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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

01
Set17

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 Tarkovsky

 

Já leram a entrevista que Mariana Mortágua dá ao Diário de Notícias de hoje?  É só uma sugestão. Tem tudo a ver com o post rasante de hoje, e ela é muito acessível.

Hoje escrevo sobre dieta. Uma dieta, imaginem, que fiquei a conhecer ao ler "As Confissões", de Santo Agostino, livro escrito no século IV. Um dos meus  livros  preferidos. Já aqui escrevi porquê. Diz o filósofo: "o meu amor é o meu peso." Ao principio estranhei. Depois tenho vindo a perceber, e confere comigo.  É mesmo assim! Diz ele que eu tenho dois amores. Lembrei-me logo do Marco Paulo. Mas claro que é principalmente outra coisa, muito simples por sinal.

Eu tenho pesos. A vida faz-se por escolhas, com critérios mais ou menos conscientes. O que me leva a inclinar-me para um lado ou para outro? Há um permanente e discreto pendor da minha vontade, um movimento, ou movimentos, que posso surprender no agir. O que me faz correr, ou arrastar-me? Sim, muitas vezes deixo-me ir, sou arrastada e deixo que decidam por mim, quando seria caso para decisão minha. Quem tem nas mãos as rédas de mim? O meu amor.

Onde está o meu amor? Onde ponho o meu coração? Agostinho diz que o meu amor tem uma mistura. S.Paulo disse-o uns séculos antes: vejo o bem que quero, e não estou para isso, ou seja, quero-o e não o faço; faço antes o mal que não quero. Ainda  bem que ele "caíu do cavalo", senão não teria reconhecido esta evidência em que caimos cada dia. Caimos e levantamos numa mistura que se vai decantando com tempo e paciência, e muita dieta. E sobretudo com a força do que, no mais fundo de nós, queremos, Deus. Deus não é uma muleta, como muitas vezes é visto. Ele é aquele X que no fundo amamos, cuida de nós e nos faz queres aceitar regressar à boa cavalgada que é viver. Porquê? Porque é a coisa mas atrativa que há. Ou prefiro outros senhores?

Sim, é impossível escapar a outras "dependêcias". Dependemos sempre de alguma coisa. De outros senhores, ou deuses, ou de um deus que inventamos à nossa maneira. A minha liberdade tem as rédeas, mas o cavalo não sou eu que o faço. Tarkovsky, um senhor do cinema, sabia tudo isso, por isso escolhi uma imagem dele a encabeçar este post.

Eu quero o cavalo que me sirva.

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29
Ago17

 

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com Noronha da Costa, na Casa Museu Medeiros e Ameida

Dêem-me perguntas. Adoro. Deus e o diabo vão aturar-me sempre. Escolhi estudar Filosofia por "desporto". É mesmo o trabalho que gosto. E "felizes" os que trabalham naquilo que gostam, porque aumentam ao gostar natural o das horas de trabalho - dimensão enorme da existência, não só por nos ocupar longas horas, mas porque é através dele que temos a oportunidade de realizar, descobrir e construir. Tudo. O desemprego pode aumentar. Mas trabalho há sempre. O dinheiro é uma grande chatice, e quero também escrever sobre isso. Mas hoje escrevo sobre homens e mulheres. O assunto interessa-me há muito. Nas discussões de adolescência, quando se falava das diferenças entre homens e mulheres, amuava e não discutia. Dizia apenas que o que interessava era a pessoa. Estava completamente out. Eles estavam certos.

