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Como consigo o equilíbrio...

por Fátima Pinheiro, em 17.06.17

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 imagem tirada da net

 

A ideia deste post vem porque Nick Wallenda, de 33 anos, membro de uma célebre família de artistas de circo, conseguiu – sob um fio de aço, a uma altura de quase 50 metros e por uma distância de quase 550, e em pouco mais de meia hora – atravessar as Niagara Falls. Usou uma corda de segurança. Até porque o seu avó morreu numa aventura do mesmo tipo. Muitas conversas sobre a dificuldade em equilibrar a vida.

Como consigo o equilíbrio? Esta história verídica que vou contar ilumina. Uma amiga contou-me a história de uma amiga que lhe contou que chegava ao fim do dia exausta. O trabalho. Os filhos. O marido. Os amigos. Os outros. O supermercado. O “descanso”. As refeições. Tudo. E que na véspera, à noite, chorara e chorara. Não sabia conseguir o equilibrio nisso tudo. Despedaçada. Como o Raskalnikov. A minha amiga perguntou-lhe então: “quando choraste ontem à noite, qual dessas partes tuas chorou?”. E ela desatou a chorar outra vez. Era ela toda que chorara. Ela. Compreendeu, e chorou de alegria. O equilibrio é realmente impossível porque eu não sou feita de partes, às fatias. Fatia executiva, fatia recreativa, fatia mulher, fatia mãe, fatia voluntariado, fatia famíla alargada, fatia cultura, fatia religiosa, fatia administradora do condomío, uf! Viver por segmentos só é possível se eu me contentar em “ser” assim fatiada, na eterna questão de conseguir o tal equilíbrio na minha vida. E então como é? Se sou eu inteira que choro, é porque é sendo inteira em tudo, que está o segredo. Um orçamento equilibrado, tudo bem, e é bom que se faça. A disciplina do Nick, ok. Mas a vida não se sujeita a orçamentos. Quem domina o princípio e o fim? Viver é assim deixar de fazer contas, soltos no fio, ou seiva, que em cada instante nos é dado. O único trabalho é o de ser livre. Agora. Arriscar. E arriscar porque há razões para isso. O que ME INTER-ESSA. De certo modo não “dá trabalho” porque a vida acontece. A criança não entra no quarto escuro sozinha. Mas de mão dada em quem confia, arrisca. Há razões para entrar. O Nick não deixou de fazer o que fez, sem esse fio que o segurava. E arriscou. Arriscou-se. Eu quero. É simples. Só não é simples porque nós complicamos. Olhar para os olhos esbugalhados de quem vive assim, ajuda. Ilumina.

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uma coisa maior

por Fátima Pinheiro, em 28.05.17

 

 

As trevas parecem dominar. Mas no olhar no romper da aurora, pode dar-se sobressalto do coração. A luz impõe-se e é ela a brilhar, assim o sobressalto não se “ocupe” e atire para canto. Oiço: apesar “disto” – contrariedade -, eu consigo ultrapassar. Um estoicismo que esmorece e morre no primeiro, ou segundo lance. Falo por mim.

Uma pessoa pode não perceber nada da música que ouve cantar mas se está mesmo a ouvir música, percebe que aquele que canta sabe porque canta. Nesta ária de Händel é evidente que o que canta manifesta uma “coisa” maior que ele. E que voz!!!

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Eu a encher chouriços...

por Fátima Pinheiro, em 20.05.17

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encontrei esta fotografia no blog de Luís Desenha 

 

Hoje até parece conversa de chacha. Mas este blog, apesar de muitas vezes parecer ser outra coisa, será tudo e mais isso. Isto porque para mim as coisas mais banais e superficiais, fazem-me bem. Porquê? Porque não recuso o prato do dia. Tenho o bom hábito de nada deitar fora e sei que em todas elas há um fundo. É como o não haver almoços grátis. E é porque hoje é sábado. Mas atenção: na 2ª feira eu digo "porque hoje é segunda". Há quem seja esquisito com o nome dos dias. Eu não. Sou é esquisita  na forma de viver. Prefiro o bom e o perto. O gosto e a beleza. Gosto de ver tudo até ao fim. E sei que, no fundo, nada tem fim; e por isso com toda a certeza do meu duvidar afirmo que a vida tem uma plenitude inesgotável. Muitas vezes escondida, eu sei. Que confusão! Não.

Hoje abordo o "falar" de duas palavrinhas das quais não se pode fugir: "problema" e "mistério". Não nos livramos delas, seja às terças, seja às sextas. E da forma como "elas" significam, posso ter uma vida de chacha, ou não. Não que tenha inventado a roda. A distinção entre "problema" e "mistério" foi feita pelo filósofo Gabriel Marcel, que se deteve também na famosa distinção entre "ter" e "ser". Isto para dizer que de chacha não são as conversas. Outra coisa sim...

