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Também tenho falta de ar

por Fátima Pinheiro, em 06.06.17

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Não tenho asma ou coisa parecida mas às vezes falta- me o ar. A falta de ar manifesta-se de muitas formas, tem muitas causas, e muitas das vezes é atitude, ou falta dela. Digo hoje mais palavras que dizem o que digo sempre. Em grande parte faço da vida o que ela merece, ou não. Tudo me é servido de bandeja, os bens e os males. A mim cabe-me decidir. Decidir isto ou aquilo, decidir existir. A vida tem o grande mistério de um futuro que eu não sei, simplesmente porque o futuro não existe. Existe o que está aqui, hoje, agora. Falta-me o ar sim, bato com o murro na mesa. Isso acontece se me falta visão, e se resolver achar que a vida será como eu projetar. Tudo se atropela. O que fazer?

Parar, ter consciência que da minha parte, nas minhas mãos, tenho  "apenas" o bem precioso que é a liberdade , e, claro, os condicionalismos que todos conhecemos.  Agir em conformidade. Erguer a cabeça. Olhar o essecial. Que é bem visível aos olhos. Começo então a respirar, de novo. E com verdade devo dizer que nada fiz por isso.

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2017: Sei o que não quero

por Fátima Pinheiro, em 02.01.17

 

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imagem tirada da net

 

A passagem de ano " imita" o emergir da ordem a partir do caos. Planos para o ano novo, inversões de valores e perspectivas, análises e respectivas sínteses, dietas e ginástiscas, revolucões, anarquias, carpe diem(s) e depressões. E reinterpretações. Muitas. O que é o mesmo que dizer, fazer uma leitura nova do que se passou, quer a um nível pessoal, quer aos outros níveis: político e assim. Muitos: "agora é que é"; "não vale a pena" isto e aquilo; etc.

 

Eu decidi prender-me ao que me interessa. Sempre em casa, mudar de casa; não iludo aquela inquietude e perplexidade diante do mistério. Quero viver! E FINALMENTE resolvi - e estou a conseguir - não querer arrumá-la de uma vez. As arrumações do pensamento impedem que a vida se saboreie nas ondas em que vem. Deixamos de mandar em nós, de sermos donos dos nossos actos; deixo de ser livre. Digo e repito: quem sabe o minuto seguinte? O que ainda não chegou, mas já se foi. E mesmo o escrever, sabe Deus. O escrever só é escrever se não for uma alienação; se não for uma dentada na vida, de nada vale. As palavras do escrever são "logos" ( o Logos fez-se carne e habita entre nós), carnudas.

 

Dentada, atrás de dentada. Às vezes não sei o que quero. Mas RESOLVI deixar-me de compassos e esperas inúteis e vomitar o que não quero. É muito bom. E simples: basta, correndo ou voando, con-seguir. Verifico então que o que quero aparece a contra-luz. Emerge do que não presta, ou não me interessa. E o ano vai ficando novo!

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Soares e Almodovar

por Fátima Pinheiro, em 26.04.16

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 imagem tirada da net

 

Apeada do avião de Almodóvar, onde ontem à noite embarquei (vi o filme outra vez), ainda estou de horas  bem trocadas. "Amantes passageiros" revela uma nova faceta do realizador de la buena mancha, e a ele, aqui, seguramente voltarei. É que ainda estou aterrada no 25 de Abril e quero deixar claro como acho mau, muito mau, fingir os "festejos". Se é para celebrar gosto de o fazer com todos e festejar o que nos une, e no Parlamento, como reafirmou Soares, no ano passado. Não aprecio amores "passageiros". Sou daquelas que prefere um amor que tudo abarca, tudo suporta. Que acontece sempre.

Não está tudo bem, eu sei. Mas sem nos "encontrarmos" no mesmo "lugar", aquilo que celebramos corre o risco de enfraquecer. Por muito que custe é preciso saber estar "presente", não para a fotografia, não para alemão ver, mas para nos avivar a memória. Olharmo-nos cara a cara, "sentarmos junto", é pertencer a uma "coisa" maior. A presença presente grita mais alto. Porquê? Porque somos feitos de carne e de osso. Portugal é que interessa.

