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Trocar as pernas pelas mãos

por Fátima Pinheiro, em 30.05.17

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O corpo tem nas mãos e nas pernas muito que se lhes diga. Pôr as mãos à obra, ter pernas para andar, apenas duas expressões entre as muitas existentes e que as glosam como poderosas. Pois é, há quem as constate como boas pernas, e boas mãos, querendo dizer muita, muita coisa.  Ter mão. Ter perna. "Meter os pés pelas mãos" é outra coisa. O quero dizer hoje é que não há necesssidade de trocar nada. Porém, como tudo na vida, tem a sua complexidade. Venha ela. Mas digo já que com  tudo a correr bem não troco nada. Só para melhor e porque é subjectivo.

Ao sétimo dia Deus viu que era tudo muito bom. Eu demorei um bocadinho mais. Disseram-me, não há muito tempo, que a partir dos cinquenta uma pessoa começa a entender um pouco da vida. E que depois só pára se quiser. E aprendi que ninguém manda na minha liberdade. Por isso é que ela se chama liberdade. A verdade é que confere.

Uma coisa é ficar sem pernas, num acidente ou assim. Conheço pessoalmente algumas pessoas que sofrem porque estão incapacitadas de andar. Não sei o que isso é. Só as vejo, vejo como vivem, e também como reagem de formas diferentes. Quanto a mim, ainda tenho as duas pernas, apesar de já ter tido alguns acidentes. E tenho as duas mãos. Não as troco por nada. Nem umas pelas outras. Todas me fazem falta. Digo isto porque já mas quiseram cortar, e trocar, mas eu não deixo. Sou uma mulher de sucesso!!! Ah, e não atiro os sapatos a ninguém. Só lhes tiro o chapéu.

 

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Eutanásia: desejada ou desejante?

por Fátima Pinheiro, em 01.02.17

 

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Hoje analisa-se no Parlamento a Petição a favor da Eutanásia. O deputado do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, abriu anteontem o Programa prós e contras, precisamente sobre a Eutanásia. É o autor dessa petição, como o nome mais light de "Despenalização da morte medicamente assistida". Desta vez foi muito claro quem é pró e quem é contra (parabéns Fátima Campos Ferreira). A questão, apesar de muito complexa, é simples, como se pode verificar logo nessa intervenção inicial. Tudo o que a seguir se disse seria até escusado. Não querendo brincar com uma coisa muito séria, até parece que há uma espécie de alzeihmer filosófico.

Sabemos que é fácil navegar na maionese holandesa, e nos chamados direitos já aquiridos, e sabemos também que Kant é o guru de muitos; os gurus têm crescido como cogumelos, e tal como eles, é preciso ter cuidado, não vão ser eles venenosos. Os números postos na mesa ontem divergiam. Mas o que escrevo vem antes, ou melhor, está noutro patamar.

Com uma calma que lhe vem de defender o que acha ser óbvio o deputado começa a desenrolar o seu discurso. Muito simples: lembra que cada um dos presentes - a Fátima Campos Ferreira, por exemplo, é que decide o que faz. Não sei dizer à letra, mas era uma coisa do género: sou eu que decido com quem quero casar, sou eu que decido de que música gosto, sou eu que decido o que visto, sou eu que decido que filme vou ver,...lá,lá,lá,....sou eu que decido que vou morrer. Sou eu que decido tudo. Mesmo que se seja entregar nas mas mãos do médico a encomenda, sou eu que decido. Claro como a água, eu sou uma terra de decisões. Falta perguntar-lhe: senhor deputado, terá sido também o senhor que decidiu vir à vida?

Pode parecer simplista, mas passar por cima deste "pequeno" pormenor, que é "ao dar por mim já cá estou", é desonesto inteletualmente. Ninguém está aqui para ser do contra, para ser contra a pessoa, para prolongar sofrimentos que parecem monstruosos. Trata-se de realismo. Nenhum de nós tens as chaves da vida, a morte é sempre assistida, e medicamente assistida, e não tem dignidade. A vida sim, é digna, por isso tem mais razão quem quer "proporcionar" vida, mais e melhor se possível. Quem propociona os paliativos adequados (aqui bastaria menos estádios de futebol e mais cuidados de uma humana assistência médica; e eu que sou uma benfiquista ferranha, mas sei que a vida vale mais que o futebol - até parece ridículo ter que dizer isto; mas o futebol é só um exemplo...). Tem mais razão quem tem para oferecer ao outro mais do que abrir-lhe uma porta antes de tempo.

