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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

09
Set17

 

 

 

Talvez o melhor da sua última década, palavras de um crítico acerca do filme de Manoel de Oliveira “O gebo e a sombra”, homónimo da peça de Raul Brandão. Quando o vi pela primeira vez encontrei qualquer coisa mais. Comparar interessa, se estão em jogo critérios: Oliveira apurou a sua aposta numa performance sem redes. Seis atores geniais, dão-nos em 92 minutos, numa cozinha – a famosa gaiola - a totalidade e a beleza do carácter dramático da existência humana. Está tudo aqui. Numa divinal dança de luz e sombra, vale o silêncio que nos poderá devolver a nós próprios. Estamos diante da pedra preciosa do colar que é a cinematografia dum olhar inigualável? O que cativa não é a largueza de imagens como as de um Vale Abraão. É antes uma contenção, densidade, a espessura do humano todo. Em altas vagas sem fundo, que provocam a liberdade do espetador a um mergulho sem fim, no terreno ontológico a que Oliveira sempre nos habituou. Preso numa fidelidade às palavras de Brandão, faz outra coisa. Não por prescindir do último ato, mas por dele fixar o melhor. É uma história sobre a pobreza: Gebo, contabilista, chega a casa com o dinheiro do trabalho. Esperam-no a mulher, Doroteia, e a nora, Sofia. O filho, João, acaba por roubá-lo e fugir. Duas visitas frequentes, o Chamiço e a Candidinha, dão o contraponto de humor e ligam o interior ao exterior da casa. O mesmo fazem as janelas e as portas, através das quais o dia dará lugar à noite, e esta à manhã, quando batem à porta e se dá o Acontecimento.

Está tudo aqui, diz Jeanne Moreau, fazendo festinhas na mala de Michael Londsdale. Como seria bom ter este dinheiro; dizer: faz isto, faz aquilo. E Luis Miguel Cintra: a arte! a política! era preciso visão, um pulso forte! a rotina instalou-se. Um frio de rachar, lá fora! Ai, e a música!; exprime melhor que tudo o amor; ficavam-me todas pelo beicinho. E finge que toca flauta! Leonor Silveira, mulher sábia, cuida de todos, ocultando (com o sogro) de Claudia Cardinale, mulher de dores, o desassossego de Ricardo Trepa, seu super-homem. Em frequentes esperas religiosas à janela, recebe sinais do tempo. Do espelhado chuvoso, cabem na câmara de Oliveira, ela, de costas, e uma Imagem de Nossa Senhora, num nicho, lá fora. Depois, numa das suas rondas da noite – aquela em que João desaparecera com o dinheiro -, lá está Sofia diante da mesma estátua (agora grande) num diálogo silencioso.

O cinema de Oliveira não tem pinga de moralismo. Mostra-se o cruzar de olhares onde a nossa liberdade é também implicada. Somos, ou não, apanhados no fogo cruzado daquela oração? A culpa do marido, ela sabe, é diluída no desejo que ele tem de uma vida melhor. Não é melhor morrer do que viver sepultado?, perguntara ele uma vez, num dos momentos do seu permanente desassossego. É o que ela pergunta à Senhora, de quem recebeu seguramente pronta resposta: a consolação, que Oliveira dá no rosto sereno e luminoso de uma Leonor Silveira irrepreensível. Batem à porta, de madrugada. A esperada visita da polícia escancara os olhos da trindade: o pobre, a sofia e a doroteia. Espantadas por razões diferentes ouvem: quem roubou fui eu. De pé, com o sol que se adivinha por incidir em metade do écran, o Gebo deixa desvanecer a sombra. É o acontecimento de uma liberdade que também me devolve a humanidade, que me devolve a mim mesma: uma imaculada realização.

