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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

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Uma escola. Trabalho de casa e de caso. Um punhado de 11 mulheres, actrizes de primeira. Rita Blanco, sem dúvida. Mas a Bustorf, apenas para referir mais uma,  está irreconhecível, de tão bem encarnar uma pessoa que está nos antípodas dela. E as outras, impecáveis. Não foi por acaso que viveram literalmemte em Vinhais, e tivessem ido a pé a Fátima, como o próprio realizador fez antes delas, para se identificarem com os seus papéis. Muitos perguntam a Canijo se elas são todas actrizes, e esta é uma pergunta que ele aliás já reconheceu gostar muito. O fime "Fátima" de João Canijo não veio ao engano. Quiz o realizador filmar um grupo de mulheres em situação potencialmente exploxiva, convivendo em situação limite, sem interrupções, dia e noite. Não podia ter arranjado melhor: uma ida a Fátima a pé, vindas de Trás- os-Montes. Sem pretensões de entrar em motivações, apenas a de mostrar um pedaço, uma perspectiva sociológica. Também não tenho outra pretensão que não a de partilhar o que vi. Só um realizador com mestria consegue fazer o que Canijo fez. Embora Fátima não seja só o que este filme mostra, Ela está lá toda. 

A sua câmara aguenta e faz brilhar o que parece não chegar para tema de um filme que prende do princípio ao fim. Sempre o mesmo. Cada manhã o arrancar para a caminhada. As feridas nos pés. As frições e altos mexericos.Tudo ao som das avé-marias, das asneiras, das melhores, grossas mesmo. E cânticos. Os assuntos são um quotidiano aparentemente sem novidade. Realismo puro e duro. E por isso mesmo, por ser realista, mesmo sem o querer Canijo deixa espaço para o imprevisto. Quem vai à guerra dá e leva. E Canijo nos seus fimes mostra sempre a pele nua e crua do real. Por vezes calando pormenores que também fazem parte.

O que são estas mulheres senão um guerra? A vida é uma guerra. Recordo um plano em que se dão muitos planos justapostos, numa profundeza a roçar uma pintura, em que ao fundo, Rita Blanco deixa cair umas lágrimas, é já noite e é hora de descansar.  Ao mesmo tempo, planos com pés, ligaduras, e vozes que sussurram outras vidas. E caralho, porra, foda-se, sempre. Até cheira mal na sala onde me sento. E as queixas do dia. Merda. E o caminho que não acaba. A lágrima de Rita traz, contudo, a vitória dos nadas. Sangue do meu sangue.

 

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27
Mar16

O Nome de Deus é Francisco

por Fátima Pinheiro

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Leonardo di Caprio em "O Renascido", imagem tirada da net, a imagem final do filme

 

Cinema não é o tema deste artigo, embora esteja repleto de Revenant, Stalker e Spotlight. Escrevo sim sobre a Páscoa que é mais do que aquilo que mostra o filme “dos padres pedófilos”, como o chamam. Não gostei não, mas não é pelo que se pensa. É por razões apropriadas: a Porta que Bergman refere ao comentar a obra de Tarkovsky.

Spotlight (2015) mostra a investigação feita por uma equipa de jornalistas que usa todos os meios para trazer a verdade ao de cima. É mais um documentário do que um filme propriamente dito. 20 valores. Há contudo um aspeto crucial. Sendo a Igreja ator principal desta história, dela pouco se fica a conhecer no que respeita à sua natureza. Eu sei que o filme não pretende ser uma Suma Teológica, mas acaba por meter a colher em seara alheia. Ou melhor, não consegue meter.

O resultado do filme é a Igreja reduzida aos que praticaram atos monstruosos. O resultado pode ser: “afinal a Igreja é um bando de criminosos, pompas e circunstâncias.” Talvez o Papa Francisco seja outra loiça, etc. Erro gnoseológico: parte-se da premissa de que a Igreja é feita por homens perfeitos. Acontece que Jesus Cristo ao fundar a Sua Igreja sobre Pedro, que o tinha acabado de negar três vezes (e foi isto que os homens de Boston fizeram) sabia muito bem o que estava a fazer. Foi de propósito. A Igreja foi escolhida assim, como um barro que é o instrumento humano do divino. Logo, qualquer objeção à Igreja com base de que ela não tem a pinta do seu fundador, cai por terra. Spotlight mostra de mais e acaba por mostrar de menos. Viro-me então para os outros dois: um filme que não é de vingança, como se diz, filme de um mexicano que quer imitar o artista russo que realizou Stalker. Para chegar assim à Páscoa, à Porta.

