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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

02
Nov17

Eu, fiel viva

por Fátima Pinheiro

Está cinzento. Hoje comemora-se o Dia dos Fiéis Defuntos em Portugal e no resto do mundo. A data também é conhecida como Dia dos Finados, Dia dos Mortos e Dia das Almas (conhecida como All Souls Day a nível mundial). Um dia serei comemorada assim. Muitos põem uma cara pesadona, outros choram. Eu não comemoro em especial. Todos os dias tenho presente este factor das nossas vidas e pergunto o sentido da minha vida. Tudo fica mais claro.

Nestes dois últimos anos morreram-me muitos. E, claro, o facto de lidar com a morte todos dias, não me tira o espanto e a dor daqueles que passam a estar comigo de outra forma. E também choro. E também choro os que não conheço. Contudo o que faço, e aqui está a outra face da mesma moeda, hoje comemoro o dia dos fiéis vivos. Eu incluída.

Hoje é então também dia de comemorar a vida. Mas claro que aproveito para conhecer mais sobre os que morreram. Tanto nas recentes mortes em Pedrógão e nos outros fogos que se seguiram, como com os mortos conhecidos universalmente, como Santo Agostinho, um dos meus mortos favoritos. E está bem vivo. Para ele foi a morte de um amigo que o levou à Filosofia. Não descansou enquanto não encontrou a resposta para o sentido de andarmos aqui.

Eu sei que não é preciso ser filósofo para encontrar a resposta.  E também sei que aqui sim, é uma estrada para pôr o acelerador a fundo. Não é matéria para picar ponto. Não satisfaz flor na campa, nas cinzas ou deitá-la ao mar e siga a marinha. Não é picar ponto.

Mas somos livres. Cada um faz como quer. Era o que faltava! Não me impeçam é de comemorar à minha maneira. Certo?

Começo por um ramo de flores. Vou sobretudo olhar os outros de forma nova. Ao meio dia e meia tenho um encontro marcado com um santo. O resto vou fazer tudo igual, o que para mim está sempre na novidade de fazer sempre novo, porque um dia não é igual ao outro. É através de tudo isto que a alegria não me larga e gere o choro e me põe a andar.

 

 

 

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14
Ago17

Tenho interesse em mudar?

por Fátima Pinheiro

96.jpg

 

 Naomi Tereza Salmon, Exhibits , 1994

 

Deu a vida por um homem. É uma história conhecida, a deste homem que hoje recordo. Refiro-me ao dar a vida no sentido de morrer mesmo. Lembro-me em particular dos que o fizeram e fazem por um futuro a vir (para abreviar, comunistas e homens-bomba). Ou seja, por utopias. Este post não é contudo um artigo da categoria "obituário", mas é sim uma opinião, por muito que seja desagrável. Há opiniões muito desagradáveis, sobretudo para uma mentalidade que erigiu o agradável em valor primordial. Nem por acaso folheei há pouco um livro que tenho na cabeceira, "Beleza desarmada", de Julián Carron, cuja apresentação em Portugal foi feita pelo historiador Rui Ramos, no Campo Pequeno. E vejo sempre com muito agrado a apresentação desse livro em S.Paulo na Livraria Cultura. A pessoa a quem dedico este pequeno texto deu a vida por um homem que conheceu num campo de concentração. Trata-se de  Maximiano Kolbe, que João Paulo II canonizou, e cuja Memória a Igreja hoje celebra. Sei que, para  dar um exemplo atual, muitos bombeiros merecem o altar e muitos são aqueles que têm morrido queimados vivos. Mas nada disso tira o valor ao caso que hoje aqui trago.