No fundo fui sempre um bocadinho tótó; um dia, na 3ª classe, perguntei à D. Júlia por que é que na pré-história só se falava do "homem", se "não havia então mulheres?"...; não que fosse completamente estúpida, um dia até mordi a Cristina. E agora? Não falo de cor. Não há muitos anos, por razões de trabalho recebi uma pessoa que tinha nascido homem (devia ter sido cá uma brasa! alto, olhos lindos, verdes, etc; fui tentando adivinhar ao longo da conversa como seira "ela" antes, mas não me podia distrair porque o tema era sério) e que tinha feito uma operação de restituição sexual e agora é mulher. Passamos umas boas, boas, horas, a "tratar" do problema que a levava ali. Normalmente quando falo com alguém olho muito para a pessoa. Foi o que aconteceu. Ela olhava-me intensamente. A certa altura disse-me que se sentia tão bem a falar comigo que nem tinha vontade de fumar. E cheirava-se que fumava muito. E que era feliz com o namorado. Mas o que eu via não coincidia. Ela dizia uma coisa e eu via outra. Não me venham com a conversa do "respeito". O que é que isso acrescenta aos factos? É como a palavra "assumir"? Mas assumir o quê. A pessoa é, ou não é. Ama ou não ama. Eu sei lá se sou se sou mais doente do que aquela rapariga? E que há muitas doenças que escangalham a pessoa há. Respeitar, assumir, estão a mais. Se não é doença, melhor.

As diferenças entre homem e mulher qualquer criança sabe. É como quando pergunto aos amigos dos meus filhos quando vêm pela primeira vez lá a casa: quantos dedos do pé tenho, e eles dizem logo "5". "Como é que sabes? Não estás a ver!", dizia eu.  Podia escrever um livro com as respostas. Mas têm a certeza que é "5". Não precisam de ver. Por acaso num deles só tenho quatro, fui operada...

É uma questão de sexualidade. O que é sexualidade? Não estou a devolver a batata quente. É a pergunta que fiz e à qual venho obtendo resposta. Já sabia mas faltava mais. E continuo a aprender. E aprender implica descobrir os elos, as razões, e de como o sentimento a ela (à razão) está colado (Kant neste ponto não teve pontaria, porque eu não sou, nem quero ser, anjo). E nada se percebe se não se passa pela homossexualidade; e aqui há a masculina e a feminina, que distam uma da outra como o céu da terra. "Perdi" muito tempo a ver as pessoas. Fiquei a conhecer-me melhor e aos outros. E isto não acaba...

Andamos muito tempo no tabu do corpo. Foi a religião católica, dizem. Há uma parte de razão, nos factos. Mas não esquecer as religiões e as morais antigas, e as de hoje, que pensam que ao inundarem-nos de incensos, óleos e mirras (olhem as lojas dos milhares de centros comercias) nos querem elevar acima do sofrimento, que vem do corpo e sofrimentos adjacentes. Nunca gostei de anestesias, prefiro chorar. Mas, claro, gosto mais de abraços. Todos. O corpo é muito bom!

Ó Richard, meu oficial e cavalheiro, que pena! E eu que gosto tanto do Lama, de facto. Mas foi um papa polaco, filósofo, que agarrou em Husserl e voltou a olhar para o corpo e a discorrer (não fosse ele um atleta). Estava demasiado perto da Rússia para não se ter deixado espantar pela beleza dos corpos de um homem e de uma mulher. Foi nele que bebi, aprendo, e vou vivendo as "palavras" magníficas. Experimento e verifico quem sou e o que é ser mulher. Experimento e verifico o que é ser homem. Sei o que se ganha e o que se perde. Não respeito, nem assumo. Limito-me a ser mulher. Mas sei porque não gosto do "mesmo do mesmo". Não sou bruxa, sou apenas humana, converso, dou atenção (tento) e por isso sei os factos e as razões - porque conheci e conheço pessoas assim - que levaram (e levam; e aqui mea culpa...) a procurar o mesmo do mesmo.

A mim o diferente abre-me ao mistério, dá-me vertigens. Voo e vejo mais longe - saio da gaiola - e não me limito às promessas de um conforto que insiste em invadir-me como se fosse uma ditadura a dizer "da igual, se te gusta"! Isto já vai longo. Há pano para mangas. Para as por e tirar. A sexualidade reside na bela diferença. Beleza é a resposta, por isso quero conviver com ela.

