Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A mim não me enganas tu

por Fátima Pinheiro, em 29.05.17

 

WIN_20170529_06_32_18_Pro.jpg

 

Foi ao pequeno almoço. Com o dia em frente. Estava uma das minhas revistas preferidas mesmo ao meu lado. Uma daquelas que não li, e está em banho maria quase há um ano, numa mesa da sala. Porque sim, gosto da "Attitude" e do  tema de capa deste número: felicidade. "Aquela é uma pessoa de atitude", dizemos por vezes. "Mas não ganha nada com isso", acrescentamos por vezes. O outro é que se safa. Sem um propósito à altura do humano que nos mede, a vida acaba por ser uma sucessão de safadices, sacanices, violências: físicas, psicológicas, morais religiosas. Contra homens, animais e mais que haja. Atitude: é precisa? perdeu-se?

Tenho presente atitudes de que me orgulho, nos outros e em mim. E sei que é ambivalente. Atitude de ditador e de santo, de mafia e de gebo. A questão é a montante. Não vale a pena fingir. O melhor para mim é saber o que quero, cara a descoberto, desmascarada. Sempre, sempre, a perguntar. A quem sabe claro. E às coisas também. Usar inteligência e liberdade. O resto, a grande parte da performance, está nas minhas mãos. A minha atitude.

Sem ela , sem uma atitude sustentada, acabo por vegetar, e não ser feliz. Sim, a felicidade não passou de moda. Posso dizer que a rosa é feliz, mas a felicidade aplica-a em primeiro lugar a quem sabe se o é, ou não. E a mim não me enganas tu, diz a canção.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Geringonça intelectual

por Fátima Pinheiro, em 05.05.17

Aquela caipirosca, ao pôr do sol, à beira mar, hmmm! É subjectivo, senão eu não dava por nada. E o meu pequeno almoço, hoje de manhã, subjectivo. O sumo era o mesmo, mas cada um bebeu-o e comeu, senão só vi os outros a comer e a beber,  e eu não. Amanhece, vemos ambos o sol a irromper (hoje muito timidamente) no céu. Subjectivo. O sol não, mas ele a aparecer-me hoje de manhã, é coisa minha. E o chover também . Resumindo, tudo o que acontece é subjectivo, senão eu não dava por isso. Seja a pedra em que tropeço, ou as do castelo de S.Jorge, seja um sonho, seja uma ideia, seja o mar, seja o horizonte, são subjectivos,  não estivesse eu a falar deles. E faço-o com recurso à minha memória. E quanto mais potente for a memória que agora exerco, mais forte a presença das coisas que referi, tão forte que por momentos estou quase a beber a caipirinha (cfr. S.Agostinho). Mas não. Se quero uma caipirinha tenho que ir beber outra. Parece conversa de chacha. Mas não. Até porque palavras leva-as o vento. Todas. São palha diante da imensidão de Deus (S. Tomás).

A filosofia morreu, e fomos nós que a matamos. Diz-se que a verdade morreu. Verdades, sim senhora, senão é arrogância e falta de humildade. Tenho reparado que só ateus e agnósticos dizem coisas do género : "eu, na minha humilde opinião." Mas ai se lhes pisam os calos,  e que ninguém se atreva a negar-lhes a verdade desportiva. Quem quer poucachinho? Verdade  (Aletheia) quer também dizer luz.

Sinto-me frágil? E quero asas de condor? Um traço de avião, quando um beijo não basta? Jorge Palma, Florbela Espanca, Pedro Abrunhosa! Sim. Objectividade é o presente de quem procura. Descartes sai do cogito, porque nunca saiu do mundo. Nossa Senhora apareceu em Fátima como entendeu. Assuntos tão sérios não se arrumam num post. Mas não é com pseudo esclarecimentos mediáticos que a coisa vai. Ainda esta semana, mais livros, mais entrevistas sobre se a Senhora apareceu ou não. É a cultura do descarte. Para se vender e marcar pontos.