Quero  sublinhar dois pontos. Primeiro, que a crise que se vive hoje a vários níveis tem origem numa sociedade que acreditou que os valores do cristianismo poderiam vingar sem ele. A famosa "Religião nos limites da razão", do filósofo Kant. O resultado está à vista: em privado ninguém se entende, cada um faz o que lhe apetece  e a gestão da vida pública é o que se vê. Pedrogão é um bom case study. A cosmética das uniões de valores e pessoas ao sabor das ondas já mostrou que tem pés de barro. As mesmas palavras de sempre - trabalho, família, política, amor, religião, prazer e outras- estão vazias, como vazios estão quem as pronuncia e com elas se engana e enganam os outros, enquanto vivemos a média dos 70 anos que nos cabe neste planeta.

O  segundo ponto que sublinho: para quem está interessado em mudar-se a si à sociedade em que vive, olhar para o gesto de Kolbe fornece as razões que podem realmente mudar para um sentido que faz sentido. Mais: muda mesmo!

No final de julho de 1941 estava o santo no Bloco 14, “bunker da morte”: um subterrâneo, onde um grupo de sorteados, nus, esperavam a morte. Era um terror, podia ser a qualquer momento. As razões de Kolbe? Ofereceu-se para morrer em lugar de um deles, que gritava pela sua família. Kolbe não se ofereceu pela humanidade. Deu sim a sua vida por aquele homem. A revolução que transforma vem deste olhar para o outro , nos  olhos, como filho de um mesmo Pai. As igualdades, as liberdades e a fraternidades são "nadas", "fazem mal" (Papa Francisco), se não se nutrem n'Aquele que um dia chamou este filho polaco a ser abraçado para ser franciscano. Sem o Cristianismo assim entendido e vivido, não vamos longe. Graças a ele, o bunker da morte foi bem longe. Transformou-se em capela de oração e de cânticos, com vozes cada dia mais debilitadas, mas vozes. Foi com injeção letal num braço que se estendeu espontaneamente, e que chega até mim...

 

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17
Jun17

Como consigo o equilíbrio...

por Fátima Pinheiro

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 imagem tirada da net

 

A ideia deste post vem porque Nick Wallenda, de 33 anos, membro de uma célebre família de artistas de circo, conseguiu – sob um fio de aço, a uma altura de quase 50 metros e por uma distância de quase 550, e em pouco mais de meia hora – atravessar as Niagara Falls. Usou uma corda de segurança. Até porque o seu avó morreu numa aventura do mesmo tipo. Muitas conversas sobre a dificuldade em equilibrar a vida.

Como consigo o equilíbrio? Esta história verídica que vou contar ilumina. Uma amiga contou-me a história de uma amiga que lhe contou que chegava ao fim do dia exausta. O trabalho. Os filhos. O marido. Os amigos. Os outros. O supermercado. O “descanso”. As refeições. Tudo. E que na véspera, à noite, chorara e chorara. Não sabia conseguir o equilibrio nisso tudo. Despedaçada. Como o Raskalnikov. A minha amiga perguntou-lhe então: “quando choraste ontem à noite, qual dessas partes tuas chorou?”. E ela desatou a chorar outra vez. Era ela toda que chorara. Ela. Compreendeu, e chorou de alegria. O equilibrio é realmente impossível porque eu não sou feita de partes, às fatias. Fatia executiva, fatia recreativa, fatia mulher, fatia mãe, fatia voluntariado, fatia famíla alargada, fatia cultura, fatia religiosa, fatia administradora do condomío, uf! Viver por segmentos só é possível se eu me contentar em “ser” assim fatiada, na eterna questão de conseguir o tal equilíbrio na minha vida. E então como é? Se sou eu inteira que choro, é porque é sendo inteira em tudo, que está o segredo. Um orçamento equilibrado, tudo bem, e é bom que se faça. A disciplina do Nick, ok. Mas a vida não se sujeita a orçamentos. Quem domina o princípio e o fim? Viver é assim deixar de fazer contas, soltos no fio, ou seiva, que em cada instante nos é dado. O único trabalho é o de ser livre. Agora. Arriscar. E arriscar porque há razões para isso. O que ME INTER-ESSA. De certo modo não “dá trabalho” porque a vida acontece. A criança não entra no quarto escuro sozinha. Mas de mão dada em quem confia, arrisca. Há razões para entrar. O Nick não deixou de fazer o que fez, sem esse fio que o segurava. E arriscou. Arriscou-se. Eu quero. É simples. Só não é simples porque nós complicamos. Olhar para os olhos esbugalhados de quem vive assim, ajuda. Ilumina.

