. Tudo depende de que lado o cubo me é dado, ou me aparece (fenómeno = aparecer-me). Verdade não significa que haja apenas uma face de um cubo que não existe. Pendurada, ou assim. Por isso, amigos, quanto mais subjectivo eu for (quanto mais me deixar invadir por este lado do cubo) mais objectivo sou. Não posso é ficar parado numa face do cubo: é preciso virá-lo, revirá-lo, mexê-lo, remexê-lo. Perspectivá-lo. Vê-lo noutros espaços, noutros tempos. Bebê-lo mediante os olhos de outros. Uma aventura que se dá num horizonte que não é a soma das partes, mas excede, em cada passo, em cada respirar, em cada, abraço, em cada olhar, em cada beijo. Cada dia. Como? Muito simples. E a realidade, o que há (o que sei e o que não sei que há e como é), vai sendo descoberto precisamente como relação, da qual não dominamos os contornos e potencialidades. Desde a Trindade, que é relação, ao que se passa comigo, eu comigo somos três.

 

O material tem sempre razão. As relações de sangue não se podem cortar. As outras que eu digo que corto não dependem de palavras mentirosas. Só se pode cortar aquilo que nunca esteve cosido. Viver é então manter, alimentar, tratar do "cosido". É conhecer, amar os laços. Não adianta pintar a manta. "Conhece-te a ti mesmo", "O homem é um ser social", "Eu sou eu e a minha circunstância", tudo bem. Não alinho é com Kant, que nas suas  gordas críticas da razão, nega que a realidade se possa conhecer. Ao distinguir entre "fenómeno" e "coisa em si", isto é, ao distinguir entre o que me aparece, no espaço e no tempo, e a coisa tal como ela é em si, se está a por num patamar que não sei de que espaço e de que tempo... Ou melhor, sei muito bem. Aqui ao leme sou mais do que eu, meu querido Pessoa.

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04
Abr16

 

edp-manoel-de-oliveira1.jpg

 

imagem do making off do documentário/ tirada da net

 

  

 

Oliveira é uma energia renovável. Passou um ano da sua morte. E afinal havia outro (aposto que na gaveta há mais…). O último filme Documentário de Oliveira: “Um século de energia”, encomenda da EDP para a sua campanha publicitária, a ser exibido em 10 cidades portuguesas, a pedido do cineasta, que, durante os trabalhos de montagem, foi por outra “porta”, e acabou por não ver o resultado final. Eu podia ver o filme e ficar calada. É de uma beleza tão “ordinária” que bastava ver e experimentar a correspondência ao mais "eu" do meu "eu". Contudo, como Henri de Lubac sublinha, a mística é uma colheita da tarde. O mundo em que vivo – a minha rua – diz-me que há muita espiritualidade. Pois depende do que por isso se entende. A mim,há muitos que me sabem a pouco. Há mesmo, por vezes, mais mística no futebol. Este post é um registo filosófico, em si menor (isto exige outro texto), do que esta obra de arte oferece ao mais que socrático, “conhece-te a ti mesmo”. Nas III Jornadas de cinema em português http://www.livroslabcom.ubi.pt/pdfs/20141204-201201_cinema_em_portugues_iii_jornadas_2010.pdf expliquei a minha forma de ver os trabalhos deste homem, a quem vi, não há muito, no CCB, de joelhos, a beijar as mãos de Bento XVI. Numa palavra: “. . . nous sommes devant un grand mystère.” (Baecque, A., Parsi, J., 1996). Mas a filosofia, ao invés do que se pensa, articula, distingue, esclarece. Pode gerar felicidade, energia, argumentando até ao abismo que há que saltar, se for caso disso.

