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Só pode ter aparecido !

por Fátima Pinheiro, em 13.05.17

O que faz Francisco vir à Cova da Iria? Acabo de estar a um metro e meio de distância deste homem terno e imponente. Que prescinde ou é, pelo menos, livre, de pompas e circunstâncias. Que sabe o que é a miséria e a ditadura. No meio dos Poderosos age como se estivesse com crianças. E não deixa de ser solene e impactar.  Entre outros gestos, que as televisões não se cansaram de por e repor, no percurso que fez da base aérea onde aterrou, até ao Santuário, fez o papa móvel parar algumas vezes para se enternecer e ser enternecido, por algumas delas. Brincou com duas bonecas, abraçou um rapaz com grave deficiência, virava-se e estendia-se para todos os lados. Sempre a amparar, consolar, abraçar e beijar. Isto entremeado por imagens dos que nos governam, dos que vestidos de fios, tm, e coisas que nem sei, faziam o trabalho para que tudo corresse bem. 

À noite, ontem, Ele  podia ter ficado de chinelos na Casa do Carmo, a ver pela janela, com se visse pela televisão, o mar de velas que é aquela vigília, de que há pouco João Canijo soube dar um cheirinho. Mas Francisco é um homem de "calle". Mal jantou e antes do terço das 21h e 30, é vê-lo uns vinte minutos antes, foro do papa móvel, a caminhar para a capelinha, onde rezou em frente ao local onde há Cem Anos apareceu a Senhora mais brilhante que o sol. Ninguém diz que tem um pulmão apenas e que tem 80 anos. O que O faz correr é a certeza do essencial. O fôlego e a juventude soltam-lhe um sorriso bom, alegre e inesquecível. Faz-nos por as sandálias e saltar, que urge. Mata a mornice panhonhas de acharmos que "ainda não". Ou "um dia". Artroses, noitadas e falta de tempo...

Disse que veio como peregrino mas também para celebrar o centenário das Aparições. "Temos mãe", disse repetidamente. Cristo é a Porta. E Ela é Mãe porque soube dar o Filho ao mundo. As mães dão tudo. As mães dão-se. Os pastorinhos deram-se, lembrava hoje Francisco que é agora nosso Pastor. Na véspera já nos tinha oferecido uma bela Mariologia.

Hoje o papa apontou-nos Jacinta e Francisco como santos. Conta connosco, pede-o insistentemente que rezemos por Ele. Sabe muito, muito bem o que o rodeia, e o que tem pela frente. Já partiu, um homem investido de mais sáude, força, coragem, profundidade, e outras coisas mais que o Bispo de Fátima lhe prometeu que iriamos rezar. Ele vai à luta. Também o disse quando chegou. Como disse hoje  que ser cristão é ser mariano.

Não vi, mas Ela apareceu.  Senão seria tudo isto uma brincadeira. A conversa do sermos tolerantes e respeitarmos, não leva a lado nenhum. É como um filho ao colo da mãe: essas palavras - tolerância e respeito - não cabem. Cabem outras palavras que não se sabem dizer. Cabe nada a não ser o lugar que se faz no colo. Temos mãe, "um manto de luz".

 

Da Homilia de hoje: "Deus criou-nos como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um. Ao «pedir» e «exigir» o cumprimento dos nossos deveres de estado (carta da Irmã Lúcia, 28/II/1943), o Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. Não queiramos ser uma esperança abortada! A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» (Jo 12, 24): disse e fez o Senhor, que sempre nos precede. Quando passamos através dalguma cruz, Ele já passou antes. Assim, não subimos à cruz para encontrar Jesus; mas foi Ele que Se humilhou e desceu até à cruz para nos encontrar a nós e, em nós, vencer as trevas do mal e trazer-nos para a Luz."

