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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

13
Abr17

ECCE MEN ou PAUSA

por Fátima Pinheiro

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 Zurbaran, Nossa Senhora em pequenina

imagem tirada da net

 

Sim, é sobre a Semana Santa. No princípio era Descartes. "Culturalmente" falando, claro. Já tinha havido muitos filósofos antes. E há-os por todo o lado. O eu foi dividido, a parte mensurável uma, a parte não mensurável, outra.  O ideal da ciência: tudo medir. Mas há coisas que não se medem. Uma coisa é o  olho, outra o olhar. A fenomenologia tem razão. Husserl e M.-Ponty, neste ponto, em particular. A mão e o gesto, etc.

O golpe cartesiano deu lugar a tanta sabedoria, como se o eu se desdobrasse nas suas infinitas possibilidades como projecto, podendo assim reflectir-se e ficar a conhecer-se melhor. É a vantagem da História. De nascer hoje. Aliás não pode ser de outra forma.

E o eu desagregou-se a um ponto que já não se considera insensato afirmar que cada um é o pós-pós-pós-moderno que quiser ser. Sem esquecer a utopia de um futuro feliz e socialista ao qual pouco importa que cada um possa assistir, porque o material é decomponível. E a luta era para o outro, e para o outro a seguir, sempre para melhor, mas sem mim.

E sem esquecer a, tão de hoje, modalidade de um eu que se quer ele próprio confundir com o infinito; passando assim a haver só infinito, sem que o eu se diferencie. Um desejo de dissolução, porque a dor é insuportável, melhor então é vivê-la estando acima dela. Multiplicam-se filosofias, religiões, movimentos, sincretismos, “à la cartes”, etc., que encorajam e ensinam uma ascese que se pretende boa. Uma elevação ou despojamento que devolve o eu ao Absoluto, a gota ao mar, uma espécie de panteísmo. Uma felicidade sem eu, sem mim.

A mim parece-me mais humano um eu que não se apague e que veja cumprida a sua fome e sede de infinito, como lembrou a nossa Florbela Espanca. Um eu que quanto mais grita pelo que quer, mas se afirma a si mesmo, sendo ele e não outro. Porque é nessa diferença que pode entender e partilhar o seu e o grito do outro. Na mesma dor. Na mesma alegria. A desejar beberem e comerem do mesmo Pão e do mesmo Vinho.

De que me serve um futuro ou uma dissolução, se aquilo que eu sou é mesmo fome  e sede de infinito, mas AGORA e sem PAUSAS? Insaciáveis. Sobretudo diante da dor, dos outros, que é minha também. Gosto de vestir a camisola. Eu, não outro. Também a dou se for preciso. É isso que quer dizer que nos comemos e bebemos uns aos outros. Simpatia. Compaixão. Amizade. Amor.

E o melhor mesmo, é uma boa refeição em que cada um saboreia com gosto o que está à mesa no meio de todos. E brinda. Em companhia. Não quero que comam por mim. Não o impessoal. Posso até morrer de fome. Mas isso é uma decisão minha.

Onde está o LOCUS ISTE? O meu lugar? Na verdade eu não tenho lugar, eu sou um lugar, sou eu.

Onde “está” o LOCUS ISTE? Acontece-me. A mim.  Tudo o mais seria alienação estética, religiosa, e outras. A minha tensão está em sentir, levantar-me, com os meus pés. Toda. Onde quer que seja. A ser eu, aos bocadinhos, sem maniqueísmos. Para que serve a minha vida se não é para ser dada, dizia Claudel. As coisas anunciam-se e eu quero dizer sim. Não mudo o mundo, sei que há quem lute por um feijão. Posso dar sopa a toda a gente? Se calhar podiamos. Mas quem nos dá a nós?

O mais importante no Cristianismo não são os valores, não é a moral. O diamante do cristianismo está muitas vezes envolto na lama das nossas mãos sujas. Mas está.

As partes da feijoada de que eu gosto mais são a farofa e a couve. Passo sem elas se for bom. E não quero nada rever-me naquilo que o Cardeal Cerejeira dizia dos católicos (ou de Lisboa, ou Portugal, não me recordo agora): comem, bem e não fazem mal a ninguém.

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09
Abr17

Mais uma Semana Santa

por Fátima Pinheiro

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Bent Hamer, 1001 Gram (2014)

 

Mais uma Semana  Santa, soma e segue. Até morrer. "Vai um de cada vez", disseram-me outro dia numa missa de corpo presente. Eterno retorno ou ressureição?