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28
Mai17

uma coisa maior

por Fátima Pinheiro

 

 

As trevas parecem dominar. Mas no olhar no romper da aurora, pode dar-se sobressalto do coração. A luz impõe-se e é ela a brilhar, assim o sobressalto não se “ocupe” e atire para canto. Oiço: apesar “disto” – contrariedade -, eu consigo ultrapassar. Um estoicismo que esmorece e morre no primeiro, ou segundo lance. Falo por mim.

Uma pessoa pode não perceber nada da música que ouve cantar mas se está mesmo a ouvir música, percebe que aquele que canta sabe porque canta. Nesta ária de Händel é evidente que o que canta manifesta uma “coisa” maior que ele. E que voz!!!

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20
Mai17

Eu a encher chouriços...

por Fátima Pinheiro

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encontrei esta fotografia no blog de Luís Desenha 

 

Hoje até parece conversa de chacha. Mas este blog, apesar de muitas vezes parecer ser outra coisa, será tudo e mais isso. Isto porque para mim as coisas mais banais e superficiais, fazem-me bem. Porquê? Porque não recuso o prato do dia. Tenho o bom hábito de nada deitar fora e sei que em todas elas há um fundo. É como o não haver almoços grátis. E é porque hoje é sábado. Mas atenção: na 2ª feira eu digo "porque hoje é segunda". Há quem seja esquisito com o nome dos dias. Eu não. Sou é esquisita  na forma de viver. Prefiro o bom e o perto. O gosto e a beleza. Gosto de ver tudo até ao fim. E sei que, no fundo, nada tem fim; e por isso com toda a certeza do meu duvidar afirmo que a vida tem uma plenitude inesgotável. Muitas vezes escondida, eu sei. Que confusão! Não.

Hoje abordo o "falar" de duas palavrinhas das quais não se pode fugir: "problema" e "mistério". Não nos livramos delas, seja às terças, seja às sextas. E da forma como "elas" significam, posso ter uma vida de chacha, ou não. Não que tenha inventado a roda. A distinção entre "problema" e "mistério" foi feita pelo filósofo Gabriel Marcel, que se deteve também na famosa distinção entre "ter" e "ser". Isto para dizer que de chacha não são as conversas. Outra coisa sim...

Falar é um must. Mesmo se estou sozinha. Falo com os meus botões, ou, desde o final do século XIX, falo com o meu fecho éclair (não é Gedeão?). Aristóteles, o filósofo do bom senso e do rigor, por ser peripatético e ter vivido uma vida genial, acabou por dar as cartas quase todas, e até o pontapé de saída às bolas com as quais a humanidade passou a jogar. Conhecido pelos seus "o homem é um animal racional", "o homem é um animal político", é menos conhecido por ter reconhecido que o homem é, antes de mais, o que articula, aquele que fala. E escreveu sobre isso que se fartou. Não é por acaso que os filósofos que valem mais, tenham na "linguagem" e seu uso o tema central dos seus pensamentos. E que a Retórica seja afinal tudo menos retórica. Hoje tem é outros nomes, mas é ela que continua a fazer rodar. Dou o exemplo de Wittgenstein par dar um exemplo de "hoje". E para não ser acusada de estar sempre a por Husserl num pedestal. Falamos de tudo e de nada. Das coisas, do seu sentido ou não. Do amor ou da plenitude da nossa auto-consciência. Da política, ou das convivências sociais. Problemas e mistério.

O "problema" está diante de mim, para que eu o resolva. O "mistério" não é um problema porque não está diante de mim, mas antes eu é que estou "dentro dele".  Temas  existenciais interessantes se eu lhes der valor, estimar. Mas há quem só goste de sol, e abomine a chuva. Há quem só ande em terreno liso, e evite as rugas da terra. Há quem só goste de receber, e não de dar.