Termos técnicos não caem do céu aos trambolhões. Não é preciso Teologia nem Filosofia para saber que as Aparições são verdadeiras. Os pastorinhos eram só pastores, com uma vida e simplicidade exemplares. Só uma má fé geringonçica teima em não querer ver. Em não aceitar que não são visões fantasiosas que levam  um homem como o Papa a ajoealhar-se diante da Senhora mais brihante que o sol, aparecida na Cova da Iria, em cima duma azinheira, faz 100 anos a 13 de Maio. Foi subjectivo, e, paradoxalmente, uma Presença, duma objectividade inexplicáveis.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

ECCE MEN ou PAUSA

por Fátima Pinheiro, em 13.04.17

Francisco de-Zurbar-aacuten.jpg

 Zurbaran, Nossa Senhora em pequenina

imagem tirada da net

 

Sim, é sobre a Semana Santa. No princípio era Descartes. "Culturalmente" falando, claro. Já tinha havido muitos filósofos antes. E há-os por todo o lado. O eu foi dividido, a parte mensurável uma, a parte não mensurável, outra.  O ideal da ciência: tudo medir. Mas há coisas que não se medem. Uma coisa é o  olho, outra o olhar. A fenomenologia tem razão. Husserl e M.-Ponty, neste ponto, em particular. A mão e o gesto, etc.

O golpe cartesiano deu lugar a tanta sabedoria, como se o eu se desdobrasse nas suas infinitas possibilidades como projecto, podendo assim reflectir-se e ficar a conhecer-se melhor. É a vantagem da História. De nascer hoje. Aliás não pode ser de outra forma.

E o eu desagregou-se a um ponto que já não se considera insensato afirmar que cada um é o pós-pós-pós-moderno que quiser ser. Sem esquecer a utopia de um futuro feliz e socialista ao qual pouco importa que cada um possa assistir, porque o material é decomponível. E a luta era para o outro, e para o outro a seguir, sempre para melhor, mas sem mim.

E sem esquecer a, tão de hoje, modalidade de um eu que se quer ele próprio confundir com o infinito; passando assim a haver só infinito, sem que o eu se diferencie. Um desejo de dissolução, porque a dor é insuportável, melhor então é vivê-la estando acima dela. Multiplicam-se filosofias, religiões, movimentos, sincretismos, “à la cartes”, etc., que encorajam e ensinam uma ascese que se pretende boa. Uma elevação ou despojamento que devolve o eu ao Absoluto, a gota ao mar, uma espécie de panteísmo. Uma felicidade sem eu, sem mim.

A mim parece-me mais humano um eu que não se apague e que veja cumprida a sua fome e sede de infinito, como lembrou a nossa Florbela Espanca. Um eu que quanto mais grita pelo que quer, mas se afirma a si mesmo, sendo ele e não outro. Porque é nessa diferença que pode entender e partilhar o seu e o grito do outro. Na mesma dor. Na mesma alegria. A desejar beberem e comerem do mesmo Pão e do mesmo Vinho.

De que me serve um futuro ou uma dissolução, se aquilo que eu sou é mesmo fome  e sede de infinito, mas AGORA e sem PAUSAS? Insaciáveis. Sobretudo diante da dor, dos outros, que é minha também. Gosto de vestir a camisola. Eu, não outro. Também a dou se for preciso. É isso que quer dizer que nos comemos e bebemos uns aos outros. Simpatia. Compaixão. Amizade. Amor.

E o melhor mesmo, é uma boa refeição em que cada um saboreia com gosto o que está à mesa no meio de todos. E brinda. Em companhia. Não quero que comam por mim. Não o impessoal. Posso até morrer de fome. Mas isso é uma decisão minha.

Onde está o LOCUS ISTE? O meu lugar? Na verdade eu não tenho lugar, eu sou um lugar, sou eu.

Onde “está” o LOCUS ISTE? Acontece-me. A mim.  Tudo o mais seria alienação estética, religiosa, e outras. A minha tensão está em sentir, levantar-me, com os meus pés. Toda. Onde quer que seja. A ser eu, aos bocadinhos, sem maniqueísmos. Para que serve a minha vida se não é para ser dada, dizia Claudel. As coisas anunciam-se e eu quero dizer sim. Não mudo o mundo, sei que há quem lute por um feijão. Posso dar sopa a toda a gente? Se calhar podiamos. Mas quem nos dá a nós?