 

Oliveira utiliza uma “câmara” fenomenológica. Sim, há formas filosóficas de ver o cinema - e agora dizemo-lo mesmo de forma poética: a razão sabe por onde vai o cinema, no trabalho de mostrar e articular razões. Pondo as coisas de forma mais clara – e esta é a melhor definição de Filosofia que encontrei – a Filosofia faz as distinções essenciais (Cfr. Sokolowski, 1992). Quem a define assim é Husserl, por onde passa a filosofia hoje. Desde 1900. O conhecimento não é um fenómeno estático mas um encontro de duas energias, encontro interminável, mas de contornos definidos, isto é limitados; a Filosofia, como lembra inúmeras vezes Husserl, é uma ciência que possui o seu rigor próprio. A realidade impõe que o guião se converta e não vá por ali; disse-me um dia Luis Miguel Cintra, que no momento de filmar MO tem uma grande sensibilidade ao que acontece; ou “L’événement fonctionne comme ouverture dont la possibilité peut toujours se répéter.” (Lavin, 2008). 

 

Há tantas fenomenologias, quanto os fenomenólogos. Oliveira é um realizador fenomenológico, como foram muitos. O suprasumo deste movimento filosófico está em Husserl e nas categorias que ele encontrou para entender os mundos. Realçamos as seguintes:Parte/todo; horizonte; Identidade/Perspectivas/Ausência/Presença /Memória – Retenção (passado), Reconhecimento (presente), Antecipação (futuro). Muito para um post, eu sei, mas vou dizê-lo sinteticamente. Olhando para "Um século de energia", a partir de como mais de um século de energia  se realiza uma história, uma vida. Oliveira vai mais uma vez ao que é o humano. E é porque a sua experiência energética é tão rica que consegue mostrar o tecido que faz a vida, o invisível que nos rega, nos move e ilumina. Fenomenologia? Oliveira mostra de forma genial imagens que "aparecem" (fenómeno) plenas de "lógica" (logos), acontecendo assim um todo em que as partes se distinguem sem se confundir. 

 

“Hulha Branca”, que realizou em 1932,antecipa o documentário; é retido e cresce, no presente; naquele espaço de Serralves, ao "criar" a música e a dança que projectam as suas sombras, numa unidade que dá cada coisa no seu lugar. A força artística dos movimentos das bailarinas e os sons do quarteto que insiste no tom, são um todo cujas partes não se perdem contando assim uma história onde é ilustrado o processo de transformação de energia.

 

Os moinhos de vento antecipam-se nas suas sombras nos pinheiros e arbustros. Aparecem depois na sua imponência a mostrar futuras formas de energia. Como os braços, nos gestos erguidos daquelas mulheres que dançam nas cores de um escarlate, que se funde no preto e branco do que não passou. Os fios eléctricos são riscas horizontais no fundo azul de um céu: uma pintura viva de natureza, arte e trabalho (minuto 7,minuto  9). O que acontece desde a imagem inicial onde se vê também o Douro da faina fluvial. A arte que MO põe sobreposta excede, promete, espanta, como um grito bom a pedir e mostrar sentido. Tudo a um ritmo conjugado de pitch´s, fotografias, flashes; doações,segundo a segundo; bateres de corações: coincidências em que me revejo, ausências grávidas de presenças, a mostrar o invisível; faces do cubo que nunca se dá todo, e é sempre envolvido num todo pressentido em horizonte.

 

E a água, traz o sol e o vento. Como irmãos,da mesma terra, da mesma fonte. Sem que a aparente inutilidade da arte belisque o trabalho ou negócio, espelhados em caras de homens alegres, de dentes tortos, e olhos e mãos iguais a "mim". De mãos dadas, na mesma luta - o melhor de mim -, como canta Mariza no making off. No filme não há letra. Há a música da água, de sinos, do vento, do poderoso silêncio. Dos pássaros. E o som do mostrar que "sem ver,é acreditar"; "é preciso perder para se ganhar". "O melhor de mim está por chegar". Aqui compara-se a cena final do filme e a do making off: MO de mãos postas na bengala, a equipa que para ele olha a pedir a genialidade. O minuto 2.54 não mente a mesma câmara,os mesmos séculos, o mesmo "eu". Tudo a terra une. E a água enche-se de humanidade,escorrendo por paredes abaixo, e por debaixo de pontes,arcos e escadas de pedras, no mesmo sangue. O melhor, de mim. A desafiar-me o meu SIM.