Falar é um must. Mesmo se estou sozinha. Falo com os meus botões, ou, desde o final do século XIX, falo com o meu fecho éclair (não é Gedeão?). Aristóteles, o filósofo do bom senso e do rigor, por ser peripatético e ter vivido uma vida genial, acabou por dar as cartas quase todas, e até o pontapé de saída às bolas com as quais a humanidade passou a jogar. Conhecido pelos seus "o homem é um animal racional", "o homem é um animal político", é menos conhecido por ter reconhecido que o homem é, antes de mais, o que articula, aquele que fala. E escreveu sobre isso que se fartou. Não é por acaso que os filósofos que valem mais, tenham na "linguagem" e seu uso o tema central dos seus pensamentos. E que a Retórica seja afinal tudo menos retórica. Hoje tem é outros nomes, mas é ela que continua a fazer rodar. Dou o exemplo de Wittgenstein par dar um exemplo de "hoje". E para não ser acusada de estar sempre a por Husserl num pedestal. Falamos de tudo e de nada. Das coisas, do seu sentido ou não. Do amor ou da plenitude da nossa auto-consciência. Da política, ou das convivências sociais. Problemas e mistério.

O "problema" está diante de mim, para que eu o resolva. O "mistério" não é um problema porque não está diante de mim, mas antes eu é que estou "dentro dele".  Temas  existenciais interessantes se eu lhes der valor, estimar. Mas há quem só goste de sol, e abomine a chuva. Há quem só ande em terreno liso, e evite as rugas da terra. Há quem só goste de receber, e não de dar.

Há mesmo quem não se interesse por nada a não ser pelo umbigo. O que em si não faria mistério, se não estivessemos a falar do umbigo do próprio. Mas umbigos há muitos. Eu gosto. O meu "está lá", já sei. Não gosto é de perder tempo. Até posso dizer que um homem se mede pelos umbigos que procura e como os procura. No final de contas há sim é pessoas, que por uma razão, são mesmo de "chacha": não tem interesse para nada e não se interessam por nada. Por isso gosto de todas, todas valem o mesmo. Como eu, que assim sou também intermitentemente. Às vezes dou por mim a encher chouriços...

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Ninguém manda no meu coração!

por Fátima Pinheiro, em 14.05.17

Há quem pareça ter nascido sem coração. Os ditadores, os que nascem com doenças que afectam capacidades de consciência, o que os torna opacos a nós (não falam, não se mexem, olham para sei lá o quê). No caso dos ditadores, são livres, percebo. No segundo caso, e outros semelhantes, estamos diante de realidades insondáveis que escapam à nossa pequena/grande inteligência, ao nosso poder de entender. Ficamos com pena e pensamos : "devia morrer ou nem ter nascido". Mas também vejo pessoas sem esse tipo de deformação, que só sabem fazer mal aos outros! Também não deviam ter nascido?

Já vi de tudo. Muitos homens e mulheres com coração. Com base nessa experiência é possivel viver. O que tem muito que se lhe diga. Tenho presente neste post as coisas que andaram na boca do mundo neste fim de semana.

Não basta viver, é preciso  viver bem, diz um provérbio russo. Tudo é relativo, dizem-me ao ouvido. Mas a verdade é que ninguém manda no meu coração. Como não mandaram nos corações da Jacinta e  do Francisco. Nem Deus, nem Nossa Senhora, nem as autoridades, Igreja e Governantes. Foram eles que quiseram dar o coração.

Uma vida sem coração é uma  vida insuportável. Quem o põe numa gaveta procura substitutos.  Não é a mesma coisa. Cantava ontem o Salvador Sobral :  " Se o teu coração  não quiser sofrer".  Não que eu seja masoquista, ninguém gosta de sofrer. Mas o sofrimento é um facto polivalente.

Resumindo e concluindo. Sei por experiência  que há sofrimentos aos quais podemos dar resposta e acabar com eles. Sem "mas", "ses", nem "senãos". Desatados uns nós, desatam-se outos. É como um novelo. Há casos mais complexos. Mas quem pressente este gosto de vida nova, é porque a realidade está cheia de promessas. Arregaça as mangas recusando ser uma avestruz anódina, incompetente e descartável. Recusando uma vida que compra a vida de inocentes para prolongar, inutilmente a sua. Não se pode adiar viveres e morreres. Só temos o dia de hoje...

 

Os corações não se compram, não se forçam nem gostam das gavetas. São como pássaros de altos voos, que sabem que sem amor nada vale. Não são  as tempestades que impedem de voar. Antes pelo contrário, com elas se ganham asas para voar mais baixo, mais rente. E sobra sempre.