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19
Ago17

A beleza desarmante de Nolan

por Fátima Pinheiro

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O fedor em que vivemos não deixa lugar a dúvidas: isto não vai lá com paleios, mensagens ou declarações. É o recente filme de Christopher Nolan que me faz hoje falar assim. É tão bom que eu, uma incondicional de Manoel de Oliveira, vejo nele traços da Caça, do Non ou Vã Glória de Mandar e O meu caso. Vi todos estes filmes com dificuldade em puxar o queixo para cima. Com o de Nolan, ainda estou na ressaca. Acho mesmo que Oliveira teria gostado da obra deste realizador que sabe mais do que fazer Batman. O dinheiro é pouco se com ele se pode fazer muito. A ausência dele, de dinheiro, também não impede que se realizem filmes geniais, como é o caso de Oliveira. O que há assim de tão especial em Dunkirk (2017)?

Filmes com temas da Segunda guerra mundial, Auchswitz e outros, há que chegue. Parece gasto. Mas a força que vem da câmara de Nolan tem a imponência de me mostrar hoje o que sou eu e a minha circunstância. Sem filtros ou mensagens dá-me diante dos olhos a monstruosidade do mal, na doçura de quem não desiste de esperar. Tira-me de paneleirices, boas intenções, escritas ou consuetudinárias, Onus ou vestidas de quem tem apenas uma ideia na cabeça: a vã glória de mandar. Põe-me na bandeja da manhã a indústria da celulose, o teatro dos Pedrógãos de sessões contínuas há dois meses, a orfandade de não ter governo nem quem mande mesmo nas forças armadas. Páro aqui porque um post tem que ser pequenino. Numa palavra: nada encontro na bandeja mediática. But we shall never surrender.

Há tempo para tudo: uma bacalhauzada a Macron, o consolo ao Rei de Espanha. Mas poupem-me a um MNE que disse (quando Costa estava a banhos....foi a banhos foi!!!! Devia ter ido sim, um banhozinho a sério só faz bem, mas tem que ser um banho em águas limpas) que está tudo bem, a um MD e um CEMGFA que também que sim, a um MF que é uma luz bruxuleante precisamente em Bruxelas, a um MC que é pura poesia, poupem-se e poupem-nos. Eu ofereço o espelho, pode ser?

Uns meses antes de começar as filmagens de O Velho do Restelo, Oliveira disse-me nos olhos: é preciso acreditar. Acredito sim. Mas com razões. Em obra feita. Acredito em quem me clarifica e até pinta os narizes dos aviões alemães de amarelo para me facilitar a vida. Obrigada Nolan porque fizeste um filme que é já para mim um clássico. Desarmante. Não provoca a lágrima que distrai, não chora sobre leite derramado, mas faz-me fazer, plena de uma arquitetura de imagens e planos de uma beleza que parece Impossível.

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03
Abr17

Manoel de Oliveira, fez dois anos

por Fátima Pinheiro

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 a imagem é tirada da net

Fez ontem 2 anos. Era uma Quinta-feira santa, vieram escoltá-lo. Na sexta santa, às 15 horas, junto da faina do seu Douro, foi a enterrar, da Igreja de Cristo Rei. A terra, que ele nos dá sempre objetiva e nela misturado, aguardou o silêncio do sábado que é santo, na antecipação da explosão, anunciada na cara que Pasolini escolheu para aquela Maria. É muita fé! Nem falta dizer que ao terceiro dia ressuscitou. Pontaria não lhe faltou, vê-se. E não era ao calhas. Era ao pormenor, ao detalhe, num olhar exigente e assim obediente ao real. E assim se aprende que ao “sim” interessa voltá-lo, porque, ao contrário do “non”, muda. Nunca tinha entrado num olhar assim. Estranho, o caso de Manoel de Oliveira. Palavras leva-as o vento. E que importa? A vida é “incertitude”, confessou em Veneza ao apresentar Angélica. A morte sim, certeza, “une sortie”. Como? Um “Acto da Primavera” – Auto da Paixão – em 1963. Outro documentário míssil, que não passou despercebido, como ele nunca passou. Ao colega que se dizia ateu, deu-lhe em 1964 na Paixão Segundo Mateus. Ambos estranhos. Mas não pela longevidade do primeiro e pelo segundo ter sido assassinado. Falo por mim, entranharei sempre.