Há muitas janelas que se podem abrir para que o outro não se sinta um peso. É muito fácil sentir-se pesado, saber que dá trabalho, e dá. E se nós quisermos ter trabalho? Quem me impede de amar o outro custe o que custar? Falinhas mansas, não obrigada. 

Mais de 14 mil pessoas assinaram no entanto outra  petição , intitulada "Toda a vida tem dignidade", contra a eutanásia, que foi entregue a passada quarta-feira no Parlamento. 

 

 

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Uma mulher sem importância e um Presidente afectuoso

Fotografia de Rui Ochoa

 

 

Pois é. Agora - de barriga de aluguer na agenda - a porca torçe o rabo. Concerteza que sim, o Presidente da República é-o de todos os portugueses, concilia, previne e tudo o mais, o que é bom, o bem comum. Sabemos. Agora preciso de saber, de ouvir da sua boca se acha que é para o bem de uma mulher alugar-se, ser realmente, ontologicamente, MÃE, e depois deixar de o ser? E um filho ser arrancado ao lugar onde foi gerado? Ou Aristóteles já não vale? Se não, é como dizer (e pior ainda) que o Direito de hoje nada tem a ver com o direito Romano. Um Presidente de afectos não se despiu da pele de homem. Ou despiu?

 

Com todo o respeito que lhe devo e merece, pode até chutar a bola. Mas não sem antes DIZER o que pensa deste assunto. Senão é um igualzinho ou pior que os outros.  Ou afinal é só conversa esta cena dos afectos? Ou afinal è à vontade do freguês? Ou andarei distraída? Eu sou a favor do que nos liberta da ditadura dos pseudo-afectos, vestidos e convencidos das mais boas intenções. Há pessoas que não podem ter filhos, e sofrem muito com isso, eu sei. Mas o que sofrem não é resolvido por um expediente  do género dá cá aquela palha. Sem uma razão que valha a pena, em nada contribuimos para construir uma sociedade humana. Então é preciso gritá-lo. Baixinho, mas prenho e cheio de razões adequadas, à altura do Portugal que sempre desejei. À altura de cada pessoa. Não é esta uma boa causa?

 

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Estado deixa milhares sem cartão de cidadão

por Fátima Pinheiro, em 14.05.16

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 Sofia Reimão, José Diogo Martins e João Carlos Loureiro, ontem na inauguração do Congresso

 

Milhares de seres humanos ceifados , zás e já está. Não eram os pobrezinhos. Saiba aqui como , quando, onde e porquê. E se a eutanásia passasse, como agora se pretende, mais ficariam sem cartão antes de tempo. Um pequeno detalhe: o dono do tempo e da vida tem outro nome, não se chama Estado, e tem amigos especiais. Hoje há novidades.

A 'Federação Portuguesa Pela Vida' organiza ontem e hoje o Congresso "Os desafios da vida e dos tempos." O programa . À tarde somos convidados para uma Caminhada pela Vida. Nesta terá início a recolha de assinaturas para uma petição que diga sim à vida e a uma cultura humana, um sim para se por no lixo estas modernices de quem nem sabe do que fala quando diz a palavra "eutanásia". Esta apresenta-se como solução, como a promessa de uma boa morte ( do  grego , eu+tanós ). A morte não pode ser uma coisa boa assim sem mais, por muito que o queiram perspectivas de blocos de esquerda, de meio ou direita. A morte só é 'boa' numa perpectiva que nada descarta. Autoridade, sabedoria e experiência para dizer que morrer é 'bom', que é natural, que faz parte da vida, só a tem quem já por ela passou. Quem tem as chaves da vida?

