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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

31
Out17

Estaline teve um caso...

por Fátima Pinheiro

 

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Em pleno centenário da Revoluçao russa, porque conheçi o Pe Romano Scalfi, que partiu para o céu o ano passado, no dia de Natal, e porque hoje um seu "colega", sem igual, Eugen Kissin, vai fazer parar o tempo, celebro a efeméride com esta bela história.

Quem "inventou" que diante da Beleza um coração pode ressuscitar? Ou que a experiência da liberdade está ao alcance de todos, mesmo que pareça tarde de mais? Maria Yudina era uma miúda russa que desde pequenina começou a tocar piano maravilhosamente. Os pais aperceberam-se dos seus dons e, com sacrifício, puseram-na no Conservatório de Moscovo, onde se aprendia e aprende mesmo a sério. Só que como ela professava a religião ortodoxa, não tinha grande "futuro" profissional. Não terá sequer ido à Alemanha de Leste.

Realmente as vidas marcam. Um dia ela tocou um concerto que passou na Rádio e Estaline ouviu. E espantou-se. Pediu logo que falassem para a Rádio a pedir um disco dela. Claro que não havia discos de Maria Yudina. Mas não se podia dizer "não". Nessa mesma noite, às quatro da madrugada, gravou-se o concerto. O primeiro maestro que foi convocado para a inesperada encomenda não tinha lá muito jeito. Veio um segundo, só que estava bêbado. E à terceira acertaram. No dia seguinte metem o disco numa capinha e levam a Estaline.

Consta que quando Estaline morreu tinha no gira-discos o disco dela. Mas vem agora o mais importante e que mostra a pinta, a coragem dela, e o que isso terá nele provocado. Estaline quando recebeu o disco meteu uns rublos (muitos) num envelope e fê-lo chegar à pianista. Ela escreve-lhe uma nota agradecendo mais ou menos com estas palavras: 'em primeiro lugar agradeço-lhe o facto de ter apreciado, reconhecido a arte, a beleza da música, e quero dizer-lhe que a partir de hoje vou rezar todos os dias pela sua alma, para que Deus lhe perdoe todos os males que fez à humanidade. Quanto ao resto, agradeço a oferta que me fez, a qual acabo de dar à Igreja que costumo frequentar.' Isto é uma experiência de liberdade...É um história fantástica! De pessoas livres! Estaline nem teve coragem para fazer nada contra ela, tal foi a liberdade que terá experimentado...

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01
Set17

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 Tarkovsky

 

Já leram a entrevista que Mariana Mortágua dá ao Diário de Notícias de hoje?  É só uma sugestão. Tem tudo a ver com o post rasante de hoje, e ela é muito acessível.

Hoje escrevo sobre dieta. Uma dieta, imaginem, que fiquei a conhecer ao ler "As Confissões", de Santo Agostino, livro escrito no século IV. Um dos meus  livros  preferidos. Já aqui escrevi porquê. Diz o filósofo: "o meu amor é o meu peso." Ao principio estranhei. Depois tenho vindo a perceber, e confere comigo.  É mesmo assim! Diz ele que eu tenho dois amores. Lembrei-me logo do Marco Paulo. Mas claro que é principalmente outra coisa, muito simples por sinal.

Eu tenho pesos. A vida faz-se por escolhas, com critérios mais ou menos conscientes. O que me leva a inclinar-me para um lado ou para outro? Há um permanente e discreto pendor da minha vontade, um movimento, ou movimentos, que posso surprender no agir. O que me faz correr, ou arrastar-me? Sim, muitas vezes deixo-me ir, sou arrastada e deixo que decidam por mim, quando seria caso para decisão minha. Quem tem nas mãos as rédas de mim? O meu amor.

Onde está o meu amor? Onde ponho o meu coração? Agostinho diz que o meu amor tem uma mistura. S.Paulo disse-o uns séculos antes: vejo o bem que quero, e não estou para isso, ou seja, quero-o e não o faço; faço antes o mal que não quero. Ainda  bem que ele "caíu do cavalo", senão não teria reconhecido esta evidência em que caimos cada dia. Caimos e levantamos numa mistura que se vai decantando com tempo e paciência, e muita dieta. E sobretudo com a força do que, no mais fundo de nós, queremos, Deus. Deus não é uma muleta, como muitas vezes é visto. Ele é aquele X que no fundo amamos, cuida de nós e nos faz queres aceitar regressar à boa cavalgada que é viver. Porquê? Porque é a coisa mas atrativa que há. Ou prefiro outros senhores?

