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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

25
Fev15

Maria Zamora: uma doação

por Fátima Pinheiro

 

 Joaquim Paulo Nogueira, Carlos Santos e Maria Zamora, a 12 de Setembro 2013 na ante-estreia da peça acolhida pela Companhia de Atores, em Algés /  fotografia de Inês Torres da Silva

Conheci-a a 12 de Setembro de 2003. Foi a São que me levou ao teatro. Não conhecia a Maria Zamora. Combinamos falar depois. Porque ela me acolheu com um sorriso de orelha a orelha, cheia de vida, curiosa em saber mais de Oliveira, e de cinema. E fiquei de lhe enviar umas coisas. Vai ficar para depois, porque ela curvou na marcha do tempo. E os nossos dias se descruzaram. Não me interessa o discurso que o mundo da cultura é assim ou assado. Nem a conversa de que ela fica no espírito de todos nós. Claro que sim, mas não basta. Uma ova. É ela que me interessa. O Destino dela. O espírito que nela estava sim, mas na carne. Uma unidade que não entendemos como caminha, da qual ignoramos todos os contornos.  Na altura escrevi sobre a peça - "Violência" - e sobre ela (transcrevo em baixo). E espero  conversas face a face, olhares novos.

O artista dá-se sem medida, porque tem dentro de si uma vida que é grande demais para caber nas contas que fazemos cada dia. Maria, ao contrário do Principezinho, mostrou-me o essencial que, afinal, é visível aos olhos. E agora? Nada e tudo. Não olho para trás, mas vivo naquilo que Marcel apelidou de comunidade invísivel dos que vejo e não vejo. A morte é outra forma de violência doméstica. A morte começa no instante em que nascemos. O tempo clarifica se a liberdade que o torna "meu" o deixa à solta e reconhece que sem horizonte nada de verdadeiramente interessante nos acontece. Mal um filho nasce, já voou. E a "pessoa" é bela demais para acabar assim sem mais nem porquê. Quem disse que acaba aqui? Quem de nós se põe em bicos de pés em matéria tão séria? Falo do que experimento e da minha luta diária, pela procura das razões daquilo em que acredito.Sempre a falhar, mas sempre a ter quem me levante. E é tão bom andar! Tenho os joelhos cheios de pensos, o que é bom sinal. Não há vitórias sem lutas. Basta olhar para uma criança, e contemplar como ela passa do não andar ao andar. "Um ano andante, dois anos falante". A Maria não se calou. Isto não é para brincadeiras; está dentro do sorriso do Papa Francisco. Basta ver como ele reza, diante de uma Presença. E agora ainda mais.

 

Então escrevi: « "VIOLÊNCIA" estreia hoje no Teatro Municipal Amélia Rey Colaço.  Texto de Joaquim Paulo Nogueira, encenação de Carlos Santos  e interpretação de Carlos Santos e Maria Zamora. O tema não podia ser mais oportuno. A violência pode matar mas também pode levar a um abraço. Diz o release: "uma filha que viveu num ambiente de violência familiar regressa a casa para assistir ao funeral da mãe e encontra um pai aparentemente regenerado. Conseguirá ela superar as memórias do passado?" (...) Com Maria Zamora , conversamos. Lança perfume. A arte é para ela "o veículo mais completo da comunicação; estar vivo, sentir, respirar, criar, ser, ser compassivo, ser agente interventivo na realidade que nos assola." E a violência, pergunto? "Tem demasiadas faces e manifesta-se de múltiplas formas, como sabe, e nenhuma delas gera a magnificência."

E esta peça porquê? "Respondo-lhe com várias perguntas: Conhece os números de mulheres mortas vítimas de violência doméstica? Conhece a realidade das nossas escolas? Será que o cidadão atento tem consciência que pode ser um agente de mudança desta realidade? O porquê? Nós não temos respostas, cada indivíduo é convidado à reflexão sobre o assunto e agir em conformidade com os seus ideais. Levantamos questões sobre o ódio, a capacidade de perdoar em suma as repercussões emocionais, psicológicas que um ambiente familiar hostil pode trazer para o ser humano, para a nossa vida em sociedade...a solução está na ação e não na omissão."