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23
Jul17

Gozar o domingo

por Fátima Pinheiro

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Comentando opiniões sobre a fé em Deus, um professor meu dizia: todos ficam excitados com a frase de Kierkegaard "a fé é um salto no irracional"; calam-se, e o assunto "relações fé e razão", está arrumado; só que se esquecem de perguntar quem é que dá o salto. A Ressureição ninguém a viu. Por isso a Ciência, a dama da demonstração, não é para aqui chamada. Mas a maior parte das vezes, é em seu nome que se nega a veracidade do tal acontecimento. É uma espécie de anacronismo metodológico. Este assunto pode ser posto numa pergunta que me é dirigida por quem diz que o túmulo de Jesus está vazio: foi assalto? Ou: quem dizes tu que é Jesus de Nazaré? É Deus? Ou não? O mesmo filósofo reconhece que esta é "a" pergunta . É que se Ele é Deus, se ressuscitou, tudo muda de figura. Mas como posso eu saber? Ou: quem salta, onde, para onde, como, e porquê?

Se a vida apenas se dirige para a morte, nada na vida faz sentido completo e bem fizeram muitos, como o meu vizinho, que acabou com a brincadeira há dias. Qual é o gozo de gozar se tudo é vão? Mas também fazem bem os que decidem ficar. Agora, se é para ressuscitar, e se eu não vi, então vou perguntar a quem diz que acredita. Vou chamar-lhe Pedro. Não lhe pergunto por ser bonzinho, mas por ser um homem onde brilha uma "coisa maior" que ele, e isso atrai-me. Mas para me dar argumentos; não me contento com fezadas, quero saber porquê. Que razões me dás da tua fé, Pedro?

Não vi. Procurei. E onde vi uma humanidade maior, uma alegria estampada no rosto, parei e disse: eu quero isto para mim. No túmulo vazio vi umas mulheres que diziam: Ele não está aqui, ressuscitou, porque o tinham ouvido de um anjo. A Maria Madalena, que não O conheceu logo (pensou que era o jardineiro), Ele pediu para dar a notícia. Era um homem diferente dos outros, diante do qual o meu coração palpitava mesmo. Um homem que correspondia ao meu desejo de humanidade.

E passou de boca em boca. De carne em carne, de curiosidade em curiosidade. Uma vida que tem milhares de anos, e que chega até mim numa cara que me atrai, toca, e põe em carne viva as minhas inquietações. Como aquelas mulheres, eu quero e hoje: verdade, beleza, justiça, bem, amor. À volta tudo grita ou conspira o contrário, mas aquele homem era, em pessoa, tudo aquilo. E seguiram-No.

Seguir é simples como beber um copo de água. Um salto. Igual a muitos saltos que dou ao acreditar, por exemplo, pelo que sei e vejo, que o meu filho, desta vez, não me está a mentir. Não o posso demonstrar, isto é, dizer todos os passos que me levam a julgar como verdade que assim é. Mais simples: não é por razões científicas que sei que o meu filho me está a falar verdade. É por outro método, ao qual os filósofos chamam de certeza moral: confiar num outro que me dá razões para tal. Para não ir mais longe, foi John Henry Newman em "The Grammar of assent" que explicou isto melhor que ninguém. Demonstra que tratando-se do sobrenatural, a razão não faz nada que não costume já fazer em assuntos naturais, como o do meu filho. Salta. Só que para lá do natural.