 

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ECCE MEN ou PAUSA

por Fátima Pinheiro, em 13.04.17

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 Zurbaran, Nossa Senhora em pequenina

imagem tirada da net

 

Sim, é sobre a Semana Santa. No princípio era Descartes. "Culturalmente" falando, claro. Já tinha havido muitos filósofos antes. E há-os por todo o lado. O eu foi dividido, a parte mensurável uma, a parte não mensurável, outra.  O ideal da ciência: tudo medir. Mas há coisas que não se medem. Uma coisa é o  olho, outra o olhar. A fenomenologia tem razão. Husserl e M.-Ponty, neste ponto, em particular. A mão e o gesto, etc.

O golpe cartesiano deu lugar a tanta sabedoria, como se o eu se desdobrasse nas suas infinitas possibilidades como projecto, podendo assim reflectir-se e ficar a conhecer-se melhor. É a vantagem da História. De nascer hoje. Aliás não pode ser de outra forma.

E o eu desagregou-se a um ponto que já não se considera insensato afirmar que cada um é o pós-pós-pós-moderno que quiser ser. Sem esquecer a utopia de um futuro feliz e socialista ao qual pouco importa que cada um possa assistir, porque o material é decomponível. E a luta era para o outro, e para o outro a seguir, sempre para melhor, mas sem mim.

E sem esquecer a, tão de hoje, modalidade de um eu que se quer ele próprio confundir com o infinito; passando assim a haver só infinito, sem que o eu se diferencie. Um desejo de dissolução, porque a dor é insuportável, melhor então é vivê-la estando acima dela. Multiplicam-se filosofias, religiões, movimentos, sincretismos, “à la cartes”, etc., que encorajam e ensinam uma ascese que se pretende boa. Uma elevação ou despojamento que devolve o eu ao Absoluto, a gota ao mar, uma espécie de panteísmo. Uma felicidade sem eu, sem mim.

A mim parece-me mais humano um eu que não se apague e que veja cumprida a sua fome e sede de infinito, como lembrou a nossa Florbela Espanca. Um eu que quanto mais grita pelo que quer, mas se afirma a si mesmo, sendo ele e não outro. Porque é nessa diferença que pode entender e partilhar o seu e o grito do outro. Na mesma dor. Na mesma alegria. A desejar beberem e comerem do mesmo Pão e do mesmo Vinho.

De que me serve um futuro ou uma dissolução, se aquilo que eu sou é mesmo fome  e sede de infinito, mas AGORA e sem PAUSAS? Insaciáveis. Sobretudo diante da dor, dos outros, que é minha também. Gosto de vestir a camisola. Eu, não outro. Também a dou se for preciso. É isso que quer dizer que nos comemos e bebemos uns aos outros. Simpatia. Compaixão. Amizade. Amor.

E o melhor mesmo, é uma boa refeição em que cada um saboreia com gosto o que está à mesa no meio de todos. E brinda. Em companhia. Não quero que comam por mim. Não o impessoal. Posso até morrer de fome. Mas isso é uma decisão minha.

Onde está o LOCUS ISTE? O meu lugar? Na verdade eu não tenho lugar, eu sou um lugar, sou eu.

Onde “está” o LOCUS ISTE? Acontece-me. A mim.  Tudo o mais seria alienação estética, religiosa, e outras. A minha tensão está em sentir, levantar-me, com os meus pés. Toda. Onde quer que seja. A ser eu, aos bocadinhos, sem maniqueísmos. Para que serve a minha vida se não é para ser dada, dizia Claudel. As coisas anunciam-se e eu quero dizer sim. Não mudo o mundo, sei que há quem lute por um feijão. Posso dar sopa a toda a gente? Se calhar podiamos. Mas quem nos dá a nós?

O mais importante no Cristianismo não são os valores, não é a moral. O diamante do cristianismo está muitas vezes envolto na lama das nossas mãos sujas. Mas está.

As partes da feijoada de que eu gosto mais são a farofa e a couve. Passo sem elas se for bom. E não quero nada rever-me naquilo que o Cardeal Cerejeira dizia dos católicos (ou de Lisboa, ou Portugal, não me recordo agora): comem, bem e não fazem mal a ninguém.

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Mais uma Semana Santa

por Fátima Pinheiro, em 09.04.17

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Bent Hamer, 1001 Gram (2014)

 

Mais uma Semana  Santa, soma e segue. Até morrer. "Vai um de cada vez", disseram-me outro dia numa missa de corpo presente. Eterno retorno ou ressureição?