O mais importante no Cristianismo não são os valores, não é a moral. O diamante do cristianismo está muitas vezes envolto na lama das nossas mãos sujas. Mas está.

As partes da feijoada de que eu gosto mais são a farofa e a couve. Passo sem elas se for bom. E não quero nada rever-me naquilo que o Cardeal Cerejeira dizia dos católicos (ou de Lisboa, ou Portugal, não me recordo agora): comem, bem e não fazem mal a ninguém.

Autoria e outros dados (tags, etc)

js.jpgmilhazes.jpg

 HOJE

 

MAR14

Sempre NÓS -JOÃO Soares E JOSÉ Milhazes - 14 MARÇO

Público 

 

JOÃO SOARES e JOSÉ MILHAZES como nunca os vimos. Dois homens bem diferentes, e com muito em comum, entre ‘Perigos e guerras’. Esforçados? Estarão hoje á noite3ª feira no Conhaque-Philo.

 

Provocador e desafiante, o Conhaque-Philo, uma iniciativa da bloguista Fátima Pinheiro, convida gente a conversar, com café, um vinho ou mesmo um conhaque, junta políticos, jornalistas, economistas, artistas, empresários. Nesta sua 3ªedição para debater ‘Sempre Nós’: os nós que são as pessoas, os nós que atamos e desatamos, os nós da nossa História, os que queremos agarrar para construir o presente e o futuro. Oue queremos do que nos espera? Orgulhosamente acompanhados?

 

Rui Ramos, Luís Osório e Siiri Milhazes abriram na 3ª-feira passada, de forma brilhante, este novo ciclo de tertúlias, conversando sobre ‘Só se conquista o que se dá’.

 

António Correia de Campos, Joaquim Sapinho, Ângelo Correia, Raquel Abecasis, Luís Miguel Cintra, Francisco Seixas da Costa, Filipe Magalhães, Pedro Abrunhosa, Rui de Carvalho, e Paula Roque, são os que se seguirão.

 

ENTRADA GRATUITA

 

Às 21h na Casa Museu Medeiros e Almeida, hoje

 

 

Programa

7 MARÇO (3ªfeira) – “SÓ SE CONQUISTA O QUE SE DÁ”
Rui Ramos/ Luis Osório/Siiri Milhazes

14 MARÇO (3ªfeira) – “ENTRE PERIGOS E GUERRAS”
João Soares/José Milhazes

21 MARÇO (3ªfeira) – “ENGENHO E ARTE”
Joaquim Sapinho/Ângelo Correia

28 MARÇO (3ªfeira) “PARA ALÉM DA TAPROBANA”
Raquel Abecasis/Luis Miguel Cintra/Francisco Seixas da Costa

4 ABRIL (3ªfeira) – “A FORÇA HUMANA”
António Correia de Campos/Filipe de Sousa Magalhães/Higino Cruz

12 ABRIL (4ª feira) – “Tens os olhos de Deus”
Pedro Abrunhosa/ Rui de Carvalho/Paula Roque 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Só se conquista o que se dá"

por Fátima Pinheiro, em 05.03.17

rui ramos.jpgmw-1280.jpgSIIRI MILHAZES.jpg

“SEMPRE NÓS” na Casa Museu Medeiros e Almeida


“SÓ SE CONQUISTA O QUE SE DÁ”
7 de Março - 21h30
ENTRADA GRATUITA

Convidados:
. Rui Ramos
. Luís Osório
. Siiri Milhazes

Sempre nós? Por ser sobre cada um de nós, sempre. Porque a vida está cheia de nós, entre nós, por atar e desatar, sempre. Porque a nossa História tem os “nós” da primeira globalização, “feita” com genial “corda”: sangue, energia e criatividade. Sempre foi e é. Será?

As terças-feiras à noite prometem ser diferentes na Casa-Museu Medeiros e Almeida, em Lisboa, a partir de março e durante seis semanas. Às 21h30 iniciam-se conversas provocadoras e desafiantes entre Fátima Pinheiro e os seus convidados, enquanto bebem um café, um vinho ou mesmo um conhaque.