Há mesmo quem não se interesse por nada a não ser pelo umbigo. O que em si não faria mistério, se não estivessemos a falar do umbigo do próprio. Mas umbigos há muitos. Eu gosto. O meu "está lá", já sei. Não gosto é de perder tempo. Até posso dizer que um homem se mede pelos umbigos que procura e como os procura. No final de contas há sim é pessoas, que por uma razão, são mesmo de "chacha": não tem interesse para nada e não se interessam por nada. Por isso gosto de todas, todas valem o mesmo. Como eu, que assim sou também intermitentemente. Às vezes dou por mim a encher chouriços...

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14
Mai17

Ninguém manda no meu coração!

por Fátima Pinheiro

Há quem pareça ter nascido sem coração. Os ditadores, os que nascem com doenças que afectam capacidades de consciência, o que os torna opacos a nós (não falam, não se mexem, olham para sei lá o quê). No caso dos ditadores, são livres, percebo. No segundo caso, e outros semelhantes, estamos diante de realidades insondáveis que escapam à nossa pequena/grande inteligência, ao nosso poder de entender. Ficamos com pena e pensamos : "devia morrer ou nem ter nascido". Mas também vejo pessoas sem esse tipo de deformação, que só sabem fazer mal aos outros! Também não deviam ter nascido?

Já vi de tudo. Muitos homens e mulheres com coração. Com base nessa experiência é possivel viver. O que tem muito que se lhe diga. Tenho presente neste post as coisas que andaram na boca do mundo neste fim de semana.

Não basta viver, é preciso  viver bem, diz um provérbio russo. Tudo é relativo, dizem-me ao ouvido. Mas a verdade é que ninguém manda no meu coração. Como não mandaram nos corações da Jacinta e  do Francisco. Nem Deus, nem Nossa Senhora, nem as autoridades, Igreja e Governantes. Foram eles que quiseram dar o coração.

Uma vida sem coração é uma  vida insuportável. Quem o põe numa gaveta procura substitutos.  Não é a mesma coisa. Cantava ontem o Salvador Sobral :  " Se o teu coração  não quiser sofrer".  Não que eu seja masoquista, ninguém gosta de sofrer. Mas o sofrimento é um facto polivalente.

Resumindo e concluindo. Sei por experiência  que há sofrimentos aos quais podemos dar resposta e acabar com eles. Sem "mas", "ses", nem "senãos". Desatados uns nós, desatam-se outos. É como um novelo. Há casos mais complexos. Mas quem pressente este gosto de vida nova, é porque a realidade está cheia de promessas. Arregaça as mangas recusando ser uma avestruz anódina, incompetente e descartável. Recusando uma vida que compra a vida de inocentes para prolongar, inutilmente a sua. Não se pode adiar viveres e morreres. Só temos o dia de hoje...

 

Os corações não se compram, não se forçam nem gostam das gavetas. São como pássaros de altos voos, que sabem que sem amor nada vale. Não são  as tempestades que impedem de voar. Antes pelo contrário, com elas se ganham asas para voar mais baixo, mais rente. E sobra sempre.

 

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13
Abr17

ECCE MEN ou PAUSA

por Fátima Pinheiro

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 Zurbaran, Nossa Senhora em pequenina

imagem tirada da net

 

Sim, é sobre a Semana Santa. No princípio era Descartes. "Culturalmente" falando, claro. Já tinha havido muitos filósofos antes. E há-os por todo o lado. O eu foi dividido, a parte mensurável uma, a parte não mensurável, outra.  O ideal da ciência: tudo medir. Mas há coisas que não se medem. Uma coisa é o  olho, outra o olhar. A fenomenologia tem razão. Husserl e M.-Ponty, neste ponto, em particular. A mão e o gesto, etc.