Do ponto de vista filosófico - esta questão não é do foro religioso - a razão impõe que não se toque no que não se sabe. O antes do embrião, o que é? Quando é que eu começei? Naquele instante em que a minha mãe foi violada? E o que se passa realmente na pessoa que lhe dói e sofre? Quero morrer, diz. Mas será que quer mesmo? Autonomia é uma coisa, dignidade outra.

Deixemos mentiras. E  tretas. Não me venham com a conversa de que não há cuidados paliativos suficientes. Eu sei que é preciso mais e melhor. Vamos por pé em rama verde? E o cartão de cidadão, como é? Vamos sim trabalhar nas obras. Fazer para que se possa  nascer, para que se possa crescer e passar pelos momentos finais, em Companhia, em Solidaridade. Tenham pachorra para me aturar. Por outro lado chamem-me tótó, não faz mal.

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Para "espancar" de vez com a cultura

por Fátima Pinheiro, em 11.04.16

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Florbela Espanca, imagem tirada da net

 

A cultura esteve na baila, na semana que passou. Mas cá para mim está sempre. E cada dia é um princípio, gordo de passado e grávido de futuro. Pois vamos a isto. Florbela Espanca, num dos seus poemas que os Trovante tornaram bem conhecido, reconhece que "ser poeta é ser mais alto". Hoje aposto em ser mais "alto", ter de mil desejos o esplendor, ter cá dentro um astro que flameja, ter garras e asas de condor! ter fome, ter sede de Infinito, condensar o mundo num só grito!

Ok, não é alheio a este post o fato de o novo ministro da cultura ser, entre outras "coisas", poeta. Nem o espancar vem ao acaso. Quero apenas aproveitar estas circunstâncias para desabafar; para fortalecer a ideia de que a cultura não pode ser o parente pobre de um povo (sei que as barrigas não podem estar vazias, mas sei também que a cultura mata fomes podendo assim minorizar outras fomes). Antes pelo contrário, a cultura é o que nos involve e impregna ao tutano, mesmo sem o sabermos ou disso termos consciência.  Não falo da cultura de rotina, do pica o ponto dos concertos, sejam eles na Gulbenkian ou na Casa da Música. Falo de cultura mesmo. Vamos "espancar" a pseudo cultura, esventrar máscaras, e parir os belos? Ou não?

A pancadaria cultural não precisa de recuar a Caim e Abel.O ollho por olho, dente por dente, é ainda tão vivo - e agora banal - que já nem damos por isso. A cultura, no sentido de humanidade, é pisada, adulterada, comercializada, e outras coisas em "ada", desde o momento em que pomos os pés fora da cama. Em ver de acordar somos acordados, passamos o dia sem VER. Passamos o dia a catalogar e a sermos catalogados. "A minha vida fartou-se", diz o poeta. Como te entendo a ti que de carneiro só tinhas o nome...

Então grito. Alto. "A toda a gente". Começo com as mãos sujas e com elas vou contar.

 

 

 

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Misericórdia há, o pior é o resto.

por Fátima Pinheiro, em 12.12.15

Regresso do Filho Pródigo (detalhe), Hermitage

 Regresso do Filho Pródigo (detalhe), Hermitage /  Rembrandt

 

Quando dei aulas em S. Petersburgo, passei horas no Museu Hermitage, a olhar para esta obra de Rembrandt . Começou uma mudança. Foi um pontapé para que eu deixasse de me "esbanjar". A questão não está em que o pródigo gaste a fortuna. O principal é que ele, eu, me tinha esbanjado. Descuidado a minha pessoa. Como? É simples. E acontece sem que se dê por isso.

Era mais a pintura a olhar para mim do que eu a olhar para ela. Eu, caladinha mais que um minuto? Muito difícil. Ali não. A imponência do Belo ainda hoje me abraça, como uma Pessoa. O quadro é de um tamanho tal e está tão bem situado (em arte, os russos tem quase todos os trunfos...) que eu era mergulhada nele, misturava-me e perdia-me. E por sorte as mãos de Rembrandt pintam na luz que eu prefiro. E por sorte cabia no tamanho dos protagonistas.