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"Mas nós somos principiantes absolutos

Com olhos completamente abertos"  https://youtu.be/o_cHvtPB2dY

 

 

imagem tirada da net

 

O que "aprendi"  (ou ficou mais claro para mim) sobre o olhar na semana que passou! Fui a uma conferência. Uma autêntica fenomenologia do olhar. O que falou perguntou: que olhares te tocaram mais, na fibra mais íntima de ti? Sim, que olhares te desatam o Coração? Que olhares te desapertaram o Desejo? E aí parei e páro.

Contudo ele perguntou: e tu, tu ao olhar o outro páras, re-paras, páras e duras no seu olhar? Nesse olhar o tempo parou? Ou olhamo-nos em máscaras? Em preconceitos?  Não importa. Na natureza nada se perde, tudo se transforma. Foram-se os olhares, ficam de novos e de novo os olhos. Virgens.  Absolute beginners, digo hoje, porque o resto foi escrito ontem.

 

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 imagem de "O Velho do Restelo", tirada da net

 

Manoel de Oliveira: uma “realização” fenomenológica

duma conferência minha sobre o realizador, há uns anos, quando descobri que Oliveira era uma espécie de Husserl em cinema.

 

"Abstract: A obra de Manoel de Oliveira (MO) conhece o real em todas as suas dimensões, em particular o humano. A sua vasta filmografia não se limita a lugares comuns (filmes longos e chatos). Trata-se sim de uma obra potencialmente bela, exigindo do espectador um trabalho de atualização. Tem a genialidade de pro-vocar o humano que há em nós. Na linha do “conhece-te a ti mesmo”, apresenta imagens cuja intencionalidade é a de nos devolver a nós mesmos. A sua poética, plena de silêncio, é um lugar expressivo de uma ansiosa procura de sentido. Como sublinha E. Lourenço no Prefácio à edição da célebre Conferência de Antero de Quental: “estamos órfãos de um sentido que mereça esse título e saudosos dele”. Oliveira reconhece que os dois vetores do seu cinema são “a verdade e o acontecimento” – a sua busca não é ideológica nem puramente estética, mas sim existencial; aquilo que nos faz ver somos nós. Assim é o cinema, o contemporâneo. Com a visualização de algumas cenas dos filmes de Oliveira, faremos uma análise fenomenológica que pretende articular sentidos.

Oliveira “faz” filmes para conhecer o Mistério que dá sentido à vida e nessa medida não desiste nunca de perguntar pelas razões de tudo. Apesar de saber da dificuldade das questões metafísicas - resolvidas pela arte de uma forma que só a arte o sabe fazer -, Oliveira vai sempre mais além. Mesmo quando filma o infinitamente pequeno, é para filmar o infinitamente maior. “A vida é mais interessante que a arte” (Filliou, 2010). Um especialista de MO ecoa a ideia chave ou guião constitutivo do cineasta: “…nous sommes devant un grand mystère.” (Baecque, A., Parsi, J., 1996).

A nossa intervenção pretende mostrar em que medida Oliveira utiliza uma “câmara” fenomenológica. A fenomenologia é a filosofia que ainda “acredita” que é possível ir “às coisas mesmas”, ao “miolo” daquilo que acontece de forma implacável, quer queiramos, quer não. Husserl, o seu “decano”, usa a razão com essa finalidade: bem lembrou que nos colóquios se cruzam as pessoas mas não os discursos; entendia a filosofia como uma ciência rigorosa (1913) – cada ciência tem o seu rigor. Por outras palavras, propugna que “é a falar que a gente se entende”. Mais: foi ele que chamou a atenção de que não há ciência sem subjetividade; melhor, que é ela que confere à objetividade o lugar no mundo. Como reconhece um homem da fenomenologia da experiência estética: “L’authenticité de l’artiste, ce n’est pas seulement la fidelité à soi-même, c’est aussi la fidélité à son oeuvre(…).” ( Dufrenne, 1992).