A Sala do Lago da Casa-Museu Medeiros e Almeida é o palco intimista, com entrada livre e sem necessidade de inscrição prévia. A filósofa Fátima Pinheiro, conhecida na blogosfera como Conhaque-Philo, é a autora do blogue Rasante (http://rasante.blogs.sapo.pt/), sendo a moderadora, ao longo de 1h30, do “Sempre nós”. Esta iniciativa insere-se nos encontros Conhaque-Philo, já na 3.ª edição.

“Sempre nós” é, simultaneamente, o nome desta iniciativa e a temática transversal aos mais diversos entrevistados: políticos, jornalistas, economistas, artistas e empresários. Estão confirmados Rui Ramos, Luís Osório, Siiri Milhazes, João Soares, José Milhazes, Joaquim Sapinho, Ângelo Correia, Raquel Abecasis, Luís Miguel Cintra, Francisco Seixas da Costa, António Correia de Campos, Filipe De Sousa Magalhaes, Higino Cruz, Pedro Abrunhosa, Ruy de Carvalho, Paula Roque, e são esperadas algumas surpresas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um ateu credenciado

por Fátima Pinheiro, em 19.02.17

criancas-olhos-azuis_diegomaximino.com-2.jpg

imagem tirada da net

 

Eu não tenho fé que a minha camisa é branca, tenho a certeza, tenho a certeza que a minha camisa é branca,  afirmou Ricardo Araújo Pereira à Rádio Renascença., apontando para a camisa.

Esta entrevista foi seguida na mesma linha do seu discurso no evento FAITH'S NIGHT OUT, ontem,numa espécie de “Ted Talks” sobre a fé, que juntou cerca de 1470 pessoas no Centro de Congressos de Lisboa. TED? Agora é tudo em "estrangeiro"...
 
Somos muito mais parecidos do que parece", crentes e não-crentes, afirmou. Olhe que não, olhe que não! Estou ao nível do discurso filosófico. A fé é acreditar sem ver. Pode provar-me que há coisas que só por não se verem não existem? Há "ver" e "ver." Eu clarifico. Quando você olha nos olhos de alguém, vê o olhar, ou só os olhos? Não vou incomodá-lo mais. Tive mesmo para ficar calada. Mas a conversa é como as cerejas. Eu também estudo filosofia, faz mais comichão calar-me. 
 
Fez questão de dizer que era "um ateu especial", uma espécie de não-crente "credenciado" (esta palavra é minha), ou seja que teve uma educação sempre em escolas católicas, a culminar na Universidade Católica Portuguesa. Que é um um homem que tem altas expectativas, que precisa de consolo, neste mundo que por vezes é abismo. Neste aspecto sim, somos mesmos iguais. Que viu e vê muita gente, crentes, a darem a vida por ideais louváveis. Acontece que as religiões, se têm apenas a função de transmitirem e realizarem valores, não são são necessárias, contrariamente ao que disse, que a religião  tem essa função. Para isso temos a ONU, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 
 
Fez questão de dizer que ainda não viu o "Silêncio". E? Até parece que é um mandamento para crentes e não crentes.
 
“Não se esqueçam que são crentes” e “mantenham a vossa fé.”, disse o humorista. Era o que faltava! Só se o disse como humorista!  Basta-me muito bem o Papa. 
 
Quem é crente não se esquece do essencial da sua fé: Cristo. O cristianismo não é uma moral, é uma Pessoa. O Ricardo diz que ainda não viu o filme "Silêncio". E precisa? Mas quer um conselho? No dia em arrecadamos mais um Urso de Ouro, vá ver "Os olhos da Ásia", do realizador português João Mário Grilo, realizado há 20 anos, filme baseado no mesmo livro que inspirou Scorcese. Ou então o La La Land. que é um filme fabuloso.
 
No "ponha aqui o seu pezinho" - fumié, fossa e oceano a afogar lentamente - é que a  porca torce o rabo. Falo por mim. Foge! O que me salva é que a Igreja, com a plena consciência e sabedoria do seu CEO, é feita de pessoas como eu. E é através delas - e não apesar delas- que tem uma História da qual também se pode orgulhar. Ignoro o que terá sido o seu percurso educativo, mas não nasci hoje.
 