Sim, é impossível escapar a outras "dependêcias". Dependemos sempre de alguma coisa. De outros senhores, ou deuses, ou de um deus que inventamos à nossa maneira. A minha liberdade tem as rédeas, mas o cavalo não sou eu que o faço. Tarkovsky, um senhor do cinema, sabia tudo isso, por isso escolhi uma imagem dele a encabeçar este post.

Eu quero o cavalo que me sirva.

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24
Ago17

 

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Prefiro substantivos a adjectivos. Ser católico significa ser humano. Eu não inventei o catolicismo e por isso ao encontrá-lo tenho o prazer de o ir descobrindo. E cada dia verifico a sua beleza e a sua eficácia, por muito que acontecam coisas que parecem contradizer o que acabo de dizer. Não adianta dizer que uma coisa faz bem se não a experimento. E disto não se sai. E dizem-me: é bom para ti, para mim pode não ser. Ou pior, dizem-me: isso não é bom para ti! E nasce um bloqueio. Não estamos a falar da mesma coisa. 

Ser católica é expermintar uma felicidade sem igual. O catolicismo, mesmo na sua ignorância, e mesmo por causa dela, dá a resposta mais completa aos problemas humanos. O catolicismo tem uma pretensão como nenhuma outra. E eu, como não quero nada às mijinhas, decididi um feliz dia meter-me a caminho. Aconteceu- me. A única coisa que então fiz foi ser livre de seguir. É o que continuo a fazer. Não me queiram cortar as asas. Não conseguem. Vivam pedaços de Catolicismo, não me impinjam um catolicismo raquítico e cegueta, de conveniências. 

Ser católico é saber O Catecismo. Isto vale mesmo para quem não sabe ler. Mas saber de experiência feito, não de bocas foleiras e virgens ofendidas. Obra feita, quero dizer. Se eu disser Madre Teresa ou Papa Francisco, percebe-se, verdade?

 

 

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20
Jul17

É mais  agradável não abordar temas fraturantes. Como por exemplo este último incidente com Gentil Martins. Ou o das barrigas do Ronaldo. Porquê? Simplesmente porque gostamos de estar de acordo uns com os outros. Preferimos os bem legítimos e merecidos momentos de conforto e prazer. Uma boa almoçarada, e se vem à baila  um assunto em que temos ideias diferentes, mudamos de tema e dizemos que é o melhor a fazer. Não tem mal nenhum, é natural. E até por vezes, mesmo sozinhos, decidimos não pensar em certas coisas. A vida dirá, logo se verá, com estas palavras nos auto - justificamos. Há assuntos mais práticos, úteis, e é sobre eles que interessa investir o nosso tempo, automotivamo-nos. Vamos é ser pessoas modernas, abertas e tolerantes, civilizadas e com sagrado respeito pelas ideias dos outros. O pior é que nem sempre há ideias. Por outro lado, a vida encarrega-se de se antecipar. O sofrimento é tramado! Mesmo assim (dou um exemplo) morre alguém, ou acontece Pedrógão, funeral, exéquias, caras de missa de sétimo dia, passam umas semanas, para a frente e a vida continua. Pois continua...

Trago agora o Papa Francisco à colação porque a Igreja Católica, não sendo a única religião, nem a única forma de pensar, é referência milenar. E está sempre debaixo de olho.  Para o bem e para o mal. Chama muito à atenção. Veja-se o interesse que suscitou e suscita este "novo" Papa, por exemplo. E quando se trata de questões morais, nem se fala! Mas a Igreja não é uma moral. Não é não.

Neste ponto há dois pesos e duas medidas. Para dar um exemplo recente, ai Jesus se aparece uma orgia na casa do conselheiro papal! Agora se o nosso Cristiano nega donas Dolores aos filhos que compra, está tudo bem. Temos pena, mas ambos os casos são crime. Não se brinca com inocentes. Todos erramos. A Igreja também. Quando Deus A inventou, sabia muito bem que estava a construir sobre argila. Então não escolheu para Papa um Pedro que O negou três vezes antes de o galo cantar ? Isto não é um mito. Aconteceu mesmo.

Nem tudo o que parece é. Quanto o Papa Francisco apareceu quase todos diziam que ele era um progressista. E a muitos agradou e agrada mais do que um Ratzinger, para dar um exemplo. Agora não é verdade que ele seja um progressista. Ele posiona-se e age é de forma diferente. Na altura, quando ele surgiu, num prós e contras da RTP, tive o privilégio de sublinhar este e  outros aspectos, como se pode ver e ouvir no video acima.