O que parecia a uma primeira vista apenas prenho de tédio e obnubilação, sai-me ao contrário e cada vez melhor. “Eu cá aprecio, mas…”, oiço agora e sempre. A questão é no entanto outra. O cinema afinal o que vale?, é a pergunta. Por outras palavras, tenho a “certitude” que o realizador faria o melhor Bond de sempre, se tivesse dinheiro. Mas era preciso querer fazê-lo. Ele não quis. Para saber porquê é preciso ver os seus filmes. Pão, Belle Toujours, Vale Abraão, O Gebo e a Sombra, lembro-me agora. Mas não há nenhum que não me caiba. Excedem-me. Vejo-me num espelho. Como agradecer? Caminhar em e para face a face. Na glória. Como quem começa à mesa, uma refeição, e o que quer “comer” é o outro. Deixar-se uma unidade, em que cada um se distingue cada vez mais do outro. Não há filme de Oliveira que não tenha ceias. A Divina Comédia tem mesmo uma última ceia à volta da qual passeiam Maria João Pires e Dostoievski. Agradeço sim. De mãos dadas, como irmãos, na massa, à luz da sombra que lhe expõe a ferida a todo o terreno. Na pobreza que me ensinou a pedir. E no bravo fluvial da sua cidade, onde planos e acções se continuam a cortar, para me dar vida. Pergunta Claudel: para que serve a vida se não for para ser dada?

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Para comemorar o dia do nascimento de Manoel de Oliveira, deixo aqui o que me disse Eduardo Lourenço sobre o nosso genial cineasta. Em termos do que de melhor  a cultura tem, é uma espécie de dois em um. Com a lucidez, inteligência e simplicidade que lhe são inerentes, o professor dá-nos Oliveira trocado por miúdos.

 

 

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11
Dez16

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Faz hoje 108 anos. Passaram três anos da sua morte. E afinal havia outro (aposto que na gaveta há mais…). O último filme Documentário de Oliveira: “Um século de energia”, encomenda da EDP para a sua campanha publicitária, a ser exibido em 10 cidades portuguesas, a pedido do cineasta, que, durante os trabalhos de montagem, foi por outra “porta”, e acabou por não ver o resultado final. Eu podia ver o filme e ficar calada. É de uma beleza tão “ordinária” - o making of também - que bastava ver e experimentar a correspondência ao mais "eu" do meu "eu". Contudo, como Henri de Lubac sublinha, a mística é uma colheita da tarde.

O mundo em que vivo – a minha rua – diz-me que há muita espiritualidade. Pois depende do que por isso se entende. A mim, há muitos que me sabem a pouco. Há mesmo, por vezes, mais mística no futebol. Este post é um registo filosófico, em si menor (isto exige outro texto), do que esta obra de arte oferece ao mais que socrático, “conhece-te a ti mesmo”.