O filme de Almodóvar mostra a liberdade como poucos. E desta vez num tom que nunca, mas nunca, larga o humor. É talvez o mais "leve" e o "mais sério" dois em um deste espanhol, que é um dos meus "bilhetes" preferidos para os meus voos na Companhia da sétima arte. A banda sonora, The Pointer Sisters - I'm So Excited, na história de uma tripulação de maricóns ou queers diz tudo. Era o que, para além das cançãos do querido Zeca queria cantar a Soares: we're gonna make it happen,/ we'll put all other things aside/ if we're still playing around boy that's just fine.

Afinal que fraternidade é esta? Como a de sisters que apontam para o mesmo, ou a de jogos de poder passageiro, ou de amores que ignoram que a espuma do dia está prenha de uma fábrica de futuro: o passado? Só assim faz sentido a exigência de um novo 25, um maior "golpe de asa". Portugal? Portugal, não se limita a ser uma soma de portugueses. Nem sei bem o que é, mas é "algo" de que me orgulho de ser e merecer

I'm so excited, cantam os encantadores e geniais maricóns de Almodóvar. Pois eu também. E junto a minha à sua voz. O "Papel principal" é de todos nós: pointed barões. Portugal é uma escada sem corrimão: "Quem tem medo não a sobe/Quem tem sonhos também não./Há quem chege a deitar fora/ o lastro do coração" - canta o David de AmáliaÉ tempo de perder o avião. Somos livres de voar.

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Queres ter prazer?

por Fátima Pinheiro, em 22.02.16

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@FP

 

Agita, usa e deita fora. Às vezes é assim nas nossas vidas. Mas tenho duas pernas como "aprendi" no filme  Lucky Start. Duas pernas servidas para tudo e para nada. No filme o milagre acontece: a  incapacidade de andar é morta pelo amor que faz aquele homem correr. Ele galopa movido pelo seu coração que quer ardentemente o que deseja. Pernas para que vos quero?  S.Tomás de Aquino ajuda. Cada acto humano, se é livre, tem a sua perfeição. Um plus, um excesso, um brilho, numa palavra: prazer. Tanto há prazer em pensar, como há prazer em comer, e por aí fora. A Suma Teológica explica isto de forma brilhante.

 

Este fim de semana fui a um retiro, como é habitual na quaresma. Não é uma fuga. É para me re-ter no prazer de pensar. As rotinas levam-nos muitas vezes a sermos pensados pelos outros, a sermos uns alienados, vampirizados "sem cabeça". Não, obrigada.

 

Eu quero uma vida em primeira mão, dias e noites cheios de prazer. Se assim for é uma vida que vale a pena, uma vida a transbordar e a chegar para todos. O que conta não é o que digo é o que faço, eu sei. E para fazer é preciso cabeça, discernimento. Mais, re-tirei-me para que tirem de mim o que precisarem. Eu dou. A minha espiritualidade não é asséptica: é uma espiritualidade encarnada. Em tudo o que faço ou ponho-me toda, ou nada.  E de asneira em asneira vou sendo re-colhida por aquele que não me engana.

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Mata-me de amor

por Fátima Pinheiro, em 15.02.16

 

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 imagem do último de Tarantino, tirada da net

 

Dias sem sentido são monstros . Às horas cegas seria eu a primeira  a pedir a eutanásia, a "bela morte" como diz a etimologia (  e há a distanásia, e mais tanásias, é muita coisa....). Alto ou baixinho gritaria a alguém: LEVA-ME DAQUI PARA MELHOR; AH, E QUERO ASSISTIR A ESSE MELHOR (o nada não cabe na cabeça de ninguém). Mas uma coisa é o que digo, o que quero, outra é o que quero MESMO. Escrevo hoje sobre a eutanásia porque a circunstância está no Parlamento. A urgência de legislar. São mais que sabidos os prós e os contras, as literaturas a respeito, os filmes, os casos contados na primeira pessoa. E na semana passada uma rádio a informar-me de um facto que eu não sabia: a razão mais invocada  para quem pede ajuda para morrer é o estado de depressão em que se encontra. Assim sendo a eutanásia tem um vasto campo de actuação. Ou não.