Como disse ontem no Púbilco Miguel Esteves Cardoso, agora aplicado a si: Ricardo, você é não crente, "que bom para ti" (good for you). Mas eu não sou inglesa, sou como a Cuca Roseta.

  

Autoria e outros dados (tags, etc)

«Tudo bem?»

por Fátima Pinheiro, em 19.01.17

pão.jpg

 a fazer bolachinhas

 

É a pergunta que diz tudo e diz nada. Cruzamo-nos e ... lá vem a pergunta: "tudo bem?". Não digo que seja uma coisa falsa. Mas, e falo por mim (sempre), o que pergunto ao perguntar "tudo bem?". Bem sei que nos agitamos de um lado para o outro. O tempo para responder à pergunta não chega para a pergunta, etc. Outras vezes não quero saber se está tudo bem. Claro que desejo e quero que tudo esteja bem. Não, não é isso; é que faço a pergunta tipo no automático, género das formigas que se cruzam (penso eu; na volta elas, as formigas, dizem umas às outras: "amo-te"...) e nem sequer penso na sua grandeza. Que raio|! A gente vale mais, muito mais. Já me maravilhei hoje com alguém, com o dom da existência?

 

Andando eu agora em menos agitações (no final de contas, não mandamos nos minutos, os nossos minutos estão contados), penso nas pessoas que conheço. Penso nas superficialidades dos momentos sérios e nas dos momentos de brincadeira. Nas minhas superficialidades e nas dos outros. Mas não me ralo em contar. Essas contabilidades fazem perder o bom bom da vida. Estou a dizer que ando a aproveitar o que as circunstâncias me dão, e a fazer delas o que elas são na realidade.

 

O importante nisto tudo é que vivo cada vez mais, experimento, a diferença entre um sorriso que só tem capa, e um sorriso que molha de alegria. O meu e o dos outros. Sei o que é um sorriso salvo. Uma pessoa salva. Já me tinham dito que só a partir dos 50 é que podemos começar a perceber, a viver a vida...

 

O momento em que percebo isso com uma clareza incontornável, corro apressada a desfazer-me das estupidezes. Quero que tudo esteja bem. Aos poucos (ainda há muita porcaria) penso e faço o que me parece bem. Fiz uma lista das coisas a re-parar. Finalmente entendi o que quer dizer "não deixes para amanhã aquilo que podes fazer hoje." O que posso faço hoje. Há coisas que não consigo fazer hoje. Mas sei que se continuar a desejar muito, mesmo o que me parece impossível, tudo virá a seu tempo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

2017: Sei o que não quero

por Fátima Pinheiro, em 02.01.17

 

ra.jpg

imagem tirada da net

 

A passagem de ano " imita" o emergir da ordem a partir do caos. Planos para o ano novo, inversões de valores e perspectivas, análises e respectivas sínteses, dietas e ginástiscas, revolucões, anarquias, carpe diem(s) e depressões. E reinterpretações. Muitas. O que é o mesmo que dizer, fazer uma leitura nova do que se passou, quer a um nível pessoal, quer aos outros níveis: político e assim. Muitos: "agora é que é"; "não vale a pena" isto e aquilo; etc.

 

Eu decidi prender-me ao que me interessa. Sempre em casa, mudar de casa; não iludo aquela inquietude e perplexidade diante do mistério. Quero viver! E FINALMENTE resolvi - e estou a conseguir - não querer arrumá-la de uma vez. As arrumações do pensamento impedem que a vida se saboreie nas ondas em que vem. Deixamos de mandar em nós, de sermos donos dos nossos actos; deixo de ser livre. Digo e repito: quem sabe o minuto seguinte? O que ainda não chegou, mas já se foi. E mesmo o escrever, sabe Deus. O escrever só é escrever se não for uma alienação; se não for uma dentada na vida, de nada vale. As palavras do escrever são "logos" ( o Logos fez-se carne e habita entre nós), carnudas.

 

Dentada, atrás de dentada. Às vezes não sei o que quero. Mas RESOLVI deixar-me de compassos e esperas inúteis e vomitar o que não quero. É muito bom. E simples: basta, correndo ou voando, con-seguir. Verifico então que o que quero aparece a contra-luz. Emerge do que não presta, ou não me interessa. E o ano vai ficando novo!