Protegida do frio e da neve a fazerem de pedra os canais da Veneza imperial, e no calor das cores de uma obra única, fui o Pai, o filho mais novo, o mais velho, os que estão atrás, e aquele que dizem poder ser o próprio Rembrandt. Às vezes não era ninguém. Era a tela, uma mancha, um resto do pincel; e recomecei a ser repintada, retocada e a perceber o que era afinal a obra aberta, meu querido Husserl (Eco e Gadamer vieram muito depois; mas nós, Edmundo, não somos de modas...). Outros horizontes.

Tenho vindo a perceber, e ontem em especial, que o que quero é ser como o Pai, que se esbanja em Amor. Com duas mãos - fizeram-me notar que uma é pintada de masculino e a outra de feminino - a perder, sem nada excluir. Porquê? Porque tenho experimentado que o que me realiza é dar. É assim que se recebe. Sim, porque o que quero é receber. Por acaso nasci ontem?

É simples esquecer tudo isto: o que quero, quem quero, e por aí. Porquê? Porque penso que sou eu que faço o Amor. Muito enganada! É Ele que me faz.

Eu sou um belo traço nas mão de Rembrandt. É por por isso que posso ter a pretensão de querer ser como Ele. Não tenho pinta, mas tenho. Lindo paradoxo!  Misericórdia há. Se eu quiser, se pedir e se aceitar! 

 

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Francisco: como cordeiro no meio de lobos...

por Fátima Pinheiro, em 30.11.15

 

 

Audiência do Papa Francisco com o Movimento Comunhão e Libertação na Praça São Pedro no dia 7/03/2015

 

Não invento. São palavras que já Bento XVI usava. Ele, Papa Francisco, também. São palavras retiradas do Evangelho, ditas por Jesus ao enviar os seus amigos para as suas vidas. Hoje, na reta final final da sua ida a África , e com o programa que se sabe, elas revelam-se bem atuais. Francisco tem pinta: salero, samba, pé para qualquer tipo de tango. Tem medo é de mosquitos, ficamos entretanto a saber na sexta-feira passada.

 

Pinta? Sim. Hoje ele corre riscos aos quais se poderia escusar. E eu não sou nada de fazer de quixote. Falo de coisas objectivas. Sei que qualquer pessoa o pode fazer: arriscar. Mas Francisco faz, e é dele que hoje falo. Foco sim as razões pelas quais ele faz. Percebi na carne quando ele olhou para mim há uns meses, na Praça de S.Pedro. Fazer por fazer cansa. Francisco faz porque encontrou um caminho que tem o nome: FELICIDADE. E não descansa enquanto não vir todos felizes. A mim faz. Tudo na vida parte de um encontro.

 

Na fotografia ele está mesmo a olhar para mim. Há uns meses fui a Roma no âmbito de uma peregrinação, e como vejo mal ao longe (Atchim!), furei até ali...Pedi ao meu parceiro do lado: "quando ele passar pode tirar uma fotografia dele a olhar para mim, se ele olhar, claro; pode ser a olhar para si; tamvém serve....". Ainda experimento esse momento: uma positividade, uma docura e uma energia de vitória, assim como um chefe guerreiro. Também me esqueço e vou noutras ondas. Mas isso não interessa nem ao Menino Jesus. O amor é uma decisão a tomar em cada trago, sendo que o que me define não é o meu balançear mas aquela marca, aquela raça que faz de mim um "snoopy" de carne. 

 

Cada dia tem razões  para eu me levantar. Senão é uma "monstruosidade" ou um voluntarismo. Cada dia é uma reta final. O que interessa é ser resistente (disse ele hoje de manhã) e deixar-se atravessar pelo sangue da boa nova. Não tenhamos ilusões nas luzes bruxuleantes deste natal esvaziado, que bem nos quer animar mas não tem potência. Se posent sur ma bouche, mais jamais sur mon coeur.