Quem salta é então a razão. Porque encontra "alguém" da sua família: razões. Também posso saltar por fezada. Mas é desumano ir atrás porque "sim". Pedro não. Eu também não. Só descanso, ao saltar no desconhecido que me conhece como ninguém. Por isso é razoável reconhecer que Ele ressuscitou: senão eu não seria o que sou, nem quem sou. Sei-o porque me experimento. E está na cara. E se um dia me aparecer um outro Pedro maior, vou segui-lo. A coerência não é por si, um valor. Nestas coisas o valor está em termo-nos em conta. Mas o que eu vi no Pedro é de tal ordem que duvido que mude. Não que seja eu a medi-lo. É ele que me mede a mim. Como disse a Zaqueu, o tipo que cobrava impostos e que, por ser baixinho, teve que subir a uma árvore para O ver passar: desce daí que Eu vou a tua casa agora. Procurou, encontrou. Saltou cheio de razões, mesmo não abarcando tudo. Bom sinal: se eu tudo abarcasse estaria apenas diante de um mim e não de uma coisa maior. O cristianismo é superior à razão, mas em nada lhe é contrário. E é a razão que reconhece que há algo maior que ela. A fé é "Um raio de luz na escuridão", diz sempre o Papa Francisco.

 

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29
Mai17

A mim não me enganas tu

por Fátima Pinheiro

 

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Foi ao pequeno almoço. Com o dia em frente. Estava uma das minhas revistas preferidas mesmo ao meu lado. Uma daquelas que não li, e está em banho maria quase há um ano, numa mesa da sala. Porque sim, gosto da "Attitude" e do  tema de capa deste número: felicidade. "Aquela é uma pessoa de atitude", dizemos por vezes. "Mas não ganha nada com isso", acrescentamos por vezes. O outro é que se safa. Sem um propósito à altura do humano que nos mede, a vida acaba por ser uma sucessão de safadices, sacanices, violências: físicas, psicológicas, morais religiosas. Contra homens, animais e mais que haja. Atitude: é precisa? perdeu-se?

Tenho presente atitudes de que me orgulho, nos outros e em mim. E sei que é ambivalente. Atitude de ditador e de santo, de mafia e de gebo. A questão é a montante. Não vale a pena fingir. O melhor para mim é saber o que quero, cara a descoberto, desmascarada. Sempre, sempre, a perguntar. A quem sabe claro. E às coisas também. Usar inteligência e liberdade. O resto, a grande parte da performance, está nas minhas mãos. A minha atitude.

Sem ela , sem uma atitude sustentada, acabo por vegetar, e não ser feliz. Sim, a felicidade não passou de moda. Posso dizer que a rosa é feliz, mas a felicidade aplica-a em primeiro lugar a quem sabe se o é, ou não. E a mim não me enganas tu, diz a canção.

 

 

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05
Mai17

Geringonça intelectual

por Fátima Pinheiro

Aquela caipirosca, ao pôr do sol, à beira mar, hmmm! É subjectivo, senão eu não dava por nada. E o meu pequeno almoço, hoje de manhã, subjectivo. O sumo era o mesmo, mas cada um bebeu-o e comeu, senão só vi os outros a comer e a beber,  e eu não. Amanhece, vemos ambos o sol a irromper (hoje muito timidamente) no céu. Subjectivo. O sol não, mas ele a aparecer-me hoje de manhã, é coisa minha. E o chover também . Resumindo, tudo o que acontece é subjectivo, senão eu não dava por isso. Seja a pedra em que tropeço, ou as do castelo de S.Jorge, seja um sonho, seja uma ideia, seja o mar, seja o horizonte, são subjectivos,  não estivesse eu a falar deles. E faço-o com recurso à minha memória. E quanto mais potente for a memória que agora exerco, mais forte a presença das coisas que referi, tão forte que por momentos estou quase a beber a caipirinha (cfr. S.Agostinho). Mas não. Se quero uma caipirinha tenho que ir beber outra. Parece conversa de chacha. Mas não. Até porque palavras leva-as o vento. Todas. São palha diante da imensidão de Deus (S. Tomás).

A filosofia morreu, e fomos nós que a matamos. Diz-se que a verdade morreu. Verdades, sim senhora, senão é arrogância e falta de humildade. Tenho reparado que só ateus e agnósticos dizem coisas do género : "eu, na minha humilde opinião." Mas ai se lhes pisam os calos,  e que ninguém se atreva a negar-lhes a verdade desportiva. Quem quer poucachinho? Verdade  (Aletheia) quer também dizer luz.