Este papel viveu-o  "inicialmente com bastantes resistências, não foi nada fácil entendê-la e senti-la. Ao longo da construção do texto com o Joaquim Paulo Nogueira e o mestre Carlos Santos fomos re-descobrindo, a posterior análise dramatúrgica, dos longos meses de trabalho de mesa, de pesquisa no campo, visionamento de vídeos, leituras, dos ensaios e do processo criativo da personagem "Alice" foi ganhando vida, comecei por respeitar o seu estado, o seu lugar e com as orientações do encenador Carlos Santos e contracena, fui percebendo a essência do desequilíbrio desta mulher emancipada que aprendeu a viver com este ódio de estimação, com este sentimento de traição em relação à confiança depositada num pai que a mimava muito quando era criança, é uma mulher que consegue apesar de tudo construir uma vida de amor, emancipou-se desse ódio mas que com muito pesar não o consegue perdoar... pelo menos nessa fase da vida em que se encontra, depois de enterrar a mãe, mãe que deixou a sua sorte nas mãos de um homem violento e que nada fez para o impedir..." »

Pois eu vou regressar a esta Violência.  Gosto da Beleza dos objectos e barulhos do Teatro. E sobretudo do corpo a corpo. Do ao vivo. É uma doação.

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01
Dez14

Interessa o nome sim. É o que faz a diferença. Estou agora em directo com o Congresso do PS de ontem, tão centrado na dignidade da pessoa humana. Com o novo líder a citar o Papa Francisco e tudo. E mesmo que o nome seja o mesmo, António, para dar um exemplo. Há vários. Uns salgam outros não. Neste caso, e já que se invocou a Santa Madre Igreja (Francisco não é para ser instrumentalizado, para dar sal a discursos sem fundo), permito-me lembrar aqui uma passagem do célebre Sermão de S. António aos Peixes (sermão de um outro António): “Aos homens deu Deus o uso da razão, e não aos peixes; mas neste caso [referia-se à perseguição que o santo sofreu da parte dos ouvintes] os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem a razão”. Há então Antónios que salgam e outros que nem por isso. E de Josés o mesmo. É simples. Um clássico. Duverger? Nem é preciso. Basta ouvir com olhos de bom senso.

António Costa – e por unanimidade - esquece o passado. Sócrates, quem é essa pessoa? Como dizia a Amália: “não sei, esqueci-me, esqueci-me!” Para um Congresso que se centra na “pessoa”, não estamos nada bem. Digam lá se é ou não é? Nem leme, nem freio. Uma espécie de naufrágio; um cavalo à solta. A chamada fuga para a frente. A utopia é mesmo do piorzinho, não olha a meios, e a “pessoa” “é” em função do ideal. A utopia não tem jeito para fazer contas mas para o verbo. Falam, falam, alguns cantam, mas não passa disso.

Um final feliz? Para alguns talvez. Mas quando se ignora o que é a liberdade, a coisa mostra muita quadratura. Quando eles começam a chorar números, quer dizer que a argumentação precisa de vitaminas. Exemplo. Todos sabemos o que é violência doméstica, certo? Ninguém a quer, pois não? Agora conhecemos melhor os seus contornos, devido à sua mediatização. Sabemos contudo que sempre existiu. Como é que Costa a vai exterminar? Simples: ontem põe uma grande actriz a ler 40 nomes de mulheres, vítimas dessa barbaridade, que só lembra à pseudo liberdade de alguns. Enquanto uns se enfrascam em álcool e batem nelas, outros, à grande e a francesa passam por cima, e têm as contas recheadas em sítios que nem imaginamos. Mas Costa “propõe”: agora é que é! E só com maioria absoluta e só na união com as forças de esquerda. Maravilhoso.

Eu também tenho momentos de esquerda, pronta para a luta e, sentadinha, apontar o que está mal. Levanto os braços, vou para a rua, e já está. Podia continuar a comentar o  discurso de António. Mas não adianta. Sem sal do princípio ao fim. 

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"Cristo" de Antonello, da net

Cada ano apagamos pelo menos uma vela. Eu acendo muitas,embora não seja mulher de muitas ceras. Ceras só "búfalo" ou marca branca. E gosto de esfregar o chão. À vela da seta do tempo de cada um, prefiro chamar labareda. E não a apago, acendo-a. Atiço-a. Vai sendo por isso cada vez mais e mais simples de "a pagar", porque o fôlego necessário e adequado aumenta. Sei que a vida não é cor de rosa (se estivesse a falar do Governo seria verdade; mas em breve não...). A vida é vermelha porque feita de sangue. Não preciso de dar exemplos pois não? É simples. Procurar razões que me façam dizer se o copo está meio vazio ou meio cheio. Pedir ajuda. Claro que posso dizer que não há copo. Hoje, que se acendeu em mim mais uma labareda é para dizer que levo e dou estalos. E falo da Teresa, de António Lobo Antunes e de Herberto Helder. Um dia encontrei por acaso o jornalista Daniel Oliveira. A certa altura disse-me que era filho dele. Sem querer comentei : "não parece nada". "Gostava tanto de entrevistar o seu pai!" Recebi um redondo e seco "não". "Nem pense!" É que nem pensar! Cada estalo é uma festinha.