Renascido (2015) é sim a história de um pai, de um filho e de uma grande companhia. De um amor que não desiste diante dos maiores obstáculos. O filme é a nossa vida. O grande e o pequeno, a natureza e a história, o dia e noite, o amor e o ódio, o sol e a chuva, a tempestade e a bonança, a mulher e o homem, a musica a dança e o silêncio. É um pedaço de vida que não se conta. Vê-se. Experimenta-se. Depois de meia dúzia de filmes de seguida com Scorcese, Leonardo Di Caprio dá-se na Câmara de Iñárritu. Um mexicano que me foi apresentado recentemente. 

Stalker (Tarkovski,1979): entra-se mudo e sai-se calado. É um murro no estômago. Sou eu, ali. Diante da Porta. Quero entrar? Não há chave, diz Bergman; mas mesmo se houvesse não abriria, continuou Tolentino Mendoça no Domingo ao apresentar este filme (o que escolheria, se tivesse que indicar um de Tarkovsky) no Espaço Nimas. Foi e é preciso a Páscoa. Não há pedofilia que se aguente. Entremos nas “entranhas da Misericórdia”, lembrou há pouco Francisco numa entrevista, um spotlight que é o nome de Deus em ação.

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25
Mar16

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 Monica Belluci, no filme "A Paixão de Cristo", uma imagem tirada da net

 

Vem a Páscoa, vem a Ressurreição. Revejo o filme. Recordo um artigo que li quando estreou o filme  a A Paixão de Cristo, de Gibson. O que o colunista esperava  e disse não encontrar, eu encontrei. Não se sai cheio [os itálicos referem-se a esse artigo], certo,  mas eu saí menos vazia. A minha crítica é ao texto. Falo do que vi. Não faço como li num artigo, cujo autor afirma que nem iria ver (e acabou por escrever um artigo sobre o filme!). A maldade humana ou o pormenor do sangue não são o essencial da paixão de Cristo. Pois não, essencial é Ele dar-Se; e de uma forma que não definimos. Surpreendente, mas pertencente ao domínio dos factos testemunhados. Eu também passo bem sem flagelação, espinhos, cuspos e crucifixão!

O filme mostra, em grandes planos (Caravaggio plus técnicas atuais),esguichos de sangue, brutalidade humana, e mais, como lado de um outro lado. Uma unidade, que me permitiu o inesperado. Fui porque me disseram que era bom. A frase inicial: pelas Suas chagas fomos curados(Isaías, 700 ac) é chave. Quem não precisa de cura, ou quem afirma que não há cura, nisto parece não caber.

Um outro crítico escreveu, que, mais forte que o sangue, era o olhar de Cristo, sempre . Animou-me a vencer a fragilidade: se não conseguisse olhar (e.g. a flagelação em tempo real), olhava para o olhar. Aconteceu foi que o sangue e o olhar está tudo junto. Fiquei pregada à tela. As imagens estão trespassadas dum olhar terno e poderoso. Chagas, carrascos, escarros, chicotadas, chagas, traições, o diabo, sempre. Mas o olhar apaixonado por todos, destaca-se! Dentro e fora do filme. Assim o cireneu orienta-se; Judas cai em si; o bom ladrão tem a certeza que é salvo; Pilatos jamais é o mesmo. Cristo vira-se para o ladrão que está atento às Suas orações ao Pai e, descaradamente afirma: hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso. Quem diria!

O horizonte cristão é a eternidade, é o amor. Pois é, mas isso acontece de cruz, de sofrimento, de pecado. Todos iluminados. Podia ter acontecido de outra forma?! Mas é assim. A aflição do cireneu vale mais que todos os esguichos de sangue que salpicam o ecrã. Pois é, mas não se inventam cireneus. Importa o olhar que cruzam, a cumplicidade, e a promessa de salvação. Só o olhar intensíssimo de Maria e a bondade perplexa de João marcam o filme com amor. Pois é. É diante deles que Pedro ajoelha depois da negação. Mas quem marca o olhar de Maria e de João senão o de Cristo? A imagem de Jesus a cair, criança, e o gesto dela a largar a lida para O ir consolar. É o que a leva a correr para O consolar, no caminho da cruz, quando cai, esmagado de dor, e a leva a dizer: Estou aqui! Não só um olhar, mas toda ela no chão, sem qualquer espécie de consolo a não ser o de consolar. E é restituído ao lugar.