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A Apologia de Laura

por Fátima Pinheiro, em 12.07.15

 imagem tirada da net

 

A melhor apologia de alguém é a sua própria vida. E não há careca que não venha a ser descoberta. Não tenho que fazer um desenho, pois não? As verdades, como o azeite na água, vão vindo ao de cima. Há coisas que preferiria calar. Mas vivemos, também, numa praça pública. Tem que ser. Porque sou alérgica à injustiça e à ignorância. E prefiro ter as mãos sujas, meter as mãos na massa, do que guardá-las para depois, vegetando numa indiferença mortal. Triste ter que falar de certos casos, mas é o que há. Eu cá abraço tudo, mas só me cala a boca um beijo bom, grande, do tamanho da minha "insignificância" maravilhosa de nada ter feito para "ser". Vem esta conversa porque ontem li um artigo duma jornalista que, a partir de agora, vou passa a ler: Inês Teotónio Pereira . O artigo tem o título: "E se Laura Ferreira fosse de esquerda?

 

Conta Inês que houve quem tivesse posto a hipótese de o facto de ela ter aparecido em público ao lado do marido, o primeiro-ministro, sem esconder a doença contra a qual luta, poderia ser instrumentalização.Olhei a fotografia, e lembrei-me de outras fotografias dela, em outros eventos, ao lado do marido. Com a mesma pose, com o seu ar de mulher a quem não lhe interessa ficar bem na foto, mas sim outras coisas. Só que nessas fotografias, ela tinha cabelo.

 

Apenas umas perguntas:queriam que ela aparecesse em privado com o marido? A sua vida não mostrou já de que género de mulher estamos a falar? Não se pavoneia por aí, e tem a vida rica de gestos com pinta. Porque não se escreve sobre esses? Não "interessa", pois é! Quem é que já lutou contra um cancro? Eu ainda não,mas conheço de perto alguns "casos". Há quem"desista"!

 

Para mim é, por agora, conversa acabada. Teria muito a dizer. Mas chega. A não ser que razões ponderosas me façam falar. Parar é morrer. Triste isto. Agora, católica por adesão a um "natural" e extraordinário desafio que um dia Alguém me fez,  sou esquerda, direita e o que houver. "Universal", é isso que quer dizer a palavra "católico". Considero a política a atividade mais nobre (Aristóteles, entre outros, explica isto muito bem). Não brinco às hipóteses nem tenho a chave das intenções.Nem nada defendo. A vida, sim -  Laura também - vem com cartão de visita. Só não vê quem não quer. Não é que andemos por aqui, a jogar às escondidas! É que sem liberdade não seríamos pessoas; viveríamos tudo em segunda mão. Mesmo de cabeleira farta, sem liberdade tudo de pouco vale. 

 

Com tanta riqueza, há ainda quem discuta a falta de lenço na cabeça de uma Senhora e se ponha a conjecturar! Dêem-lhe mas é uma festa na cabeça, um abraço, ou um beijo! Comentemos outras coisas. Poderíamos falar de política.

 

A continuar narrativas destas, vamos onde? É o que acontece a quem não tem argumentos e uma cabeça, essa sim,  oca. Caso para perguntar: afinal quem está a instrumentalizar quem ? e o quê? As aparências só iludem a quem o quer.

 

 

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Têm-me acontecido coisas deste mundo!

por Fátima Pinheiro, em 08.05.15

 magem tirada da net 

 

Quase tudo depende do olhar. A mesma coisa, acontecimento, ou o que seja, é-me dado pelo meu olhar. Pelo olhar dos outros, sim; mas esse também passa pelo meu olhar.  E o meu olhar tem um tempo, uma história e uma expetativa de futuro. E o meu olhar depende do tempo em que se exerce, das urgências do estar updated, do que dá mais nas vistas, do que se atravessa à toa, ou com propósitos mentirosos.  O meu olhar pode nada topar, de tão bombardeado que é, em cada instante, de todos os lados e por todos os lados. A tal ponto que atinge a cegueira. "Vem por aqui", e José Régio disse que não. Quem não experimentou isto?

 

Eu falo por mim, e pela experiência de ser "eu" a ver. De não me alienar no "correcto". O sabor e o o gosto de vida nova que vem desta virgindade! Quem não experimentou a alegria que ver e ser visto assim nos dá? "Olhos nos olhos", tão bom. Tão reconfortante. Tão saboroso. Sem nada a defender. Com os olhos rasos das águas originais, como dizia Leonardo Coimbra.