Sinto-me frágil? E quero asas de condor? Um traço de avião, quando um beijo não basta? Jorge Palma, Florbela Espanca, Pedro Abrunhosa! Sim. Objectividade é o presente de quem procura. Descartes sai do cogito, porque nunca saiu do mundo. Nossa Senhora apareceu em Fátima como entendeu. Assuntos tão sérios não se arrumam num post. Mas não é com pseudo esclarecimentos mediáticos que a coisa vai. Ainda esta semana, mais livros, mais entrevistas sobre se a Senhora apareceu ou não. É a cultura do descarte. Para se vender e marcar pontos.

Termos técnicos não caem do céu aos trambolhões. Não é preciso Teologia nem Filosofia para saber que as Aparições são verdadeiras. Os pastorinhos eram só pastores, com uma vida e simplicidade exemplares. Só uma má fé geringonçica teima em não querer ver. Em não aceitar que não são visões fantasiosas que levam  um homem como o Papa a ajoealhar-se diante da Senhora mais brihante que o sol, aparecida na Cova da Iria, em cima duma azinheira, faz 100 anos a 13 de Maio. Foi subjectivo, e, paradoxalmente, uma Presença, duma objectividade inexplicáveis.

 

 

 

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13
Abr17

ECCE MEN ou PAUSA

por Fátima Pinheiro

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 Zurbaran, Nossa Senhora em pequenina

imagem tirada da net

 

Sim, é sobre a Semana Santa. No princípio era Descartes. "Culturalmente" falando, claro. Já tinha havido muitos filósofos antes. E há-os por todo o lado. O eu foi dividido, a parte mensurável uma, a parte não mensurável, outra.  O ideal da ciência: tudo medir. Mas há coisas que não se medem. Uma coisa é o  olho, outra o olhar. A fenomenologia tem razão. Husserl e M.-Ponty, neste ponto, em particular. A mão e o gesto, etc.

O golpe cartesiano deu lugar a tanta sabedoria, como se o eu se desdobrasse nas suas infinitas possibilidades como projecto, podendo assim reflectir-se e ficar a conhecer-se melhor. É a vantagem da História. De nascer hoje. Aliás não pode ser de outra forma.

E o eu desagregou-se a um ponto que já não se considera insensato afirmar que cada um é o pós-pós-pós-moderno que quiser ser. Sem esquecer a utopia de um futuro feliz e socialista ao qual pouco importa que cada um possa assistir, porque o material é decomponível. E a luta era para o outro, e para o outro a seguir, sempre para melhor, mas sem mim.

E sem esquecer a, tão de hoje, modalidade de um eu que se quer ele próprio confundir com o infinito; passando assim a haver só infinito, sem que o eu se diferencie. Um desejo de dissolução, porque a dor é insuportável, melhor então é vivê-la estando acima dela. Multiplicam-se filosofias, religiões, movimentos, sincretismos, “à la cartes”, etc., que encorajam e ensinam uma ascese que se pretende boa. Uma elevação ou despojamento que devolve o eu ao Absoluto, a gota ao mar, uma espécie de panteísmo. Uma felicidade sem eu, sem mim.

A mim parece-me mais humano um eu que não se apague e que veja cumprida a sua fome e sede de infinito, como lembrou a nossa Florbela Espanca. Um eu que quanto mais grita pelo que quer, mas se afirma a si mesmo, sendo ele e não outro. Porque é nessa diferença que pode entender e partilhar o seu e o grito do outro. Na mesma dor. Na mesma alegria. A desejar beberem e comerem do mesmo Pão e do mesmo Vinho.