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Um Presidente Também Precisa de Afeto

por Fátima Pinheiro, em 27.03.17

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Marcelo espalha afeto por todo o Portugal. De onde lhe vem a energia? O Presidente esteve no Meeting de Lisboa 2017, neste sábado à tarde. Já tinha estado no ano passado, e estará para o ano, disse-o nas palavras finais, de saudação aos participantes neste evento anual, que já faz história na Praça de Touros do Campo Pequeno. Nascido de uma vida que é o Movimento Comunhão e Libertação, é um evento cultural no autêntico sentido do termo. Não é um discurso, mas uma presença. Não é uma utopia mas um Acontecimento.

O tema deste ano: Do amor ninguém foge. Como já aqui referi, a frase tem a sua história, a de um homem chamado José que passava a vida a fugir das prisões até que foi parar a uma das prisões do sistema APAC, no Brasil, que difere, entre outros elementos, em que as chaves estão nas mãos dos reclusos.O Juiz responsável por grande parte desta obra foi um dos conferencistas que inaugurou o Meeting. Ao visitar o lugar de onde José já teria fugido, espantado deu com ele lá. Porque não fugiste?, perguntou -lhe. Do amor ninguém foge, foi a resposta daquele homem. Não é utopia, não é discurso.

O que se Mostra são pessoas cheias de vida e obra, contagiam, mudam, protagonizam, fazem acontecer. Entre exposições, conferências, testemunhos, reflecte-se nas caras das pessoas que nele participaram. Uma Coisa maior que nós, que tem por nome Cristo.

Marcelo disse : o Meeting é para carregar baterias. Eu diria que é para carregar o coração. O meu precisa de carregar cada dia.Tem uma fome e uma sede do Amor, um vazio rico na sua pobreza. Como testemunhou um rapaz italiano de 21 anos, saido da toxicodependência, este vazio é a força que o faz andar em frente, de fratura exposta a fazer história, a mudar corações, a começar pelo seu. Do Amor ninguém foge. 

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Um ateu credenciado

por Fátima Pinheiro, em 19.02.17

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imagem tirada da net

 

Eu não tenho fé que a minha camisa é branca, tenho a certeza, tenho a certeza que a minha camisa é branca,  afirmou Ricardo Araújo Pereira à Rádio Renascença., apontando para a camisa.

Esta entrevista foi seguida na mesma linha do seu discurso no evento FAITH'S NIGHT OUT, ontem,numa espécie de “Ted Talks” sobre a fé, que juntou cerca de 1470 pessoas no Centro de Congressos de Lisboa. TED? Agora é tudo em "estrangeiro"...
 
Somos muito mais parecidos do que parece", crentes e não-crentes, afirmou. Olhe que não, olhe que não! Estou ao nível do discurso filosófico. A fé é acreditar sem ver. Pode provar-me que há coisas que só por não se verem não existem? Há "ver" e "ver." Eu clarifico. Quando você olha nos olhos de alguém, vê o olhar, ou só os olhos? Não vou incomodá-lo mais. Tive mesmo para ficar calada. Mas a conversa é como as cerejas. Eu também estudo filosofia, faz mais comichão calar-me. 
 
Fez questão de dizer que era "um ateu especial", uma espécie de não-crente "credenciado" (esta palavra é minha), ou seja que teve uma educação sempre em escolas católicas, a culminar na Universidade Católica Portuguesa. Que é um um homem que tem altas expectativas, que precisa de consolo, neste mundo que por vezes é abismo. Neste aspecto sim, somos mesmos iguais. Que viu e vê muita gente, crentes, a darem a vida por ideais louváveis. Acontece que as religiões, se têm apenas a função de transmitirem e realizarem valores, não são são necessárias, contrariamente ao que disse, que a religião  tem essa função. Para isso temos a ONU, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 
 
Fez questão de dizer que ainda não viu o "Silêncio". E? Até parece que é um mandamento para crentes e não crentes.
 
“Não se esqueçam que são crentes” e “mantenham a vossa fé.”, disse o humorista. Era o que faltava! Só se o disse como humorista!  Basta-me muito bem o Papa. 
 