Houvesse alguma dúvida, e para exemplificar com um assunto também sempre na berra, a família, veja-se o que o Papa ensinou sobre o Matrimónio. Foi numa das Catequeses das 4ªs feiras. No essencial podemos sintetizar assim: Francisco é revolucionário e conservador. Como? Aquilo que Ele conserva é que é uma Revolução: "devemos entender o seu (do matrimónio) sentido espiritual, que é deveras excelso e revolucionário, e ao mesmo templo simples, ao alcance de cada homem e mulher que confia na graça de Deus." E no final reconhece que São Paulo tem razão: "trata-se mesmo de um «mistério grandioso»! Homens e mulheres, suficientemente intrépidos para levar este tesouro nos «vasos de barro» da nossa humanidade — homens e mulheres tão corajosos! — constituem um recurso essencial para a Igreja e também para o mundo inteiro. Deus os abençoe mil vezes por isto!"

Ao fim de 56 anos (mais 9 meses na barriga da MINHA D. Dolores, uma espécie de IRS ou IVA), tenho razões suficientes (algumas são referidas no video acima) para ter a certeza que a Igreja Católica é o único lugar onde posso começar de novo e contar comigo. O único lugar onde a morte é encarada de frente, e incinerada ou não, a pessoa continua.  É por isso mesmo que, na horinha, se chama um padre e se parte de uma igreja.  É por isso que respeito o que de mais sagrado cada pessoa tem: a sua liberdade.

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06
Jun17

Também tenho falta de ar

por Fátima Pinheiro

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Não tenho asma ou coisa parecida mas às vezes falta- me o ar. A falta de ar manifesta-se de muitas formas, tem muitas causas, e muitas das vezes é atitude, ou falta dela. Digo hoje mais palavras que dizem o que digo sempre. Em grande parte faço da vida o que ela merece, ou não. Tudo me é servido de bandeja, os bens e os males. A mim cabe-me decidir. Decidir isto ou aquilo, decidir existir. A vida tem o grande mistério de um futuro que eu não sei, simplesmente porque o futuro não existe. Existe o que está aqui, hoje, agora. Falta-me o ar sim, bato com o murro na mesa. Isso acontece se me falta visão, e se resolver achar que a vida será como eu projetar. Tudo se atropela. O que fazer?

Parar, ter consciência que da minha parte, nas minhas mãos, tenho  "apenas" o bem precioso que é a liberdade , e, claro, os condicionalismos que todos conhecemos.  Agir em conformidade. Erguer a cabeça. Olhar o essecial. Que é bem visível aos olhos. Começo então a respirar, de novo. E com verdade devo dizer que nada fiz por isso.

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02
Jan17

2017: Sei o que não quero

por Fátima Pinheiro

 

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imagem tirada da net

 

A passagem de ano " imita" o emergir da ordem a partir do caos. Planos para o ano novo, inversões de valores e perspectivas, análises e respectivas sínteses, dietas e ginástiscas, revolucões, anarquias, carpe diem(s) e depressões. E reinterpretações. Muitas. O que é o mesmo que dizer, fazer uma leitura nova do que se passou, quer a um nível pessoal, quer aos outros níveis: político e assim. Muitos: "agora é que é"; "não vale a pena" isto e aquilo; etc.

 

Eu decidi prender-me ao que me interessa. Sempre em casa, mudar de casa; não iludo aquela inquietude e perplexidade diante do mistério. Quero viver! E FINALMENTE resolvi - e estou a conseguir - não querer arrumá-la de uma vez. As arrumações do pensamento impedem que a vida se saboreie nas ondas em que vem. Deixamos de mandar em nós, de sermos donos dos nossos actos; deixo de ser livre. Digo e repito: quem sabe o minuto seguinte? O que ainda não chegou, mas já se foi. E mesmo o escrever, sabe Deus. O escrever só é escrever se não for uma alienação; se não for uma dentada na vida, de nada vale. As palavras do escrever são "logos" ( o Logos fez-se carne e habita entre nós), carnudas.

 

Dentada, atrás de dentada. Às vezes não sei o que quero. Mas RESOLVI deixar-me de compassos e esperas inúteis e vomitar o que não quero. É muito bom. E simples: basta, correndo ou voando, con-seguir. Verifico então que o que quero aparece a contra-luz. Emerge do que não presta, ou não me interessa. E o ano vai ficando novo!