Um livro que conta a vida de um sacerdote da Diocese de Milão, Luigi Giussani. Usarei em tradução livre a edição italiana - Alberto SAVORANA, Vita di don Giussani, Rizzoli – Milano, 2013 - em breve em português. Aliás, o primeiro de quarenta capítulos foi lançado no Meeting de Lisboa, na presença do autor. Tudo isto para quê?

Simples. Um dia, anos cinquenta, o já padre Giussani ia no comboio. Ouviu uma conversa entre teenagers sobre Religião e Igreja. Constatou algo muito significativo: as posições que cada um defendia eram baseadas em ignorância, e desenvolvidas a partir de falsos preconceitos. Pensou (digo por minhas palavras): é preciso dar a conhecer, falar verdade.

Para que a vida seja boa, mas já, e não para depois; nesta Semana Santa, que é diferente de todas as outras. Cristo prometeu que quem O seguisse teria a vida eterna e o cêntuplo JÁ. E o que os miúdos dizem no comboio da vida interessa-me. Quero ir para o meio deles. E veio também para o meio de mim, Graças a Deus, já há mais de 20 anos...

A questão decisiva para Giussani, à qual dedicou toda a sua acção educativa, através do Comunhão e Libertação, a sua vida, é então esta: Cristo: sim ou não? Hoje continua verdade. Quem sabe mesmo o que é o cristianismo?

A educação é a rocha de sociedade, das pessoas. A minha pedra angular. Sem ela não vamos muito longe. Hoje mesmo. A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira. Mas isto é tarefa de cada um. Já foi tempo em que a Igreja era uma “coisa” de alguns. Cristo é para mim “sim” ou “não”? Para responder é necessário saber de quem estamos a falar. Destaco então o capítulo 19 do livro que referi. A mim esclareceu-me, e vejo-me num caminho em que a companhia deste movimento me alegra e me dá um gosto de vida nova. Como deu a S.Paulo, a Santa Teresinha do Menino Jesus e a tantos. Porquê?

Porque a resposta à pergunta é a razoabilidade que enche e transborda do nosso ”coração”, das exigências e evidências que correm e fazem correr a natureza humana.

Agora do livro. Quem não tem sede de verdade, justiça, bem e beleza? O que é a religiosidade? «A essência da razão».

E qual é a pergunta que se faz mais vezes? «Faço-me tantas». Pode citar uma, pelo menos? «Se Deus deu aos católicos a inteligência, é para a usarem ou fazerem um holocausto dela?» Quando “os tempos são maus”…quer dizer que veio o momento da conversão do coração e da maturidade na fé. [...] A vida vale a pena ser vivida para edificar a glória de Deus, isto é, para construir a humanidade nova na Igreja. Pois bem, em toda a história do cristianismo a condição para construir é o sacrifício, isto é, a cruz …A maturidade da nossa fé - eis a ressurreição. Introdução à realidade, é o que é a educação. A palavra “realidade” está para a palavra “educação” tal como a meta está para um caminho. A meta é todo o significado do andar humano: esta não está presente unicamente no momento em que a empresa se realiza e termina, mas também em cada passo da estrada. Assim é a realidade, que determina integralmente o movimento educativo, passo a passo, e é a sua realização. Infelizmente, a mentalidade laica – Giussani nota que isto é evidente na escola – «não está interessada em dar um contributo para a tomada de consciência efectiva de uma hipótese que explique as coisas unitariamente. O analismo que predomina nos programas abandona o aluno frente a uma heterogeneidade de coisas e a uma série de soluções contrárias entre si que o deixam, consoante a sua sensibilidade, desconcertado e desalentado no meio da incerteza». Em consequência, o jovem «sente, normalmente, a falta de alguém que o guie e que o ajude a descobrir aquele sentido de unidade das coisas, sem o qual ele vive uma dissociação» . É precisamente esta constatação que leva Giussani a aprofundar o conceito de autoridade: «A experiência da autoridade surge em nós como um encontro com uma pessoa rica na consciência da realidade; de modo que esta se nos imponha com a revelação e nos traga novidade, espanto e respeito. Da sua parte há uma atracção inevitável, da nossa parte uma inevitável dependência, sujeição». Para Giussani, a autoridade, de uma certa maneira, é o meu “eu” mais verdadeiro. Mas muitas vezes, hoje a autoridade propõe-se e é vista como algo que nos é estranho, que “se acrescenta” ao indivíduo. A autoridade permanece fora da consciência, ainda que talvez seja um limite devotamente aceite» Dentro do percurso educativo, a figura da autoridade é central até accionar a verificação da proposta vinda da tradição «e isto só pode ser feito por iniciativa do jovem e por mais ninguém.