As primeiras cenas, nas Oliveiras, dão-nos Cristo pleno do drama que é a liberdade. Será, como diz o artigo, o filme limitado por tratar só desta parte da história? Mas quem é que limita os argumentos dos filmes? Não serão belas estas 12 horas de Gibson, em que a reta final é mostrada sem véus? Ou preferirmos um Senhor dos nossos passos, colorido dum humanismo que se esbate numa vaga ideológica mensagem de amor? Queiramos ou não, os Passos do Senhor são aqueles, e este filme faz-me vislumbrar como terá sido. É só um filme, vale o que vale. Mas o cinema, como tudo na vida, se bem que nem sempre à altura do que é, pode mais do que muitas outras coisas.

E a morte não é a última palavra. Maria e João, obedientes sempre, diante d’ Ele recebem o mandato de permanecerem juntos. As suas caras são expectantes. O negro da hora não consegue calar a certeza que isto não pode ficar assim. Esta imagem é tão evidente, que não pega esta afirmação: “sem [a ressurreição e a esperança na eternidade] a paixão de Cristo perde sentido. Não conseguindo isto, o filme de Gibson perde sentido também.”

Impressiona a forma como Pilatos (retratado neste filme como nunca, e com quem também me identifico) é apresentado. O grande plano mostra a humanidade de quem, primeiro hesitando, mas já depois sabendo que tem diante de si a Verdade, decide entregar a outros o Seu destino. Em vez da atração do abraço, cede à  ambiguidade, uma insatisfação e tristeza angustiantes. Não se pode, sem mais, fugir ao olhar daquele Homem. É Ele a personagem central do apaixonado Exercício da Esperança, renovando tudo.

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24
Mar16

O Pão que Oliveira realizou

por Fátima Pinheiro

 

Excerto de o "O Pão", de Manoel de Oliveira, tirado da net

 

"O Pão" é um documentário de Manoel de Oliveira, uma encomenda da Federação Nacional das Indústrias de Moagem. Mas Oliveira, como sempre, alargou. O pão é visto no contexto global do sentido da vida. O artista  dá-nos dois Sacramentos: o Matrimónio da Rosa Maria e do José Joaquim; e uma Eucaristia, numa pintura, e em off "Tomai e comei, isto é o meu corpo." Misturar intencionalmente catolicismo e indústria, é inesperado. Tal como viria a acontecer - com outro tema - no filme "Benilde ou Virgem mãe", estreado em pleno 25 de Abril. Alheia às "modas", é a intransigência de Oliveira.

As imagens  que vi são deslumbrantes, feitas de traços de tudo, do arado à boca. A luta entre o arado e a terra é um Van Gogh em movimento. Ou um Jean-François Millet: mais suave, menos fragmentado, numa ordem que salta aos olhos. Uma obra de arte que não se deixa encaixar numa categoria de trabalho instrumental, ao serviço de qualquer estatística.

A alternância de imagens da terra e dos braçais homens, do suor e da foice, com as do campo e as do campo religioso, em planos grandes a mostrar os pormenores, têm a faina do fluvial Manoel. Como as imagens da mistura de homem e espiga, pés descalços, cansados, e de duas mãos que ao pronunciarem "quero",trocam as alianças. Alternância também das funções dos vários homens que correspondem aos vários níveis pelos quais o pão chega a pão. Tudo numa hierarquia que parece falar mais alto do que a unidade do processo, que é guiado na unidade do resultado final. Uma imagem marcante: a de um homem mergulhado na seara dominada, mas que tudo domina, porque dela depende a fatia que o trabalho de cada elo humano representa.

A terra é-nos dada como um Altar. Como a senhora que sabe agradecer o deixar-se ser abraçada por mãos que sabem o sentido.

É um pormenorizado trabalho de montagem a partir de milhares de metros de película, conseguindo “dar alma às imagens, emprestar um sentido e um significado a cada sequência, investigar sobre a linguagem estética, para que a obra forme um todo significante, se erga e se equilibre” (Alves Costa, Breve História do Cinema Português ,1896-1962, Biblioteca Breve, Instituto de Cultura Portuguesa, p. 108).