Uma depressão pode pedir remédios. Mas muitas vezes não há. As pessoas vivem mal. O dinheiro anda mal distribuido. Deixemo-nos de tretas. Por outro lado, há a história dos cuidados paliativos, hoje em foco nos media. Uma espécie de revisão da matéria já dada. Números, saúde, vida, filosofia, psicologia e liberdade.

 

Uma depressão pede uma mão com tempo e amor, esta é a verdade. Uma  depressão não se aguenta com picares de ponto, com palavras magras - "quem sabe vai passar", "se queres, és livre, eu faço o que queres" , "ajudo-te a acabares com isto"-, ou boas intenções. Uma depressão exige ternura e firmeza; em palavras como "eu não saio daqui, de ao pé de ti." Bem sei que não sei o que é um viver quase "vegetar" , mas calculo que o que sei chega para desejar que me ajudem  a matar o que de mim experimento à vista desarmada. Mas chega também para saber que, se quiser, posso pedir que não me larguem as mãos e os olhos. A Eutanásia que quero é a de uma morte que me acompanha desde que nasci. Uma bela morte que está no horizonte que pode ser apenas o espelho de um desejo apertado  ou uma janela para contemplar o que me faz viver, um X que desconheço mas me faz gritar e, por pouco que seja, abrir um canto do olho.

Podem as leis apoucar ou engrandeçer o meu Desejo? No fundo, no fundo, o que quero é viver. Mas com dignidade, dizem-me por toda a parte. Esqueçemo-nos que a vida vem sem adjectivos. Nua. 

Digam que isto é música celestial, ou poesia. Não me importa, não é Antero? Não é Mário? Não é Bernardo?

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fotografia tirada do meu TM

 

As tradições religiosas, todas, contemplam um tempo de "lavagem". Tempo em que cada um é convidado a centrar-se, para saber chutar. Paragem, para recuperar forças. Para distinguir o essencial do que não o é; do que não é essencial mas pretende sê-lo. Tempo de jejum do que impede o "querer", ou pode reduzir fasquias. Preto no Branco. Na tradição judaico-cristã chama-se "Quaresma, e começa amanhã, quarta feira de cinzas. Tempo para sublinhar quem afinal "sou eu". O que eu "quero" disto tudo. Acentuar e clarificar a divisão que S. Paulo sintetizou assim: não faço o bem quero, mas sim o mal que não quero. Um fio de navalha. Um trabalho sobre "si mesmo". Uma cor-versão (coração vertido, transparente). Reconhecer uma rica "pobreza". A de quem dá porque não tem, e assim tudo recebe.

O Senhor dos Anéis é que sabe o tempo. Como ferro em brasa. O jejum que interessa é o que levanta a escravidão de quem eu oprimo. Não pôr obstáculos a que a unidade aconteça. Melhor, por-se a jeito, mesmo a saber que quem vai à guerra dá e leva. Ter as mãos sujas (sorry Sartre), mesmo sujonas.

 

Viver de forma intensa a dimensão caritativa. Não é como caiar a cara, tipo túmulo vazio e cínico, como dizia Nietzsche, e bem. É sim gozar a vida, que não tem intervalos, e abandonar-se sempre na crista de ondas sucessivas. Na vida não há saldos nem rebajas, é pegar ou largar. A vida é uma senhora que se chama  liberdade. Mas hoje é carnaval. Já tenho a minha máscara, danço até doer. "Não percamos este tempo (...) favorável à conversão!", lembra o Papa Fransciso na sua Mensagem Quaresmal 2016. É pegar.

 

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"Amanhã é o dia dos ladrões"

por Fátima Pinheiro, em 14.01.16

 Johny Depp

imagem tirada da net

 

Queres? Então corre e apanha. A vida é simples e não parece. Complexa sim, e às vezes muito. Mas isso é outra coisa. Muitas vezes não sabemos é o que queremos. Como diz o poema, o objetivo esfuma-se.

 

Vem isto a propósito de um post no meu face book, com uns poemas de Edmond Jabès, que eu desconhecia por completo.