Cá e lá fora, em cada um de nós a carne é implacável. E cruzamo-nos. E amamos. Ou matamos. Por vezes apenas num olhar. Cada ano que passa para que serve? E não preciso de muito tempo para arregaçar as mangas do dia. Pareçe vira o disco e toca o mesmo, mas não. Um amigo meu - filósofo de verdade - dizia-me há semanas que a negatividade que enfrentava neste momento da sua vida o obrigou a apagar todas as outras negatividades. O que quer dizer que cada dia - o tempo - é uma oportunidade, um "take" que faz rodar outra vez, noutra perspectiva . " Acção!" Que obriga - posso sempre dizer "não" - a um "take" melhor para o fime se tornar naquilo que quero mesmo. E para quando se ouvir o "corta" à medida - o qual vem sempre inesperado - seja um "corte" que prolongue o fime no " the end" que ninguém de nós, que por cá anda, ultrapassou. Tarkovsky mostrou isto tão bem - aqui http://youtu.be/quoWpNljHRU?list=PLWvDlkE5aLvS5NGsjILCMpmt3_-qLg3vI.

A liberdade é um santuário. Mas a amizade verdadeira que recebo e dou é a que se antecipa a dar o que o outro precisa. Dizer: não vês o copo? Às vezes é à estalada, à auto-estalada também. Uma doce violência que é uma festinha gulosa. E lembro-me de Lobo Antunes e Herberto Helder. Podiam ter sido tantos. A Teresa, por exemplo, que agora foi para a escola e que me acendeu a primeira labareda.

Lobo Antunes
Um dia azucrinei-o na FLAD. Convidaram-me para ir ouvi-lo. Chegou a altura dos olhos, do olhar e do tocar. Foi no jardim. Tive então a certeza de estar diante de um homem que sabe até onde quer ir. Sabe pôr e tirar a "máscara" muito bem, quando lhe apetece e quando quer. Dotado de uma inteligência fabulosa sabe mais do que diz, e sabe que sabe que não diz tudo o que sabe. E isto, diante da angustiante e famosa folha branca, às vezes não tão branca como a pintam. Perguntei se o abismo de que falou na conferência era para saltar. Ele responde em silêncio com os olhos fixos em mim, e em quem me acompanhava, "mas quem são vocês?!" É que nós não lhe pedimos o autógrafo, ficamos para o fim, só para estar com ele. Só se pode saltar, disse eu, na certeza de que há uma mão que nos vai agarrar. Tal como no Hospital. O eu e o touro não estão totalmente sozinhos...

Não é preciso enrolar tanto, disse a certa altura, precisamos de ser "mais" crianças. Da simplicidade rápida e inteligente. De olhos impressionados - uma expressão da qual ele fez, aliás, um pequeno e certeiro exercício fenomenológico. O que mostra que o tempo pode ser um instante. Como cada cigarro que fumava enquanto falava, enquanto mostrava e escondia o olhar. É um touro de raça. Como um bom livro. A literatura - a vida - é afinal uma bela tourada.

Herberto Helder
Poesia não é quando um homem quer. Sim, nessa "carne" há mais, muito mais que o constitucional poético. Da minha parte li-te, reli-te, já fui à leitaria da Trindade mil vezes, e nada. A vida é simples, eu sei. E exige, por isso luta, certo. Dou sempre quase tudo. Nunca é demais. Por isso tenho a certeza que "vou por ai", embalada num cântico cheio de luz, que não é meu: é régio e não é "negro".

Pode o nosso grande poeta recusar-se a presentear-nos com uma conversa? (não me rala de públicos; como diz o Manoel de Oliveira, "públicos, só os urinóis"). Tanto pode que não dá. No outro Verão, numa capa de uma revista dos nossos jornais lá vinha o nosso Helder. "Uau, conseguiram!", pensei. Não. Era um artigo acerca do homem que se recusa - e com a sua liberdade - a dizer-nos mais do que aquilo que diz na sua poesia. Partilhará com os seus, e longe de mim achar que se pode invadir tal querida privacidade. E "não dará" nenhuma entrevista. "Então mato-me!", alguém terá dito. "Que se mate", terá comentado.

A poesia não é a resposta, mas também faz parte do jogo. Por isso eu acho que quem a faz como ninguém, hoje, tem o dever de nos dar uma prosa política, hoje. Dar tudo nunca é de mais. "Para que serve a vida se não for para ser dada?" (Paul Claudel). Espero que me leias, e se pensares "vai dar uma volta", acredita que vou, e feliz. Desiludida? Não. Só uma coisa me desilude. Mas essa não ta digo; em público, claro.

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