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 a fotografia não é a do artigo, e é tirada da net

 

fonte: Público – 17.12.2011

 

Isto não é o último segredo

Fátima Pinheiro

 

Chegado o natal reponho sempre este artigo, o primeiro que escrevi no jornal Público. E escrevi-o porque vi o livro a que se refere bem exposto, ao pé da caixa de uma gasolineira. Folheei, não me agradou. Disse para mim: isto não fica assim ; A ignorância é causa de muitos males. Comprei, li, reli, sublinhei. Um mês depois estava escrito. Vale o que vale. Aqui vai.

 

“Último Segredo” não é Literatura, não é Teologia, e não é outras coisas. Para já é o Top das vendas da Bertrand.

A Gradiva vai na história . Convidou  o teólogo e padre Anselmo Borges para o lançamento,  e este (disse-o ao Público)  sabe o que está em causa. Pois não. Com pouco tempo para investigações, as pessoas agarram-se ao que sai sobre estas coisas “profundas”. Como com os livros de Paulo Coelho. Permitem a “livre escolha”, aos domingos Budismo, às segundas Hinduísmo, outros dia o Corão, às quartas Antigo Testamento, às quintas o Novo.

O que está em causa é uma ignorância total do que é a Igreja. Quiçá, a promoção da ignorância, para se caminhar noutros sentidos. Que o livro não é Teologia disse-o o Pe Carreira das Neves.. Se ele, o autor do livro, a quer fazer, então que escreva uma obra do género e converse entre pares. Não chega enumerar uma panóplia de referências. Coitado do grande público! Sai como entrou. Ou pior.

Revisores teológicos!? Deus meu! Há revisores de romances, há os revisores de contas. Mas revisores “teológicos”, se são o que JRS refere, teriam que opinar “ali”. E como pode ser literatura o que é apenas uma entremeada de citações de fontes e olhares coloridos?! E fontes “verídicas”, como se diz na p.11 – estranho, ter que o dizer.

Como podem ser Literatura os cruzamentos dos olhos azuis de Valentina com os verdes de Tomás de Noronha? Da bela agente italiana e do investigador português e consultor da prestigiada Gulbenkian. Já estou a ver a Maria João Bastos com o Ricardo Pereira a venderem o filme; e a Penélope Cruz como Patrícia, a investigadora de Barcelona que morre nas primeiras páginas (mais barato para o filme), por estar a investigar o que a Igreja teme que se saiba. Onde? Na Biblioteca do Vaticano, noite escura, esguichos de sangue, e a especial Lâmina que vai aparecer ao longo das 500 páginas.

A “literatura ” deste género é assim: 500 páginas le minimum. Muitos capítulos, muitas páginas em branco, muitas repetições. O spam de atenção do “leitor” de hoje é o que sabemos; citações,suspense, sangue e “enigmas”.

Não é surpresa o “facto” de se ter encontrado o ADN de Jesus (com a “ressalva” de JRS no final, perdida nas resmas de fontes, não fosse alguém induzido em erro). Nem é surpresa Valentina ser afinal diferente do que Tomás pensava. Que as mulheres são inteligentes, já sabíamos! Leitoras, é para nós. Ele sabe que nos cai bem!

E a Genética e a Biotecnologia? Que bem que assenta. Até ler este livro, eu nem sabia o que era um gene. E a clonagem! Tão actual, tão clean, avançado, e policial, ao mesmo tempo. Nouvelle cozinha.

Só aguentei ler porque não me chamam fraudulenta. Eu não me encontrei no lixo, já dizia a minha avó. A Bíblia pertence a uma história que não se deixa degolar pela lâmina de um qualquer jeitoso para a escrita.  É uma experiência de vida. Não pode deixar de ter um tempo. Os que escreveram a Bíblia não eram jornalistas. Foi Kierkegaard que lembrou que só há uma questão a que responder na vida. Se Jesus é ou não Deus (e no final JRS considera-a uma questão essencial). Como saber responder?

Termino com um conselho: compre-se, que é importante promover o produto nacional. Cada um come o pão que escolhe. Ou que lhe dão. Mas nem tudo o que é nacional é bom. E isto não é o último segredo.

Mestre em Filosofia pela UCP