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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


14
Ago17

Tenho interesse em mudar?

por Fátima Pinheiro

96.jpg

 

 Naomi Tereza Salmon, Exhibits , 1994

 

Deu a vida por um homem. É uma história conhecida, a deste homem que hoje recordo. Refiro-me ao dar a vida no sentido de morrer mesmo. Lembro-me em particular dos que o fizeram e fazem por um futuro a vir (para abreviar, comunistas e homens-bomba). Ou seja, por utopias. Este post não é contudo um artigo da categoria "obituário", mas é sim uma opinião, por muito que seja desagrável. Há opiniões muito desagradáveis, sobretudo para uma mentalidade que erigiu o agradável em valor primordial. Nem por acaso folheei há pouco um livro que tenho na cabeceira, "Beleza desarmada", de Julián Carron, cuja apresentação em Portugal foi feita pelo historiador Rui Ramos, no Campo Pequeno. E vejo sempre com muito agrado a apresentação desse livro em S.Paulo na Livraria Cultura. A pessoa a quem dedico este pequeno texto deu a vida por um homem que conheceu num campo de concentração. Trata-se de  Maximiano Kolbe, que João Paulo II canonizou, e cuja Memória a Igreja hoje celebra. Sei que, para  dar um exemplo atual, muitos bombeiros merecem o altar e muitos são aqueles que têm morrido queimados vivos. Mas nada disso tira o valor ao caso que hoje aqui trago.

Quero  sublinhar dois pontos. Primeiro, que a crise que se vive hoje a vários níveis tem origem numa sociedade que acreditou que os valores do cristianismo poderiam vingar sem ele. A famosa "Religião nos limites da razão", do filósofo Kant. O resultado está à vista: em privado ninguém se entende, cada um faz o que lhe apetece  e a gestão da vida pública é o que se vê. Pedrogão é um bom case study. A cosmética das uniões de valores e pessoas ao sabor das ondas já mostrou que tem pés de barro. As mesmas palavras de sempre - trabalho, família, política, amor, religião, prazer e outras- estão vazias, como vazios estão quem as pronuncia e com elas se engana e enganam os outros, enquanto vivemos a média dos 70 anos que nos cabe neste planeta.

O  segundo ponto que sublinho: para quem está interessado em mudar-se a si à sociedade em que vive, olhar para o gesto de Kolbe fornece as razões que podem realmente mudar para um sentido que faz sentido. Mais: muda mesmo!

No final de julho de 1941 estava o santo no Bloco 14, “bunker da morte”: um subterrâneo, onde um grupo de sorteados, nus, esperavam a morte. Era um terror, podia ser a qualquer momento. As razões de Kolbe? Ofereceu-se para morrer em lugar de um deles, que gritava pela sua família. Kolbe não se ofereceu pela humanidade. Deu sim a sua vida por aquele homem. A revolução que transforma vem deste olhar para o outro , nos  olhos, como filho de um mesmo Pai. As igualdades, as liberdades e a fraternidades são "nadas", "fazem mal" (Papa Francisco), se não se nutrem n'Aquele que um dia chamou este filho polaco a ser abraçado para ser franciscano. Sem o Cristianismo assim entendido e vivido, não vamos longe. Graças a ele, o bunker da morte foi bem longe. Transformou-se em capela de oração e de cânticos, com vozes cada dia mais debilitadas, mas vozes. Foi com injeção letal num braço que se estendeu espontaneamente, e que chega até mim...

 

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