 

As coisas genuínas chegam, partem, e estão de braços abertos e, nessa abertura, e paradoxalmente, abraçam sendo abraçadas por  tudo. A plenitude deste abraço é medida pela unidade que o excede. Ultimamente, tendo a esta forma de olhar. Por isso têm-me acontecido coisas deste mundo. Que me tocam, que eu toco, e me tornam feliz. O resto? Apenas fogo de artifício.  Gosto mesmo de estar no ar, de outros fogos.

 

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O bébé que já é, mas ainda não é.

por Fátima Pinheiro, em 30.04.15

 imagem tirada da net

 

Somos mesmo "black"  to basics, tótós, numa palavra, muito gostamos de nos gastarmos em assuntos que geram e gerem disputas morais, políticas, religiosas, para esquecer o que está na cara. Neste caso, para esquecer o que está numa barriga. Esquerda ou direita? Quando se trata do que está chapado na cara, diante de mim - para dar um exemplo, numa boa troca de olhares -,  de pouco interessa o assento parlamentar, o Deus em que se acredita ou não, posturas espirutuais e por aí.

 

Sim, estou a falar da rapariga de 12 anos, violada pelo padrasto, que tem um bébé de 5 meses no seu seio, e que acaba de ser constituida arguida. Em linguagem chã, suspeita-se que ela até gostaria daquilo, que já durava há uns anitos. Mas não falo  nem de ética nem de religião. Falo de realidades. Ontologia. E falo sobretudo do ponto a que chegou a sociedade que construo, falo de mim, com tudo o que isso implica aos outros. Falo de um homem que fez o que fez, sei lá porquê. E digo desde já que não acredito que se ele tivesse o "coração" ( o seu "eu") a funcionar de forma razoável, teria agido assim. Não, não estou a por as culpas apenas para os contextos sociais. Ele não será um tótó que não saiba de todo o que faz. Tem quota parte (não sei contabilizar) de responsabilidade. Mas, e independentemente deste meu tom mais sociológico e jurídico, há aqui um bébé. Que ainda não é, mas que já é.
 
A mãe dele tem doze anos. Pois tem. Mas o facto é que é mãe. Não está em condições de o ter? Nós tratamos do bébé. Já houve quem se adiantasse para o fazer. Dizia uma dessas pessoas, responsável de um Instituição Social, que já lhe apareceram muitas raparigas que tinham querido não ter os bébes que tinham na barriga, mas que depois de serem acolhidas, vieram agradecer o facto de ter aceite o desafio de serem mães. Não tiveram vergonha, foram pedir ajuda e hoje estão felizes pela decisão tomada.
 
Apregoamos solidariedades, estamos do lado das crianças que morrem nas guerras. E agora, com este bébé? Somos de um cinismo atroz, de uma cretinice vergonhosa, construimos uma civilização que vai perdendo o nome, a cara, e a decência. Abaixo de cão. Com toda a evidência estaríamos agora numa guerra contra quem quisesse impedir que nascessem gatinhos  e passarinhos. E muito bem. São para nascer, viver e morrer. Nos momentos certos, claro. Agora com este bébé, porque não fazemos igual?
 
O que "pensará" , o que "sentirá" ela? Está provado que com esta "idade" , e ainda invisível à vista desarmada - que não nos maravilhosos  registos digitais das tecnologias século XXI - , o ser que é gerado no seio de uma mulher "sabe", "sente" mais do que possamos imaginar. Nem nunca saberemos, porque a vida é trespassada por um fator misterioso, luminoso, que excede qualquer lógica.A vida não cabe no meu Filofax, nem depende de um Comunicado de um Hospital. A decisão dos especialistas de Santa Maria, apoiada pelo Ministério público, pode valer muito, mas não chega aos calcanhares do "superior interesse da criança", por ela, paradoxalmente, invovocado.
 
E qual é o superior interesse da criança, senão o de nascer?

 

 

 

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