De que me serve um futuro ou uma dissolução, se aquilo que eu sou é mesmo fome  e sede de infinito, mas AGORA e sem PAUSAS? Insaciáveis. Sobretudo diante da dor, dos outros, que é minha também. Gosto de vestir a camisola. Eu, não outro. Também a dou se for preciso. É isso que quer dizer que nos comemos e bebemos uns aos outros. Simpatia. Compaixão. Amizade. Amor.

E o melhor mesmo, é uma boa refeição em que cada um saboreia com gosto o que está à mesa no meio de todos. E brinda. Em companhia. Não quero que comam por mim. Não o impessoal. Posso até morrer de fome. Mas isso é uma decisão minha.

Onde está o LOCUS ISTE? O meu lugar? Na verdade eu não tenho lugar, eu sou um lugar, sou eu.

Onde “está” o LOCUS ISTE? Acontece-me. A mim.  Tudo o mais seria alienação estética, religiosa, e outras. A minha tensão está em sentir, levantar-me, com os meus pés. Toda. Onde quer que seja. A ser eu, aos bocadinhos, sem maniqueísmos. Para que serve a minha vida se não é para ser dada, dizia Claudel. As coisas anunciam-se e eu quero dizer sim. Não mudo o mundo, sei que há quem lute por um feijão. Posso dar sopa a toda a gente? Se calhar podiamos. Mas quem nos dá a nós?

O mais importante no Cristianismo não são os valores, não é a moral. O diamante do cristianismo está muitas vezes envolto na lama das nossas mãos sujas. Mas está.

As partes da feijoada de que eu gosto mais são a farofa e a couve. Passo sem elas se for bom. E não quero nada rever-me naquilo que o Cardeal Cerejeira dizia dos católicos (ou de Lisboa, ou Portugal, não me recordo agora): comem, bem e não fazem mal a ninguém.

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 HOJE

 

MAR14

Sempre NÓS -JOÃO Soares E JOSÉ Milhazes - 14 MARÇO

Público 

 

JOÃO SOARES e JOSÉ MILHAZES como nunca os vimos. Dois homens bem diferentes, e com muito em comum, entre ‘Perigos e guerras’. Esforçados? Estarão hoje á noite3ª feira no Conhaque-Philo.

 

Provocador e desafiante, o Conhaque-Philo, uma iniciativa da bloguista Fátima Pinheiro, convida gente a conversar, com café, um vinho ou mesmo um conhaque, junta políticos, jornalistas, economistas, artistas, empresários. Nesta sua 3ªedição para debater ‘Sempre Nós’: os nós que são as pessoas, os nós que atamos e desatamos, os nós da nossa História, os que queremos agarrar para construir o presente e o futuro. Oue queremos do que nos espera? Orgulhosamente acompanhados?

 

Rui Ramos, Luís Osório e Siiri Milhazes abriram na 3ª-feira passada, de forma brilhante, este novo ciclo de tertúlias, conversando sobre ‘Só se conquista o que se dá’.

 

António Correia de Campos, Joaquim Sapinho, Ângelo Correia, Raquel Abecasis, Luís Miguel Cintra, Francisco Seixas da Costa, Filipe Magalhães, Pedro Abrunhosa, Rui de Carvalho, e Paula Roque, são os que se seguirão.

 

ENTRADA GRATUITA

 

Às 21h na Casa Museu Medeiros e Almeida, hoje

 

 

Programa

7 MARÇO (3ªfeira) – “SÓ SE CONQUISTA O QUE SE DÁ”
Rui Ramos/ Luis Osório/Siiri Milhazes

14 MARÇO (3ªfeira) – “ENTRE PERIGOS E GUERRAS”
João Soares/José Milhazes

21 MARÇO (3ªfeira) – “ENGENHO E ARTE”
Joaquim Sapinho/Ângelo Correia

28 MARÇO (3ªfeira) “PARA ALÉM DA TAPROBANA”
Raquel Abecasis/Luis Miguel Cintra/Francisco Seixas da Costa

4 ABRIL (3ªfeira) – “A FORÇA HUMANA”
António Correia de Campos/Filipe de Sousa Magalhães/Higino Cruz

12 ABRIL (4ª feira) – “Tens os olhos de Deus”
Pedro Abrunhosa/ Rui de Carvalho/Paula Roque 

 