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Uma Palavra que me sabe dizer.

por Fátima Pinheiro, em 09.02.17

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 fotografia Rasante

 

Santiago levava-me muitas vezes à praia. É uma criança muito curiosa. Quer resposta a tudo. E quando digo alguma palavra que ele não percebe, pergunta sempre: "O que é que isso significa?" Não é ficção o que digo. Ambos existimos mesmo, como se vê numa das fotografias que dele guardo, e que pus em cima. Pois este furacão clarifica-me na pergunta: "mas a vida tem lei?" Puro e duro. "Tem sim." "Já te digo". "Qual é?", insiste a beleza inquieta de dois olhos que fixam o movimento das águas. Vamos a isso. Uma espécie de amar e mar. Um Django libertado à minha maneira.

As palavras, os termos, os conceitos são apenas sons articulados, vazios, se os forjamos e utilizamos sem nos apercebermos que cada um tem dentro de si como que uma seta que aponta, mais ou menos vagamente, para um sentido. O que digo percebe-se melhor em frente ao mar, ao fogo, ou no alto de uma montanha. Mas nem sempre assim elas, as palavras, são entendidas. Há quem as mate antes de nós as ressuscitarmos com o nosso dizer; há quem lhes encolha o sentido; há quem que lhes corte a raíz antes de nascerem. Enfim, há de tudo. E há Austin, que no seu "How do to things with words?", nos cava a reflexão, o que nos levaria a um post sobre "actos ilocucionários". Mas o tempo não chega para tudo, e isso dar-me-ia muito trabalho.  Deixo apenas uma nota sobre como compreendo a vida. Sem grandes filosofias. Coisinha pouca...

As palavras podem dizer tudo, ou nada. Quem as leva a sério empenha-se em abri-las como se fossem um presente. Contudo, nem sempre assim é. E muitas vezes apenas porque não quero ou não sei desembrulhar. O trabalho do pensamento sobre si mesmo exige tempo e disposição...

E as respostas que o Santigo quer estão, de certo modo, nele. Só que ele ainda não sabe. Ele sabe, sim, se o que lhe respondo lhe chega; se lhe enche as medidas. Um dia de verão ele olhou demoradamente o mar, como se quisesse galgá-lo para além da linha do horizonte. Lembrou-me aquele célebre menino que um dia resolveu encher o seu balde com ele. Não conseguia, claro. Pazadas e pazadas, e não conseguia.

A lei da vida? Nascemos, estamos aqui. Um dia morremos, não sabemos nem quando, nem onde. Há os que neste intermezzo resolvem sair "antes", cortando o que não aguentam. Somos aquele "nível" da natureza que tem consciência disto tudo, e da própria natureza claro. Observamos (às vezes não...), perguntamos, desistimos ou continuamos. E agora o ponto: tudo flui com as suas regularidades. "Os rios correm para o mar"; nunca ouvi um rio dizer, "hoje não". Ou uma árvore: "hoje não dou sombra". É a lei da natureza. Eu sim posso mudar o curso do rio, ou cortar a árvore. E eu? Como encaro o meu "correr"? Como me entendo com o sol e a sombra?

Se quero mesmo saber, e não apenas ser um diletante, tenho que me observar em ação. Páro então. O que vejo no filme da minha vida? Muitas vezes sou apenas o resultado do que me determina, do que vem de trás, e "faço" mecanicamente a um ritmo para o qual não fui tida nem achada; outras "faço" as coisas tendo presente a big picture. É então (como já aqui disse a propósio de T. S. Eliot) que o tempo - este momento - se racha e experimento a "dependência" de um X que eu não sei, não cabe no balde, mas sem o qual, o tempo seria uma voraz onda de morte; um entretem de nadas para o nada. Experimento então que o todo é expressão de uma Palavra diferente de todas as outras.

Nada disto digo ao Santiago. A ele respondo à pergunta que já lá está longe em cima: "É Deus". "Quem é?"; uf, não para. Eu: "Deus é quem estás a fazer o mar." Ponho-me ao nível dele, de cócoras, ignoro a sinalização que se encontra à sua direita, e esforço-me para que ele me oiça. Esforço-me sim; porque não lhe interessa muito o que digo, mas sim o que ele vê diante de si. E está certo, sou só amiga dele, mas impotente - como qualquer um de nós - para responder a tão grande pergunta. A resposta. "Olha bem Santigo, tás a ver as ondas...", ele já não me está a ouvir. E começa a correr... Que bom!. A resposta vejo-a agora eu, no silêncio e espanto dos olhos dele. A lei da vida tem para mim desde então mais um nome: Santiago. Uma Palavra que me sabe dizer. Todinha. Sem tirar nem por.