O golpe cartesiano deu lugar a tanta sabedoria, como se o eu se desdobrasse nas suas infinitas possibilidades como projecto, podendo assim reflectir-se e ficar a conhecer-se melhor. É a vantagem da História. De nascer hoje. Aliás não pode ser de outra forma.

E o eu desagregou-se a um ponto que já não se considera insensato afirmar que cada um é o pós-pós-pós-moderno que quiser ser. Sem esquecer a utopia de um futuro feliz e socialista ao qual pouco importa que cada um possa assistir, porque o material é decomponível. E a luta era para o outro, e para o outro a seguir, sempre para melhor, mas sem mim.

E sem esquecer a, tão de hoje, modalidade de um eu que se quer ele próprio confundir com o infinito; passando assim a haver só infinito, sem que o eu se diferencie. Um desejo de dissolução, porque a dor é insuportável, melhor então é vivê-la estando acima dela. Multiplicam-se filosofias, religiões, movimentos, sincretismos, “à la cartes”, etc., que encorajam e ensinam uma ascese que se pretende boa. Uma elevação ou despojamento que devolve o eu ao Absoluto, a gota ao mar, uma espécie de panteísmo. Uma felicidade sem eu, sem mim.

A mim parece-me mais humano um eu que não se apague e que veja cumprida a sua fome e sede de infinito, como lembrou a nossa Florbela Espanca. Um eu que quanto mais grita pelo que quer, mas se afirma a si mesmo, sendo ele e não outro. Porque é nessa diferença que pode entender e partilhar o seu e o grito do outro. Na mesma dor. Na mesma alegria. A desejar beberem e comerem do mesmo Pão e do mesmo Vinho.

De que me serve um futuro ou uma dissolução, se aquilo que eu sou é mesmo fome  e sede de infinito, mas AGORA e sem PAUSAS? Insaciáveis. Sobretudo diante da dor, dos outros, que é minha também. Gosto de vestir a camisola. Eu, não outro. Também a dou se for preciso. É isso que quer dizer que nos comemos e bebemos uns aos outros. Simpatia. Compaixão. Amizade. Amor.

E o melhor mesmo, é uma boa refeição em que cada um saboreia com gosto o que está à mesa no meio de todos. E brinda. Em companhia. Não quero que comam por mim. Não o impessoal. Posso até morrer de fome. Mas isso é uma decisão minha.

Onde está o LOCUS ISTE? O meu lugar? Na verdade eu não tenho lugar, eu sou um lugar, sou eu.

Onde “está” o LOCUS ISTE? Acontece-me. A mim.  Tudo o mais seria alienação estética, religiosa, e outras. A minha tensão está em sentir, levantar-me, com os meus pés. Toda. Onde quer que seja. A ser eu, aos bocadinhos, sem maniqueísmos. Para que serve a minha vida se não é para ser dada, dizia Claudel. As coisas anunciam-se e eu quero dizer sim. Não mudo o mundo, sei que há quem lute por um feijão. Posso dar sopa a toda a gente? Se calhar podiamos. Mas quem nos dá a nós?

O mais importante no Cristianismo não são os valores, não é a moral. O diamante do cristianismo está muitas vezes envolto na lama das nossas mãos sujas. Mas está.

As partes da feijoada de que eu gosto mais são a farofa e a couve. Passo sem elas se for bom. E não quero nada rever-me naquilo que o Cardeal Cerejeira dizia dos católicos (ou de Lisboa, ou Portugal, não me recordo agora): comem, bem e não fazem mal a ninguém.

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09
Abr17

Mais uma Semana Santa

por Fátima Pinheiro

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Bent Hamer, 1001 Gram (2014)

 

Mais uma Semana  Santa, soma e segue. Até morrer. "Vai um de cada vez", disseram-me outro dia numa missa de corpo presente. Eterno retorno ou ressureição?