 

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05
Mar17

"Só se conquista o que se dá"

por Fátima Pinheiro

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“SEMPRE NÓS” na Casa Museu Medeiros e Almeida


“SÓ SE CONQUISTA O QUE SE DÁ”
7 de Março - 21h30
ENTRADA GRATUITA

Convidados:
. Rui Ramos
. Luís Osório
. Siiri Milhazes

Sempre nós? Por ser sobre cada um de nós, sempre. Porque a vida está cheia de nós, entre nós, por atar e desatar, sempre. Porque a nossa História tem os “nós” da primeira globalização, “feita” com genial “corda”: sangue, energia e criatividade. Sempre foi e é. Será?

As terças-feiras à noite prometem ser diferentes na Casa-Museu Medeiros e Almeida, em Lisboa, a partir de março e durante seis semanas. Às 21h30 iniciam-se conversas provocadoras e desafiantes entre Fátima Pinheiro e os seus convidados, enquanto bebem um café, um vinho ou mesmo um conhaque.

A Sala do Lago da Casa-Museu Medeiros e Almeida é o palco intimista, com entrada livre e sem necessidade de inscrição prévia. A filósofa Fátima Pinheiro, conhecida na blogosfera como Conhaque-Philo, é a autora do blogue Rasante (http://rasante.blogs.sapo.pt/), sendo a moderadora, ao longo de 1h30, do “Sempre nós”. Esta iniciativa insere-se nos encontros Conhaque-Philo, já na 3.ª edição.

“Sempre nós” é, simultaneamente, o nome desta iniciativa e a temática transversal aos mais diversos entrevistados: políticos, jornalistas, economistas, artistas e empresários. Estão confirmados Rui Ramos, Luís Osório, Siiri Milhazes, João Soares, José Milhazes, Joaquim Sapinho, Ângelo Correia, Raquel Abecasis, Luís Miguel Cintra, Francisco Seixas da Costa, António Correia de Campos, Filipe De Sousa Magalhaes, Higino Cruz, Pedro Abrunhosa, Ruy de Carvalho, Paula Roque, e são esperadas algumas surpresas.

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19
Fev17

Um ateu credenciado

por Fátima Pinheiro

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imagem tirada da net

 

Eu não tenho fé que a minha camisa é branca, tenho a certeza, tenho a certeza que a minha camisa é branca,  afirmou Ricardo Araújo Pereira à Rádio Renascença., apontando para a camisa.

Esta entrevista foi seguida na mesma linha do seu discurso no evento FAITH'S NIGHT OUT, ontem,numa espécie de “Ted Talks” sobre a fé, que juntou cerca de 1470 pessoas no Centro de Congressos de Lisboa. TED? Agora é tudo em "estrangeiro"...
 
Somos muito mais parecidos do que parece", crentes e não-crentes, afirmou. Olhe que não, olhe que não! Estou ao nível do discurso filosófico. A fé é acreditar sem ver. Pode provar-me que há coisas que só por não se verem não existem? Há "ver" e "ver." Eu clarifico. Quando você olha nos olhos de alguém, vê o olhar, ou só os olhos? Não vou incomodá-lo mais. Tive mesmo para ficar calada. Mas a conversa é como as cerejas. Eu também estudo filosofia, faz mais comichão calar-me. 
 
Fez questão de dizer que era "um ateu especial", uma espécie de não-crente "credenciado" (esta palavra é minha), ou seja que teve uma educação sempre em escolas católicas, a culminar na Universidade Católica Portuguesa. Que é um um homem que tem altas expectativas, que precisa de consolo, neste mundo que por vezes é abismo. Neste aspecto sim, somos mesmos iguais. Que viu e vê muita gente, crentes, a darem a vida por ideais louváveis. Acontece que as religiões, se têm apenas a função de transmitirem e realizarem valores, não são são necessárias, contrariamente ao que disse, que a religião  tem essa função. Para isso temos a ONU, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 
 
Fez questão de dizer que ainda não viu o "Silêncio". E? Até parece que é um mandamento para crentes e não crentes.
 