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26
Abr16

Soares e Almodovar

por Fátima Pinheiro

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 imagem tirada da net

 

Apeada do avião de Almodóvar, onde ontem à noite embarquei (vi o filme outra vez), ainda estou de horas  bem trocadas. "Amantes passageiros" revela uma nova faceta do realizador de la buena mancha, e a ele, aqui, seguramente voltarei. É que ainda estou aterrada no 25 de Abril e quero deixar claro como acho mau, muito mau, fingir os "festejos". Se é para celebrar gosto de o fazer com todos e festejar o que nos une, e no Parlamento, como reafirmou Soares, no ano passado. Não aprecio amores "passageiros". Sou daquelas que prefere um amor que tudo abarca, tudo suporta. Que acontece sempre.

Não está tudo bem, eu sei. Mas sem nos "encontrarmos" no mesmo "lugar", aquilo que celebramos corre o risco de enfraquecer. Por muito que custe é preciso saber estar "presente", não para a fotografia, não para alemão ver, mas para nos avivar a memória. Olharmo-nos cara a cara, "sentarmos junto", é pertencer a uma "coisa" maior. A presença presente grita mais alto. Porquê? Porque somos feitos de carne e de osso. Portugal é que interessa.

O filme de Almodóvar mostra a liberdade como poucos. E desta vez num tom que nunca, mas nunca, larga o humor. É talvez o mais "leve" e o "mais sério" dois em um deste espanhol, que é um dos meus "bilhetes" preferidos para os meus voos na Companhia da sétima arte. A banda sonora, The Pointer Sisters - I'm So Excited, na história de uma tripulação de maricóns ou queers diz tudo. Era o que, para além das cançãos do querido Zeca queria cantar a Soares: we're gonna make it happen,/ we'll put all other things aside/ if we're still playing around boy that's just fine.

Afinal que fraternidade é esta? Como a de sisters que apontam para o mesmo, ou a de jogos de poder passageiro, ou de amores que ignoram que a espuma do dia está prenha de uma fábrica de futuro: o passado? Só assim faz sentido a exigência de um novo 25, um maior "golpe de asa". Portugal? Portugal, não se limita a ser uma soma de portugueses. Nem sei bem o que é, mas é "algo" de que me orgulho de ser e merecer

I'm so excited, cantam os encantadores e geniais maricóns de Almodóvar. Pois eu também. E junto a minha à sua voz. O "Papel principal" é de todos nós: pointed barões. Portugal é uma escada sem corrimão: "Quem tem medo não a sobe/Quem tem sonhos também não./Há quem chege a deitar fora/ o lastro do coração" - canta o David de AmáliaÉ tempo de perder o avião. Somos livres de voar.

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22
Fev16

Queres ter prazer?

por Fátima Pinheiro

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@FP

 

Agita, usa e deita fora. Às vezes é assim nas nossas vidas. Mas tenho duas pernas como "aprendi" no filme  Lucky Start. Duas pernas servidas para tudo e para nada. No filme o milagre acontece: a  incapacidade de andar é morta pelo amor que faz aquele homem correr. Ele galopa movido pelo seu coração que quer ardentemente o que deseja. Pernas para que vos quero?  S.Tomás de Aquino ajuda. Cada acto humano, se é livre, tem a sua perfeição. Um plus, um excesso, um brilho, numa palavra: prazer. Tanto há prazer em pensar, como há prazer em comer, e por aí fora. A Suma Teológica explica isto de forma brilhante.

 

Este fim de semana fui a um retiro, como é habitual na quaresma. Não é uma fuga. É para me re-ter no prazer de pensar. As rotinas levam-nos muitas vezes a sermos pensados pelos outros, a sermos uns alienados, vampirizados "sem cabeça". Não, obrigada.

 

Eu quero uma vida em primeira mão, dias e noites cheios de prazer. Se assim for é uma vida que vale a pena, uma vida a transbordar e a chegar para todos. O que conta não é o que digo é o que faço, eu sei. E para fazer é preciso cabeça, discernimento. Mais, re-tirei-me para que tirem de mim o que precisarem. Eu dou. A minha espiritualidade não é asséptica: é uma espiritualidade encarnada. Em tudo o que faço ou ponho-me toda, ou nada.  E de asneira em asneira vou sendo re-colhida por aquele que não me engana.