Olhando para "Um século de energia", a partir de como mais de um século de energia se realiza uma história, uma vida. Oliveira vai mais uma vez ao que é o humano. E é porque a sua experiência energética é tão rica que consegue mostrar o tecido que faz a vida, o invisível que nos rega, nos move e ilumina. Oliveira, fenomenológico,  mostra de forma genial imagens que "aparecem" (fenómeno) plenas de "lógica" (logos), acontecendo assim um todo em que as partes se distinguem sem se confundir. “Hulha Branca”, que realizou em 1932, antecipa o documentário; é retido e cresce, no presente; naquele espaço de Serralves, ao "criar" a música e a dança que projectam as suas sombras, numa unidade que dá cada coisa no seu lugar. A força artística dos movimentos das bailarinas e os sons do quarteto que insiste no tom, são um todo cujas partes não se perdem contando assim uma história onde é ilustrado o processo de transformação de energia. Os moinhos de vento antecipam-se nas suas sombras nos pinheiros e arbustros. Aparecem depois na sua imponência a mostrar futuras formas de energia. Como os braços, nos gestos erguidos daquelas mulheres que dançam nas cores de um escarlate, que se funde no preto e branco do que não passou. Os fios eléctricos são riscas horizontais no fundo azul de um céu: uma pintura viva de natureza, arte e trabalho (minuto 7, minuto 9). O que acontece desde a imagem inicial onde se vê também o Douro da faina fluvial. A arte que MO põe sobreposta excede, promete, espanta, como um grito bom a pedir e mostrar sentido. Tudo a um ritmo conjugado de pitch´s, fotografias, flashes; doações,segundo a segundo; bateres de corações: coincidências em que me revejo, ausências grávidas de presenças, a mostrar o invisível; faces do cubo que nunca se dá todo, e é sempre envolvido num todo pressentido em horizonte. E a água, traz o sol e o vento. Como irmãos,da mesma terra, da mesma fonte. Sem que a aparente inutilidade da arte belisque o trabalho ou negócio, espelhados em caras de homens alegres, de dentes tortos, e olhos e mãos iguais a "mim". De mãos dadas, na mesma luta - o melhor de mim -, como canta Mariza no making off. No filme não há letra. Há a música da água, de sinos, do vento, do poderoso silêncio. Dos pássaros. E o som do mostrar que "sem ver,é acreditar"; "é preciso perder para se ganhar". "O melhor de mim está por chegar". Aqui compara-se a cena final do filme e a do making off: MO de mãos postas na bengala, a equipa que para ele olha a pedir a genialidade. O minuto 2.54 não mente a mesma câmara,os mesmos séculos, o mesmo "eu". Tudo a terra une. E a água enche-se de humanidade,escorrendo por paredes abaixo, e por debaixo de pontes,arcos e escadas de pedras, no mesmo sangue. 

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05
Abr16

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 num intervalo das filmagens de "O gebo e a Sombra" , Ricardo Trepa e Jeanne Moreau/imagem tirada da net

 

Um Colóquio Internacional "Manoel de Oliveira: a Poetics of Dissent" nos próximos dias 7 e 8 na Universidade Católica, a não perder. 

 

E um remake sobre aquele que considero um dos melhores de Oliveira, artigo que escrevi antes da apresentação do filme em Veneza. A Crise continua mas não nos define. O grito sim!

 

"Crises não matam vida e cinema. No festival de Veneza, daqui a dias, Manoel de Oliveira apresenta o seu novo filme, O gebo e a sombra. "Faz um filme sobre a pobreza", pedem-lhe. Ao que respondeu ser "um tema muito difícil". A dona crise fê-lo partir (d)a peça homónima de Raul Brandão, de uma atualidade que não esperávamos encontrar. Em quatro atos (96 páginas da edição do Círculo de Leitores), o teatro diagnostica o humano: as sociedades em contrastes e dramas desafiam a liberdade de cada um a desejar uma vida maior. Como Oliveira nas suas obras, não dá soluções mas mostra-se, e neste caso do cinema, no poder que a imagem tem. Provoca e faz, ou não, avançar. Cheio de sombras e de gebos, é solar. Penetra o eu, e o pássaro vai decidir se sai ou não da gaiola, recorrente nos filmes a que nunca me habituarei. Não há mensagem, há uma pergunta que sai da boca do Gebo, o pai: resta saber se a gente vem a este mundo para ser feliz. O gebo, o pobre, sou eu. E quero saber agora, como no céu. Que estás tu a olhar para mim, velha cheia de sonhos irrealizados?, pergunta João, o filho, à mulher, Sofia, no take da página 51.