“Não se esqueçam que são crentes” e “mantenham a vossa fé.”, disse o humorista. Era o que faltava! Só se o disse como humorista!  Basta-me muito bem o Papa. 
 
Quem é crente não se esquece do essencial da sua fé: Cristo. O cristianismo não é uma moral, é uma Pessoa. O Ricardo diz que ainda não viu o filme "Silêncio". E precisa? Mas quer um conselho? No dia em arrecadamos mais um Urso de Ouro, vá ver "Os olhos da Ásia", do realizador português João Mário Grilo, realizado há 20 anos, filme baseado no mesmo livro que inspirou Scorcese. Ou então o La La Land. que é um filme fabuloso.
 
No "ponha aqui o seu pezinho" - fumié, fossa e oceano a afogar lentamente - é que a  porca torce o rabo. Falo por mim. Foge! O que me salva é que a Igreja, com a plena consciência e sabedoria do seu CEO, é feita de pessoas como eu. E é através delas - e não apesar delas- que tem uma História da qual também se pode orgulhar. Ignoro o que terá sido o seu percurso educativo, mas não nasci hoje.
 
Como disse ontem no Púbilco Miguel Esteves Cardoso, agora aplicado a si: Ricardo, você é não crente, "que bom para ti" (good for you). Mas eu não sou inglesa, sou como a Cuca Roseta.

  

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19
Jan17

«Tudo bem?»

por Fátima Pinheiro

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 a fazer bolachinhas

 

É a pergunta que diz tudo e diz nada. Cruzamo-nos e ... lá vem a pergunta: "tudo bem?". Não digo que seja uma coisa falsa. Mas, e falo por mim (sempre), o que pergunto ao perguntar "tudo bem?". Bem sei que nos agitamos de um lado para o outro. O tempo para responder à pergunta não chega para a pergunta, etc. Outras vezes não quero saber se está tudo bem. Claro que desejo e quero que tudo esteja bem. Não, não é isso; é que faço a pergunta tipo no automático, género das formigas que se cruzam (penso eu; na volta elas, as formigas, dizem umas às outras: "amo-te"...) e nem sequer penso na sua grandeza. Que raio|! A gente vale mais, muito mais. Já me maravilhei hoje com alguém, com o dom da existência?

 

Andando eu agora em menos agitações (no final de contas, não mandamos nos minutos, os nossos minutos estão contados), penso nas pessoas que conheço. Penso nas superficialidades dos momentos sérios e nas dos momentos de brincadeira. Nas minhas superficialidades e nas dos outros. Mas não me ralo em contar. Essas contabilidades fazem perder o bom bom da vida. Estou a dizer que ando a aproveitar o que as circunstâncias me dão, e a fazer delas o que elas são na realidade.

 

O importante nisto tudo é que vivo cada vez mais, experimento, a diferença entre um sorriso que só tem capa, e um sorriso que molha de alegria. O meu e o dos outros. Sei o que é um sorriso salvo. Uma pessoa salva. Já me tinham dito que só a partir dos 50 é que podemos começar a perceber, a viver a vida...

 

O momento em que percebo isso com uma clareza incontornável, corro apressada a desfazer-me das estupidezes. Quero que tudo esteja bem. Aos poucos (ainda há muita porcaria) penso e faço o que me parece bem. Fiz uma lista das coisas a re-parar. Finalmente entendi o que quer dizer "não deixes para amanhã aquilo que podes fazer hoje." O que posso faço hoje. Há coisas que não consigo fazer hoje. Mas sei que se continuar a desejar muito, mesmo o que me parece impossível, tudo virá a seu tempo.

 

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