Utilizando a razão, procura razões e articula-as com a melhor lógica possível. Coisa que a arte não faz, nem tem que fazer. O cinema de Oliveira manifesta assim, também, um apego à “…música das imagens” (Baecque, A., Parsi, J., 1996). Mas há uma forma filosófica de ver o cinema - e agora dizemo-lo mesmo de forma poética -: a razão sabe por onde vai o cinema, no trabalho de mostrar e articular razões. Pondo as coisas de forma mais clara – e esta é a melhor definição de Filosofia que encontramos –  a Filosofia faz as distinções essenciais  (Cfr. Sokolowski, 1992). Quem a define assim é Husserl que em 1900 - oito anos antes do nascimento de Oliveira; ano da morte de Nietzsche; cinco anos depois da primeira apresentação pública dos irmãos Lumière – nas suas Investigações Lógicas, magna carta da filosofia que se lhe seguiu, sendo justo até dizer que as mais variadas correntes filosóficas do séculos XX e XXI, são notas de rodapé a essa obra prima (já Hegel tinha dito que a História da Filosofia se resumia a um conjunto de notas de rodapé às obras de Platão; e não é por acaso que Husserl conhece muito bem Platão). Nesse livro defende-se a necessidade de ir às coisas mesmas, sublinhando que estas se dão, se revelam, em perspetivas sempre outras, a sujeitos que, por sua vez, têm histórias diferentes.

Eu sou eu e a minha circunstância, diz Ortega y Gasset, um dos grandes da Fenomenologia, e, curiosamente é uma das frases que MO põe na boca de Luís Miguel Cintra (LMC) em ” O Estranho Caso de Angélica”. Arrasando o Cogito ergo sum de Descartes, é a noção de intencionalidade que nessa obra se destaca. Não há consciência sem mundo, nem mundo sem consciência, isto é, toda a consciência é consciência de; o mundo não é deduzido do pensamento, o mundo é dado a um sujeito, sem o qual não faz sentido falar de mundo.

O tempo – passado, presente e futuro (e não é por acaso que os filmes de Oliveira rodam em torno desta densa e implicada conceção temporal, quebrando o eterno retorno do mesmo que encontrou em Hegel - e depois em Nietzsche e agora nos new (já old) ages -a sua consagração ou cristalização) –, o tempo, dizíamos, readquire o seu valor; e não é também sem razões que o próprio Husserl tenha vindo a comentar, por várias vezes, o livro XI das Confissões de Santo Agostinho, e que expoentes da Fenomenologia – como Hanna Arendt ou Edith Stein - tenham vindo a fazer as suas teses de doutoramento sobre os temas caros ao Bispo de Hipona.

O conhecimento não é então um fenómeno estático mas um encontro de duas energias, encontro interminável, mas de contornos definidos, isto é limitados; a Filosofia, como lembra inúmeras vezes Husserl, é uma ciência que possui o seu rigor próprio.»

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18
Abr15

 

 

Na imagem, tirada da net, Leonor Silveira e Diogo Dória, em "Vale Abraão" (1993).  O filme passará amanhã no Medeia Monumental e os atores estarão presentes para uma Conversa sem fim.

 

E deixo a minha intervenção  "Uma Fenomenologia da Filmografia de Manoel de Oliveira: uma devolução da identidade" em  Cinema em Português: III Jornadas LabCom Books 2012, pp. 21-34. E vão dois.

E ainda isto.

 A conferência aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Jorge Barreto Xavier (imagem da net)