Isto da política está cada vez pior. Era preciso um homem de pulso. (p53.) Já não há arte (p13); não há nada que chegue à arte... ponho-me a pensar[nela] e vem-me uma tristeza (p45). A gente chega a pensar em morrer(p24). Foi tudo inútil! (p96). Como me dói o que dizes, aqui no coração(p78). Talvez a verdade nos salve (p72). Entretanto, a vida dura, nas suas pungentes urgências, impaciências, cansaços e tampas, leva a esquecer, às vezes a entreter: trabalhar e dormir. E a sacrifícios. Não há que cismar, e o tempo é dominado por outras coisas, que o coração dói. Não se acompanha mais, diz o fado.

Mas não acaba assim! Há uma sombra que pisca, e o coração sabe que não é de pedra (p74). Brandão põe em João a possibilidade de mudar; ele faz gritar por um sentido. Na peça é apresentado com estas palavras: Aí está o homem!(p38). Eu tinha boca e nunca tinha gritado (p96), espanta-se o Gebo. Ele, homem do dever (p.73), entrega-se à polícia, por um dinheiro do suor da sua contabilidade, que foi o filho a roubar. Dostoievski espreita por muitas páginas desta peça, é inegável. E Oliveira gosta muito disso. Afinal, como Claudel, no Anúncio a Maria: para que serve a vida se não for para ser dada?Fui eu que roubei (p83).

João: vocês não sabem o que é a vida. A vida! (p43). E eu, pobre voz, peço:Não entendo e quero ver... (p75). Ver! Se nós pudéssemos ver! (p77). E o que faz perguntar não cessa de amparar, vindo da boca do filho as palavras de toque, a apontar um lugar: Não procures em mim outra figura senão a que conheces...a do desespero não queiras vê-la... (p60). A promessa vem das palavras do pai: Espera que quero ver e hei-de ver! (p78).

E Sofia, mulher do filho, e que não tem este nome sem mais, quando o coração está negro como a noite (p82) - e é de noite que se pergunta (p17; 61-62) - vai dando sempre a deixa: o que eu acho é que há talvez outra coisa maior que não conheço, mas pressinto... É uma coisa que me mete medo e que me atrai. (p75). Eu, o Gebo: Outra coisa?... outra coisa maior? (p76). Eu:No céu? A sabedoria: Não, na terra. (cfr. p76)

Somos uns desgraçados. Por isso é preciso dar tempo e espaço na terra, agora, já, às estrelas que aparecem. Oliveira é seguramente uma das mais brilhantes. E, na p95, o Gebo termina o que escrevo: Ah, essas noites em que a luz se foi fazendo cada vez mais clara [refere-se ao tempo passado na prisão, de castigo a pagar o crime]... Uma hora em que entendi tudo e todas as vozes dentro de mim se sumiram com medo à minha própria voz. A gente só não se arrepende do mal que faz neste mundo."

 

 

 

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04
Abr16

 

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imagem do making off do documentário/ tirada da net

 

  

 

Oliveira é uma energia renovável. Passou um ano da sua morte. E afinal havia outro (aposto que na gaveta há mais…). O último filme Documentário de Oliveira: “Um século de energia”, encomenda da EDP para a sua campanha publicitária, a ser exibido em 10 cidades portuguesas, a pedido do cineasta, que, durante os trabalhos de montagem, foi por outra “porta”, e acabou por não ver o resultado final. Eu podia ver o filme e ficar calada. É de uma beleza tão “ordinária” que bastava ver e experimentar a correspondência ao mais "eu" do meu "eu". Contudo, como Henri de Lubac sublinha, a mística é uma colheita da tarde. O mundo em que vivo – a minha rua – diz-me que há muita espiritualidade. Pois depende do que por isso se entende. A mim,há muitos que me sabem a pouco. Há mesmo, por vezes, mais mística no futebol. Este post é um registo filosófico, em si menor (isto exige outro texto), do que esta obra de arte oferece ao mais que socrático, “conhece-te a ti mesmo”. Nas III Jornadas de cinema em português http://www.livroslabcom.ubi.pt/pdfs/20141204-201201_cinema_em_portugues_iii_jornadas_2010.pdf expliquei a minha forma de ver os trabalhos deste homem, a quem vi, não há muito, no CCB, de joelhos, a beijar as mãos de Bento XVI. Numa palavra: “. . . nous sommes devant un grand mystère.” (Baecque, A., Parsi, J., 1996). Mas a filosofia, ao invés do que se pensa, articula, distingue, esclarece. Pode gerar felicidade, energia, argumentando até ao abismo que há que saltar, se for caso disso.