Quem é crente não se esquece do essencial da sua fé: Cristo. O cristianismo não é uma moral, é uma Pessoa. O Ricardo diz que ainda não viu o filme "Silêncio". E precisa? Mas quer um conselho? No dia em arrecadamos mais um Urso de Ouro, vá ver "Os olhos da Ásia", do realizador português João Mário Grilo, realizado há 20 anos, filme baseado no mesmo livro que inspirou Scorcese. Ou então o La La Land. que é um filme fabuloso.
 
No "ponha aqui o seu pezinho" - fumié, fossa e oceano a afogar lentamente - é que a  porca torce o rabo. Falo por mim. Foge! O que me salva é que a Igreja, com a plena consciência e sabedoria do seu CEO, é feita de pessoas como eu. E é através delas - e não apesar delas- que tem uma História da qual também se pode orgulhar. Ignoro o que terá sido o seu percurso educativo, mas não nasci hoje.
 
Como disse ontem no Púbilco Miguel Esteves Cardoso, agora aplicado a si: Ricardo, você é não crente, "que bom para ti" (good for you). Mas eu não sou inglesa, sou como a Cuca Roseta.

  

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Os olhos da ásia

por Fátima Pinheiro, em 08.02.17

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imagem tirada da net

 

O filme de João Mário Grilo, "Os olhos da Ásia", também baseado no livro de Shusaku Endo que inspirou Scorcese, "Silêncio", foi feito há 20 anos. Só o vi há dias (o Nimas está sempre de parabéns; e com o filme trouxe - para uma conversa no fim do visionamento - o próprio realizador e o Pe Tolentino Mendonça).

O que silenciou João Mário Grilo? O filme por ele realizado, já o referi,  tem 20 anos. Claro que já era conhecido pelos entendidos . Mas o comum dos mortais, moi-même,  ficaria na ignorância, não fosse o Cinema Nimas tê-lo  passado ontem à noite a propósito do "silêncio" de Scorcese. Thanks Martin.

O que silenciou João Mário Grilo? Nada. Mostra tudo. Vinte anos não é nada. Sem ser "trop clair", mostra, como nada mostram as mensagens que Scorcese quer passar. Detrás de um trabalho há sempre uma motivação (conheço as dos dois: ir ao youtube; e ter ido ao Nimas; quer dizer ouvi-as no que eles disseram). Mas o resultado é exterior. Tenho à volta de metro e meio e mesmo assim digo que o "filme" de Scorcesse é ideológico, político, numa palavra, gosto sim do "Táxi Driver". E no "Silêncio" esmera na fotografia, na qual é genial.

O "filme" é ideológico porque numa  auto-provocação à sua medida, e à medida do autor do livro, falam a voz de Deus ao dizer "Pisa-Me". Deus é transcendente ( palavra de que João Mário Grilo não se esqueçeu ao referir a cena do baptismo, nos "Olhos da Ásia", na conversa no Nimas; palavra que ainda não tinha ouvido em todo este correr de linha em torno do filme de Scorcese, todo ele muito a escorregar para uma linha protestante, intimista, imanentista). Só Deus pode dizer essas palavras (e  todo o filme parte deste não-pressuposto). Não me venham dizer que isto é fição; há fições e interpretações que são um abuso de direito. Sobretudo em filmes, ou livros,  onde a realidade "real" pode ser deturpada (não me obriguem a falar outra vez de José Rodrigues dos Santos, o que aqui fiz muitas vezes; e diga-se que nem comparo Santos a Scorcese, é só por causas das vendas milionárias de ambos). 

O "filme" é político porque todo o mundo o interpreta, o usa, e mais não sei o quê. A seu favor terá a "sorte" de não ter sido o filme do ano. Hollywood decide. O que faz o dinheiro, também sei.