Um livro que conta a vida de um sacerdote da Diocese de Milão, Luigi Giussani. Usarei em tradução livre a edição italiana - Alberto SAVORANA, Vita di don Giussani, Rizzoli – Milano, 2013 - em breve em português. Aliás, o primeiro de quarenta capítulos foi lançado no Meeting de Lisboa, na presença do autor. Tudo isto para quê?

Simples. Um dia, anos cinquenta, o já padre Giussani ia no comboio. Ouviu uma conversa entre teenagers sobre Religião e Igreja. Constatou algo muito significativo: as posições que cada um defendia eram baseadas em ignorância, e desenvolvidas a partir de falsos preconceitos. Pensou (digo por minhas palavras): é preciso dar a conhecer, falar verdade.

Para que a vida seja boa, mas já, e não para depois; nesta Semana Santa, que é diferente de todas as outras. Cristo prometeu que quem O seguisse teria a vida eterna e o cêntuplo JÁ. E o que os miúdos dizem no comboio da vida interessa-me. Quero ir para o meio deles. E veio também para o meio de mim, Graças a Deus, já há mais de 20 anos...

A questão decisiva para Giussani, à qual dedicou toda a sua acção educativa, através do Comunhão e Libertação, a sua vida, é então esta: Cristo: sim ou não? Hoje continua verdade. Quem sabe mesmo o que é o cristianismo?

A educação é a rocha de sociedade, das pessoas. A minha pedra angular. Sem ela não vamos muito longe. Hoje mesmo. A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira. Mas isto é tarefa de cada um. Já foi tempo em que a Igreja era uma “coisa” de alguns. Cristo é para mim “sim” ou “não”? Para responder é necessário saber de quem estamos a falar. Destaco então o capítulo 19 do livro que referi. A mim esclareceu-me, e vejo-me num caminho em que a companhia deste movimento me alegra e me dá um gosto de vida nova. Como deu a S.Paulo, a Santa Teresinha do Menino Jesus e a tantos. Porquê?

Porque a resposta à pergunta é a razoabilidade que enche e transborda do nosso ”coração”, das exigências e evidências que correm e fazem correr a natureza humana.

Agora do livro. Quem não tem sede de verdade, justiça, bem e beleza? O que é a religiosidade? «A essência da razão».

E qual é a pergunta que se faz mais vezes? «Faço-me tantas». Pode citar uma, pelo menos? «Se Deus deu aos católicos a inteligência, é para a usarem ou fazerem um holocausto dela?» Quando “os tempos são maus”…quer dizer que veio o momento da conversão do coração e da maturidade na fé. [...] A vida vale a pena ser vivida para edificar a glória de Deus, isto é, para construir a humanidade nova na Igreja. Pois bem, em toda a história do cristianismo a condição para construir é o sacrifício, isto é, a cruz …A maturidade da nossa fé - eis a ressurreição. Introdução à realidade, é o que é a educação. A palavra “realidade” está para a palavra “educação” tal como a meta está para um caminho. A meta é todo o significado do andar humano: esta não está presente unicamente no momento em que a empresa se realiza e termina, mas também em cada passo da estrada. Assim é a realidade, que determina integralmente o movimento educativo, passo a passo, e é a sua realização. Infelizmente, a mentalidade laica – Giussani nota que isto é evidente na escola – «não está interessada em dar um contributo para a tomada de consciência efectiva de uma hipótese que explique as coisas unitariamente. O analismo que predomina nos programas abandona o aluno frente a uma heterogeneidade de coisas e a uma série de soluções contrárias entre si que o deixam, consoante a sua sensibilidade, desconcertado e desalentado no meio da incerteza». Em consequência, o jovem «sente, normalmente, a falta de alguém que o guie e que o ajude a descobrir aquele sentido de unidade das coisas, sem o qual ele vive uma dissociação» . É precisamente esta constatação que leva Giussani a aprofundar o conceito de autoridade: «A experiência da autoridade surge em nós como um encontro com uma pessoa rica na consciência da realidade; de modo que esta se nos imponha com a revelação e nos traga novidade, espanto e respeito. Da sua parte há uma atracção inevitável, da nossa parte uma inevitável dependência, sujeição». Para Giussani, a autoridade, de uma certa maneira, é o meu “eu” mais verdadeiro. Mas muitas vezes, hoje a autoridade propõe-se e é vista como algo que nos é estranho, que “se acrescenta” ao indivíduo. A autoridade permanece fora da consciência, ainda que talvez seja um limite devotamente aceite» Dentro do percurso educativo, a figura da autoridade é central até accionar a verificação da proposta vinda da tradição «e isto só pode ser feito por iniciativa do jovem e por mais ninguém.

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