Para terminar, cito o realizador: "Realizei duas versões deste filme. Do ponto de vista artístico, prefiro a versão curta. Servi-me do pão para enfrentar muitos aspectos da realidade portuguesa... Procurei sobretudo mostrar o papel do homem em cada etapa do fabrico do pão, da sementeira até à distribuição, e a comunicação que se instaura assim entre homens muito distantes no seu espaço através de um único elemento: um grão de trigo. (...) Na versão longa, acho que exagerei demais, prejudicando a ideia central do filme. Porque a ideia do filme é a ideia de que o pão é como uma corrente de um rio que passa por vários lugares, passa por diferentes mãos, por diferentes hábitos ou fardas (é melhor chamar-lhes fardas para facilitar). Interessou-me muito dar essas diferenças, que na versão curta são mais evidentes.” (Manoel de Oliveira, numa entrevista a João Bénard da Costa, 1989).

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antes de entrar no quartinho de brincar/imagem tirada da net 

 

O sucesso do filme de Grey deve-se ao facto de sermos feitos para o mistério. Só que nos oferece um mistério raquítico, e não aquele que não cabe no desejo que habita em mim, em cada ritmo meu. Desejo que me acompanha desde que sou lançada ao mundo e berro e nesse momento todos se comovem, até ao respiro que nos leva “desta para melhor”. Porque será que gosto de coisas misteriosas? Assim como brincar às escondidas? O que acabo de ver em estreia, e que pretende ser arraso e liberdade,  é mais uma burricada, e a malta engole. 

 

Quando era pequenina adorava o oculto. E agora também. Céus escuros, céus estrelados, quartos ou sótãos proibidos atraem-me. Em pequenina às vezes “entrava” neles, e às vezes tinha medo e precisava da mão de alguém mais crescido (podia ser o irmão mais velho, um ano de diferença chega); outras só mesmo pela mão da mãe ou do pai. E considero que o mesmo se passa com as pessoas em geral. O sucesso do filme «As Cinquenta Sombras de Grey» - adaptação cinematográfica do livro best-seller – tem seguramente parte da sua explicação neste gosto. Desde o seu lançamento, a trilogia «Cinquenta Sombras» foi traduzida em 51 idiomas em todo o mundo e vendeu milhões. Todos! É o hit, fenómeno do qual todos falam, um pouco à maneira do que aconteceu com o livro “O Código da Vinci.” Só que no caso de Grey o cinzento mancha o vermelho fresquinho do amor. Faz mal.

 

O amor do irresistível homem poderoso em tudo, mata. A confiante jornalista é um caso de “o amor é cego”. Quando ele lhe pega na mão para a levar à câmara do brincar dele, ela, de olhos cerrados por ele, ainda lhe pergunta se é o quarto dos jogos de computador ou assim (para jornalista sabe pouquinho; deve ser estagiária; eu com a idade dela já sabia mais qualquer coisita…). Dir-lhe-ia: Não entres tão depressa nesse quarto claríssimo! Ou cantava-lhe com a Dora: “não sejas mau para mim”http://youtu.be/rSFxafh6QJ4

 

Mas não. Nada há que eu não controle, diz convicto o educado Sr.Grey. O querer dela também. E uma rapariga fica a pensar que dar-se é dar-se “assim”. “O meu Ernesto ama-me mesmo”, diz uma. A outra: “Nem penses, o meu Artur tem umas algemas novas que nem imaginas”, replica a outra. “E o chicote!” É o amor. E isto vai-se entranhando e chega-se a pensar que é assim. E o amor fica reduzido ao receber dum domínio que nos faz pensar que somos as únicas a ter tais “delicadezas”. E de sexo, venham-me depois falar de pedofilia ou de padres que fazem isto ou aquilo. Ou pisem-me nos transportes públicos: aí protesto. Mas com os Greys, fiche!