 

Perguntei quem era: "O Egito produziu um grande poeta de expressão francesa: Edmond Jabès. Nascido no Cairo em 1912, teve de deixar seu país no início da II Guerra, por causa de suas origens judaicas. Com a crise do Suez em 1956, radicou-se na França no ano seguinte e em 1967 tornou-se cidadão francês. Faleceu em Paris em 1991. É considerado um dos grandes poetas de língua francesa." Um dos poemas encontra-se na obra "A obscura Palavra do Deserto" (trad. Pedro Tamen) (ed. Cotovia).

 

A leitura do poema fez-me experimentar como o adiar é uma morte que rouba o dia de hoje.

 

"Não se constrói sobre a pedra côncava. (Ainda menos sobre a neve dos picos?)

As recordações vêm aumentar o seu poder sobre o homem à medida que o objectivo se esfuma.
(Muralhas de sempiternas manifestações de força. Basta a obstinação de uma lágrima, basta um nada de ar decidido para que o ferimento seja mortal.)
Amanhã é o dia dos ladrões.
Dos nossos múltiplos rostos, o único persiste; rochedo onde se apoia a fadiga do mar."

 

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Vão-se os olhares ficam os olhos, absolute beginners

por Fátima Pinheiro, em 11.01.16

 

"Mas nós somos principiantes absolutos

Com olhos completamente abertos"  https://youtu.be/o_cHvtPB2dY

 

 

imagem tirada da net

 

O que "aprendi"  (ou ficou mais claro para mim) sobre o olhar na semana que passou! Fui a uma conferência. Uma autêntica fenomenologia do olhar. O que falou perguntou: que olhares te tocaram mais, na fibra mais íntima de ti? Sim, que olhares te desatam o Coração? Que olhares te desapertaram o Desejo? E aí parei e páro.

Contudo ele perguntou: e tu, tu ao olhar o outro páras, re-paras, páras e duras no seu olhar? Nesse olhar o tempo parou? Ou olhamo-nos em máscaras? Em preconceitos?  Não importa. Na natureza nada se perde, tudo se transforma. Foram-se os olhares, ficam de novos e de novo os olhos. Virgens.  Absolute beginners, digo hoje, porque o resto foi escrito ontem.

 

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Misericórdia há, o pior é o resto.

por Fátima Pinheiro, em 12.12.15

Regresso do Filho Pródigo (detalhe), Hermitage

 Regresso do Filho Pródigo (detalhe), Hermitage /  Rembrandt

 

Quando dei aulas em S. Petersburgo, passei horas no Museu Hermitage, a olhar para esta obra de Rembrandt . Começou uma mudança. Foi um pontapé para que eu deixasse de me "esbanjar". A questão não está em que o pródigo gaste a fortuna. O principal é que ele, eu, me tinha esbanjado. Descuidado a minha pessoa. Como? É simples. E acontece sem que se dê por isso.

Era mais a pintura a olhar para mim do que eu a olhar para ela. Eu, caladinha mais que um minuto? Muito difícil. Ali não. A imponência do Belo ainda hoje me abraça, como uma Pessoa. O quadro é de um tamanho tal e está tão bem situado (em arte, os russos tem quase todos os trunfos...) que eu era mergulhada nele, misturava-me e perdia-me. E por sorte as mãos de Rembrandt pintam na luz que eu prefiro. E por sorte cabia no tamanho dos protagonistas.

Protegida do frio e da neve a fazerem de pedra os canais da Veneza imperial, e no calor das cores de uma obra única, fui o Pai, o filho mais novo, o mais velho, os que estão atrás, e aquele que dizem poder ser o próprio Rembrandt. Às vezes não era ninguém. Era a tela, uma mancha, um resto do pincel; e recomecei a ser repintada, retocada e a perceber o que era afinal a obra aberta, meu querido Husserl (Eco e Gadamer vieram muito depois; mas nós, Edmundo, não somos de modas...). Outros horizontes.