 

Oliveira utiliza uma “câmara” fenomenológica. Sim, há formas filosóficas de ver o cinema - e agora dizemo-lo mesmo de forma poética: a razão sabe por onde vai o cinema, no trabalho de mostrar e articular razões. Pondo as coisas de forma mais clara – e esta é a melhor definição de Filosofia que encontrei – a Filosofia faz as distinções essenciais (Cfr. Sokolowski, 1992). Quem a define assim é Husserl, por onde passa a filosofia hoje. Desde 1900. O conhecimento não é um fenómeno estático mas um encontro de duas energias, encontro interminável, mas de contornos definidos, isto é limitados; a Filosofia, como lembra inúmeras vezes Husserl, é uma ciência que possui o seu rigor próprio. A realidade impõe que o guião se converta e não vá por ali; disse-me um dia Luis Miguel Cintra, que no momento de filmar MO tem uma grande sensibilidade ao que acontece; ou “L’événement fonctionne comme ouverture dont la possibilité peut toujours se répéter.” (Lavin, 2008). 

 

Há tantas fenomenologias, quanto os fenomenólogos. Oliveira é um realizador fenomenológico, como foram muitos. O suprasumo deste movimento filosófico está em Husserl e nas categorias que ele encontrou para entender os mundos. Realçamos as seguintes:Parte/todo; horizonte; Identidade/Perspectivas/Ausência/Presença /Memória – Retenção (passado), Reconhecimento (presente), Antecipação (futuro). Muito para um post, eu sei, mas vou dizê-lo sinteticamente. Olhando para "Um século de energia", a partir de como mais de um século de energia  se realiza uma história, uma vida. Oliveira vai mais uma vez ao que é o humano. E é porque a sua experiência energética é tão rica que consegue mostrar o tecido que faz a vida, o invisível que nos rega, nos move e ilumina. Fenomenologia? Oliveira mostra de forma genial imagens que "aparecem" (fenómeno) plenas de "lógica" (logos), acontecendo assim um todo em que as partes se distinguem sem se confundir. 

 

“Hulha Branca”, que realizou em 1932,antecipa o documentário; é retido e cresce, no presente; naquele espaço de Serralves, ao "criar" a música e a dança que projectam as suas sombras, numa unidade que dá cada coisa no seu lugar. A força artística dos movimentos das bailarinas e os sons do quarteto que insiste no tom, são um todo cujas partes não se perdem contando assim uma história onde é ilustrado o processo de transformação de energia.

 

Os moinhos de vento antecipam-se nas suas sombras nos pinheiros e arbustros. Aparecem depois na sua imponência a mostrar futuras formas de energia. Como os braços, nos gestos erguidos daquelas mulheres que dançam nas cores de um escarlate, que se funde no preto e branco do que não passou. Os fios eléctricos são riscas horizontais no fundo azul de um céu: uma pintura viva de natureza, arte e trabalho (minuto 7,minuto  9). O que acontece desde a imagem inicial onde se vê também o Douro da faina fluvial. A arte que MO põe sobreposta excede, promete, espanta, como um grito bom a pedir e mostrar sentido. Tudo a um ritmo conjugado de pitch´s, fotografias, flashes; doações,segundo a segundo; bateres de corações: coincidências em que me revejo, ausências grávidas de presenças, a mostrar o invisível; faces do cubo que nunca se dá todo, e é sempre envolvido num todo pressentido em horizonte.