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Hoje é avulso e para para partir a louça. As pessoas (expediente para dizer "ninguém") andam sempre muito ocupadas. Quanto mais não seja em nada fazer, a vida é mesmo, muitas vezes, insuportável. Já para não falar de quem morre de fome, frio, solidão, falta de dinheiro, doença, tortura, perseguição, eu sei lá. Por outro lado, a parte "ativa", pensante, ou política, é outra loiça. 

A rádio é uma coisa boa. Digam-me então por que é que tenho que levar logo pela manhã, e logo nas notícias de abertura, que o meu primeiro ministro tweetou, a dar os parabéns ao presidente da minha república por hoje fazer um ano de ter sido eleito? tweetou? Então e os abraços de cavalheiros? Se calhar já não há cavalheiros. Ou eu sou muito atrasada mental. Na política, e no mais, meio mundo anda a enganar meio mundo. Para quê? Abraços nos sem abrigo, a TV e as redes sociais vêem , e? Gosto bem do meu presidente, mas e agora? Não te peço que vás todas as noites abraçar aquelas pessoas sem abrigo! Assim não resulta.

Ontem estive a jantar na minha casa com uma amiga minha que enviuvou recentemente. Como me disse uma pessoa muito especial, esse sim um inteletual - por ter os pés bem assentes na terra - : "vamos uns atrás dos outros." Tanta canseira. E a vida podia ser tão justa e divertida...

Depois um novo presidente americano que pensa que nos "põe de cuecas" à frente dos russos. E estou cheia de medo do que nos possa acontecer. Graças a Deus que é relativo, este medo. É um descaradão que escorraça emigrantes e é casado com uma; que asssina contra o aborto e sabe Deus. Não que eu seja a favor desse crime (sim, crime, tenho amigos que por uma inversão de marcha percorreram aqueles 9 meses). E diz que a America está primeiro! Isso nem dos meus filhos posso dizer. Claro que digo que os meus filhos e o pai deles são a base da família. Mas todos somos pessoas no seu lugar. Não quero vou pisar nenhuma pessoa. Nem prejudicar os outros às custas da minha beautiful family.

Os intelectuais andam preocupados com o "Silêncio" de Deus. Até que Scorcese tem pinta e é boa bandeira. Neste caso também um "taxi driver", para levar Alexandra Solnado para o Japão. Não, não vou dizer "nada tenho contra a senhora". Acontece que as pessoas (ninguém) andam sem  companhia, sem "guidance" , como diz uma amiga minha que faz anos hoje. Ainda precisamos de mais sinais?

Vale tudo! O mesmo é dizer que nada vale...

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Haverá vida inteligente na terra?

por Fátima Pinheiro, em 18.01.17

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imagem tirada da net

 

 “Aquilo que eu queria ser e não tenho coragem de ser, encontro nas suites de Bach”; "certamente se um dia voltar para Deus, a nenhuma outra coisa o deverei senão a estas estradas de uma melancolia lancinante que, desde o canto gregoriano até Messiaen, devoram em mim o sentimento da realidade do mundo visível".” (Eduardo Lourenço, “Tempo da música. Música do tempo", Gradiva, 2012). Um milagre. Qual? Leiam, se quiserem.

Reconhece o pântano em que estamos mergulhados, o Apocalipse que se vive, e faz numa a  pergunta e a resposta: estaremos no Mesmo Barco? É normal que as pessoas não estejam no mesmo barco...

Afinal Eduardo tem muito de Jack. Estamos "On the Road", mas qual!?? "On the road" (1957), provoca também uma consciência crítica: em vez de viver por procuração, há sinais de um despertar "Na Estrada". Muitos não sabem para onde ir mas tentam inventar um outro futuro. Olhando o que não é. E não há.

O melhor de tudo é a simplicidade desarmante. A que olha na carne, nos olhos que olham sempre de frente num rir que se mistura com as expressões que lhe espelham a alma. Lourenço dá-nos silêncios que aquela cara diz tudo. E um espantar-se permanentemente. Quando ele diz publicamente que vai a todas, é com esse mood que o faz. Bem sei que não diz tudo, tudo, o que vai nele. Mas penso que, entre as razões que ele terá, é por entender que a estrada ainda está no começo. Quando a Gulbenkian lançou o 1º volume das suas Obras Completas, com graça disse que parecia que agora estava “paralisado”. Por isso o título que escolheu para o Discurso de aceitação do Prémio Pessoa 2011 foi: "Pessoa ou a porta aberta".