"Jorge Barreto Xavier: dessem-lhe dinheiro, dessem..." era o título inicial. Mas não resisti a esta mistura de narrativas (literária e futebolística), que já passou, que me lembre, pelo menos por Eça, também. Mas vamos a isto. Valem-me o editorial deste blogue e a fenomenologia como método. Nunca tinha aqui "posto" nada acerca do nosso Secretário de Estado da Cultura (SEC), de quem me lembro desde o "Talentos, Artes e Ideias". Acontece que vi o "Prós e Contras" passado, e ele, que nunca aparece a falar "assim", estava lá. Do editorial retiro o lema: discernir e reter sempre o essencial. Da fenomenologia, a minha "praia": há tantas fenomenologias quantos os fenomenólogos. Aliás isto vale para tudo: há tantas políticas quantos os políticos; há tantos Dumas quantos os Mourinhos... - podem continuar que não falha (é a questão da impressão digital, ou do singular). A cultura anda de rastos, diz-se. O futebol também. Não é bem assim. O que quero dizer? O de sempre: que o que parece é. A fenomeno-logia ( o discorrer do aparecer) não só permite como incentiva este tipo de abordagem. Ou seja, não conhecendo eu o que tem realmente acontecido como política cultural deste governo - sei do anterior e deste SEC muito pouco -, o discorrer sobre o que vou vendo vem cheio de camadas, como diz o João Botelho dos "seus" Maias. Elas valem o que valem e mais não lhes é exigido. O mesmo então do que aqui hoje des-velo. Poucos são os que dizem "sim" pelas boas razões. O que é certo é que quando é preciso dar a cara, avançar na altura em que o barco afunda, quase todos dizem "vou ali e já venho!". E ainda quero falar da Joana Vasconcelos e mais uns "hits".

Sexa SEC tem aparecido em imagens mediáticas para bem do mediatismo de outros, não para ele. Lembram-se daquele passeio de barquinho num parque já não sei onde? Ele lá estava atrás num cantinho. Era, creio (abençoado Husserl que me deixas falar a memória à vontade) com uns senhores da "Europa", para lhes mostrar as maravilhas de Portugal. Ainda a senhora Merkel não sabia nada das chouriças portuguesas (https://www.facebook.com/video.php?v=320537311453708&set=vb.100004923247384&type=2&theater).

Outra: em Guimarães, capital da Cultura. Terá sido Sexa SEC a encomendar aqueles espanhóis, "último grito" cultural, a debitar luzes e agitações (que de movimento havia pouco)?? E foi mais de D.Quixote do que de Afonso Henriques, o que nos deram. Eu percebo, era da Europa que se tratava. Mas logo uma de Cervantes? Uma vez visitei um Museu muito importante em Madrid, e no video que me mostraram, aparecia o mapa de Espanha. Sabem o que estava no rectângulo chamado Portugal? O Oceano! Em maravilhoso tom azul. E já que estamos nos "nuestros hermanos", e de eu não acreditar naquela "de Espanha nem bom vento, nem bom casamento", a quem "pertence" a Casa dos Bicos, a quem? Foi há pouco tempo: aparece-me à memória uma imagem de António Costa e Pilar del Rio, ao pé da árvore de Saramago, a comemorar, já não sei o quê (agora um abraço às "Investigações Lógicas", de 1900, ano X, ano em que morreu um dos homens da minha vida, Nietzsche, e de tantos marcos que têm vindo a desaguar neste XXI). E agora os três mosqueteiros do futebol. Tenho cá uma ideia de quem são.

E Joana Vasconcelos? Nada tenho contra ela, mas é ela e mais ela, e mais ela. Foi Sexa também? A ida a Veneza, já não de barquinho, mas em "Caravela"? E porque foi a "senhora" Louvre mais visitada. Mas quem diz que foi expressamente para "a" ver que lá foram? Ela estava lá, estava. Mas as contas passam por tudo o que lá está no Museu, a casa de Joana, "à grande", "à francesa".

"Lisboa não sejas francesa!" Até Sócrates percebeu essa tentação. Eu percebo a atração que tem o espírito de geometria. Mas um pouco mais de "finesse", como Pascal lembrou - há tantas Franças quanto franceses. "Esprit de finesse" dentro do Dossier complexo dos Direitos de autor, como Sexa SEC mostrou na segunda-feira passada. E a ser verdade o video da senhora Merkel, dá-me vontade de pedir a Joana Vasconcelos que faça uma chouriça às rodelas que agrade à alemã. Mas isto é sério. Há quem se satisfaça com shots culturais avulsos e a prestações, ao gosto dos governos que se sucedem. É a democracia. Há quem mande na democracia? Há, pois há. Mas o orçamento é quem mais ordena. A cultura de rastos? Se pisarmos as pessoas, sim.

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