 

E a água, traz o sol e o vento. Como irmãos,da mesma terra, da mesma fonte. Sem que a aparente inutilidade da arte belisque o trabalho ou negócio, espelhados em caras de homens alegres, de dentes tortos, e olhos e mãos iguais a "mim". De mãos dadas, na mesma luta - o melhor de mim -, como canta Mariza no making off. No filme não há letra. Há a música da água, de sinos, do vento, do poderoso silêncio. Dos pássaros. E o som do mostrar que "sem ver,é acreditar"; "é preciso perder para se ganhar". "O melhor de mim está por chegar". Aqui compara-se a cena final do filme e a do making off: MO de mãos postas na bengala, a equipa que para ele olha a pedir a genialidade. O minuto 2.54 não mente a mesma câmara,os mesmos séculos, o mesmo "eu". Tudo a terra une. E a água enche-se de humanidade,escorrendo por paredes abaixo, e por debaixo de pontes,arcos e escadas de pedras, no mesmo sangue. O melhor, de mim. A desafiar-me o meu SIM.

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24
Mar16

O Pão que Oliveira realizou

por Fátima Pinheiro

 

Excerto de o "O Pão", de Manoel de Oliveira, tirado da net

 

"O Pão" é um documentário de Manoel de Oliveira, uma encomenda da Federação Nacional das Indústrias de Moagem. Mas Oliveira, como sempre, alargou. O pão é visto no contexto global do sentido da vida. O artista  dá-nos dois Sacramentos: o Matrimónio da Rosa Maria e do José Joaquim; e uma Eucaristia, numa pintura, e em off "Tomai e comei, isto é o meu corpo." Misturar intencionalmente catolicismo e indústria, é inesperado. Tal como viria a acontecer - com outro tema - no filme "Benilde ou Virgem mãe", estreado em pleno 25 de Abril. Alheia às "modas", é a intransigência de Oliveira.

As imagens  que vi são deslumbrantes, feitas de traços de tudo, do arado à boca. A luta entre o arado e a terra é um Van Gogh em movimento. Ou um Jean-François Millet: mais suave, menos fragmentado, numa ordem que salta aos olhos. Uma obra de arte que não se deixa encaixar numa categoria de trabalho instrumental, ao serviço de qualquer estatística.

A alternância de imagens da terra e dos braçais homens, do suor e da foice, com as do campo e as do campo religioso, em planos grandes a mostrar os pormenores, têm a faina do fluvial Manoel. Como as imagens da mistura de homem e espiga, pés descalços, cansados, e de duas mãos que ao pronunciarem "quero",trocam as alianças. Alternância também das funções dos vários homens que correspondem aos vários níveis pelos quais o pão chega a pão. Tudo numa hierarquia que parece falar mais alto do que a unidade do processo, que é guiado na unidade do resultado final. Uma imagem marcante: a de um homem mergulhado na seara dominada, mas que tudo domina, porque dela depende a fatia que o trabalho de cada elo humano representa.

A terra é-nos dada como um Altar. Como a senhora que sabe agradecer o deixar-se ser abraçada por mãos que sabem o sentido.

É um pormenorizado trabalho de montagem a partir de milhares de metros de película, conseguindo “dar alma às imagens, emprestar um sentido e um significado a cada sequência, investigar sobre a linguagem estética, para que a obra forme um todo significante, se erga e se equilibre” (Alves Costa, Breve História do Cinema Português ,1896-1962, Biblioteca Breve, Instituto de Cultura Portuguesa, p. 108).