Um livro que conta a vida de um sacerdote da Diocese de Milão, Luigi Giussani. Usarei em tradução livre a edição italiana - Alberto SAVORANA, Vita di don Giussani, Rizzoli – Milano, 2013 - em breve em português. Aliás, o primeiro de quarenta capítulos foi lançado no Meeting de Lisboa, na presença do autor. Tudo isto para quê?

Simples. Um dia, anos cinquenta, o já padre Giussani ia no comboio. Ouviu uma conversa entre teenagers sobre Religião e Igreja. Constatou algo muito significativo: as posições que cada um defendia eram baseadas em ignorância, e desenvolvidas a partir de falsos preconceitos. Pensou (digo por minhas palavras): é preciso dar a conhecer, falar verdade.

Para que a vida seja boa, mas já, e não para depois; nesta Semana Santa, que é diferente de todas as outras. Cristo prometeu que quem O seguisse teria a vida eterna e o cêntuplo JÁ. E o que os miúdos dizem no comboio da vida interessa-me. Quero ir para o meio deles. E veio também para o meio de mim, Graças a Deus, já há mais de 20 anos...

A questão decisiva para Giussani, à qual dedicou toda a sua acção educativa, através do Comunhão e Libertação, a sua vida, é então esta: Cristo: sim ou não? Hoje continua verdade. Quem sabe mesmo o que é o cristianismo?

A educação é a rocha de sociedade, das pessoas. A minha pedra angular. Sem ela não vamos muito longe. Hoje mesmo. A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira. Mas isto é tarefa de cada um. Já foi tempo em que a Igreja era uma “coisa” de alguns. Cristo é para mim “sim” ou “não”? Para responder é necessário saber de quem estamos a falar. Destaco então o capítulo 19 do livro que referi. A mim esclareceu-me, e vejo-me num caminho em que a companhia deste movimento me alegra e me dá um gosto de vida nova. Como deu a S.Paulo, a Santa Teresinha do Menino Jesus e a tantos. Porquê?

Porque a resposta à pergunta é a razoabilidade que enche e transborda do nosso ”coração”, das exigências e evidências que correm e fazem correr a natureza humana.

Agora do livro. Quem não tem sede de verdade, justiça, bem e beleza? O que é a religiosidade? «A essência da razão».

E qual é a pergunta que se faz mais vezes? «Faço-me tantas». Pode citar uma, pelo menos? «Se Deus deu aos católicos a inteligência, é para a usarem ou fazerem um holocausto dela?» Quando “os tempos são maus”…quer dizer que veio o momento da conversão do coração e da maturidade na fé. [...] A vida vale a pena ser vivida para edificar a glória de Deus, isto é, para construir a humanidade nova na Igreja. Pois bem, em toda a história do cristianismo a condição para construir é o sacrifício, isto é, a cruz …A maturidade da nossa fé - eis a ressurreição. Introdução à realidade, é o que é a educação. A palavra “realidade” está para a palavra “educação” tal como a meta está para um caminho. A meta é todo o significado do andar humano: esta não está presente unicamente no momento em que a empresa se realiza e termina, mas também em cada passo da estrada. Assim é a realidade, que determina integralmente o movimento educativo, passo a passo, e é a sua realização. Infelizmente, a mentalidade laica – Giussani nota que isto é evidente na escola – «não está interessada em dar um contributo para a tomada de consciência efectiva de uma hipótese que explique as coisas unitariamente. O analismo que predomina nos programas abandona o aluno frente a uma heterogeneidade de coisas e a uma série de soluções contrárias entre si que o deixam, consoante a sua sensibilidade, desconcertado e desalentado no meio da incerteza». Em consequência, o jovem «sente, normalmente, a falta de alguém que o guie e que o ajude a descobrir aquele sentido de unidade das coisas, sem o qual ele vive uma dissociação» . É precisamente esta constatação que leva Giussani a aprofundar o conceito de autoridade: «A experiência da autoridade surge em nós como um encontro com uma pessoa rica na consciência da realidade; de modo que esta se nos imponha com a revelação e nos traga novidade, espanto e respeito. Da sua parte há uma atracção inevitável, da nossa parte uma inevitável dependência, sujeição». Para Giussani, a autoridade, de uma certa maneira, é o meu “eu” mais verdadeiro. Mas muitas vezes, hoje a autoridade propõe-se e é vista como algo que nos é estranho, que “se acrescenta” ao indivíduo. A autoridade permanece fora da consciência, ainda que talvez seja um limite devotamente aceite» Dentro do percurso educativo, a figura da autoridade é central até accionar a verificação da proposta vinda da tradição «e isto só pode ser feito por iniciativa do jovem e por mais ninguém.