Um filme com mensagens não é um filme. Um filme "limita-se" a mostrar. A "ser" vida. Estou farta de consciências tranquilas, a começar pela minha. Mais vale dizer: Senhor Scorcese, ponha aqui o seu pezinho (no fumié); o senhor estava interessado em fazer um filme sobre o martírio, e vai complicar com apostasias ! Não haveria um caminho melhor? Veja as regras do método cartesiano. O senhor que conhece bem o jesuitismo sabe do que falo. Vá do mais simples para o mais complexo; e aí sim, a apostasia. E não sabia quem era Pedro!?? E que ele é a rocha? Sabe que é muito mais fácil olhar e decidir por aquilo que é mesmo maior que nós. Ao lado do Amor que Deus nos tem, e que tudo abraça sem ver limites culturais, o que é o meu tremer? Voltar à Casa do Pai,  onde há muitas moradas. Ao lado do Amor que Deus, que abraça qualquer um, europeu, asiático, africano, o que é o meu tremer? Ou ando a brincar?

"Os olhos da Ásia" mostram. Deixam-me de batata quente - fumié - na mão. Nem João Mário Grilo tem a noção completa do que fez. Sim, porque o filme agora é também da liberdade de quem o vê, com outros olhos, esses sim, de Deus, que é "mesmo" transcendente.

 

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O Nome de Deus é Francisco

por Fátima Pinheiro, em 27.03.16

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Leonardo di Caprio em "O Renascido", imagem tirada da net, a imagem final do filme

 

Cinema não é o tema deste artigo, embora esteja repleto de Revenant, Stalker e Spotlight. Escrevo sim sobre a Páscoa que é mais do que aquilo que mostra o filme “dos padres pedófilos”, como o chamam. Não gostei não, mas não é pelo que se pensa. É por razões apropriadas: a Porta que Bergman refere ao comentar a obra de Tarkovsky.

Spotlight (2015) mostra a investigação feita por uma equipa de jornalistas que usa todos os meios para trazer a verdade ao de cima. É mais um documentário do que um filme propriamente dito. 20 valores. Há contudo um aspeto crucial. Sendo a Igreja ator principal desta história, dela pouco se fica a conhecer no que respeita à sua natureza. Eu sei que o filme não pretende ser uma Suma Teológica, mas acaba por meter a colher em seara alheia. Ou melhor, não consegue meter.

O resultado do filme é a Igreja reduzida aos que praticaram atos monstruosos. O resultado pode ser: “afinal a Igreja é um bando de criminosos, pompas e circunstâncias.” Talvez o Papa Francisco seja outra loiça, etc. Erro gnoseológico: parte-se da premissa de que a Igreja é feita por homens perfeitos. Acontece que Jesus Cristo ao fundar a Sua Igreja sobre Pedro, que o tinha acabado de negar três vezes (e foi isto que os homens de Boston fizeram) sabia muito bem o que estava a fazer. Foi de propósito. A Igreja foi escolhida assim, como um barro que é o instrumento humano do divino. Logo, qualquer objeção à Igreja com base de que ela não tem a pinta do seu fundador, cai por terra. Spotlight mostra de mais e acaba por mostrar de menos. Viro-me então para os outros dois: um filme que não é de vingança, como se diz, filme de um mexicano que quer imitar o artista russo que realizou Stalker. Para chegar assim à Páscoa, à Porta.

Renascido (2015) é sim a história de um pai, de um filho e de uma grande companhia. De um amor que não desiste diante dos maiores obstáculos. O filme é a nossa vida. O grande e o pequeno, a natureza e a história, o dia e noite, o amor e o ódio, o sol e a chuva, a tempestade e a bonança, a mulher e o homem, a musica a dança e o silêncio. É um pedaço de vida que não se conta. Vê-se. Experimenta-se. Depois de meia dúzia de filmes de seguida com Scorcese, Leonardo Di Caprio dá-se na Câmara de Iñárritu. Um mexicano que me foi apresentado recentemente. 

Stalker (Tarkovski,1979): entra-se mudo e sai-se calado. É um murro no estômago. Sou eu, ali. Diante da Porta. Quero entrar? Não há chave, diz Bergman; mas mesmo se houvesse não abriria, continuou Tolentino Mendoça no Domingo ao apresentar este filme (o que escolheria, se tivesse que indicar um de Tarkovsky) no Espaço Nimas. Foi e é preciso a Páscoa. Não há pedofilia que se aguente. Entremos nas “entranhas da Misericórdia”, lembrou há pouco Francisco numa entrevista, um spotlight que é o nome de Deus em ação.