Para terminar, cito o realizador: "Realizei duas versões deste filme. Do ponto de vista artístico, prefiro a versão curta. Servi-me do pão para enfrentar muitos aspectos da realidade portuguesa... Procurei sobretudo mostrar o papel do homem em cada etapa do fabrico do pão, da sementeira até à distribuição, e a comunicação que se instaura assim entre homens muito distantes no seu espaço através de um único elemento: um grão de trigo. (...) Na versão longa, acho que exagerei demais, prejudicando a ideia central do filme. Porque a ideia do filme é a ideia de que o pão é como uma corrente de um rio que passa por vários lugares, passa por diferentes mãos, por diferentes hábitos ou fardas (é melhor chamar-lhes fardas para facilitar). Interessou-me muito dar essas diferenças, que na versão curta são mais evidentes.” (Manoel de Oliveira, numa entrevista a João Bénard da Costa, 1989).

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18
Jan16

Mahler: uma economia vital

por Fátima Pinheiro

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Gustave Carus (1824) 

imagem tirada da net

Para onde vou? Eu vagueio nas montanhas. Procuro repouso para o meu solitário coração - diz Mahler na sua "Canção da Terra". Ouvi-a há uns dias na Gulbenkian numa interpretação imponente sob a direção de uma batuta finlandesa: a talentosa maestrina Susana Mälkki. O compositor é porta de vidas, de futuro. Com uma filosofia bem definida e implícita, Mahler grita em coro com Nieztsche pelo "Sentido da terra". Marcam, cada um à sua maneira, a passagem para além do século XIX com sementeiras ainda por dar fruto. A criatividade só pode gerar criatividade. O semelhante conhece o seu semelhante (já dizia Empédocles, muitos anos antes de Cristo). Não é por acaso que as narrativas deste século não prescindem de usar a "economia" e a "ecologia" como palavras chave (no caso da ecologia lembramos que “oikos” significa “casa”, e “logia”, significa estudo; neste caso estudo da casa, tendo em conta o meio ambiente; estudo da Terra, uma casa na qual habitam diversas espécies, uma família).Contudo estes filósofos pisam mais que a superfície, vão no ontológico. Sem dúvida todos os saberes são fundamentais. Mesmo o saber inútil. Quem não o tem em conta habita uma casa inacabada, sem fundações. Álvaro de Campos disse-o como poucos: "É por um mecanismo de desastres, /Uma engrenagem com volantes falsos,/Que passo entre visões de cadafalsos /Num jardim onde há flores no ar, sem hastes"(in “Opiário”). O que digo hoje aqui é música. Querem ouvir?

Não é por isso por acaso que o Papa Francisco centra o seu discurso na economia que mata, no nojo que é a indiferença. E Manoel de Oliveira, enraizado no que vê, tem a Terra como tema central da sua filmografia. Dá à luz, entre outros, filmes como "O Pão", "Ato da Primavera", "Douro faina fluvial", "A Caça", e o último tem como centro "A energia".

Mahler, a semana passada? A música, que aqui evoco hoje, realiza memória, em cada nota, o lugar que é o coração. "A Canção da Terra" questiona esse "eu" de forma brutal e doce, harmoniosa e explosiva, abrangência total -chega a todos os lados-; a letra descreve e faz sentir montanhas, luas, mares, sóis, sombras, choro, alegria, dor, revolveres de terra. Ela é uma potência que fere, perfurando e desaparafusando.  Aquece as sombras que nascem ao pôr-se do sol por detrás das montanhas. É uma promessa que pede a minha liberdade. Seca ternamente as lágrimas e o riso que correm de a ouvir.

A cortante pergunta  solta-se a meio da Canção:  "Se a vida não passa de um sonho, porque toda esta fadiga e tormento?"

Que conto eu nestas linhas? Nada. Mas a mim desperta a alma. A Música forra de veludo a carne. A Filosofia de Mahler brota da terra, do mais intimo de mim. E resplandece o céu azul no horizonte, eternamente.

 

 

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 imagem tirada da net

 

 

Poucos dias depois da morte de Oilveira, uma conversa com Eduardo Lourenço,  onde ele nos diz, afinal, o que entende por cinema. O que entende sobre a vida.

 

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