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09
Fev17

Uma Palavra que me sabe dizer.

por Fátima Pinheiro

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 fotografia Rasante

 

Santiago levava-me muitas vezes à praia. É uma criança muito curiosa. Quer resposta a tudo. E quando digo alguma palavra que ele não percebe, pergunta sempre: "O que é que isso significa?" Não é ficção o que digo. Ambos existimos mesmo, como se vê numa das fotografias que dele guardo, e que pus em cima. Pois este furacão clarifica-me na pergunta: "mas a vida tem lei?" Puro e duro. "Tem sim." "Já te digo". "Qual é?", insiste a beleza inquieta de dois olhos que fixam o movimento das águas. Vamos a isso. Uma espécie de amar e mar. Um Django libertado à minha maneira.

As palavras, os termos, os conceitos são apenas sons articulados, vazios, se os forjamos e utilizamos sem nos apercebermos que cada um tem dentro de si como que uma seta que aponta, mais ou menos vagamente, para um sentido. O que digo percebe-se melhor em frente ao mar, ao fogo, ou no alto de uma montanha. Mas nem sempre assim elas, as palavras, são entendidas. Há quem as mate antes de nós as ressuscitarmos com o nosso dizer; há quem lhes encolha o sentido; há quem que lhes corte a raíz antes de nascerem. Enfim, há de tudo. E há Austin, que no seu "How do to things with words?", nos cava a reflexão, o que nos levaria a um post sobre "actos ilocucionários". Mas o tempo não chega para tudo, e isso dar-me-ia muito trabalho.  Deixo apenas uma nota sobre como compreendo a vida. Sem grandes filosofias. Coisinha pouca...

As palavras podem dizer tudo, ou nada. Quem as leva a sério empenha-se em abri-las como se fossem um presente. Contudo, nem sempre assim é. E muitas vezes apenas porque não quero ou não sei desembrulhar. O trabalho do pensamento sobre si mesmo exige tempo e disposição...

E as respostas que o Santigo quer estão, de certo modo, nele. Só que ele ainda não sabe. Ele sabe, sim, se o que lhe respondo lhe chega; se lhe enche as medidas. Um dia de verão ele olhou demoradamente o mar, como se quisesse galgá-lo para além da linha do horizonte. Lembrou-me aquele célebre menino que um dia resolveu encher o seu balde com ele. Não conseguia, claro. Pazadas e pazadas, e não conseguia.

A lei da vida? Nascemos, estamos aqui. Um dia morremos, não sabemos nem quando, nem onde. Há os que neste intermezzo resolvem sair "antes", cortando o que não aguentam. Somos aquele "nível" da natureza que tem consciência disto tudo, e da própria natureza claro. Observamos (às vezes não...), perguntamos, desistimos ou continuamos. E agora o ponto: tudo flui com as suas regularidades. "Os rios correm para o mar"; nunca ouvi um rio dizer, "hoje não". Ou uma árvore: "hoje não dou sombra". É a lei da natureza. Eu sim posso mudar o curso do rio, ou cortar a árvore. E eu? Como encaro o meu "correr"? Como me entendo com o sol e a sombra?