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Lutero tinha razão

por Fátima Pinheiro, em 23.02.16

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imagem tirada da net 

Vem isto a propósito de uma conversa recente. Sobre tudo. Religião inclusivé. Lutero em especial. Mas o que escrevo é mais abrangente e serve para as nossas vidas. Serve para mim. Se eu tenho razão, e do outro lado de que faço parte não há razão, o que faço? Saio, e faço à parte?

A este propósito verifiquei mais uma vez que somos muito ignorantes e tomamos muitas vezes opções apenas por desconhecimento. Se soubessesmos da matéria, muito poderia ser diferente. Depois não temos tempo para aprofundar as questões. A vida é complexa e vamos fazendo o que pudemos. Rotinas, obrigações, urgências, cansaço. O tempo para amar também se esvai.Todos sabemos do que estou a falar...

Lutero fez bem ao "sair"? Ele estava cheio de razão. A História da Igreja não é propriamete um mar de rosas. E quem fundou a Igreja bem sabia que Pedro, o escolhido para primeiro papa, o tinha negado três vezes antes do galo cantar. Pois aqui está. O gesto fundacional é o de uma vida, não o de uma moral. A moral é toda quase igual em todo o lado. Mas a Igreja não é uma moral, é uma vida. Humana. Instrumento do Divino.

Lutero tinha razão. Havias razões de sobejo para sair. Mas ao fazê-lo foi bem diferente daquela mulher que à decisão de Salomão - de cortar o menino ao meio, metade para cada uma das duas pretensas mães -  decidiu abdicar do seu filho só para que não o partissem ao meio. Lutero tinha razão, mas "perdeu-a".

 

 

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Lixai-vos uns aos outros como eu vos lixei.

por Fátima Pinheiro, em 27.01.16

Já me tentaram lixar muitas vezes. E eu também aos outros.  Olho por olho. O novo livro do Papa Francisco tem um título super atrativo: "O nome de Deus é misericórdia". Muita gente comenta comigo: deve ser muito bom.  "Vou ler". Este sim. Novidade total... Como se fizessemos um favor ao livro. Um "vamos lá ver" se isto ainda vale a pena. Dar uma chance à Igreja. O Papa Francisco sim. Mas S.João Paulo II escreveu uma encíclica com o título "Deus é Rico em Misericórdia". Pois é, veja as diferenças. Serão assim tantas? E isto aplica-se à Política, às Presidenciais e a tudo o que há mais, Cavaco, Sócrates, e sucateiros...

E há uma excitação ao dizer-se que na pintura de Rembrandt, "O Regresso do Filho Pródigo", o célebre quadro da Misericórdia que está no Hermitage, o Pai agarra o filho com as duas mãos, sendo uma masculina e outra feminina! Mas alguém em seu pleno juízo pensa que o Deus que desejamos tem alguma mão "madrasta"? E não sabemos nós que não há mais mãe que Deus? Estes deslumbramentos assim, pela novidade, pensam que "hoje é que é", ou que "amanhã é que vais ser." Milhares de vida e de história reciclada em fast food. 

Que criancice. É mas é adiar o coração para o século vinte e picos, querido Ramos Rosa. Isto não vai lá com livros novos. É a justiça que aqui está no centro mais a experiência, que esquecemos, de que o metro que mede as acções nos excede. Fazer contas é tempo perdido. 

A criança fez borrada, vem ter comigo, o que faço? Não é melhor começar de novo, abraçá-la na bela justiça que aqui não serve para nada e deixar-nos invadir pela alegria de um recomeçar? Misericórdia? Por-me no coração do outro e deixar que aconteça o abraço que esse outro deseja? Ter um coração assim? Antecipar-se e dar ao outro o que deseja, sem que ele o peça. Não sei. Só sei que já me aconteceu. Não preciso de dizer quem foi pois não? Em perdão e  Miseri-córdia somos uns incompetentes. O único know how que temos é a nossa liberdade. E essa nem Deus toca. Quero ser abraçado? Então tenho que pedir; e a isto se chama oração. E fica-se com uma vontade de abraçar os que se cruzam comigo...