Tenho vindo a perceber que os seus textos nem sempre é preto no branco como se quer, porque a sua forma de escrever é essencialmente poética. E a poesia tem razões que os outros discursos desconhecem. Mas tenho também verificado uma convergência discursiva espantosa e ainda muito por desbravar. Não há ideia que resuma Lourenço, mas ele, ao referir frequentemente a inquietude que S. Agostinho invoca, e o absoluto desassossego que nos faz avançar, percebemos que é, citando Pessoa, "tudo de todas as maneiras". "Sorri minha alma, será dia".  Quando? Hoje. E acabando de ler as suas "Crónicas quase marcianas", é caso para perguntar: será que  já nâo há vida inteligente na terra?

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Jorge Silva Melo: "é muito bom estar vivo!"

por Fátima Pinheiro, em 26.05.16

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Jorge Silva Melo, imagem tirada da net 

 

No dia da estreia de O Jardim Zoológico de Vidro, de Tennessee Williams, não resisti a umas perguntas ao encenador, o homem do teatro da politécnica. A pinta dele. A "uma mulher sem importância", não houve palavra que não "me" ouvisse, resposta a tudo. Um homem livre. Isto a minutos da estreia. Nas calmas, porque nele vida e teatro coincidem. Hoje, dia do Corpo de Deus, feliz coincidência, é bom postar aqui uma conversa com uma pessoa que encarna,cada noite, a esperança. Foi Péguy que pôs o dedo na ferida ao gritar que ela é a virtude pequenina que ampara as outras duas, a fé e a caridade. É ela que cada dia acorda com olhar renovado e diz bom dia - neste caso "boa noite" cada noite - aos pobres e órfãos. Assim como eu quero ser. No pórtico.

 

Rasante (R): Jorge Silva Melo. Vamos ter uma estreia fabulosa com certeza, Tennessee Williams, por si...

 

Jorge Silva Melo (J) : O Jardim Zoológico de Vidro, é a primeira peça no fundo escrita  pelo Tennessee Williams, ele já tinha escrito outras, mas esta é a primeira que teve um êxito gigantesco em 46, e que é uma peça de adeus. É uma mãe, dois filhos, um rapaz e uma rapariga e o rapaz já mais velho, vai-se lembrando de como foi a vida naquela casa, como a mãe era possessiva, autoritária, charmosa, falhada (completamente) mas, possessiva, e como ele separou...


R: Como um bocadinho todas as mães, não é?

J: Como as mães devem ser! Está na sua obrigação! risos


R: Assim muito possessivas também não...

J: Eu acho que faz bem... risos


R: Porquê, já agora?

J:  Então, é o que está nesta mãe! Ela sonha para os filhos aquilo que não teve... A filha é deficiente como a verdadeira irmã do Tennessee Williams, era deficiente, sofreu uma lobotomia e ficou como um vegetal até ao fim da vida, e viveu mais tempo do que o Tennessee Williams....

 

R: E o resto, vimos ver a peça, também não pode estar a contar tudo!

J: Mas é a maneira dele dizer adeus, e porque é que ele saiu de casa e porque é que ele sentiu sempre um remorso.

 

R: E porque é que se interessou por esta peça?

J: Esta adequa-se muito bem a este teatrinho íntimo...

R: Que já é a terceira peça este ano, não é? Pelo que eu li, eu estive aqui na anterior...

 

J: Pois exatamente, tivemos duas peças do Tennessee Williams, no São Luís e no São João. E esta adequa-se a este teatro pequenino, íntimo, porque é como se fosse um segredo. É um remorso ou uma confissão. E essa dimensão íntima adequa-se a este teatrinho.

 

R: A este teatrinho...

J: Onde os atores até podem falar mais baixinho do que eu estou a falar agora.

R: E diga-me uma coisa, gosta muito de Tennessee Williams, porque é que o escolhe? Poderia escolher outros!

 

J: É um autor muito marcante e que inventou muito do teatro moderno contemporâneo, aqui nesta peça ele marcou para sempre o teatro americano, ele consegue roubar ao cinema os flash backs, o narrador, os intertítulos, os saltos na narrativa e esta humanidade fermente e não normativa, que ele enquadra. São pessoas que não são heróis. Embora tenham uma vontade enorme de vencer na vida, mas não são heróis nem são exemplos. Isso foi tal surpresa, a peça fez 3 anos seguidos em cena, todas as noites quando estreou! 


R: E agora aqui também não se sabe... *Risos

J: Não fica 3 anos em cena! Risos

R: Nunca se sabe...
Sempre abertos ao mistério, não é...


J: Exatamente Risos

R: Teve alguma surpresa, nestes ensaios, estão a ensair há quanto tempo, só para ter uma ideia?