 

O amor é cego. Neste caso é mesmo ceguinho: sombras que não deixam ver porque nada escondem. Câmaras claras que só sabem descarregar o mesmo do mesmo. Não dão o novo amanhecer. O "nosso" (?) mundo está contaminado de Anastasia(s), estudantes de literatura, ou outra coisa,  a chocarem com Christian (s) Grey. Numa ilusão real de um amor etéreo. Numa carne mentirosa porque desenhada a régua e esquadro, carne talhada à medida de um plano. Tudo o contrário da carne viva de um gosto de vida nova, de um prazer que nasce sempre novo, que penetra  os olhos do outro, deixando sempre o fundo dum lago que não tem fundo. Olhos que são janelas do infinito. Olhos de corpos singulares. Pessoais. Já o livro nada nos dava disto. O mesmo do filme. Vá lá. Não são vampiros. Mas é muito pobrezinho. Mesmo desumano. Mesmo destrutivo. E é isto que vende; o que também não é novidade. É a globalização da indiferença, disse hoje o Papa Francisco, nesta quarta-feira de cinzas.

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26
Jan15

os dois snipers/imagem tirada da net

 

Gosto de americanadas. Mas gosto sobretudo de cinema. Fui ver o "Sniper Americano", ao acaso. Nas coisas dos filmes em geral não leio nada antes de ver. Há casos excepcionais. Neste caso fui só mesmo para relaxar, nem sequer sabia o nome do realizador. Estava muito cansada e até pensei que poderia dormir um bocadinho. Vi que estava nomeado para muitos óscares, mas isso para mim é relativo. Surpresa das surpresas: sem querer voltei então ao local do crime.

 

Afinal era Clint Eastwood, um dos grandes da 7ªarte. Distraida como sou só o soube no dia a seguir. Apercebi-me então da razão do que vira no dia antes, que a palavra "sniper" se aplica a ele, ao realizador, como a poucos. E que me pôs de forma única as guerras todas na mão. Exigiu-me um olhar certeiro para o planos rasos ao écrã, sem deixar de ter a "big picture" sempre presente. Não é um filme de guerra. É sim uma "americanada", mas num sentido novo. Eu explico.

 

Os americanos são gente, e são americanos. E são o que são. Porque lhes hei-de exigir que deixem de ser assim? Eu gosto daquele patriotismo, do "Beautiful America", da lágrima no olho e mão no peito naquelas cerimónias (vivi lá cinco anos, o que explica muita coisa: para conhecer é preciso conviver), dos pequenos almoços às cinco da manhã, dos jantares às 18h, daquele brio de acharem que são os melhores, do facto de confundirem Portugal com a Espanha, do "how are you today". E nada disto encontro em Eastwood. Como o paradoxo me fala verdade!

 

No escurinho do cinema a guerra entrou-me pelos poros de forma bela. Eu era o "sniper" e estive sempre na sua pele. A ter que decidir. Decidir se carregar ou não no gatilho em cada cena; decidir a que "atirar" na minha vida. Experimentar quem me acerta em cheio. É um filme sobre a humanidade. Sobre mim. Tem-se a percepção que é um lugar em que Caim e Abel encarnam de forma evidente. Quem acertou primeiro? Quem acerta? O filme leva-me então ao "ser ou não ser", ao "acertar ou não acetar": onde, para quê e porquê???

 

E não se pense que não há nesta obra ausência de uma técnica fabulosa. Nos seus últimos filmes Eastwood tem mostrado que é exímio no detalhe e no alcançe. No caso, para dar um exemplo, os olhos do actor - escolhido a dedo - são dados pela "pistola" do realizador com um verde de uma total transparência que deixam ver o mistério do "olhar". Quem sabe filmar assim? Clint foca a esquadro e régua, mas de tal forma amaciadora, que o real ganha a sua objectividade. Nada de "mariquices"!

 

Desde a semana passada passei a "sniper", e por ser como sou -  a cair e a levantar-me cada dia -, cresci em beleza e em graça, o que só faz alegria porque o terrreno à minha volta anda mais pacificado. A vida será sempre uma luta. Mas se assim não fosse qual seria o interesse? Eu gosto de cavar a terra e comer do suor do meu trabalho. E poupar o suar dos outros sabe-me cada vez melhor. O que me fizeram os planos da guerra do filme! Em cada cena o realizador mete lá tudo. Do estendal com roupas lavadinhas a tingirem-se de preto, de vidas e pessoas a cruzarem-se, de mercados de quem começa a trabalhar cedo. Na cena final de guerra as cores são de Rembrandt. E a sustentar há uma Penélope que longe está bem perto e faz e desfaz, com o marido e os filhos, a teia de uma ambição desmedida de poder.

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