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O que é o dogma da Imaculada Conceição?

por Fátima Pinheiro, em 08.12.15

 imagem tirada da net

 

 

A  Igreja raramente recorre à proclamação de um Dogma no sentido forte do termo, isto é, ex cathedra ( de resto há muitos dogmas, entendendo-se estes como máximas, verdades, opiniões). Mas quando o faz é por razões pedagógicas, para realçar algum aspeto que esteja a ser “descurado”  na vida da Igreja; e fá-lo a partir dessa experiência de vida. Isto é, reconhece formalmente o que já é vivido no seu seio, na sua prática milenar. Numa palavra, não o faz à la a carte e por razões do “eclesialmente” correcto, ou para inglês ver. Vem isto a propósito do Papa Francisco, mais uma vez a marcar pontos ao “obrigar” a pensar e a conhecer a Igreja; a fazer as distinções essenciais. Foi no regresso da sua  visita à Terra Santa, ao responder à pergunta dos jornalistas: o celibato dos padres poderá deixar de ser obrigatório? Já em 2012 se tinha pronunciado sobre este assunto. Paulo VI e Bento VI também. Em ambas as ocasiões disse: eu sou a favor do celibato dos padres; embora não seja um Dogma – e por isso pode mudar-se - , o celibato é um Dom de Deus à Igreja, uma disciplina, uma regra de vida que eu aprecio muito; por isso, apesar dos seus prós e contras eu sou a favor; temos do celibato dos padres dez séculos de boa experiência; a tradição tem a sua validade…. Não se espere portanto que o próximo Sínodo de Outubro, sobre a Família, se centre na questão do celibato, e outras que vêm à colação (contraceção, homossexualidade, etc.). É preciso ir a montante: pensar, entender, clarificar o que é a família, que está em crise, e tudo ver a essa luz.

A Madre Teresa de Calcutá dizia que a Palavra de Deus não é a Bíblia. What? A Palavra de Deus é a Bíblia, sim, mas mais a Tradição. Dogma e Tradição casam bem, como há pouco referi. São poucos os Dogmas ex-Cathedra. Mas como o século 19 resultou numa aceleração permanente – ainda em andamento -, nestes últimos dois séculos foram proclamados três Dogmas.

 

Em 1854 o da Imaculada Conceção de Nossa Senhora, que sublinha a atualidade do pecado original como razão da fragilidade do humano, que se traduz na dificuldade em não conseguir realizar o bem que se vê e gosta e quer, mas acaba por fazer o que não gosta, ou no fundo não se quer. Em 1870, o Dogma da Infabilidade Papal (em matérias de Fé), para mostrar que o homem não é a medida de todas as coisas, numa época em que esse é um sound bite vertiginoso e imparável. E em 1950, o Dogma da Assunção de Maria ao Céu em corpo e alma, para lembrar a unidade de corpo e alma, que é o homem; o corpo não é o usa, gasta e deita fora; uma “coisa”, “um número”, mas uma dimensão essencial do humano. ”Eu não tenho um corpo, eu sou um corpo”, é uma pedra no pântano materialista então a iniciar um reinado do qual ainda hoje se desconhecem contornos. João Paulo II viria a seguir, e devido à sua formação fenomenológica, foi capaz de começar um estudo sobre a sexualidade que se veio a concretizar na sua obra, e nas catequeses de 4ªfeira, já publicadas entre nós. A designada “Teologia do corpo”.

 

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Francisco: como cordeiro no meio de lobos...

por Fátima Pinheiro, em 30.11.15

 

 

Audiência do Papa Francisco com o Movimento Comunhão e Libertação na Praça São Pedro no dia 7/03/2015

 

Não invento. São palavras que já Bento XVI usava. Ele, Papa Francisco, também. São palavras retiradas do Evangelho, ditas por Jesus ao enviar os seus amigos para as suas vidas. Hoje, na reta final final da sua ida a África , e com o programa que se sabe, elas revelam-se bem atuais. Francisco tem pinta: salero, samba, pé para qualquer tipo de tango. Tem medo é de mosquitos, ficamos entretanto a saber na sexta-feira passada.