Tenho vindo a perceber, e ontem em especial, que o que quero é ser como o Pai, que se esbanja em Amor. Com duas mãos - fizeram-me notar que uma é pintada de masculino e a outra de feminino - a perder, sem nada excluir. Porquê? Porque tenho experimentado que o que me realiza é dar. É assim que se recebe. Sim, porque o que quero é receber. Por acaso nasci ontem?

É simples esquecer tudo isto: o que quero, quem quero, e por aí. Porquê? Porque penso que sou eu que faço o Amor. Muito enganada! É Ele que me faz.

Eu sou um belo traço nas mão de Rembrandt. É por por isso que posso ter a pretensão de querer ser como Ele. Não tenho pinta, mas tenho. Lindo paradoxo!  Misericórdia há. Se eu quiser, se pedir e se aceitar! 

 

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O que é o dogma da Imaculada Conceição?

por Fátima Pinheiro, em 08.12.15

 imagem tirada da net

 

 

A  Igreja raramente recorre à proclamação de um Dogma no sentido forte do termo, isto é, ex cathedra ( de resto há muitos dogmas, entendendo-se estes como máximas, verdades, opiniões). Mas quando o faz é por razões pedagógicas, para realçar algum aspeto que esteja a ser “descurado”  na vida da Igreja; e fá-lo a partir dessa experiência de vida. Isto é, reconhece formalmente o que já é vivido no seu seio, na sua prática milenar. Numa palavra, não o faz à la a carte e por razões do “eclesialmente” correcto, ou para inglês ver. Vem isto a propósito do Papa Francisco, mais uma vez a marcar pontos ao “obrigar” a pensar e a conhecer a Igreja; a fazer as distinções essenciais. Foi no regresso da sua  visita à Terra Santa, ao responder à pergunta dos jornalistas: o celibato dos padres poderá deixar de ser obrigatório? Já em 2012 se tinha pronunciado sobre este assunto. Paulo VI e Bento VI também. Em ambas as ocasiões disse: eu sou a favor do celibato dos padres; embora não seja um Dogma – e por isso pode mudar-se - , o celibato é um Dom de Deus à Igreja, uma disciplina, uma regra de vida que eu aprecio muito; por isso, apesar dos seus prós e contras eu sou a favor; temos do celibato dos padres dez séculos de boa experiência; a tradição tem a sua validade…. Não se espere portanto que o próximo Sínodo de Outubro, sobre a Família, se centre na questão do celibato, e outras que vêm à colação (contraceção, homossexualidade, etc.). É preciso ir a montante: pensar, entender, clarificar o que é a família, que está em crise, e tudo ver a essa luz.

A Madre Teresa de Calcutá dizia que a Palavra de Deus não é a Bíblia. What? A Palavra de Deus é a Bíblia, sim, mas mais a Tradição. Dogma e Tradição casam bem, como há pouco referi. São poucos os Dogmas ex-Cathedra. Mas como o século 19 resultou numa aceleração permanente – ainda em andamento -, nestes últimos dois séculos foram proclamados três Dogmas.

 

Em 1854 o da Imaculada Conceção de Nossa Senhora, que sublinha a atualidade do pecado original como razão da fragilidade do humano, que se traduz na dificuldade em não conseguir realizar o bem que se vê e gosta e quer, mas acaba por fazer o que não gosta, ou no fundo não se quer. Em 1870, o Dogma da Infabilidade Papal (em matérias de Fé), para mostrar que o homem não é a medida de todas as coisas, numa época em que esse é um sound bite vertiginoso e imparável. E em 1950, o Dogma da Assunção de Maria ao Céu em corpo e alma, para lembrar a unidade de corpo e alma, que é o homem; o corpo não é o usa, gasta e deita fora; uma “coisa”, “um número”, mas uma dimensão essencial do humano. ”Eu não tenho um corpo, eu sou um corpo”, é uma pedra no pântano materialista então a iniciar um reinado do qual ainda hoje se desconhecem contornos. João Paulo II viria a seguir, e devido à sua formação fenomenológica, foi capaz de começar um estudo sobre a sexualidade que se veio a concretizar na sua obra, e nas catequeses de 4ªfeira, já publicadas entre nós. A designada “Teologia do corpo”.

 

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