Autoria e outros dados (tags, etc)

AS PANCADAS DO AMOR

por Fátima Pinheiro, em 29.11.16

BOXe.jpg

 AS PANCADAS DO AMOR

 

Tenho pancada, levo pancadaria, e cada manhã apanho com uma Pancada no coração. Cada manhã, absolute beginner.

Coração? Sim. Não sou da era pós-verdade, mais uma mentira do culturalmente correto. O meu coração, o meu eu, como reconheceu Sófocles, é igual ao de Putin, ao do rei Salomão, é feito da mesma massa; bojarda ontológica: têm a mesma natureza. Posso viver como se o meu coração não existisse, mas isso é outra coisa. Não há pessoas com coração mau. Como não há pessoas que não desejem amar nem serem amadas.

As palavras não estão gastas. Gastas estão as pessoas. Sabemos distinguir o uso que dou à palavra “amor” aqui: “amo-te” e “amo estes sapatos, são a minha cara” (esta é para nós, meninas).

O tempo e o sangue são chaves. A Pancada matinal é tão subtil que finjo não ouvir. Ao longo do dia é igual: diante das circunstâncias, a minha liberdade é desafiada a uma posição. Ver ou não ver. Decidir ver é andar de coração nu, despido das máscaras ou dos “mas e ses”; um ensaio sobre a cegueira. Esse virgem coração na mesa, nas mãos, é fratura exposta. Sujeito a guerras perdidas, a pancadas injustas, escárnios e quejandos. Sangues.

Contudo, esse sangue vale mais do que um rosto mascarado de projetos e vitórias sanguinárias. Falo de mim. De mim que te trato como um número, uma equação, um degrau, um obstáculo. Quando assim te olho, vejo-te como um robot, sombra platónica; vejo- te sem o sangue que te corre nas veias e que é igual ao meu. Cadáveres ambulantes, disse o filósofo. Não será então mais simples desapertarmos os nossos corações? Queres adiar? Ou dizer como Santo Agostinho, quando já a sabia toda, “ainda não, ainda não, amanhã…”.

É simples. É complexo, mas simples. Vi e vejo pessoas, e momentos de pessoas, que decidiram uma existência aberta. Sem batotas, nem calculismos. Levam que se farta, mas transbordam de uma alegria que me transcende. E quero-a também para mim. E até já lhe sei o nome. Dá-me lume, faz-me rir e com chutos e pontapés é para sempre. Enche-me de música o coração, vai-me longe encerrar, mas dá-me o vento e o mar. Foi Deus? Não sei, não sabe ninguém. Agora, dentro de mim bate um perfeito coração.

Eu, incapaz de amar, quero amar até onde vejo, até onde alcançar. Tenho os olhos de Deus. Ao olhar para os teus, de Carne. Quem não quer arranja uma desculpa. Quem quer procura um caminho. Procurei-Te, mas foste Tu que em tempo, sangue e amor me deste a primeira Pancada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Era uma vez na América...

por Fátima Pinheiro, em 21.11.16

310338_442160662502033_1136623074_n.jpg

Trump no centro das atenções. O dinheiro é realmente o nosso maior inimigo, reconheceu ontem o Papa Francisco, ao encerrar o Jubileu da Misericórdia. Uma amiga dizia-me ontem - eu ainda um pouco incrédula - uma coisa do género: "enquanto tu tiveres algum dinheiro no bolso, não vais ficar sozinha." Eduardo Lourenço na sua inteligência humorosa compara-me ao americano. Ele é jovem, só tem 400 anos; pensa mas é no futuro, ambiciona um lote em Marte. Eu cheia de umbigos, a olhar para o passado.

Até vou em cabarets. Mas fico onde fica o homem que vive cada instante como se fosse o primeiro. O último. O único. Sempre que posso corro para o abraçar. Para nada. Só para ser. Agora mesmo. Na América. Ou Marte.

Quando ela morreu, foi de mão cheia. Está a fazer três meses. 

Autoria e outros dados (tags, etc)




Comentários recentes