 

Pinta? Sim. Hoje ele corre riscos aos quais se poderia escusar. E eu não sou nada de fazer de quixote. Falo de coisas objectivas. Sei que qualquer pessoa o pode fazer: arriscar. Mas Francisco faz, e é dele que hoje falo. Foco sim as razões pelas quais ele faz. Percebi na carne quando ele olhou para mim há uns meses, na Praça de S.Pedro. Fazer por fazer cansa. Francisco faz porque encontrou um caminho que tem o nome: FELICIDADE. E não descansa enquanto não vir todos felizes. A mim faz. Tudo na vida parte de um encontro.

 

Na fotografia ele está mesmo a olhar para mim. Há uns meses fui a Roma no âmbito de uma peregrinação, e como vejo mal ao longe (Atchim!), furei até ali...Pedi ao meu parceiro do lado: "quando ele passar pode tirar uma fotografia dele a olhar para mim, se ele olhar, claro; pode ser a olhar para si; tamvém serve....". Ainda experimento esse momento: uma positividade, uma docura e uma energia de vitória, assim como um chefe guerreiro. Também me esqueço e vou noutras ondas. Mas isso não interessa nem ao Menino Jesus. O amor é uma decisão a tomar em cada trago, sendo que o que me define não é o meu balançear mas aquela marca, aquela raça que faz de mim um "snoopy" de carne. 

 

Cada dia tem razões  para eu me levantar. Senão é uma "monstruosidade" ou um voluntarismo. Cada dia é uma reta final. O que interessa é ser resistente (disse ele hoje de manhã) e deixar-se atravessar pelo sangue da boa nova. Não tenhamos ilusões nas luzes bruxuleantes deste natal esvaziado, que bem nos quer animar mas não tem potência. Se posent sur ma bouche, mais jamais sur mon coeur.

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Aura Miguel: queimados vivos, faz hoje 50 anos.

por Fátima Pinheiro, em 28.11.15

 imagens tiradas da net, a da esquerda trata-se de um caso similar ao que refiro; a da direita é o Papa a chegar ao Uganda ontem.

 

A minha leve aproximação a queimaduras é um escaldão na praia. Estou a falar da minha pele. E mesmo assim não é nada do outro mundo. É que sou morena (e por acaso bem gira!),passa depressa. Hoje faz 50 anos que um punhado de religiosos católicos a anglicanos do Uganda foram quemados vivos. Alguns deles torturados antes aqui. Foi para fazer memória deste facto que o Papa Francisco se deslocou a África. 

Sei destas coisas porque ainda há pessoas que as contem. Neste caso a Aura Miguel, jornalista da Rádio Renascença, e a única vaticanista portuguesa. Diz ela que foi por causa da fé que o fizeram. Ninguém lhes tirou a vida, mas sim foram eles que a deram, à semelhança d'Aquele pelo qual o fizeram. 

A jornalista acompanha o Papa, tal como acompanhou João Paulo II e Bento XVI , e desta vez teve o apoio da "minha" Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (que eu dantes pensava que era "quase" só jogos). A fé é de uma atualidade que impressiona, que é excepcional. Imparável, permanente, atravessando séculos de humanidade, que é exaltada através de tanta asneira, de tanto mau senso! Estou a falar da minha pele e dos meus companheiros de Jesus. O Papa jesuíta, já tinha lembrado na missa da manhã em Santa Marta que   a " Igreja é fiel se o seu tesouro é Jesus e não as seguranças do mundo”. Obrigada queridos irmãos ugandeses.

(a Aura Miguel vai estar no Conhaque-Philo 2005, no dia 22 de Dezembro, muito bem acompanhada, para nos contar os pormenores e a Europa, que somos.)

 

 

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