J: Há 2 meses, normalmente uma peça tem 2 meses de ensaios. Tive uma surpresa porque há uma personagem, que é chamada a personagem “mais realista”, que é o contraponto desta família, e que é o Jim. E o Jim normalmente é visto como o homem que cumpre o sonho americano. Vai ser racional, vai vencer na vida, e não é nada. Ele QUER, ele QUER ter o sonho americano, mas ainda é tão falhado como todos os outros. Está convencido que a ciência, se vai desenvolver, está convencido que se vai curar, e que vai vencer na vida mas é com a mesma fragilidade do que todos os outros. E isso é muito bonito. Isso eu nunca tinha visto em nenhuma das versões da peça que eu já vi, não tinha visto uma tal fragilidade nesta personagem do Jim. Foi um prazer trabalhar com o José Mata, que é quem faz esse papel e foi uma das grandes descobertas da peça, que eu conhecia de cor e salteado, e nunca tinha reparado que o rapaz era muito mais frágil do que aquilo que nos parecia ser.

R: E sente-se, assim, frágil?

J: Sim, claro... Claro! *Risos


R: Qual é a nossa maior fragilidade?


J:
A fragilidade do teu nome é “mulher”, diz o Shakespeare. Risos

R: Então, diga lá um bocadinho, você é um homem de (se) fiar...

 

J: A fragilidade é aquilo que não conseguimos vencer, aquilo que não conseguimos fazer, aquilo que achávamos que estava “à nossa mão”.

 

R: A vida é simples ou difícil?

J: A vida é ir deixando para trás uma série de propostas e apostas.

R: Mas é simples ou é difícil? É porque eu acho que é simples...

J: É simples, é simples.

R: Eu também acho.

J: Mas é deixar para trás muita coisa.

R: Mas é simples porquê, já agora?  Eu depois também lhe posso dar a minha opinião Risos


J: É simples porque é só viver. É acordar e viver.

 R: Tal e qual!


J: Mas... Temos que deixar muita coisa para trás e isso é quase sempre doloroso.

R: Mas nem para toda gente é simples.

 

J: Não, há muitas pessoas que gostam muito de fazer uma grande complicação.

R: E sabe porquê?

 

J: Não.

R: Eu estou a perguntar...

J: Não... As pessoas gostam de complicar muito.

R: Porque também não é “só deixar ir”... Há uma coisa que temos de fazer. Há uma que eu faço!

J: Não, tem muito de ser feito, MUITO de ser feito.

R: O que é que faz?

J: Trabalho! *Risos

R: Mas mais do que isso, está bem, a vida é um trabalho... Eu acho que é a liberdade, a pessoa é livre de desistir, de decidir...

J: Mas é livre também de querer transformar, querer fazer as coisas, querer realizar.

R: Para quê?

J: Para isso, para estar viva. A vida é viver.

R: Temos um minutinho... Também é adverso, à palavra “beleza”?

J: Não, gosto da beleza e fico entusiasmado com essa hipótese.

R: É porque há artistas, que quando falo na beleza, quase que me “matam”.

J: Agora está muito na moda.

R: E então dizem “interessante”, arranjam assim uns sinónimos... *Risos

J: Não, eu gosto da beleza. Uma vez escrevi um texto que me foi pedido pelo José Tolentino a dizer que a beleza dá-me pontapés, excita-me, faz-me renascer para a vida, ponta-peia-me!

R: Ela define-se mais pela negativa do que pela positiva... ou não? Fá-lo estar vivo? A mim faz!

J: Sim... Faz-me estar vivo e faz me querer fazer coisas... Belas.


R: Esta peça é uma peça bela.

J: É, é uma peça que... Ainda ontem, no ensaio geral, haviam espectadores que estavam a chorar... Queriam casar com a rapariga, no fundo! *Risos

R: Risos* Bem... Fica para outro encontro, isto é mesmo só um apontamento... Eu acho que as peças ou a arte não têm mensagem. Concorda comigo? Não lhe vou perguntar mensagem até porque... Nem quero que tenha!

J: Não, estamos aqui a ver e a viver uma fragilidade de quatro personagens que são nossos primos, somos nós próprios, não somos primos... Mas nós conhecemos. E gostamos de os ver.

R: Obrigada, agora começou a chover, temos que acabar!*Risos
E vamos então ver e convidamos... Quer dirigir assim um apelo? Para que as pessoas saiam de casa, tirem os chinelos e venham ver coisas bonitas!


J: É tão importante estarmos juntos a ver, portanto, o teatro tem essa coisa extraordinária. Há pessoas vivas que estão daquele lado e outras que estão vivas, deste lado. Estamos todos vivos a ver uma coisa, sofrendo, e é muito bom estar vivo!

R: Isso é muito bom. E ninguém sabe quem regressa a casa, não é?

J: Exatamente.

R: Obrigada e pelo que tem feito pelo teatro e pelo que vai fazer!

J: Obrigadíssimo!

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