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15
Fev16

Mata-me de amor

por Fátima Pinheiro

 

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 imagem do último de Tarantino, tirada da net

 

Dias sem sentido são monstros . Às horas cegas seria eu a primeira  a pedir a eutanásia, a "bela morte" como diz a etimologia (  e há a distanásia, e mais tanásias, é muita coisa....). Alto ou baixinho gritaria a alguém: LEVA-ME DAQUI PARA MELHOR; AH, E QUERO ASSISTIR A ESSE MELHOR (o nada não cabe na cabeça de ninguém). Mas uma coisa é o que digo, o que quero, outra é o que quero MESMO. Escrevo hoje sobre a eutanásia porque a circunstância está no Parlamento. A urgência de legislar. São mais que sabidos os prós e os contras, as literaturas a respeito, os filmes, os casos contados na primeira pessoa. E na semana passada uma rádio a informar-me de um facto que eu não sabia: a razão mais invocada  para quem pede ajuda para morrer é o estado de depressão em que se encontra. Assim sendo a eutanásia tem um vasto campo de actuação. Ou não.

Uma depressão pode pedir remédios. Mas muitas vezes não há. As pessoas vivem mal. O dinheiro anda mal distribuido. Deixemo-nos de tretas. Por outro lado, há a história dos cuidados paliativos, hoje em foco nos media. Uma espécie de revisão da matéria já dada. Números, saúde, vida, filosofia, psicologia e liberdade.

 

Uma depressão pede uma mão com tempo e amor, esta é a verdade. Uma  depressão não se aguenta com picares de ponto, com palavras magras - "quem sabe vai passar", "se queres, és livre, eu faço o que queres" , "ajudo-te a acabares com isto"-, ou boas intenções. Uma depressão exige ternura e firmeza; em palavras como "eu não saio daqui, de ao pé de ti." Bem sei que não sei o que é um viver quase "vegetar" , mas calculo que o que sei chega para desejar que me ajudem  a matar o que de mim experimento à vista desarmada. Mas chega também para saber que, se quiser, posso pedir que não me larguem as mãos e os olhos. A Eutanásia que quero é a de uma morte que me acompanha desde que nasci. Uma bela morte que está no horizonte que pode ser apenas o espelho de um desejo apertado  ou uma janela para contemplar o que me faz viver, um X que desconheço mas me faz gritar e, por pouco que seja, abrir um canto do olho.

Podem as leis apoucar ou engrandeçer o meu Desejo? No fundo, no fundo, o que quero é viver. Mas com dignidade, dizem-me por toda a parte. Esqueçemo-nos que a vida vem sem adjectivos. Nua. 

Digam que isto é música celestial, ou poesia. Não me importa, não é Antero? Não é Mário? Não é Bernardo?

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fotografia tirada do meu TM

 

As tradições religiosas, todas, contemplam um tempo de "lavagem". Tempo em que cada um é convidado a centrar-se, para saber chutar. Paragem, para recuperar forças. Para distinguir o essencial do que não o é; do que não é essencial mas pretende sê-lo. Tempo de jejum do que impede o "querer", ou pode reduzir fasquias. Preto no Branco. Na tradição judaico-cristã chama-se "Quaresma, e começa amanhã, quarta feira de cinzas. Tempo para sublinhar quem afinal "sou eu". O que eu "quero" disto tudo. Acentuar e clarificar a divisão que S. Paulo sintetizou assim: não faço o bem quero, mas sim o mal que não quero. Um fio de navalha. Um trabalho sobre "si mesmo". Uma cor-versão (coração vertido, transparente). Reconhecer uma rica "pobreza". A de quem dá porque não tem, e assim tudo recebe.

O Senhor dos Anéis é que sabe o tempo. Como ferro em brasa. O jejum que interessa é o que levanta a escravidão de quem eu oprimo. Não pôr obstáculos a que a unidade aconteça. Melhor, por-se a jeito, mesmo a saber que quem vai à guerra dá e leva. Ter as mãos sujas (sorry Sartre), mesmo sujonas.

 

Viver de forma intensa a dimensão caritativa. Não é como caiar a cara, tipo túmulo vazio e cínico, como dizia Nietzsche, e bem. É sim gozar a vida, que não tem intervalos, e abandonar-se sempre na crista de ondas sucessivas. Na vida não há saldos nem rebajas, é pegar ou largar. A vida é uma senhora que se chama  liberdade. Mas hoje é carnaval. Já tenho a minha máscara, danço até doer. "Não percamos este tempo (...) favorável à conversão!", lembra o Papa Fransciso na sua Mensagem Quaresmal 2016. É pegar.

 

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