Se quero mesmo saber, e não apenas ser um diletante, tenho que me observar em ação. Páro então. O que vejo no filme da minha vida? Muitas vezes sou apenas o resultado do que me determina, do que vem de trás, e "faço" mecanicamente a um ritmo para o qual não fui tida nem achada; outras "faço" as coisas tendo presente a big picture. É então (como já aqui disse a propósio de T. S. Eliot) que o tempo - este momento - se racha e experimento a "dependência" de um X que eu não sei, não cabe no balde, mas sem o qual, o tempo seria uma voraz onda de morte; um entretem de nadas para o nada. Experimento então que o todo é expressão de uma Palavra diferente de todas as outras.

Nada disto digo ao Santiago. A ele respondo à pergunta que já lá está longe em cima: "É Deus". "Quem é?"; uf, não para. Eu: "Deus é quem estás a fazer o mar." Ponho-me ao nível dele, de cócoras, ignoro a sinalização que se encontra à sua direita, e esforço-me para que ele me oiça. Esforço-me sim; porque não lhe interessa muito o que digo, mas sim o que ele vê diante de si. E está certo, sou só amiga dele, mas impotente - como qualquer um de nós - para responder a tão grande pergunta. A resposta. "Olha bem Santigo, tás a ver as ondas...", ele já não me está a ouvir. E começa a correr... Que bom!. A resposta vejo-a agora eu, no silêncio e espanto dos olhos dele. A lei da vida tem para mim desde então mais um nome: Santiago. Uma Palavra que me sabe dizer. Todinha. Sem tirar nem por.

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Hoje é avulso e para para partir a louça. As pessoas (expediente para dizer "ninguém") andam sempre muito ocupadas. Quanto mais não seja em nada fazer, a vida é mesmo, muitas vezes, insuportável. Já para não falar de quem morre de fome, frio, solidão, falta de dinheiro, doença, tortura, perseguição, eu sei lá. Por outro lado, a parte "ativa", pensante, ou política, é outra loiça. 

A rádio é uma coisa boa. Digam-me então por que é que tenho que levar logo pela manhã, e logo nas notícias de abertura, que o meu primeiro ministro tweetou, a dar os parabéns ao presidente da minha república por hoje fazer um ano de ter sido eleito? tweetou? Então e os abraços de cavalheiros? Se calhar já não há cavalheiros. Ou eu sou muito atrasada mental. Na política, e no mais, meio mundo anda a enganar meio mundo. Para quê? Abraços nos sem abrigo, a TV e as redes sociais vêem , e? Gosto bem do meu presidente, mas e agora? Não te peço que vás todas as noites abraçar aquelas pessoas sem abrigo! Assim não resulta.

Ontem estive a jantar na minha casa com uma amiga minha que enviuvou recentemente. Como me disse uma pessoa muito especial, esse sim um inteletual - por ter os pés bem assentes na terra - : "vamos uns atrás dos outros." Tanta canseira. E a vida podia ser tão justa e divertida...

Depois um novo presidente americano que pensa que nos "põe de cuecas" à frente dos russos. E estou cheia de medo do que nos possa acontecer. Graças a Deus que é relativo, este medo. É um descaradão que escorraça emigrantes e é casado com uma; que asssina contra o aborto e sabe Deus. Não que eu seja a favor desse crime (sim, crime, tenho amigos que por uma inversão de marcha percorreram aqueles 9 meses). E diz que a America está primeiro! Isso nem dos meus filhos posso dizer. Claro que digo que os meus filhos e o pai deles são a base da família. Mas todos somos pessoas no seu lugar. Não quero vou pisar nenhuma pessoa. Nem prejudicar os outros às custas da minha beautiful family.

Os intelectuais andam preocupados com o "Silêncio" de Deus. Até que Scorcese tem pinta e é boa bandeira. Neste caso também um "taxi driver", para levar Alexandra Solnado para o Japão. Não, não vou dizer "nada tenho contra a senhora". Acontece que as pessoas (ninguém) andam sem  companhia, sem "guidance" , como diz uma amiga minha que faz anos hoje. Ainda precisamos de mais sinais?

Vale tudo! O mesmo é dizer que nada vale...

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